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domingo, 17 de novembro de 2013

DE COPACABANA PARA A ITÁLIA NAS BARBAS DA POLICIA



Ex-diretor do Banco do Brasil, condenado por repassar 73,8 milhões para a agência de Marcos Valério, abandonou a cobertura à beira-mar para se esconder na Itália. Advogado acompanhou o primeiro trecho da viagem

Pâmela Oliveira, do Rio de Janeiro
Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil
Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil (Rodrigo Paiva/AE)
Duas vezes por dia – nas primeiras horas da manhã e no início da noite – o morador da cobertura do número 46 da Domingos Ferreira era visto a caminho da Praia de Copacabana. De tênis e bermuda na primeira saída, e muitas vezes de chinelos, ao entardecer, Henrique Pizzolato percorria incógnito os 180 metros que separavam sua portaria das ondas em preto e branco desenhadas junto à areia. Ninguém importunava o homem que, findo o julgamento do mensalão, foi condenado a 12 anos e sete meses de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato. Pelo contrário: vizinhos, porteiros e até o guardador de carros da Domingos Ferreira consideravam aquele um senhor simpático, discreto, um morador exemplar.
Ser discreto e eficiente era o que se esperava do braço da quadrilha no Banco do Brasil – um quadro do PT no BB, que saltou de arrecadador de fundos da campanha de Lula para a diretoria de marketing do banco. No novo posto, Pizzolato autorizou o repasse de 73,8 milhões de reais do Fundo Visanet para a DNA Propaganda, de Marcos Valério. A campanha da Visanet nunca foi veiculada. A investigação indicou que ele teria, pelo serviço ao esquema, recebido 326.000 reais.
O valor é pouco inferior ao que foi oficialmente pago pela cobertura em Copacabana, em 2004, um mês depois de a dinheirama pingar na conta de Pizzolato. A partir daquele ano, ele e a mulher, Andréa, passaram a morar em um piso com piscina, churrasqueira, vista para o Cristo Redentor, o topo do Pão de Açúcar e a três minutos, a passos lentos, do Atlântico.
Há cerca de 45 dias, Pizzolato pôs em prática o plano que o levaria para o outro lado do oceano. O porteiro da noite estranhou o horário da caminhada, às três da madrugada, com duas grandes malas de viagem. Pizzolato não estava sozinho: acompanhavam o ex-diretor do BB o advogado Marthius Lobato e um outro defensor. Lobato disse, neste sábado, que foi surpreendido pela notícia de que seu cliente estava na Itália, e deu por encerrada sua relação profissional com Pizzolato “a partir do trânsito em julgado”.
Supõe-se que Pizzolato tenha viajado do Brasil ao Paraguai, para, da cidade fronteiriça de Pedro Juan Caballero – um entreposto dos traficantes brasileiros – escorregar por vias não oficiais até a Europa, valendo-se de sua dupla cidadania. Como um réu desse quilate no Brasil desaparece para brotar na Europa, passando por um país vizinho? Um dos delegados da PF envolvidos na tentativa de prender Pizzolato formulou a seguinte hipótese, logo depois de tomar conhecimento do paradeiro do condenado: como tem dupla cidadania, ele poderia ter se apresentado em um consulado italiano (certamente no Paraguai) dizendo ter perdido seu passaporte. A partir daí, a representação italiana se encarregaria de fornecer um novo documento para que seu cidadão retornasse ao país de origem.
Pizzolato quer ter, na Itália, um julgamento "justo e livre das pressões da mídia". Registrou ele, em nota: "Por não vislumbrar a mínima chance de ter um julgamento afastado de motivações político eleitorais, com nítido caráter de exceção, decidi consciente e voluntariamente fazer valer meu legítimo direito de liberdade para ter um novo julgamento, na Itália, em um tribunal que não se submete às imposições da mídia empresarial".
O ataque “à mídia” e à Justiça foi a forma que o foragido encontrou de dar sua “banana” para os brasileiros – sua versão do punho em riste dos mensaleiros de mais alta patente, José Dirceu e José Genoino. Imprensa, mas imprensa mesmo, para ele, só a revista “Retrato do Brasil”. Tinha gosto especial por duas edições da publicação, cujos exemplares distribuiu a amigos, vizinhos, porteiros e até ao guardador de carros da Domingos Ferreira – este, sim, um retrato da realidade brasileira, cobrando migalhas para vigiar e afastar os ladrões dos carrões dos moradores de um dos bairros mais ricos do país. A propósito: Pizzolato e a mulher não tinham carros. Nem filhos.
O guardador de carros guardou as revistas, como recordação de seu contato mais próximo com o ilustre mensaleiro. “STF Também Erra!”, traz uma das capas distribuídas para a vizinhança da Domingos Ferreira. O conteúdo, como se deduz, é um amontoado de críticas às investigações do mensalão e, claro, à imprensa. O guardador de carros não critica o mensalão, nem Pizzolato, nem seus advogados. “Aquele (Lobato) me deu cinquenta reais para lavar o carro”, contou, horas depois de Marthius Lobato, o autor da doação generosa, confirmar oficialmente o paradeiro de seu ex-cliente.
Para os vizinhos, Andrea Pizzolato era mais calada do que o marido. Ele ainda contava piada e brincava, mas nos últimos meses estava muito abatido. “Entrava e saía do edifício com a cabeça baixa, quieto”, contou um porteiro. Visitas frequentes, só dos advogados. “Ela sempre subia com sacolas. Acho que ele não fazia compras do mês. Ultimamente, ele só saía para caminhar”, contou.
Depois do sumiço de Pizzolato, Andrea se manteve na cobertura. Os dois tinham ainda outro apartamento no bairro – ambos visitados por policiais federais na tarde de sexta-feira, quando começaram a ouvir de representantes do réu que ele se entregaria.
O casal sempre teve uma relação de união e cumplicidade. Andrea e Pizzolato se conheceram em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, quando cursavam arquitetura e começaram a namorar. Além dos advogados e de uns poucos amigos, o casal recebia esporadicamente os parentes do Sul – ela é gaúcha e ele, catarinense.
As visitas cessaram de vez há quinze dias. Também na calada da noite, Andrea desceu, certa noite, com três malas. “Ela não se despediu, não disse nada. Apenas pediu ajuda para descer as escadas até a rua e entrou em um táxi. Uma semana depois, começou o boato de que ela teria ido ao encontro do marido”, disse um dos porteiros. A Justiça e a polícia não perceberam nada.
Fonte: @Veja

terça-feira, 5 de julho de 2011

UM BANDIDO A MAIS, UM BANDIDO A MENOS!

A Itália é, desde 1946, uma democracia. E, na maior parte desse tempo, uma democracia socialista, contra a qual se voltaram, em determinados momentos, a máfia, a extrema direita e a extrema esquerda.
As três organizações usaram a violência para criar o terror e tentar assumir o poder político. Todas falharam. Mafiosos e terroristas, de direita e esquerda, foram levados aos tribunais e sentenciados.

Na maioria dos casos, graças ao instituto da delação premiada, que o Brasil adotou a partir dos anos 90, sob declarada influência da legislação italiana. Não temos, portanto, autoridade moral para criticar condenações baseadas nele, pois a palavra de criminosos "arrependidos" vem sendo, entre nós, considerada indispensável para um combate eficiente ao crime organizado ou intelectualizado.

Em agosto de 1980, uma bomba, colocada por militantes políticos na estação de trem de Bolonha, matou 85 pessoas. Em maio de 1992, uma outra, colocada pela Cosa Nostra, matou o juiz Giovanne Falcone, sua esposa e seus guarda-costas. Foge à minha compreensão o fato de haver quem sustente que os autores do segundo crime foram delinquentes comuns, mas os do primeiro não podem ser punidos porque agiram "por motivos políticos". Afinal de contas, a única possível diferença de hediondez entre os dois atentados reside no fato de que Falcone era um membro ativo da repressão do Estado (n.e. Estado de Direito), enquanto os inocentes passageiros da ferrovia "não tinham nada a ver com o peixe"…

Cesare Battisti, o italiano a quem estamos assegurando proteção "humanitária", foi condenado à prisão perpétua nas condições mencionadas na abertura deste artigo .
O mesmo governo que devolveu a Cuba os pugilistas cubanos (n.e. que não eram criminosos), quando é público e notório que em Cuba não há Estado de direito ou sombra de Justiça digna desse nome; que declarou não poder criticar a decisão iraniana que condenou à morte por apedrejamento uma mulher acusada de adultério e participação em homicídio, por ser uma "decisão judicial de um país amigo"; não titubeou em pôr em dúvida a correção processual e formal da decisão da Justiça italiana que condenou Battisti, para, com base nessa dúvida, justificar a negativa de extraditá-lo.

Que insensatez! Com a evidente morosidade de nossa justiça (para dizer o mínimo), a óbvia impunidade que graça em nossa sociedade e, sobretudo, com a flagrante subserviência de nosso poder judiciário ao poder executivo, o fato de uma autoridade brasileira alegar vício a respeito de uma decisão da justiça italiana é um escárnio, um absurdo, um contrasenso, uma injustiça, um sacrilégio, uma piada de mau gosto e... (não tenho mais qualificações publicáveis).

E coube a Tarso Genro (o culpado inicial da pantomima) dar o toque final ao absurdo: ele, que insistentemente tem desqualificado o julgamento realizado na Itália, voltou a público para condenar o Estado italiano por "debochar" do Judiciário e de um juiz do Brasil! (ZH de 10/6, p. 37).
Pensando bem, por que não ficarmos com ele?
Neste país de bandidos de todos os quilates, que diferença faz mais um? Com um pouco de sorte, e alguma alquimia legislativa, quem duvida que Battisti acabe em algum cargo público, desses que permitem multiplicar patrimônios quando se é, como ele, amigo do rei?

FERNANDO MOTTOLA *Desembargador aposentado do TJRS