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domingo, 4 de agosto de 2013

APOSENTADOS : SALÁRIO FICA CADA VEZ MAIS INDIGNO

Aos 77 anos, Jair Fadini, aposentado há quase 30 anos pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), diz se sentir derrotado por causa das perdas irreparáveis que teve em sua aposentadoria. Revoltado com a situação, ele afirma: “Eu sou um indigente previdenciário”.
Foto: Carlos Alberto Silva
 Carlos Alberto Silva
Jair Fadini, de 77 anos, diz se sentir “um indigente previdenciário”


























A queda em seu benefício ultrapassa 60%, o que, segundo ele, tem o deixado desnorteado. Fadini chegou a procurar o INSS para mostrar sua insatisfação com o sistema adotado pelo órgão para corrigir os benefícios.

“A resposta foi a mesma para as várias cartas que enviei. Cheguei a procurar o presidente do Supremo Tribunal de Federal, mas nada aconteceu. Ele encaminhou meu pedido ao Ministério da Previdência que enviou um comunicado idêntico aos anteriores”, reclama.

O idoso, que é administrador de empresas e ex-bancário, também foi à Justiça, com um grupo de aposentados. Mas mesmo assim a recomposição do orçamento não ocorreu.

“Minha renda principal tinha que vir da minha aposentadoria. Mas o governo está achatando o benefício para nivelar todos os benefícios ao salário mínimo. Eu contribui por uma aposentadoria e hoje recebo outra”.

A história do aposentado é a mesma de outros mais de 20 milhões de aposentados e pensionistas do Regime Geral de Previdência. Para eles, o Brasil é um país injusto quando se trata de aposentadoria.

Fadini, por exemplo, quando se aposentou, em 1984, continuou a trabalhar e só parou quando chegou aos 70 anos. “Fiquei mais de 20 anos fazendo contribuições extras ao INSS que não me trouxeram benefício nenhum. Só tenho levado porrada do governo”, diz.

Insatisfação

O aposentado fica ainda mais indignado por conta das diferenças de tratamento entre os aposentados do INSS e dos serviço público.

“Existiu um tempo em que os funcionários públicos sequer contribuiam para a Previdência. E isso provocou um rombo na Previdência. Também pagamos com nossas contribuições a aposentadoria de trabalhadores rurais e ainda financiamos a construção da Ponte Rio Niterói e os prédios de Brasília. Se o dinheiro da Previdência tivesse sido aplicado em algum fundo de investimentos, hoje haveria recursos para dar mais dignidade aos aposentados”, desabafa.

A reclamação do aposentado faz sentido. Enquanto o governo paga benefícios superiores a R$ 25 mil a alguns servidores públicos inativos, 75% dos trabalhadores da iniciativa privada, que se aposentaram nos últimos 20 anos, recebem hoje um salário mínimo de benefício. E num futuro, nem tão distante assim, esse percentual vai aumentar até atingir quase 100% das pessoas assistidas pelo INSS.

A questão é que a falta de uma política de valorização da renda da categoria tem feito com que a cada ano os aposentados sejam prejudicados com uma perda significativa em seu poder de compra.

De janeiro de 1994 a janeiro de 2013, a renda dos segurados do INSS – que se aposentaram com um benefício superior a um salário mínimo – caiu em mais de 81%, segundo a Confederação Brasileira dos Aposentados (Cobap).

A saga dos aposentados do Regime Geral, por uma vida financeira mais digna, começou em 1991 quando o governo desvinculou os benefícios do salário mínimo. Até 91, o INSS pagava o valor máximo de 20 salários aos aposentados. Muitos trabalhadores, ao requererem o benefício, tinham dificuldades de chegar ao limite oferecido pelo órgão, porém, conseguiam conquistar pelo menos 10, 11 ou 12 salários de benefício.

Com uma proposta de valorização do salário mínimo, o governo decidiu romper a ligação da aposentadoria com o piso nacional e fixou o teto do INSS a um valor específico.

Novo golpe em 94

Em 1994, os aposentados tiveram um novo golpe. Os benefícios começaram a ser corrigidos de maneiras diferentes. Quem ganhava um salário mínimo passou a receber um aumento superior ao restante dos aposentados.

O economista da Cobap, Maurício Oliveira, afirma que, devido à mudança na lei, essas pessoas que ganham dez vezes mais que o piso nacional vivem no momento com uma aposentadoria de em média R$ 2 mil, que equivale a três salários.

Em todo o país, a medida fez com que os aposentados e pensionistas tivessem uma redução drástica em seu poder aquisitivo. Hoje, dos mais de 22 milhões de aposentados ligados ao INSS, menos de 8 milhões recebem um benefício maior que o piso nacional. O número era maior até dezembro do ano passado. No entanto o grupo perdeu, só em janeiro deste ano, 380 mil pessoas. Elas passaram a ganhar R$ 678.

O culpado dessa migração foi a concessão de um aumento de 6,15%, índice suficiente para recompor as perdas inflacionárias. O reajuste foi quase três pontos percentuais inferior ao repassado ao salário mínimo.

“Os benefícios dos aposentados só caíram no decorrer dos anos. Antes, as aposentadorias eram vinculadas a uma quantidade de salários mínimos, agora não são mais. Outro culpado por essa defasagem é a aplicação de um índice de correção inferior à inflação do idoso, que é em geral bem superior ao resto da população. A categoria paga um plano de saúde mais caro, gasta mais com remédios e ainda necessita de alimentação especial. Os gastos são infinitamente maiores”, diz.


Ed. Arte - Gilson



Efeitos da queda


Foto: Bernardo Coutinho
 Bernardo Coutinho
Geraldo Benício está na Justiça, buscando a desaposentação dele e de outros

O advogado previdenciário, Geraldo Benício, é outro aposentado que sentiu o efeito dessas perdas. Há dez anos ele conseguiu o direito à aposentadoria especial por atuar em local insalubre. Mesmo formado em Direito, ele era funcionário da indústria. Mesmo conseguindo um benefício integral ele viu sua aposentadoria reduzir pela metade.

Assim como outros milhares de aposentados, Benício continuou no mercado para complementar a renda. “Estou na mesma situação de vários clientes que atendo no meu escritório. Por passar pelo o que eles passam, eu consigo me aproximar mais dos seus problemas e de entendê-los mais. Eu fui funcionário da indústria e quando me aposentei comecei a atuar como advogado e hoje minha principal luta é pela minha desaposentação e também dos meus clientes”, diz.

Como Benício, mais de 500 mil aposentados no Brasil brigam na Justiça pelo direito de uma renda mais digna. Geraldo já ganhou o direito a um novo benefício em duas instâncias, mas seu processo está parado, aguardando uma decisão do Supremo Tribunal Federal.

“Se eu não tivesse continuado a trabalhar, com certeza eu passaria dificuldades. Não dá para viver apenas com a aposentadoria. Minha esperança é aumentar minha aposentadoria”, diz. 

Esperando a Justiça e o Congresso

Na esperança de aumentar a renda, aposentados aguardam a aprovação de projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional e o julgamento de ações civis públicas que estão em análise Supremo Tribunal Federal (STF).

As medidas visam garantir à categoria a possibilidade de retornar a equiparação das aposentadorias em salários mínimos e ainda possibilitar aos segurados do INSS a recomposição das perdas provocadas pelas mudanças no sistema previdenciário.

As propostas são consideradas inviáveis pelo governo federal. Uma das ações no STF, inclusive, pede o fim do fator previdenciário e o recálculo das aposentadorias concedidas desde 1999. Se a queda do fator for aprovada, seria necessário pagar também valores atrasados.

No Congresso Nacional, os aposentados também lutam pela aprovação do índice de inflação do idoso que seria usado na correção anual das aposentadorias. Eles também pedem para que o governo aplique reajuste igual para toda a categoria, tanto para quem recebe o piso nacional quanto para os que ganham acima do salário mínimo.

Fonte: A Gazeta

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A VIDA DO HOMEM DO CAMPO.

Recebi esse e-mail e vou publicalo aqui, porque achei fantástico.






Carta do Zé Agricultor para Luís da Cidade



Luís, quanto tempo!

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite

De madrugada pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade.

To vendo todo mundo falar que nós da agricultura estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode

fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

Pra ajudar com as vacas de leite contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender

no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas

leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem

fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia,isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de biodigestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava

morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia.. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta em papel reciclado pois não existe por aqui, mas aguarde até eu vender o sítio.





*(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.) *

"Na prática, a teoria é outra."