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Pressão total – Deputado federal pelo PSDB do Paraná, Fernando Francischini protocolou terça-feira (13), na Procuradoria-Geral da República, pedido de investigação do governador do Distrito Federal (DF), Agnelo Queiroz, e outras oito pessoas, entre elas os irmãos, um cunhado e a mãe do governante, suspeitos de enriquecimento ilícito e envolvimento em atos de corrupção, segundo o parlamentar.
Além da investigação, Francischini requereu a decretação da prisão preventiva de Agnelo Queiro e do seu irmão Ailton, a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos acusados e o bloqueio judicial dos bens dos mesmos.
Agnelo Queiroz é alvo de denúncias de participação em um esquema de desvio de verbas do Programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte. A edição desta semana da revista IstoÉ traz reportagem que levanta suspeitas de enriquecimento ilícito de Agnelo e parentes. O patrimônio da família, segundo a revista, cresceu mais de R$ 10 milhões em três anos, valor que seria incompatível com a renda do governador e dos parentes dele.
A representação de Francischini foi entregue ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, a quem cabe decidir se encaminha a denúncia e o pedido de prisão do governador ao Superior Tribunal de Justiça, que tem atribuição de julgar atos dos governadores.
Perdido politicamente desde que deixou o poder central, o PSDB encontra dificuldades para se firmar como âncora de uma oposição pífia, que nos últimos anos ganhou notoriedade como usina de denúncias e catapulta de ministros acusados de irregularidades. Não se trata de compactuar com supostos atos de corrupção no Distrito Federal, mas é preciso destacar que o pedido de Francischini surge dias depois do lançamento de um livro que coloca no olho do furacão o ex-governador José Serra, eventual candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo.
Diferentemente do que pensam os adversários do Palácio do Planalto, o Brasil precisa de uma oposição republicana e responsável, o que permitiria ao País avançar rumo ao futuro de forma objetiva e séria. Arma covarde utilizada pelo PT enquanto oposição, o denuncismo foi duramente condenado pelos oposicionistas de agora. Em outras palavras, a incoerência continua emoldurando a política nacional, para o desespero dos brasileiros.
Em nota enviada ao ucho.info, o governador do Distrito Federal rebate as acusações que constam da reportagem, classificadas como “mentiras grosseiras e sem relação com a realidade”.
Confira abaixo a íntegra da nota enviada pela Secretaria de Comunicação Social
“De todas as tentativas criminosas de atacar a imagem do governador Agnelo Queiroz, esta é a mais irresponsável e repugnante, ao desrespeitar seus familiares, e principalmente sua mãe, com mentiras grosseiras e sem relação com a realidade.
A reportagem sonega informações esclarecedoras, descumprindo o dever jornalístico, ao construir um texto mal intencionado e mentiroso, que está a serviço de um consórcio criminoso. Usa falsos fundamentos que escandalizam pela falta de ética jornalística.
A matéria traz valores irreais de renda e patrimônio. O governador Agnelo Queiroz repudia a invasão à vida de seus familiares como forma de ataque político, em ação sem escrúpulos.
A revista e o repórter serão processados.
A matéria está a serviço da velha conspiração contra a renovação dos costumes políticos no DF. Mais uma tentativa de forjar uma denúncia que vai ser desmascarada.”
Governador do DF agora admite ter recebido dinheiro de lobista, conforme informou VEJA
Que coisa! Antigamente, os lobos eram carnívoros, e os cordeiros, herbívoros. Em Brasília, Esopo ficaria espantado. A etimologia celebra a sua ironia na capital da República Federativa do Brasil… Onde está a pureza, Deus meu?
Carlos Lupi, o ministro do Trabalho, está encrencado. Ninguém mais quer saber dele, nem parte considerável do PDT. A reportagem de VEJA desta semana é, vamos dizer, acachapante. Em que seu caso se diferencia do de Orlando Silva? As evidências de falcatruas são ainda mais escancaradas. E seu partido, à diferença do PC do B, não se digna a atestar a sua inocência. “Lupi”, em latim, é plural de “lupus”, que quer dizer “lobo”, e genitivo singular: “do lobo”.
Mas Brasília também se depara com a hora do cordeiro — em latim, “agnus”. “Agnulus” (cordeirinho) deu em italiano a palavra “agnello”, origem do nome do governador do Distrito Federal, que tem tudo para se afogar nas águas turvas. E, desta feita, não há lobo nenhum lhe fazendo qualquer falsa acusação.
Dinheiro de lobista
Em julho, o lobista da indústria farmacêutica (União Química) Daniel Almeida Tavares disse à VEJA — sempre essa VEJA… — que havia pagado, em 2008, R$ 5 mil de propina a Agnelo quando o agora governador era diretor da Agência Nacional de Saúde. Seria só parte de uma bolada de R$ 50 mil para que o “cordeirinho” lhe arranjasse algumas facilidades. Com a memória prejudicada, Agnelo jurou mais inocência do que o outro, o da fabula de Esopo. Disse que nem conhecia o tal. Teve um surto de memória, embora premido pelos fatos.
Na Folha de hoje, Felipe Coutinho, Felipe Seligman e Andreza Matais informam:
O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), admitiu ontem que recebeu em sua conta pessoal R$ 5.000 de um lobista quando trabalhava como diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2008. O dinheiro foi transferido para a conta de Agnelo por Daniel Almeida Tavares, que na época trabalhava para a farmacêutica União Química. (…). No mesmo dia em que o dinheiro caiu na conta de Agnelo, em 25 de janeiro de 2008, a União Química obteve da Anvisa um certificado sem o qual não poderia participar de licitações nem registrar novos medicamentos. Não foi uma decisão do colegiado da agência. Como diretor da área responsável por conceder o certificado na época, coube a Agnelo decidir sozinho a autorização.
A gente, que aprendeu a acreditar no cordeiro de Esopo, acha um tantinho estranha a história do cordeiro do PT. Segundo ele, o dinheiro era só “pagamento de um empréstimo”. Ah, bom!
O governador admite o que antes negara à VEJA porque as águas começaram a realmente ficaram turvas para o seu lado. Informa a Folha:
O lobista Daniel Tavares procurou a deputada distrital Celina Leão (PSD) há duas semanas afirmando que estava sofrendo ameaças e que precisava de proteção policial. Ele repetiu as acusações contra Agnelo e apresentou documentos, como extratos bancários. Segundo a deputada, o lobista afirmou que os R$ 5.000 transferidos para a conta de Agnelo representam parte de uma propina de R$ 50 mil paga ao petista. Tavares sustenta que os demais R$ 45 mil foram pagos em dinheiro vivo. “Fui orientada pela Polícia Federal para que ele venha à Câmara Distrital e preste depoimento oficial, inclusive para que possamos solicitar proteção policial”, disse ela. Tavares contou a interlocutores ter um vídeo que comprovaria a entrega de dinheiro a Agnelo, além de extratos de outros cinco depósitos bancários que somariam mais R$ 30 mil.
Sim, vocês estão certos: Agnelo é o mesmo cordeiro que antecedeu Orlando Silva no Ministério do Esporte, quando a, digamos, logística com as ONGs foi montada. Um inquérito investigando a sua atuação dormita no STJ (Superior Tribunal de Justiça). Ele pertencia, então, ao PCdoB. Depois migrou para o PT. O agora governador e seu partido tiveram papel fundamental na crise que varreu do Distrito Federal as “famílias” de José Roberto Arruda e Joaquim Roriz. Tudo parecia ir muito bem. Com o apoio da maioria membros da Câmara Distrital, Agnelo parecia destinado a ser o novo “godfather” de Brasília.
PT preocupado e renúncia
Desde o começo, o PT ficou especialmente preocupado com a crise no Ministério do Esporte, como aqui informei tantas vezes, porque ela fatalmente acabaria chamando a atenção para Agnelo Queiroz e seus métodos. Também lhes contei que a demissão de Orlando Silva foi apressada pelo Planalto quando a ministra Carmen Lúcia aceitou a abertura de inquérito, o que faria de Silva um investigado pelo STF. Ruim para o governo? Ruim! Mas o pior para o PT era outra coisa: a ministra determinou que os autos sobre Agnelo migrassem do Superior Tribunal de Justiça para o Supremo. Orlando saindo, tudo seria devolvido, como foi, para o STJ, onde, por alguma razão, os petistas acreditam que as coisas estão sob controle.
Também já contei aqui que a própria Dilma Rousseff comentou com assessores, em tom entre a preocupação e a extrema irritação, a situação de Agnelo. Deixou escapar um “ele que renuncie!”. Deve saber por que disse isso melhor do que nós todos.
Um governador enrolado em falcatruas sempre é uma má notícia em ano eleitoral. Se esse governador é do Distrito Federal, depois de tudo o que se viu lá, aí é mesmo um desastre. O DEM já disse que vai pedir o impeachment de Agnelo. Tem autoridade moral para isso, sim. Afinal, botou na rua os seus larápios.
Orlando Silva perdeu o cargo de ministro do Esporte, na semana passada, abalado por denúncias de desvio de dinheiro. Seu substituto, Aldo Rebelo, também do PCdoB, recebeu do Palácio do Planalto a missão de moralizar a pasta. Para a Justiça, no entanto, a questão é outra. Nos próximos dias, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) receberá um processo com nove volumes e quatro apensos, que corre na 10ª Vara Federal, em Brasília. As informações, a que ÉPOCA teve acesso, mostram que o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), antecessor de Silva, é suspeito de ter se beneficiado das fraudes.
O conjunto contém gravações, dados fiscais e bancários, perícias contábeis e relatórios de investigação. As peças da ação penal vistas por ÉPOCA incluem o relatório nº 45/2010, que contém os diálogos captados em interceptações telefônicas, com autorização judicial, feitas entre 25 de fevereiro e 11 de março do ano passado. As conversas mostram uma frenética movimentação de Agnelo Queiroz e do policial militar João Dias para se defender em um processo. Diretor de duas ONGs, Dias obteve R$ 2,9 milhões do programa Segundo Tempo para ministrar atividades esportivas a alunos de escolas públicas. Nas conversas, Dias quer ajuda para acobertar desvios de conduta e de dinheiro público. Ele busca documentos e notas fiscais para compor sua defesa em uma ação cível pública movida pelo Ministério Público Federal. O MPF cobra de Dias a devolução aos cofres públicos de R$ 3,2 milhões, em valores atualizados, desviados do Ministério do Esporte.
Personagem da crônica política de Brasília, João Dias ajudou, com suas declarações, a derrubar Orlando Silva na semana passada. Dias nem precisou apresentar provas de que Silva teria recebido pacotes de dinheiro na garagem do ministério. Suas acusações levaram à sexta baixa no primeiro escalão da equipe da presidente Dilma Rousseff. O pretexto para a demissão foi a abertura, na terça-feira, de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar a acusação de Dias e denúncias de que o Ministério do Esporte se transformara num centro de arrecadação de dinheiro para o PCdoB. Com a queda de Orlando Silva, o foco se transfere para o governador Agnelo Queiroz, contra quem existem suspeitas ainda mais consistentes.
Os principais interlocutores nas conversas gravadas pela polícia são João Dias, Agnelo Queiroz, o advogado Michael de Farias (defensor do policial) e o professor Roldão Sales de Lima, então diretor da regional de ensino de Sobradinho – cidade-satélite de Brasília onde atuavam as duas ONGs de João Dias. Era com Lima que Dias tratava do cadastro das crianças carentes que deveriam ser beneficiadas pelo programa Segundo Tempo. Na ação cível há um dado impressionante: as ONGs de João Dias receberam recursos para fornecer lanches para 10 mil crianças. Mas só atenderam, de forma precária, 160.
O inquérito foi uma tentativa de produzir um dossiê para inviabilizar a minha candidatura "
Agnelo Queiroz, governador do DF
Pressionado pelo Ministério Público, Dias foi à luta para amealhar elementos capazes de justificar tamanho disparate. Às 12h36 do dia 4 de março de 2010, ele telefonou para Agnelo Queiroz, então diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Dias pediu a Agnelo para “dar um toque” em Lima e reforçar seu pedido de ajuda ao professor. Dias queria que Lima fornecesse documentos para sua defesa. Na gravação, ele avisa que vai marcar um encontro entre Agnelo e Lima, para que esse pedido seja feito pessoalmente. Menos de uma hora depois, Dias, que estava num restaurante com Lima, telefonou novamente a Agnelo. Entregou o celular para Lima falar com ele. De acordo com a transcrição dos diálogos, feita por peritos do Instituto de Criminalística do Distrito Federal, Agnelo diz a Lima que precisa de sua ajuda. Afirma que vai combinar com João Dias para os três conversarem, porque Roldão (Lima) “é peça-chave neste projeto”.
Qual seria o projeto? Segundo a investigação da polícia, trata-se de apresentar uma defesa à Justiça Federal capaz de livrar Dias da cobrança milionária. Pouco antes das 13 horas do dia 9 de março, o advogado Michael de Farias disse a Dias para ficar tranquilo, que tudo estaria pronto para ser entregue à Justiça três dias depois. Só faltaria, disse Michael, “agilizar a questão do Roldão (Lima)”. Na gravação, Michael afirma que eles “já vão confeccionar os documentos só para o Roldão assinar, já vai tudo pronto”. Dias diz que dessa forma fica melhor e, em seguida, liga para Agnelo e marca um encontro para uma conversa rápida e urgente. Cerca de duas horas depois, Dias volta a telefonar a Agnelo e adia o encontro.
No final da tarde do dia 9, Dias falou com Lima. O professor Lima disse que ficou até de madrugada numa reunião em que foram fechadas “as planilhas, os projetos”. De acordo com a polícia, Lima estava no escritório do advogado Michael. No dia seguinte à tarde,
Michael disse a Dias que já havia “confeccionado a defesa e as cartas de Roldão (Lima)”. Até aquele momento, Lima não assinara nada. À noite, Dias ligou para dois celulares de Agnelo e deixou o mesmo recado nas secretárias eletrônicas: “O prazo máximo para apresentar a defesa é sexta-feira, preciso muito de sua ajuda”. Às 20h22, Dias finalmente consegue falar com Agnelo e avisa “que sexta-feira tem de apresentar o negócio lá”.
A polícia descobriu, pelas conversas grampeadas, onde Lima se encontraria com Dias para entregar os documentos a ser incorporados a sua defesa. O encontro ocorreu no Eixo Rodoviário Norte, uma das principais avenidas de Brasília, no começo da tarde da sexta-feira 12 de março. Dias parou seu Ford Fusion e ligou o pisca-alerta. Em seguida, Lima parou seu Fiat Strada atrás e entrou no automóvel de Dias. Eles não sabiam, mas tudo era fotografado por agentes da Divisão de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil do Distrito Federal. As imagens mostram que Lima carregava uma pasta laranja ao entrar no carro de Dias. Saiu do veículo sem ela. Três horas depois, os advogados de Dias entregaram sua defesa na Justiça Federal.
De nada adiantou todo esse esforço. Um laudo da PF constatou que havia documentos “inidôneos” na papelada apresentada pela defesa de Dias. Três semanas depois, ele e outras quatro pessoas foram presas por causa de fraudes e desvio de dinheiro público no Ministério do Esporte. Mesmo com todas as evidências registradas nas gravações de suas conversas, Dias nega ter recorrido a Agnelo para ajudá-lo em sua defesa. O professor Lima afirma que, nas conversas por telefone e nos encontros com Dias, só falava de política. Mas admite que, “num dos encontros, João Dias me passou o telefone para conversar com Agnelo”. Lima afirma não se lembrar da pasta laranja entregue no encontro.
As gravações telefônicas revelam também uma intimidade entre Agnelo Queiroz e João Dias, que os dois hoje insistem em esconder. A relação entre os dois envolveu a intensa participação do PM na campanha de Agnelo para o governo do Distrito Federal no ano passado. Eles afirmam que estiveram juntos apenas nas eleições de 2006, quando Agnelo concorreu ao Senado, e Dias a uma cadeira na Câmara Legislativa – ambos pelo PCdoB. Os diálogos em poder da Justiça mostram outra realidade. No dia 4 de março de 2010, Dias perguntou a Agnelo como estavam os preparativos para o dia 21 de março, data em que o PT de Brasília escolheria seu candidato ao governo. Agnelo disse que estavam bem, seus adversários estavam desesperados. Em resposta, Dias afirmou que ele e o major da PM Cirlândio Martins dos Santos trabalhavam para sua candidatura nas prévias do PT em várias cidades-satélite de Brasília. Na disputa, Agnelo derrotou Geraldo Magela, hoje secretário de Habitação do Distrito Federal.
Em um encontro filmado pela polícia, João Dias recebeu uma pasta do professor Lima. Logo depois, entregou sua defesa
Em outra gravação, Dias informa Agnelo sobre o resultado de uma pesquisa eleitoral em que ele ultrapassara o ex-governador Joaquim Roriz. ÉPOCA ouviu de integrantes da campanha de Agnelo que, mesmo depois de sua prisão, Dias teve papel importante nas eleições. A campanha de Weslian Roriz – mulher de Roriz, que o substituiu na disputa – mostrou na TV um dos delatores do envolvimento de Agnelo nas fraudes no Ministério do Esporte. Isso teve impacto na campanha do ex-ministro. Quem deu a solução foi Dias: com poder de persuasão, ele convenceu uma tia da testemunha a desqualificar seu depoimento na televisão. Mais tarde, a tia foi agraciada com um emprego no governo. No novo governo, Dias foi beneficiado. Indicou seu melhor amigo, Manoel Tavares, para a presidência da Corretora BRB, o banco do governo do Distrito Federal.
O governador e ex-ministro Agnelo Queiroz respondeu por escrito a 13 perguntas feitas por ÉPOCA. Ele afirma que o inquérito da Polícia Civil é montado. “O inquérito foi uma tentativa de produção de um dossiê para inviabilizar a (minha) candidatura”, diz Agnelo. “A origem do inquérito infelizmente foi direcionada por uma parte da Polícia Civil, ainda contaminada pelas forças políticas do passado. Uma farsa.” Agnelo diz que ele e João Dias eram “militantes da mesma agremiação partidária, ambiente em que surge o conhecimento” e que é “fantasiosa” a afirmação de que acolheu “indicação de João Dias para cargos no governo”.
Apesar de continuar na Polícia Militar, Dias tornou-se um próspero empresário. Em outro relatório da polícia em poder da Justiça Federal, de número 022/2010, gravações telefônicas mostram que Dias é o verdadeiro dono de academias de ginástica registradas em nome de laranjas. “Tal fato é um forte indício de que João Dias está utilizando as academias para ‘lavar’ o dinheiro oriundo de supostos desvios de verbas públicas”, diz o relatório policial. Dias tem quatro carros importados. O mais vistoso é um Camaro laranja, 2011, importado do Canadá em julho. Em entrevista a ÉPOCA, ele afirmou que adquiriu o Camaro numa transação comercial. O veículo está registrado em nome do motorista Célio Soares Pereira. Célio é o empregado de Dias que diz ter entregado dinheiro no carro do então ministro Orlando Silva na garagem do Ministério do Esporte.
Em depoimento à Polícia Federal, Dias mudou sua versão sobre a entrega de dinheiro a Silva. Ele disse que era “muito pouco provável que o ministro (Orlando Silva) não tivesse visto a entrega dos malotes (de dinheiro)”. Diferentemente de Dias, Geraldo Nascimento de Andrade – principal testemunha de acusação contra Agnelo Queiroz sobre desvio de dinheiro do Ministério do Esporte – confirmou, em todos os depoimentos, ter pessoalmente entregado R$ 256 mil a Agnelo. Em um vídeo a que ÉPOCA teve acesso, Andrade descreve com detalhes como fez dois saques no Banco de Brasília, transportou e entregou o dinheiro ao atual governador.
Andrade sabe mais. Na gravação, ele liga as fraudes no Esporte ao Ministério do Trabalho. Andrade afirma que notas frias foram usadas para justificar despesas fictícias em convênios do programa Primeiro Emprego. O maior convênio apontado por Andrade, de R$ 8,2 milhões, foi firmado com a Fundação Oscar Rudge, do Rio de Janeiro. Andrade, que morava em Brasília, afirma ter ido ao Rio de Janeiro para sacar dinheiro da conta de um fornecedor da fundação, uma empresa chamada JG. Ele diz que passava os valores para representantes da entidade. A presidente da fundação, Clemilce Carvalho, diz que a JG foi contratada por pregão e prestou os serviços. Filiada ao PDT, mesmo partido do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, ela foi candidata a deputada federal em 2006. Lupi está ameaçado de perder o emprego na reforma ministerial, planejada para o início de 2012. Os ministérios do Esporte e do Trabalho têm, em comum, o fato de ser administrados há anos pelos mesmos partidos da base de apoio ao governo federal. O modelo dá sinais de que começa a ruir
A Polícia Federal saiu semana passada em busca de Daniel Almeida Tavares e Marília Coelho Cunha envolvidos no processo da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária que corre em segredo de justiça. Os dois operadores de um esquema de propina na Agencia de Saúde do Governo Federal , durante a gestão do atual governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz, estão foragidos. A surpresa foi que Marília Coelho Cunha foi nomeada nesta 4ª feira, para um cargo no Governo do Distrito Federal, conforme o Diário Oficial de 19 de outubro de 2011, seção 2, página 36, mas está desaparecida.
A Polícia também não sabe de Daniel, mas o ex-funcionário do Laboratório União Química tem uma história para contar. Num fim de semana, quando Agnelo Queiroz estava à frente da Anvisa, recebeu Daniel em sua mansão no Lago Sul. O governador do DF, levou Daniel para uma biblioteca no subsolo de casa, onde pouquíssimas pessoas costumam frequentar. Daniel estava preparado para documentar o encontro desde a entrada na mansão de Agnelo. Alí, o rapaz entregou R$ 75 mil ao então dirigente da Anvisa como pagamento de propina efetuado pelo Laboratório União Química.
Agnelo reclamou a Daniel. Sentiu falta de R$ 5 mil na quantia combinada. O rapaz prometeu ao político depositar o dinheiro no dia seguinte. E o fez, através de transferência bancária via HSBC. Deste modo, Daniel recolheu mais uma prova contra Agnelo Queiroz.
Outro episódio que Daniel tem registrado é o presente que a União Química deu para o filho de Agnelo Queiroz: um Pálio branco. Agnelo perguntou a Daniel o valor do carro e foi informado: R$ 30 mil. O Governador pediu que Daniel então vendesse o veículo e depositasse o dinheiro em sua conta bancária. O que foi feito em seis parcelas semanais, no mesmo HSBC.
A história de Marília Coelho Cunha é tão interessante quanto a de Daniel e envolve a mesma União Química. Marília foi Gerente de Inspeção e Controle de Insumos da Anvisa e responde processo de favorecimento ilícito ao Laboratório.
Essas informações não estão exclusivas de Daniel. Fazem parte também de um dossiê que o soldado quatro estrelas João Dias Ferreira tem em suas mãos sobre seu camarada Agnelo Queiroz. João Dias procurou Daniel e recolheu o material para tentar salvar, na época o então amigo de PC do B.
Sabe-se que Marília mora numa mansão no condomínio Ville de Montagne, no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, que ganhou de presente da União Química, através de Agnelo e Rafael. Foragida da Polícia Federal, por conta do processo da Anvisa, a moça foi nomeada para presidir comissão de licitação na Secretaria de Saúde na última 4ª feira, mas já se sabe que não pretende comparecer ao trabalho, pois está novamente sob a guarda de Agnelo e Rafael, o todo poderoso Secretário do DF.
Daniel Almeida Tavares também ganhou de presente um cargo público: foi nomeado para um cargo na Administração do Plano Piloto, mas preferiu não aceitar e pediu pra sair.
O médico do interior da Bahia Agnelo Queiroz chegou a Brasília com um objetivo: ser político. Pra começar, filiou-se ao PCdoB e juntou-se ao colega e neurologista Rafael para a escalada iniciada em 1990 na Câmara Legislativa do DF. Em janeiro de 2003 o doutor em seu terceiro mandato de deputado federal pelo PC do B é nomeado pelo presidente Lula , ministro do Esporte. Um Ministério sem grandes projeções, com um caixa muito baixo, mas com grandes possibilidades.
Os holofotes começavam a acender com a Lei nº 10.264, conhecida como Lei Agnelo/Piva, de 16 de julho de 2001, que estabelece o repasse de 2% da arrecadação bruta de todas as loterias ao Comitê Olímpico Brasileiro. Agnelo colhia, como Ministro dos Esportes, rendimentos que plantou no Congresso Nacional E além disso, ganhou de presente os Jogos Pan Americanos, responsáveis por muito de seu sucesso, mas o começo de sua derrocada com prestação de contas do PAN.
Para o Ministério do Esporte, Agnelo levou seu fiel escudeiro e colega médico neurologista Rafael Barbosa, o mentor intelectual dos esquemas desde seu primeiro mandato como distrital, e um velho camarada do PC do B, truculento esportista de Kung Fu, João Dias Ferreira, para implantar o projeto Segundo Tempo. Nascia ali um dos mais promissores esquemas de Caixa 2, da Esplanada dos Ministérios, a partir de ONGs ( Organizações Não Governamentais) criadas especificamente para desvio de verbas públicas.
O então ministro, com os camaradas do PC do B, Rafael, João Dias e o secretário geral Orlando Silva e o cofre do partido cheio, ganhou mais ainda a simpatia do presidente da República, e junto com isso o convite para disputar a vaga de senador pelo Distrito Federal, como petista.
O pensamento de Agnelo estava voltado para o Senado Federal, onde em 2006 perde para o ex-governador do DF, Joaquim Roriz, numa complicada disputa que acabou por derrubar Roriz e levar ao cargo de senador o suplente Gim Argelo, apesar do processo de Agnelo, tentando anular a eleição de Roriz e chegar ao cargo como segundo colocado.
No PT, sem mandato, Agnelo vira um corpo estranho. É preciso mostrar serviço. A jogada passa a ser levar para o PT o Caixa 2 montado no Ministério do Esporte para o PCdoB, onde o partido deixou Orlando Silva, com o segredo do cofre. Agnelo articula e fecha vários acordos, blinda a Operação Shaolin no Senado, através de Gim Argelo, que troca o mandato de senador pela blindagem de Agnelo no Senado e o apoio para o Governo do DF.
Em outubro de 2007, Agnelo chega a Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária,e começa a se cacifar mais no PCdoB. Monta um novo esquema de arrecadação de Caixa 2,com os Laboratórios, que passa a girar garantindo-lhe mais a confiança do presidente Lula e a caminhada para o Governo do Distrito Federal. O cuidado de Agnelo com o Caixa 2 fez com que o médico ganhasse mais força política.
Agnelo é eleito governador do DF, pelas mãos de Lula e de um PT dividido quanto a opção do ex-presidente. Acordos e alianças envolvendo o PCdoB , que garantiu a galgada de Agnelo ao GDF, começaram a bater de frente com as alianças do PT nacional e local. Os interesses das alianças de Agnelo se embaralharam.
Mas o trio Agnelo, Rafael e João Dias não podia mais parar. A solução de Agnelo foi pegar o truculento e ameaçador João Dias, seu fiel escudeiro e transformá-lo no operacional da transferência do esquema de Caixa 2 do PCdoB para o PT, dentro do Ministério do Esporte. O soldado partiu pra cima de Orlando Silva, pressionando, o ministro do Esporte, seu camarada, e, fez chegar as mãos do Coronel Buarque, homem de confiança da presidente Dilma Housseff, o relatório com toda a Operação Shaolin e o envolvimento de Orlando Silva e do PCdoB no esquema das ONGs.
A presidente Dilma, antes de partir para viagem internacional, em companhia de vários ministros, entre eles o próprio Orlando, questionou o líder do PCdoB, deputado Aldo Rebelo, acerca das atitudes do ministro do Esporte. Aldo preferiu não falar sobre o assunto e chamou a responsabilidade para Orlando.
Agnelo foi preservado o tempo todo por João Dias, que não pretendia matar a galinha dos ovos de ouro, no caso, o agora governador do Distrito Federal, que mudou a vida do simples esportista comunista para um bem sucedido empresário dos esportes, com direito a carros importados e mansão em cidade satélite de Brasília. O alvo principal era Orlando Silva. Mas o ministro resolveu não segurar o problema sozinho.
O escândalo e ameaças do soldado com poderes de general 4 estrelas, João Dias, revelado pela Revista Eletrônica Quidnovi com exclusividade no dia 11 de outubro passado, vem a tona através de matéria da Revista Veja no fim de semana seguinte, quando o ministro se encontra em Guadalajara para abertura dos Jogos Pan Americanos, e a partir daí repercute em toda a imprensa.
O ministro do Esporte então resolve não segurar sozinho a Operação das ONGs no programa Segundo Tempo, e mostra publicamente de onde partiram as pressões. Orlando Silva puxa o ex-companheiro do PCdoB e agora governador do DF pelo PT, Agnelo Queiroz, e coloca o médico sob os holofotes da mídia.
O PC do B acusa que há dedos do PT nesta confusão toda e a base aliada do governo está ameaçada. Para aplacar a crise, sabe-se que o Palácio do Planalto quer manter o Ministério do Esporte sob a tutela do PC do B. E o PT sabe que tem dedos do partido nessa história. Mas os dedos que aparecem no PT são os do Governador do DF Agnelo Queiroz , considerado um petista de última hora, e desafeto de vários companheiros.
Agnelo Queiroz tem digitais em todos os lugares por onde passou: Anvisa, Ministério do Esporte e GDF. E o que está vindo a tona a agora é trajetória política do maior operador do Caixa 2 do PCdoB. Trajetória política que se mistura com processos e assassinatos de crimes de queima de arquivos.