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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

PROFISSIONAIS E AMADORES.

Conclusões óbvias da eleição:

1. Somados aos sete por cento de votos brancos e nulos, os 22 por cento de abstenções, mais que significativos num país onde o voto é obrigatório, sugerem fortemente que quase a terça parte do eleitorado não leva a sério a democracia vigente, no que alias dá prova de um realismo impecável.

2. Sugerem também que uma parcela enorme do eleitorado antipetista fez as contas e achou que não valia a pena perder a diversão do feriado só para votar em José Serra, candidato apetitoso como papinha de alface. Sem sal e light, é claro.

3. Dos votos concedidos a Serra, um terço, pelo menos, ele deveu ao movimento anti-abortista – a única militância conservadora deste país, providencialmente desligada de qualquer partido, que a teria castrado ao primeiro sinal de vida.

4. Outro terço ele deveu, meio a meio, à força de personalidade de seu vice Índio da Costa e à ojeriza antipetista difusa, que votaria num bacalhau empalhado para não ter de votar em Dilma – e que só votou em Serra porque não encontrou um bacalhau empalhado na lista do TSE.

5. Um terço, se tanto, ele deveu à sapiência dos marqueteiros que o aconselharam a caprichar no bom-mocismo, a derramar-se em louvores à figura sacrossanta do presidente Lula, a explorar o inexistente capital politico dos seus tempos de militante estudantil e a nada oferecer como alternativa à ferocidade de Dilma Rousseff senão uma imagem ideologicamente neutra e inodora de “bom administrador”, de mistura com afetações de esquerdismo asséptico que, como não poderia deixar de ser, irritaram a direita e não seduziram a esquerda. Idiotas presunçosos, amadores, incultos e despreparados, muitos deles mais interessados em salvar o esquerdismo do que em derrotar o petismo, esses sujeitos arrasariam a mais promissora das candidaturas que a eles se confiasse. Como poderia sobreviver a seus conselhos o anêmico José Serra?

6. Descontadas as abstenções, os votos nulos e brancos e os votos dados a José Serra, Dilma Rousseff elegeu-se com o apoio de não mais de 41 por cento do eleitorado total. Os tucanos não deixaram de registrar esse fato, buscando nele um consolo que não posso deixar de considerar postiço no mais alto grau. Que votação relativamente minguada tenha bastado para eleger um presidente, ou presidenta, não prova a fraqueza eleitoral do PT, mas a força da sua estratégia. Desde o início, a tônica da campanha petista consistiu menos em enaltecer as virtudes de Dilma – esforço inglório de multiplicar por zero – do que em inibir, pela virulência dos ataques e pelo cinismo estupefaciente das alegações, qualquer veleidade serrista de empreender uma campanha mais agressiva. Quando veio a simples e arquiprovada revelação do compromisso abortista de Dilma, a esquerda nacional em peso respondeu com esgares de indignação moral fingida, imputando falsamente a prática de crime de calúnia e difamação a milhares de pessoas – a maioria sem compromissos partidários – que nada mais tinham feito senão dar provas cabais do que diziam. Que poderia o campo serrista fazer diante de tão descarado histrionismo? A única reação à altura teria sido despejar sobre os farsantes petistas uma tempestade de processos criminais, mostrando que com fatos comprovados não se brinca, que ninguém tem o direito de tentar sufocar a verdade mediante caretas e micagens. Temendo ultrapassar as fronteiras do debate pacífico, a oposição preferiu permanecer no campo da troca de palavras, nivelando, aos olhos da multidão, os direitos da verdade e os da mentira. Mais ainda, abdicando do dever de punir o crime verdadeiro, encorajou o PT a perseguir crimes imaginários. Acobertando seus inimigos culpados, facilitou a perseguição de seus amigos inocentes. Tão fundo foi aí a obsessão de amortecer confrontos, que até mesmo o reforço vindo do Papa Bento XVI à campanha nacional anti-aborto pareceu a alguns próceres tucanos, como o governador Alberto Goldmann, uma provocação temerária. Que esperança de vitória pode ter um partido que concede ao inimigo o direito de acusá-lo de crimes que ele não cometeu, e ao mesmo tempo se inibe de usar no combate a arma justa e devida que lhe foi entregue em mãos pelo próprio Papa?

Tudo isso se enquadra tão bem na tipificação da “espiral do silêncio”, que me parece impossível fugir à conclusão de que, ao longo de toda a campanha, o PT manteve eficiente controle sobre a conduta de seus concorrentes, operação levada às suas últimas conseqüências no truque sujo do feriado improvisado, que dissuadiu de votar em Serra muita gente que já estava decidida a não votar em Dilma.

Se a campanha serrista se ateve fielmente ao emprego dos instrumentos eleitorais mais convencionais e batidos, o lado petista combateu num front muito mais amplo e por meios muito mais inventivos, apelando mesmo a ardis de engenharia psicossocial que o outro lado não tinha nem competência nem disposição para enfrentar.

Neste país, só os revolucionários e criminosos são profissionais. A oposição democrática, com toda a sua afetação de elegância, é de um amadorismo patético

Olavo de Carvalho

sábado, 23 de outubro de 2010

QUE BRASIL SAIRÁ DAS URNAS? (By Marco Sobreira)

Que Brasil sairá das urnas em 31 de Outubro? Não me lembro de um eleição em que o Presidente tenha usado de todos os meios legais e ilegais em favor de uma candidatura, e até a conduta dentro da legalidade pode ser questionada quanto à ética. Como agravante usa sua grande popularidade para destilar impropérios e ódio à oposição, chegando mesmo a pedir ao povo a sua extinção.

A determinação de impor à oposição uma derrota vexatória foi rejeitada pelo povo no primeiro turno, talvez antevendo o grande risco à democracia, os eleitores deram um duro recado ao Presidente Lula, no sentido de que queremos preservar o nosso regime democrático. Entendido o recado? Não, bastou as pesquisas indicarem uma subida de José Serra para que o Governo convocasse ao Palácio do Planalto, em mais um descumprimento à lei, seu exército , composto de parlamentares , governadores eleitos, sindicalistas, jornalistas comprometidos, convocou a militância, todos prontos para a radicalização. Mentiras, boatos, cooptação de artistas, pressão a empresários e até o confronto físico e agressões se necessário, o que infelizmente para o Estado de Direito acabou acontecendo com o candidato da oposição, agredido e impedido de prosseguir em sua caminhada no Rio de Janeiro por uma milícia petista, agora se sabe chefiada por elementos próximos ao Presidente.

O PT, o Presidente e a candidata Dilma Rousseff, baseados em vídeo de uma emissora, se apressaram a minimizar e o que é pior, tirar proveito do episódio, levando o Presidente Lula, em pronunciamento de Ato Oficial, acusar “esse elemento”, num claro desrespeito, de falsificar e encenar a agressão, o que seria horas depois comprovado no Jornal de maior audiência da televisão brasileira, deixando a mostra o quanto pode ser ridículo e injusto um governante que abdica de sua posição para tornar-se chefe de facção, como muito bem disse o ex-governador e agora senador eleito Aécio Néves.

Voltando à pergunta inicial, qualquer que seja o resultado da eleição, o Brasil não será o mesmo, está se criando um clima de divisão sem precedentes na história do País, com conseqüências impossíveis de se prever no momento. No caso de vitória da candidata da situação, seu Governo já começará sob suspeita e maculado por transgressões não apuradas devidamente, tal qual a quebra de sigilos de autoridades e familiares de José Serra, o uso abusivo da máquina pública e ainda enfrentará o ressentimento de uma oposição que no mínimo administrará de 60 a 70 por cento do PIB brasileiro. A busca por espaços e a briga por cargos com certeza marcará a relação PT x PMDB com reflexos nas bancadas da Câmara e do Senado. Resta saber como uma Presidente sem experiência política e liderança contornará as crises que surgirão naturalmente dessas disputas. Contornados estes problemas, o que correrá risco é a própria democracia, pois com ampla maioria no Congresso, a Presidente pode, pressionada por setores mais radicais do seu partido, cair na tentação de mudar a Constituição, abrindo caminho para um regime inspirado na “democracia bolivariana” à La Chávez , com controle da mídia, descriminalização do aborto, revisão da Lei da anistia, controle social da terra e outras diretrizes que certamente trarão grande repúdio da sociedade civil, de setores da igreja e dos militares.

Na hipótese de uma vitória da oposição, o que seria altamente benéfico para o regime democrático e até para o próprio PT, que talvez na oposição retornasse a seus princípios originais de partido comprometido com a ética e os valores democráticos, a grande incógnita é de como um Lula ressentido,humilhado, amargurado, mas ainda assim dono de grande popularidade reagiria . Seria republicano como o foi Fernando Henrique Cardoso, assumiria o papel de comandar a oposição, ou partiria para o confronto tentando usar a maioria no Legislativo, dificultando ou mesmo tentando inviabilizar o Governo Social Democrata? Aguardemos as urnas...