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quarta-feira, 6 de abril de 2011

O PRESIDENTE DA VALE PRESIDIRÁ?

Escolhido para assumir a presidência da Vale, a maior companhia privada brasileira, o executivo Murilo Ferreira terá de atender a dois objetivos possivelmente incompatíveis - cuidar do crescimento da empresa e de sua rentabilidade e, ao mesmo tempo, agradar ao governo. Se for obediente à presidente Dilma Rousseff e aos políticos por ela autorizados a dar palpites, comprometerá o desempenho econômico da Vale e perderá a confiança dos acionistas privados. Se assumir a função como um preposto do Palácio do Planalto, acabará entrando no jogo do aparelhamento partidário e do empreguismo. Mas, se levar em conta só os critérios profissionais e se concentrar na gestão dos negócios, entrará em conflito com o Palácio do Planalto, ficará sujeito a pressões políticas e terá de lutar duramente, como lutou seu antecessor, Roger Agnelli, para não ser defenestrado. Poderá resistir até por muito tempo, mas a derrota será quase certa.


Ao escolher o nome do executivo Murilo Ferreira, os controladores da empresa levaram em conta esse duplo desafio. O administrador foi funcionário do grupo, presidiu a Vale Inco, no Canadá, e é conhecido no mercado. Ontem mesmo já houve manifestações de investidores a favor de seu nome. Além disso, ele presidiu a Albrás, empresa fabricante de alumínio e grande consumidora de eletricidade. Nessa condição, reuniu-se várias vezes com a então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. Murilo Ferreira, segundo fontes confiáveis, era o nome preferido da presidente da República para a sucessão de Roger Agnelli.

O problema do novo presidente da Vale, no entanto, não consistirá apenas em manter um difícil equilíbrio entre as demandas do mundo político e as do mercado. Muitos empresários importantes são forçados, ocasionalmente, a levar em conta os dois tipos de interesse. Mas o caso da Vale é especial. Como empresa privada, cresceu firmemente, multiplicou seus lucros e alcançou posições cada vez mais importantes no mercado global. Alimentou o Tesouro Nacional com volumes crescentes de impostos e tornou-se um fator de enorme importância estratégica para o País. Sem a Vale, a economia brasileira seria muito menos dinâmica e as contas externas, muito menos seguras.

Em outras palavras, a Vale, tal como foi administrada a partir da privatização, assumiu um papel cada vez mais importante para a realização dos objetivos nacionais. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, parece desconhecer esse fato.

Segundo ele, a Vale "precisa contribuir mais fortemente para os interesses do País". "A produção de aço no País", acrescentou, "é conveniente, é necessária ao povo brasileiro e à sociedade." Ele não explicou a diferença entre o povo brasileiro e a sociedade, mas esse pormenor é pouco relevante, no meio desse discurso lamentável. A produção de aço é importante, de fato, mas a siderurgia brasileira tem cumprido bem esse papel - e com sobras, porque há capacidade ociosa no setor.

O ministro parece ignorar também esse fato. Isso é compreensível. Reconduzido ao cargo por influência do senador José Sarney, ele deve preocupar-se com assuntos muito mais importantes, como a sujeição da Vale aos interesses políticos do Planalto e de seus aliados. O simples fato de o ministro Edison Lobão falar a respeito das obrigações da Vale é preocupante não só para os acionistas privados, mas para todos os brasileiros sérios. A ocupação do setor elétrico estatal pelo PMDB é fato bem conhecido. Outras estatais têm sido usadas, também, para servir aos aliados do governo. As consequências tornaram-se públicas, em alguns casos, depois da exibição de vídeos gravados durante sessões de bandalheiras.

Será esse o destino da Vale? A pergunta é mais que razoável, diante da experiência brasileira. Mas as perspectivas já são assustadoras, mesmo sem a hipótese da distribuição predatória de cargos. O governo quer forçar a companhia a investir segundo critérios voluntaristas - por exemplo, aumentando a capacidade ociosa do setor siderúrgico ou substituindo o Grupo Bertin no consórcio da Hidrelétrica de Belo Monte. Terá o novo presidente algo razoável para dizer sobre essas pretensões?

Fonte: O Estadão.

domingo, 3 de abril de 2011

DESATINOS CONTRA A VALE.

Derrubado o presidente da Vale, o governo estuda o próximo passo para impor seus interesses e suas concepções econômicas à maior empresa privada do Brasil, segunda maior mineradora do mundo e líder mundial na extração de minério de ferro. O Palácio do Planalto mandou o Ministério da Fazenda examinar uma forma de tributar a exportação do minério, para reduzir os embarques de matéria-prima e aumentar as vendas externas de aço, produto de maior valor agregado. Para isso a empresa teria de ampliar seu investimento em siderurgia. A decisão só será tomada depois dos estudos, informou ao Estado uma fonte ligada ao poder central. Segundo a mesma fonte, a presidente se mostraria sensível ao que era uma das obsessões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Durante mais de metade de seu segundo mandato, o presidente Lula se esforçou para mandar na Vale e, diante da resistência do presidente da empresa, passou a manobrar para derrubá-lo. Esta parte da tarefa já foi cumprida pela presidente Dilma Rousseff. O afastamento de Roger Agnelli foi anunciado oficialmente pela companhia na sexta-feira. Uma agência foi contratada para buscar e sugerir nomes para a substituição, mas alguns possíveis sucessores já têm sido mencionados por pessoas envolvidas no processo.

O novo presidente da Vale terá um mau começo, se aceitar previamente a interferência do governo. Se estiver disposto a receber ordens do Palácio do Planalto ou de qualquer Ministério, o governo nem precisará tributar o minério para forçar a empresa a investir mais em siderurgia. Ao mostrar submissão, esse presidente iniciará sua nova carreira já enfraquecido e enviará uma péssima informação ao mercado e aos acionistas particulares.

As manobras do governo para comandar a Vale têm sido motivadas por uma combinação de ideias estapafúrdias e de impulsos perigosos. É estapafúrdia, em primeiro lugar, a ideia de forçar maiores investimentos em siderurgia, quando o setor está com uma enorme capacidade ociosa - no País e no exterior. A presidente Dilma Rousseff saberia disso, se tivesse o trabalho de consultar os profissionais do setor. A Vale já investe na produção de aço, mas em ritmo compatível com uma estratégia racional.

Em segundo lugar, é um desatino a ideia de tributar a matéria-prima para forçar a exportação de produto de maior valor agregado. Essa tolice reaparece, de tempos em tempos, sob nova roupagem - estimulada, às vezes, por interesses privados. Há anos, empresas do setor calçadista convenceram o governo a tributar a exportação de um tipo de couro. O governo cedeu à esperteza de alguns e cometeu a bobagem. Um dos efeitos foi o desvio das exportações de couro brasileiro pelo Uruguai. O resultado poderia ter sido pior - a perda de mercados para os concorrentes.

Tributar a exportação de minério concederá uma vantagem aos concorrentes estrangeiros da Vale. Ninguém forçará uma grande potência importadora, como a China, a pagar mais pelo minério ou a comprar mais aço do Brasil por causa dessa manobra ridícula. Depois, a mera ideia de tributar matéria-prima para aumentar a exportação de bens de maior valor agregado é uma infantilidade. No máximo, a medida poderia ter algum efeito se o país tivesse o monopólio da matéria-prima. Não é o caso e, mesmo que fosse, o expediente seria discutível.

Se houvesse alguma inteligência nessa proposta, valeria a pena aplicá-la de forma radical. Por que não tributar também a exportação de aço, para favorecer a venda de automóveis, tratores e outros produtos fabricados com esse tipo de insumo? Por que não taxar o milho, a soja e a ração, para ampliar as vendas de carnes? Ou, ainda, por que não dificultar os embarques de café em grão - o Brasil é o maior exportador do mundo -, para multiplicar as vendas do produto instantâneo e do torrado? O desatino seria o mesmo em todos esses casos.

Mas o governo pode ter outros motivos, também, para mandar numa empresa como a Vale. Orientar seus investimentos para este ou aquele Estado ou município pode ser uma forma de distribuir enormes favores. E, se a ordem é conceder benefícios à custa de uma grande companhia, por que privar os aliados de mais alguns bons empregos?

Fonte: O Estadão - http://bit.ly/hta58u





quarta-feira, 30 de março de 2011

A MÃO INVISIVEL DO ESTADO.

Todos os números mostram que a privatização da Vale foi positiva para a empresa e para o país. Na gestão do presidente Roger Agnelli, em especial, ela deu um salto. A interferência do governo no comando da companhia, da maneira como foi feita, numa ação truculenta e ilegítima, representa um retrocesso que arranha a imagem do país e desperta a desconfiança do mercado, com razão. A empresa agora vai operar de acordo com os interesses do governo ou dos acionistas?


O governo também é acionista da empresa, por meio do BNDES, e pode ter o direito de interferir nos seus negócios, mas na instância adequada, no conselho de acionistas, e não numa reunião reservada entre o ministro da Fazenda e o presidente do Bradesco. Reportagem publicada no sábado em O Globo revela que integrantes do comando do banco definiram como "pressão massacrante" a ofensiva do Planalto para tirar Agnelli do cargo. O ministro agora será convidado para prestar esclarecimentos em comissões do Senado e da Câmara.

A decisão de investir ou não em siderurgia deve levar em conta a demanda interna e externa por aço e deve, sobretudo, atender ao interesse dos acionistas, não aos objetivos econômicos do governo. Há quem diga, contudo, que nem seria esse o verdadeiro motivo da fritura de Agnelli - inclusive porque a Vale acabou cedendo e ampliou os investimentos no setor. A empresa inaugurou uma siderúrgica no Rio no ano passado e está construindo mais três no país, incluindo uma no Espírito Santo, em Ubu, que acabou de receber licença prévia do Iema.

As razões do governo não estão muito claras, mas tudo indica que, aliado aos fundos de pensão, ele pretende interferir cada vez mais na companhia. Seria muito ruim para a empresa e para o país se a sua gestão voltasse a um modelo estatal, sofrendo influência política.

Privatizada em 1997, a Vale hoje produz mais, lucra mais, recolhe mais impostos e emprega mais gente. Somente na Era Agnelli, nos últimos dez anos, seu valor de mercado saltou de US$ 9,2 bilhões para US$ 176,3 bilhões, ou 20 vezes mais. No ano passado ela bateu seu próprio recorde, alcançando US$ 17,3 bilhões de lucro líquido, o maior da história da companhia. Do ponto de vista da gestão do negócio, nada justificaria a substituição de seu presidente, a não ser, claro, motivações políticas.

A Petrobras também teve lucro recorde no ano passado, superior inclusive ao da Vale, e é uma empresa estatal, diriam observadores favoráveis a uma presença maior do Estado na economia. Pois esse lucro provavelmente seria ainda maior se a empresa se livrasse da disputa política entre o PT e o PMDB pela indicação de cargos, disputa esta que pode envolver muitos critérios, mas a competência técnica certamente não é o principal.

As experiências na telefonia, na siderurgia e na mineração, na própria Vale, mostram que as privatizações promovidas nos anos 90 ajudaram a modernizar a economia do país, gerando mais emprego e mais riqueza e reduzindo a margem para a corrupção e o clientelismo. Certos agentes políticos parecem não ter assimilado até hoje o êxito dessas mudanças. Resta torcer para que o fracasso não suba à cabeça do governo.

André Hees - A Gazeta - http://glo.bo/fwpLuF

quinta-feira, 24 de março de 2011

TELEFONICA VAI INVESTIR R$ 24 BILHÕES NO PAÍS ATÉ 2014. "VIVA A PRIVATIZAÇÃO"

A Telefónica informou ontem que prevê investimentos de R$ 24,3 bilhões no Brasil até 2014. O presidente mundial do grupo espanhol, César Alierta, relatou o plano a Dilma Rousseff durante encontro no Palácio do Planalto. A quantia representa aumento de 52% nos investimentos em relação ao período de 2007 a 2010.


É preciso considerar, no entanto, que a empresa adquiriu, no ano passado, o controle da Vivo, maior operadora de telefonia móvel do país. O grosso dos investimentos será aplicado na modernização e na expansão das redes e na inovação de serviços na área de telefonia e banda larga, fixa e móvel, além de TV por assinatura (a empresa é sócia da TVA).

Comunicado da companhia não faz menção a uma eventual adesão ao Plano Nacional de Banda Larga, que pretende massificar a oferta de internet a preços populares. De acordo com o comunicado, a empresa investiu, nos 12 primeiros anos de atuação no Brasil (1998-2010), R$ 57,4 bilhões.

Fonte: A Folha de São Paulo

terça-feira, 15 de março de 2011

NOVO ATAQUE À VALE.

O governo federal continua manobrando para intervir na administração da Vale, a segunda maior mineradora do mundo, maior produtora mundial de minério de ferro e maior exportadora do Brasil, com receita de US$ 24 bilhões em 2010, igual ao valor programado para investimentos em 2011. O presidente Lula jamais disfarçou seu desejo de "reestatizar" a empresa, transformando o principal executivo do grupo em um cumpridor de ordens do Palácio do Planalto. Tentou orientar os projetos de investimento da Vale e censurou sua administração, quando foram anunciadas 1.300 demissões em 2008, no começo da crise global (a empresa atua em 38 países e emprega 115 mil pessoas). Mudou o governo e a presidente Dilma Rousseff exibe um novo estilo no tratamento de várias questões políticas e econômicas, mas a tentação de intervir na Vale não desapareceu. A sucessora de Lula, segundo informam fontes do Executivo, mantém a disposição de substituir Roger Agnelli no comando da empresa por um dirigente mais submisso à orientação governamental.


A escolha do Conselho de Administração da Vale deve ocorrer em maio. Fundos ligados ao governo por meio de estatais detêm 49% das ações da empresa. Não têm poder, portanto, para eleger uma nova diretoria. Para substituir Agnelli por algum executivo de sua preferência, o governo teria de negociar com os demais acionistas. Já se tentou essa manobra, no segundo mandato do presidente Lula, sem resultado. Mas foi evidenciado, mais uma vez, o empenho do governo em retomar o comando de grandes empresas privatizadas. Ainda na crise, o presidente Lula pressionou a diretoria da Embraer por demitir cerca de 4.300 funcionários. Todas as fabricantes de aviões foram severamente afetadas pela recessão e todas foram forçadas a um ajuste.

Em Brasília, no entanto, atribui-se à presidente Dilma Rousseff a intenção de blindar a Vale contra interesses políticos, nesta fase de possível mudança no Conselho. A decisão de entregar as negociações ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, seria uma forma de despolitizar a sucessão na mineradora. Mas não tem sentido falar em despolitização, quando o objetivo evidente do governo é mandar na empresa e sujeitar sua administração aos critérios do Planalto.

A Vale, a Embraer e outras grandes empresas privatizadas ganharam dinamismo quando passaram a ser comandadas com critérios estritamente empresariais e assim passaram a contribuir de forma importante para o Tesouro Nacional. Houve um inegável ganho de qualidade gerencial. Os argumentos do governo para intervir na Vale revelam exatamente o oposto - uma constrangedora incapacidade de entender os negócios da empresa e os interesses estratégicos do País. Segundo uma crítica absolutamente bisonha, a diretoria da Vale prefere vender minérios a exportar produtos de maior valor agregado à China. Recusando-se a investir na siderurgia, condena o País a importar trilhos em troca de matéria-prima. Essa acusação é um despropósito. A Vale vende minério à China porque os chineses precisam de minério e essas vendas são excelente negócio para o Brasil. Além disso, a Vale já investe em siderurgia. Mas toda empresa tem de pesar as decisões de investimento, porque as usinas brasileiras, segundo o Instituto Aço Brasil, tinham em 2010 um excesso de capacidade de 51% em relação à demanda nacional. Mesmo com as exportações, ainda sobra capacidade.

Mas o País, de fato, exporta um volume desprezível de manufaturados para a China. Isso ocorre porque o governo Lula foi incapaz de negociar melhores condições de intercâmbio. Também foi incapaz de montar com o setor privado uma estratégia de comércio com a China e com outros parceiros. Ao contrário: forçou a indústria nacional a aceitar o protecionismo dos vizinhos e desprezou a oportunidade de um acordo comercial com os EUA - tradicionalmente um importante mercado para os manufaturados brasileiros. A Vale cumpre muito bem seu papel e não tem sentido responsabilizar seus dirigentes pelas tolices da diplomacia Sul-Sul.


Fonte: O Estadão - http://bit.ly/f26DMq




sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UM VERDADEIRO RETROCESSO. (Sandro Vaia)

Um verdadeiro retrocesso

As campanhas políticas, especialmente no Brasil, são ricas em distorções semânticas e em abusos de retórica. Os candidatos- alguns mais do que outros, é bom que se diga- atribuem aos adversários intenções que eles nunca tiveram , crenças que nunca defenderam e ações que nunca realizaram.

A palavra-chave que os seguidores do presidente Lula resolveram usar para demonizar o adversário foi a ameaça de “retrocesso” que a sua vitória representaria. A palavra “retrocesso” foi usada como espantalho, mesmo sem nenhum esclarecimento sobre o que seria o seu verdadeiro conteúdo semântico.Simplesmente “retrocesso” virou carimbo desqualificador, dispensando o uso de provas ou argumentos que lhe dessem significado.

Retrocesso seria acabar com os programas sociais, como o Bolsa Família e o ProUni. Mas qual é a evidência disso? Em que documento essa intenção está declarada? Confundir a ação direta de inconstitucionalidade que o DEM apresentou contra os aspectos raciais da lei que instituiu o ProUni com uma ação para acabar com o ProUni é uma certa falta de rigor intelectual, uma forma de distorção que passa tranquilamente batida no fragor de uma disputa eleitoral transformada propositalmente em batalha de vida ou morte.

Retrocesso seria privatizar a Petrobrás. Mas quem quer privatizar a Petrobrás? Atribuir ao adversário intenções que ele nunca manifestou não seria uma forma mais grave e mais concreta de retrocesso? Confundir propositalmente o sistema de concessões de exploração- que esse mesmo governo petista usou à exaustão e com excelentes resultados- com privatização é outra manifestação de desonestidade intelectual que também passa batida no festival de embromações em que se transformaram a propaganda no horário eleitoral e os duelos autistas dos candidatos nos debates engessados e paralisantes da TV.

Enquanto se divertia criando fantasias sobre retrocessos para fins eleitorais, o governo aproveitava a distração geral da opinião pública com os fogos de artifício da campanha, para cometer, de verdade, aquele que talvez tenha sido o maior retrocesso nas contas públicas na última década, criando uma verdadeira herança maldita para o próximo governo administrar.O passe de mágica consistiu no seguinte: criar um superávit primário recorde (no lugar daquele que seria um déficit recorde) com o troco do dinheiro criado com emissão de títulos da dívida pública com que o governo pagou a sua cota na capitalização da Petrobrás.Mais ou menos como pegar dinheiro emprestado no banco para pagar a fatura do cartão de crédito,mostrar a fatura quitada e esconder a promissória assumida.

A “gambiarra”,como a classificou o especialista em contas públicas Raul Velloso, consistiu no seguinte, usando a explicação didática de Miriam Leitão: o Tesouro emitiu R$ 74,8 bi em dívida pública; usou R$ 42,9 bi para subscrever ações da Petrobrás; o resto,R$ 31,9 bi,foi transferido ao BNDES e ao Fundo Soberano; BNDES e Fundo repassaram esses títulos á Petrobrás para pagar ações que compraram; com todos esses títulos, a Petrobrás pagou a cessão onerosa dos barris de petróleo da parte pertencente à União nas reservas do pré-sal; o governo descontou o dinheiro que gastou na subscrição de ações e considerou que o restante, R$ 31,9 bi, era receita.E assim usou uma dívida como receita e transformou um déficit que seria de 5,8 bi em um superávit recorde de 21,6 bi.

Há retrocessos e retrocessos.

Sandro Vaia

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

CAMINHOS PRIVATIZANTES.

A Gazeta


Ao apagar das luzes, o governo Lula anuncia a concessão à iniciativa privada de grandes obras. Quer deixar decisões implementadas para execução no próximo período governamental.

Essa é a expectativa que envolve a possibilidade da construção de um porto de águas profundas para conteineres no litoral do Espírito Santo. Sua localização deverá ser definida nesta semana para que o governo federal lance, ainda neste ano, o edital de licitação visando a escolher a empresa que fará o projeto. Foi o que ficou acertado durante a visita que o ministro dos Portos, Pedro Brito, fez a Vitória na última terça-feira.

A privatização é o caminho que viabilizará a construção do chamado superporto no Espírito Santo, disse o ministro. Enfatizou que está descartada a participação da União na implantação do projeto.

O modelo apresentado por Pedro Brito prevê que a Secretaria de Portos vai bancar apenas o custo dos estudos de viabilidade de mercado, adequação ambiental e do projeto executivo, orçados em torno de R$ 20 milhões. Caberá ao setor empresarial a construção do superporto, investimento que deve superar o montante de R$ 1 bilhão.

A ideia do ministro é contratar o quanto antes o projeto completo do superporto, deixando a licitação da concessão para o próximo ano. Espera-se a sensibilidade do novo governo sobre a necessidade da obra.

O espírito privatizante dos últimos dias do governo Lula não se restringe ao superporto do Espírito Santo. Até a construção e a operação de usinas nucleares pode ficar a cargo da iniciativa privada, embora isso ainda não esteja decidido. O estudo nesse sentido, feito pelo Palácio do Planalto, fica para análise do próximo governo.

O caso mais adiantado de privatização de projetos federais é o aeroporto de São Gonçalo do Amarante, na região da Grande Natal. A previsão é de que o edital seja lançado na primeira quinzena de novembro, para que as obras possam começar no primeiro semestre de 2010 e a etapa inicial seja concluída em 2012. A meta é tudo ficar pronto até a Copa do Mundo de 2014.

O grupo vencedor da licitação para o novo aeroporto do Rio Grande do Norte terá de desembolsar cerca de R$ 650 milhões para concluir o projeto. A garantia é a exploração comercial da unidade durante 25 anos, renováveis por igual período.

O Palácio do Planalto também estuda a concessão à iniciativa privada de um terceiro aeroporto em São Paulo. Essa possibilidade foi aventada desde 2007, em função dos apagões aéreos, e agora está sendo resgatada pela perspectiva de colapso, em médio prazo, em vários aeroportos.

Em Vitória, o aeroporto Eurico Salles apresenta um dos quadros mais graves, conforme dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Em 2009, sua operação registrou movimento 400,3% acima da capacidade. Em condições normais, atenderia 560 mil passageiros/ano, mas recebeu 2,342 milhões de usuários.

Tal quadro faz crer que em 2012, ao serem concluídas as obras de ampliação do aeroporto de Vitória (se não ocorrem novos atrasos), sua capacidade já esteja esgotada. O Espírito Santo não sediará jogos da Copa de 2014, mas as projeções indicam que o PIB capixaba crescerá entre 7,5% e 8% anualmente até 2019. Isso implicará intensificação da demanda por transportes nos modais áereo, ferroviário, rodoviário e marítimo.

O Espírito Santo precisará de novo aeroporto, de um porto de águas profundas e de rodovias em condições de uso muito melhores do que as atuais. O suprimento dessas necessidades passa pelo viés privatizante.