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quarta-feira, 17 de julho de 2013

FALA SÉRIO !


Parece brincadeira, mas não é. Depois de o presidente do PT, deputado Rui Falcão, ter tido o cinismo de dizer que não havia militantes petistas nas manifestações dos últimos dias por que todos estão empregados, trabalhando, agora foi a vez de o ex-presidente Lula escrever no artigo distribuído ontem pelo The New York Times que os protestos que ocorreram pelo país são reflexos dos sucessos de seu governo nos campos econômico, político e social.



Como se não bastasse a contabilidade criativa com que o governo tenta esconder os fracassos de sua política econômica, temos agora a interpretação criativa para tentar esconder o que o povo foi às ruas para exigir: menos corrupção, maior transparência no uso do dinheiro público, prioridades para transportes públicos, saúde e educação, e não para estádios de futebol “padrão FIFA”.



Trazer a Copa do Mundo para o Brasil, aliás, foi uma das grandes vitórias do Governo Lula, e desde o primeiro momento houve o compromisso de que não se gastaria dinheiro público nas obras necessárias, como a construção dos estádios. O que se viu, no entanto, foi um gasto muito superior ao estimado - os gastos com estádios representam R$ 7,5 bilhões dos R$ 28,1 bilhões previstos nas obras da Matriz de Responsabilidades da Copa – com financiamentos pelo BNDES, incluindo aí o estádio do Corinthians, que teve o apadrinhamento decisivo de Lula, corintiano doente. 



Embora diga que os protestos não são contra a política, mas uma vontade da juventude de participar mais diretamente dela, o ex-presidente Lula reconhece que “mesmo o Partidos dos Trabalhadores, que eu ajudei a fundar, e que contribuiu muito para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa de uma profunda renovação. É preciso recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e fazer as duas coisas sem tratar os jovens de forma paternalista”.



Na parte de seu artigo mais conectada com a realidade Lula lembra que “as pessoas não querem apenas votar de quatro em quatro anos, (...) querem interagir com os governos locais e nacionais, e tomar parte das decisões de políticas públicas, oferecendo opiniões e decisões que os afetem todos os dias”.



Lula diz ser natural que os jovens “desejem mais”, especialmente aqueles que têm o que seus pais não tiveram. Mas trata de encontrar desculpas para as críticas das ruas, especialmente às questões econômicas que começam a incomodar a nova classe média inventada pelo lulismo, que vê seu poder de compra ser reduzido pela inflação e pelo endividamento.



Ressalta, com razão, que a maioria das pessoas que estavam nas ruas não viveu os tempos de hiperinflação. Em tempos de estagflação, Lula diz que hoje as pessoas já não se lembram dos aos 1990 “quando a estagnação e o desemprego afetaram nosso país”. Ao tentar minimizar os problemas de inflação que temos hoje, traz à lembrança o Plano Real que acabou com a hiperinflação.



Sem receio de parecer incoerente, Lula admite, sem nunca afirmar explicitamente, que as manifestações têm a ver com o jogo partidário que o PT aprofundou ao chegar ao poder, gerando crises como o mensalão. “Eles exigem instituições políticas mais limpas e transparentes, sem as distorções políticas e eleitorais (...)”.



Da mesma forma que o presidente do PT, Rui Falcão, no Programa Roda Viva, também o presidente Lula admite em seu artigo a “legitimidade dessas demandas”. Lula diz, no entanto, que “é impossível contemplá-las rapidamente”. Confrontado com o fato de que a principal aliança partidária do PT é com o PMDB, cujos líderes são acusados de malversação do dinheiro público, Falcão disse que a solução do problema está no plebiscito para a reforma política.


Os dois se utilizam dos mesmos argumentos com que já tentaram transformar o mensalão em simples uso do “caixa dois” eleitoral, que todo partido brasileiro usaria. Também em relação aos parceiros preferenciais, em vez de uma política transparente como as ruas exigem, não há nada a se fazer no momento. Apenas não é culpa do PT

Merval Pereira

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

ATÉ A POLIANA JÁ DESCONFIA.

(*) Marli Gonçalves –
Alô! Seu mundo está cor-de-rosa? Os preços baixaram aí onde você está? Tem dinheiro sobrando para alguma coisa? Está conseguindo atingir suas metas e concretizar planos? Sente-se seguro?
Se você respondeu sim às questões acima, parabéns! Descobri. É você o ET que todo mundo anda procurando alucinadamente. Ou é a própria Poliana encarnada e ressuscitada no Brasil. Ou será uma cruza dos dois? A imagem que me ocorre é terrívelmente maledicente, a de um serzinho verde e rosa (puxou o pai e a mãe), vestido com a camisa de algum time de futebol, por causa da Copa, com um calção de seleção canarinho, todo contente porque vai ter Copa, e com um brochinho de estrelinha na lapela. Sexo embrionário, indefinido, e até liberado, tudo porque vai ter Copa. E Olimpíadas.
Otimista, porque vai ter Copa. E Olimpíadas. Seguro, porque vai ter Copa. E Olimpíadas. Pronto para enfrentar tudo e todos, porque vai ter Copa. E Olimpíadas. Certo de que vai dar tudo certo e que vai ficar rico, muito rico, porque vai ter Copa. E Olimpíadas. Pronto para o que der e vier, porque vai ter Copa. E Olimpíadas. Satisfeito sexualmente, porque vai ter Copa. E Olimpíadas. Rico de espírito, porque vai ter Copa. E Olimpíadas.
Aliás, pelo que estamos vendo aqui nos trópicos a coisa por causa disso está tão boa, mas tão boa, que nem é preciso mais jogar na loteria, nem trabalhar, suar camisa. A redenção já está na nossa porta. Há um desenvolvimento desenfreado no nosso país. Não existem mais pobres – está todo mundo trocando de classe social. Ninguém viaja mais de ônibus, só de avião. Todo mundo tem casa própria, carro, comida na mesa, que beleza. Acabou o racismo e o preconceito. Tem tanta liberdade de expressão – mas tanta – e somos tão livres, que podemos ver tudo, assistir até a filmes sérvios inteiros e completinhos, que a gente deixa esses tais Estados Unidos no chinelo nesse quesito Liberdade. Aliás, como é que pode essa gentinha americana ficar por aí pensando em dar calote em todo o mundo?
Coitados. Eles não vão ter Copa. E Olimpíadas.
Talvez sóóóó daqui a alguns anos vão saber como é viver em um país tão legal como o nosso. Um dia eles vão chegar no nosso estágio de desenvolvimento. Poderão até eleger uma presidente mulher. Tadinhos, tão atrasados! Nunca mais eles tiveram essa extrema oportunidade e honra, e quando foi lá não souberam aproveitar como nós. Mas sempre há esperanças. Quem sabe ainda não elegerão um operário? Talvez um metalúrgico, com enorme sabedoria e cultura. Vão saber o que é bom, como vão aprender. Esses caras não sabem nada. Eles não tem esse jeitinho maneiro que a gente tem; nem apreço pela própria história ( vai perguntar escalação de time lá, vai!). Gente! Eles não têm nem bola redonda! A bola deles é até meio oval, tão pernas-de-pau que são.
Eles não têm Copa, nem Olimpíadas.
Juros altos? Aqui não tem isso não. Inflação? Ué! Os preços estão subindo? Não vi não. Quem disse? Não sei não. Bolhas? Não. Não temos risco nenhum aqui no Brasil de nada disso acontecer. Corrupção? Qual é? Vai dizer que aqui, nesse paraíso, onde vai ter Copa (e Olimpíadas) tem disso? Tem não. Você não assiste tevê? Não está vendo como tudo está ma-ra-vi-lho-so?
Aqui vai ter Copa. E Olimpíadas.
Seu calo está doendo? Seu sapato está apertado? Ora, relaxe. Vai ter Copa, e Olimpíadas. Seu patrão resolveu fechar a firma (quem sabe já foi comprar ingressos) e você foi posto no olho da rua? Não se preocupe. Como é que ainda não reparou nas zilhões de chances sendo abertas?
Ô, meu! Aqui vai ter Copa. E Olimpíadas.
Está sentindo solidão? Não se preocupe. Vão vir tantos estrangeiros – gente linda, loura, gostosa, rica, cheia de amor para dar – para cá, que você logo vai encontrar seu par de meias, transar muito, interagir e variar. Ainda não ouviu dizer que há uma fila na porta do país, esperando, loucos para entrar aqui nesse paraíso? Como assim?
Ninguém te disse que eles já souberam de tudo? Que aqui vai ter Copa. E Olimpíadas.
Aquecimento global é coisa do passado, gente. Está tudo dominado. Temos saneamento básico. Nossas crianças – todas – estão sendo educadas muito melhor do que naquele outro país… – como chama mesmo? Ah, Suiça! Nunca nossas indústrias produziram tanto, nunca exportamos tanto, nunca compramos tanto, nunca construímos tanto, nunca fomos tão lindos como agora. Vai ter Copa. E Olimpíadas.
Nossas estradas estão iguais a bundinhas de bebê de tão lisinhas. Nossas estradas são mesmo um orgulho nacional, igual aos nossos aeroportos e portos. Conseguimos nos livrar de todas as burocracias, de todos os cartórios, nem sabemos mais o que quer dizer papelada.
Ah, mais eu tenho uma novidade! Passamos a produzir papelão, como ninguém nunca dantes nesse Universo. Nossos papelões são melhores do que o dos outros. Sabe por que? Sabe por que?
Eu vou contar. Não aguento guardar segredo: é que aqui vai ter Copa. E Olimpíadas.
Nossa bandeira, soube, vai ser reformulada. No lugar das estrelas, bolinhas de futebol e outros símbolos de modalidades esportivas. No lugar da Ordem e Progresso, só uma plaquinha: “Ah, eu tô maluco!”
Seremos, pois, todos, de agora até 2016, lindas menininhas Poliana, e de Maria Chiquinha (para homenagear a Sandy, que resolveu botar a dela na janela). Tudo bem também todos os anos que vêm.
Vai ter Copa. Ah! E Olimpíadas!
São Paulo, onde será a abertura das Portas do Paraíso, 2011
(*) Marli Gonçalves é jornalista. Já começa a ter alergia até em ouvir falar em Copa. E em Olimpíadas. Se só assim conseguiremos melhorar o país, o que dizer? Poliana, nos salve!

quarta-feira, 2 de março de 2011

COPA DE 2014: CRÔNICA DO MICO ANUNCIADO.

O Campeonato Mundial de Futebol, organizado a cada quatro anos pela Fifa, entidade privada com sede na Suíça, é um negócio arquibilionário para quem vive em torno de futebol: jogadores, técnicos, dirigentes, preparadores físicos e outros profissionais do ramo; acionistas, redatores, narradores e comentaristas de imprensa, rádio e televisão; e, sobretudo, os maiorais da entidade organizadora e seus afilhados pelo mundo. Estes inventam a cada torneio novas regras que tornam necessárias obras civis que exigem grandes investimentos: dos estádios à infraestrutura de transportes urbanos e aéreos, além da adaptação da rede hoteleira para atender à demanda de público aos jogos.


Países que dispõem de caixa para cobrir as deficiências de estações metroviárias, aeroportos, vias públicas e outras instalações físicas necessitadas de reforma para abrigar hordas de aficionados por futebol lutam para sediar espetáculos transmitidos pela televisão para plateias de bilhões. Esse tipo de investimento importa divisas para a sede do torneio quadrienal e também gera impostos que ajudam a engordar o erário, o que poderia, se aplicados com decência e critério, melhorar os serviços públicos, sobretudo em áreas essenciais e carentes, como saúde, educação e segurança pública. Em relação a isso, há três controvérsias. A primeira é que nunca sede alguma de uma Copa do Mundo trouxe a lume um relato confiável dos lucros auferidos ao longo do evento. A segunda é que mais arrecadação nem sempre (ou quase nunca?) representa melhora de atendimento em hospitais, aprimoramento da educação, especialmente a básica, nem redução significativa de índices de violência. Se isso foi medido, está mantido sob rigoroso sigilo. E, no caso do Brasil, que aceitou a condição de isentar os beneficiados de impostos, este segundo efeito será nulo.

Este país sediará a Copa de 2014 daqui a três anos e quatro meses. Um ano antes, como ocorre sazonalmente, será testada parte dos equipamentos para os grandes espetáculos num acontecimento de grande repercussão, mas menor alcance do que o Mundial propriamente dito, a Copa das Confederações. Neste momento, estamos no segundo estágio, no qual governantes começam a assumir compromissos que, de início, renegaram. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (ainda DEM) juraram de pés juntos que nenhum centavo de dinheiro público seria usado na construção de algum estádio para o torneio.

Os juramentos, feitos e reiterados, já começaram a ser sutilmente abjurados. Lula e Goldman saíram de cena, substituídos por Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin. Quem deu o pontapé inicial, não na pelota, mas no traseiro do contribuinte, foi o remanescente do trio, Kassab, sob cuja gestão se anunciou que está em estudos um projeto ardiloso de socorrer o Corinthians na construção de seu estádio em Itaquera para que sirva de palco para a abertura do campeonato. Ao lado de Alckmin, ele ouviu Dilma garantir sexta-feira passada que, sim, o primeiro jogo será no estádio do qual não se conhece sequer projeto de viabilidade.

O trio multipartidário passou por cima de algumas evidências da lógica elementar: nada garante que São Paulo terá mais benefícios do que custos sediando a Copa; a cidade tem estádios demais para atender o Mundial e a agenda futebolística local; e o favorecimento de um clube específico - em detrimento de seus adversários - é acintoso. A excelente drenagem do Morumbi no clássico de domingo deixou claro que o estádio pode ser reformado com relativa facilidade para cumprir as exigências de que a Fifa e sua representante no Brasil (a CBF de Ricardo Teixeira) não abrem mão. Até o Pacaembu, que a Prefeitura por pouco não cedeu em comodato ao mesmo Corinthians, agora beneficiado, e a Arena Palestra Itália, que o Palmeiras está reconstruindo às suas expensas, têm sobre o Piritubão uma vantagem essencial: eles existem. A opção anunciada por Dilma, Alckmin e Kassab de que o jogo inicial será disputado na zona leste equivale à decisão de um diretor de cinema que, precisando de um bebê, incentiva o flerte de um casal para contratar o filho que será gerado, antes sequer de ter início o namoro dos pais. Se vivos fossem, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino teriam de recorrer ao Procon para salvar a honra da lógica que descreveram.

O aval da presidente, do governador do Estado e do prefeito de São Paulo à decisão monocrática de Ricardo Teixeira, presidente da CBF e rei do comitê organizador da Copa no Brasil, só se explica por interesses eleiçoeiros. O Mundial será disputado em ano de eleições e disso querem tirar proveito. Mas, como os três deverão estar em campos políticos opostos nas eleições para governador e presidente em quatro anos e terão de dividir a gratidão do eleitorado (nem sempre tão grato assim) no vale-tudo do marketing eleitoral, pouco importará quem goze da regalia. Importa é que o cidadão pagará as despesas. A conversa fiada de que o contribuinte não bancará o banquete em que se refestelarão os barões do marketing esportivo, dos meios eletrônicos de comunicação de massas e da burocracia federal não o livrará de arcar com o prejuízo, mesmo expulso das arquibancadas pelo alto custo dos ingressos. Relatório insuspeito do Tribunal de Contas da União expõe a carta que os dirigentes da República e dos esportes pretendiam manter escondida na manga: dos R$ 23 bilhões a serem gastos em obras, só R$ 336 milhões ficarão por conta do setor privado, restando 98,5% para o cidadão deixado de fora financiar.

Pelo andar da carruagem, não há garantia de que a Copa de 2014 será disputada neste país sem estádios, aeroportos, vias públicas, hotéis e outros equipamentos exigidos pelos organizadores. Em vez de fazerem o jogo da "cartolagem" só por demagogia barata, Dilma, Alckmin e Kassab seriam mais espertos se saíssem de fininho e devolvessem o mico anunciado à Fifa e à CBF, seus legítimos criadores.

Fonte: José Nêumanne - O Estado de S.Paulo - http://bit.ly/eQW2mw