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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O ENEM E A CHIBATA AUTORITÁRIA

Alexandre Barros* - O Estado de S.Paulo
O Brasil está mal em educação e, pelo visto, quer melhorar seu desempenho com o chicote do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Primeiro, criou um exame que reflete a incapacidade do Estado de fiscalizar a qualidade do ensino. Se não conseguimos melhorar a qualidade do ensino, chibata nos iludidos. Afinal, a culpa não é sempre do estudante. O Ministério da Educação (MEC) prefere olhar pelo retrovisor a olhar pelo para-brisa. Os educatecas (obrigado, Elio Gaspari), já que não resolvem o problema com reais soluções, fa-lo-ão punindo as vítimas.
Há gente que apenas não quer fazer o Enem. É uma liberdade assegurada pela Constituição, mas os educatecas põem todos no mesmo vagão. Destino: um campo de condenados. Talvez queiram imitar (mal) a Coreia do Sul. Lá, um exame feito no fim do curso secundário define o futuro de um estudante: se será um felizardo por toda a vida - seja na burocracia governamental, seja nos chaebols, os grandes conglomerados industriais - ou um pária para sempre, porque não se saiu bem num exame. A Coreia está repensando o que a revista inglesa The Economist (26/10) chamou de corrida armamentista: todos correm numa raia só para se saírem bem na prova que definirá a universidade - mas nem a economia nem a felicidade se resumem a um diploma universitário.
No Brasil, quem vai para a burocracia governamental regulará cada vez mais a vida de todos nós. Quem vai para a empresa privada terminará junto com muita gente no topo e pouca gente para fazer o que é importante no processo produtivo. De ambas as coisas se queixam muito os empresários brasileiros e são eles que fazem o Brasil crescer.
Na Coreia do Sul, menos estudantes estão optando por fazer o exame e aceitando que a felicidade pode estar fora daquilo que o bom resultado nele garante. A pressão é simplesmente muito grande e talvez não compense os sacrifícios.
Nos Estados Unidos a democratização da universidade começou com o fim da 2.ª Guerra Mundial. Todos os veteranos da guerra tiveram acesso a um curso universitário ou profissional e puderam melhorar de vida. Esse sistema subsistiu até cerca de 2005. Aí a economia disse: basta! Precisava de mais gente treinada para cumprir as tarefas de nível médio. Para isso a universidade é demais. Hoje, para muita gente, não compensa endividar-se para fazer um curso universitário que já não garante um emprego mais bem remunerado.
Em conversas com empresários brasileiros, estes dizem querer menos regulação e mão de obra mais competente no nível médio e operacional, "onde as coisas acontecem". Melhor um college de dois anos ou reciclagens periódicas. Com matérias específicas, universitárias ou não, concluídas num curso via internet, servem melhor às necessidades das empresas, que estão sempre sendo forçadas a inovar, e aos empregados, que precisam estar atualizados.
Há alguns anos uma universidade brasileira ofereceu cursos com aulas das 11 da noite à 1 da madrugada. Os educatecas chiaram: ninguém pode estudar a sério nesse horário, disseram. Depois de uma longa queda braço cederam e os cursos são um sucesso. Enquanto isso, o Senai (que, felizmente, não é controlado pelos educatecas) passou a oferecer cursos ligados à ferramentaria, das 4 da madrugada às 7 de manhã, no Complexo do Alemão. Havia fila na porta e a moçada que de lá saía tinha emprego garantido porque e economia precisava. Felizes eles, que não eram regulados pelo MEC.
Quem toma decisões em Brasília muito pouco contato tem com quem produz riqueza e paga impostos que sustentam o governo. Resultado cruel: mais políticas que saem da cabeça de quem não tem nenhuma experiência no processo produtivo e prejudicam a satisfação das necessidades reais da produção. A ânsia regulatória-fiscalizatória desvia atenções e recursos, que deviam ser canalizados para o crescimento, para atividades cartoriais e certificatórias que pouco ou nada rendem e muito atrapalham.
Steve Jobs, da Apple, e Bill Gates, da Microsoft, largaram a universidade e por isso puderam inovar. Peter Thiel, que ficou bilionário com o PayPal e com o Facebook, criou, por meio de uma fundação com seu nome, 20 bolsas por ano para estudantes com menos de 20 anos de idade largarem cursos universitários e se dedicarem a desenvolver inovações, orientados não por burocratas governamentais, mas por empresários de sucesso que produzem as coisas que nos fazem mais felizes. Esse choque de realidade faria efeito aqui, mas cá nem Jobs nem Gates poderiam ensinar em nenhuma faculdade porque não são formados por uma...
A Coreia pensa em "descomprimir" o sistema credencial. No Brasil, educatecas criam mais obrigações para "comprimir" mais os adolescentes com políticas que estão sendo abandonadas em outros países. Burocratas ouvem falar de programas que parecem ser muito bons em outros lugares e os transplantam para o Brasil sem saber de suas disfuncionalidades. Ou seja, criam políticas sem pés nem cabeça, "macaqueadas" de outros lugares onde já estão sendo abandonadas, para trazê-las para cá como se pudessem ser panaceias.
As regras do Enem estão cada vez mais rígidas (como tudo o que é administrado por burocracias). Agora, além de esse exame se estar tornando obrigatório, ainda querem colocar mais umas bolinhas de ferro nas tiras da chibata, inventando multas para quem se inscrever e não aparecer no dia da prova! Da cabeça de quem sairia uma coisa dessas?
Para quem ainda não se deu conta, uma ditadura se baseia no autoritarismo burocrático. Viver num sistema em que sempre os outros obrigam os uns a fazer o que os eles querem explica um pouco do que é o "tudo isso que está aí" contra o que as pessoas protestam.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A ESCOLINHA DA DOUTORA DILMA


A doutora Dilma entrou pela borda no debate da própria sucessão, mandando um recado às pessoas que pretendem ocupar sua cadeira: “Elas têm que estudar muito.”
É o velho discurso da competência. Quem está no governo desqualifica quem não está sob o argumento do eu-sei-do-que-estou-falando. Foi usado à exaustão para desqualificar um torneiro mecânico monoglota, mal relacionado com a gramática, cuja biblioteca cabia numa mochila escolar. É a ele que a doutora deve a presidência.
Todos os governos prometem coisas que não cumprem ou metem-se em projetos fracassados. Até aí, tudo bem. O que a doutora não precisa é recorrer à desqualificação como a lavanda mistificadora. Se é assim, conviria arrolar dois temas que os candidatos deveriam estudar. Tendo sido insuficiente o estudo da doutora, poderiam desatar os seguintes nós:
1) Trem-bala
Trata-se de um projeto que desde 2007 está debaixo da asa da então chefe do Gabinete Civil. Já torrou R$ 65 milhões em planos, leilões adiados e modelagens arquivadas. A primeira estatal a tratar do projeto foi a Valec. Seu presidente, Doutor Juquinha, deixou o cargo e passou pelo cárcere por conta de outros malfeitos.
2) Enem
Em 2009, quando o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou a criação de um exame federal que substituiria o vestibular, o coração da iniciativa estava em oferecer aos jovens dois exames anuais. Isso acabaria com uma seleção selvagem que obriga um garoto de 18 anos a jogar um ano de sua vida numa manhã de prova. A cada ano a promessa foi descumprida e renovada, inclusive pela doutora Dilma. Haddad foi ser poste em São Paulo, Lula elegeu-o prefeito e seu substituto, Aloizio Mercadante, disse que prefere fazer creches. Tem até o ano que vem para dizer quantas creches fez e explicar por que dois presidentes da República prometeram algo que não entregaram.
Nos dois casos, a questão é de estudo, mas quem não estudou foi a doutora. No do trem-bala, se tivesse estudado, não teria perfilhado a proposta da Valec, que era uma maluquice em estado puro. O trem-bala sairia do Rio e chegaria a São Paulo sem parar em lugar algum. Já no caso do Enem, deu-se o contrário. Prometeu-se algo factível, mas não se cumpriu por falta de estudo e, sobretudo, de trabalho.
A essa lista de incapacidades poderiam ser somados os leilões das concessões de portos, estradas e aeroportos. Isso para não falar da promiscuidade que resulta no financiamento público da medicina privada. Em todos os casos, paira sobre as nomeações para as agências reguladoras o espírito da porta giratória condenada pelo comissariado quando estava na oposição e estimulada quando chegou ao governo.
Desse jeito, a campanha pela reeleição da doutora pode ter um samba de Ismael Silva como fundo musical:
“Foi tanto bis que eu já não podia atender.
No entretanto, o que a plateia queria
era que eu cantasse, cantasse até aprender.”
Elio Gaspari 

sábado, 29 de outubro de 2011

OS ENEMGANADOS

Estudantes protestam nas ruas e pedem a saída do ministro Haddad. Justiça dá três dias para MEC se pronunciar sobre o pedido de anulação do Enem em todo o país.

Surge nova denúncia de vazamento de questões em Minas Gerais. MP estipula prazo para que a autarquia do MEC se posicione

Adenúncia de que uma questão igual à cobrada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi aplicada em um simulado do colégio Bernoulli, em Minas Gerais, pode derrubar a tese defendida pelo Ministério da Educação (MEC) de que o problema do vazamento está restrito à escola particular Christus, em Fortaleza. Nos últimos dias, a pressão por um tratamento nacional às falhas no exame ganhou corpo, apesar de o MEC ainda manter uma posição defensiva. Em Fortaleza, cerca de 300 estudantes realizaram, na sede do Ministério Público Federal, um protesto intitulado Enemganados.

Ontem, a Justiça Federal do Ceará estipulou que, até segunda-feira, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) tem que se pronunciar sobre o pedido de cancelamento total ou parcial do Enem, feito pelo procurador da República Oscar Costa Filho. Responsável pela vara, o juiz Luis Praxedes Vieira da Silva reconhece o caráter de urgência da medida e disse que decidirá com ou sem manifestação do governo. O MEC afirmou que vai recorrer da decisão.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse ter a convicção de que os professores do colégio Christus, em Fortaleza, foram os responsáveis pela reprodução e pela distribuição das questões do pré-teste aos alunos. Segundo ele, com base no monitoramento das redes sociais, é possível se chegar a essa conclusão. Haddad ainda descartou a possibilidade de as apostilas terem circulado em outras escolas.

Investigações preliminares da Polícia Federal (PF) apontam que as nove questões copiadas estavam em dois cadernos diferentes do pré-teste. Segundo a assessoria do MEC, dois alunos do colégio Christus faltaram no dia da aplicação do pré-teste. Por isso, há suspeitas de que o vazamento teria vindo dessas duas provas, que se tornaram "extras" no momento da aplicação. "Já sabemos que a falha aconteceu dentro do colégio (de Fortaleza) e para benefício do colégio. Houve um ato criminoso que não foi cometido pela empresa aplicadora", afirmou o ministério, em nota. Em contrapartida à declaração, a assessoria de imprensa da PF afirma ainda ser cedo para apontar culpados no caso, já que a investigação está no início.

Para o defensor público federal Ricardo Salviano, o MEC não pode se eximir da responsabilidade dos processos que envolvem o Enem. "De qualquer forma, se a prova vazou, houve falha. E o responsável pelo exame sempre será o Inep. A responsabilidade em garantir uma organização e uma fiscalização adequada do exame como um todo é do ministério", avalia. A Ordem dos Advogados do Brasil também defendeu, ontem, a anulação do exame. Para o presidente da entidade, Ophir Cavalcanti, não há garantias de que as provas que vazaram ficaram restritas a um colégio ou a um estado.

Mais pressão
Após pedido do Ministério Público Federal do Ceará para anular o Enem 2011, a Defensoria Pública da União confirmou ontem que fez a mesma recomendação ao Inep. O Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep-MG) também entrou com pedido de anulação do exame em todo o país depois que mais de 100 escolas do estado entraram em contato com a instituição para cobrar medidas. "Nós acreditamos que, com a velocidade da internet e os telefones celulares, essas informações podem ter se espalhado rápido demais", disse Emiro Barbini, presidente do Sinep-MG.
Em Fortaleza e nas cidades gaúchas de Porto Alegre e Santa Maria estudantes iniciaram o que eles próprios prometeram, em redes sociais da internet, tratar-se de uma onda de protestos contra o Enem.

Na capital cearense, com nariz de palhaço, faixas e pinturas no rosto, os estudantes pediram a saída do ministro. Outros 300 manifestantes marcharam no interior do Rio Grande do Sul, com palavras de ordem contra o exame. Parte do grupo pedia o retorno do vestibular nas universidades federais ou a criação de provas semelhantes ao Enem, mas regionalizadas. Na capital gaúcha, os estudantes marcaram presença, em forma de protesto, na abertura 57ª edição da Feira do Livro

Fonte: Correio Brasiliense

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PARAFUSO SOLTO



Candidato de Luiz Inácio da Silva para disputar a prefeitura de São Paulo em 2012, o petista Fernando Haddad, ministro da Educação, seguiu o roteiro e cumpriu o papel esperado. Apareceu diante de câmeras e microfones, com a desfaçatez que lhe é peculiar, para se eximir da culpa pelo mais novo escândalo envolvendo o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem.

Em entrevista, Haddad disse que para o Ministério da Educação está claro que dois dos 36 cadernos de pré-teste do Enem foram reproduzidos e distribuídos aos alunos pelos professores do Colégio Christus, em Fortaleza. “Os professores recomendavam aos próprios estudantes a não divulgação desses cadernos, porque as questões ali contidas, provavelmente algumas delas cairiam na prova”, declarou o ministro.

Há dias, o próprio Fernando Haddad declarou em público o seu desejo de terminar com os vestibulares, transformando o Enem como via de acesso ao ensino superior. Aqui no ucho.info o ministro não encontrou guarida para sua proposta, pois o nível de ensino no País é vergonhosamente baixo e os vestibulares, ainda que não isonômicos, são a derradeira esperança de que teremos no futuro uma ínfima parcela da sociedade bem instruída e capacitada para os desafios que o futuro há de apresentar.

Não é a primeira vez que o Enem é alvo de escândalos, todos com a rubrica do ministro Fernando Haddad, que sonha em sepultar os vestibulares, mas não consegue enxergar que há muito não se tem notícia de qualquer irregularidade na Fuvest, conhecido processo seletivo aplicado em São Paulo.
Como disse certa feita um ousado e fanfarrão filósofo de botequim, “nunca antes na história deste país”.

Fonte: Ucho.Info

FIASCO DO ENEM DEIXA HADDAD EMPAREDADO.

Pré-candidato à prefeitura de São Paulo, o ministro da Educação, Fernando Haddad, enfrenta um teste de fogo. Ele passou os últimos dois dias dando embaraçosas explicações sobre o novo vazamento no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), um vexame que se repete pelo terceiro ano consecutivo. Enquanto estudantes organizam manifestações pelo país, o Ministério Público Federal no Ceará entrou na Justiça: quer anular a prova para todos os 5,3 milhões de inscritos. Hoje, a Defensoria Pública da União deve fazer a mesma recomendação ao instituto responsável pelo exame. No Palácio do Planalto, comenta-se que o agravamento do caso - com a possível anulação do Enem, que custou RS 238,5 milhões - pode complicar o futuro político do ministro.


Pressão por um tratamento nacional às falhas no Enem põe o ministro da pasta em xeque. No Planalto, fala-se na possibilidade de ele ter que rever os planos políticos
Despachos internos e uma viagem cancelada. O ministro da Educação, Fernando Haddad, preferiu passar os últimos dois dias dando poucas explicações sobre o novo vazamento no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que, pelo terceiro ano consecutivo, apresenta falhas em sua organização.

Apesar de algumas mudanças na agenda como ministro, ele confirmou presença no penúltimo fim de semana dos encontros entre os pré-candidatos à prefeitura de São Paulo nas caravanas zonais, organizado pelo Diretório Municipal do PT. Mas o futuro como pré-candidato à prefeitura e a permanência na pasta passam por um teste de fogo. Dentro do Palácio do Planalto, a avaliação é de que, caso o problema do Enem tome proporções nacionais, Haddad poderá ter que repensar a carreira política.

O entendimento palaciano é de que, por enquanto, o ministro da Educação está blindado no episódio do Enem, já que o caso ainda está restrito ao Ceará, distante do eixo Rio-São Paulo. Mas a crônica do vazamento no exame vem ganhando fôlego. O Ministério Público Federal (MPF) no Ceará entrou ontem com pedido para anular a prova em todo o país. E a Defensoria Pública da União (DPU) vai recomendar hoje ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) a anulação das questões vazadas para todos os estudantes ou a anulação do exame.

O instituto responsável pelo exame, que custou R$ 238,5 milhões, deve receber a notificação do MPF no Ceará dentro de alguns dias. "O Inep quer corrigir uma violação de igualdade com uma discriminação odiosa, apontando os alunos do colégio em Fortaleza como os únicos responsáveis. Não podemos dizer que foram só esses candidatos que tiveram conhecimento antecipado da prova. Os efeitos são nacionais", ponderou Oscar Costa Filho, procurador da República no Ceará.

No caso da recomendação da DPU, o instituto terá um prazo de 10 dias para acatar as ações. Segundo o titular do Ofício de Direitos Humanos e Tutela Coletiva, o defensor público federal Ricardo Salviano, a medida adotada pelo Ministério da Educação (MEC) — de limitar a anulação da prova aos estudantes do Colégio Christus — é injusta.

"O concurso é nacional e tem efeitos nacionais. Sempre que acontece algum problema, o MEC quer tratar de forma individualizada. Mas, a partir do momento em que o Enem deixou de ser apenas uma avaliação para ser também um processo seletivo, deve respeitar os processos de isonomia", afirma Salviano. O defensor deverá entrar com ação na Justiça Federal contra o Inep caso a recomendação não seja seguida.

Prejulgamento
A pressão pelo tratamento nacional à polêmica envolvendo o Enem deste ano vem também da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A Comissão de Educação e Cidadania da seccional do Ceará afirmou ontem que o cancelamento das provas dos alunos do Christus se configurou como um prejulgamento, pois foi feito em pouco tempo. "O MEC tentou arranjar um bode expiatório para não assumir que, pelo terceiro ano consecutivo, houve alguma fraude. Trataram os alunos do Christus de forma diferenciada", afirmou o presidente da comissão da OAB-CE, Edmir Pereira Martins.

Na única entrevista que o ministro concedeu até o momento, Haddad disse ter convicção de que os cadernos do pré-teste, aplicado no Colégio Christus, foram reproduzidos e distribuídos aos alunos por funcionários da escola. "A busca por isonomia é o pilar do Enem, ele tem que garantir isso. Seja quando o aluno é prejudicado por uma ação a qual ele não deu causa, seja quando ele é favorecido por uma ação que ele não deu causa. Não se trata de punição, mas de busca de igualdade de condições", argumentou.

Os 639 alunos da escola particular de Fortaleza poderão refazer o Enem em 28 e 29 de novembro, quando a população carcerária também será submetida ao exame. Um dia antes, ocorrerá o primeiro turno das prévias do PT para a prefeitura de São Paulo. Até o momento, além de Haddad, Marta Suplicy, Eduardo Suplicy, Jilmar Tatto e Carlos Zaratini anunciaram que farão parte da sondagem.

Fonte: Ucho.Info

domingo, 18 de setembro de 2011

AS VAIAS PARA HADDAD.

Uma semana depois de o Enem de 2010 ter mostrado uma acentuada queda no desempenho das 50 melhores escolas de São Paulo, a cidade na qual pretende candidatar-se a prefeito em 2012, o ministro da Educação, Fernando Haddad, foi vaiado na Faculdade de Educação da USP e se envolveu em bate-boca com estudantes que criticavam a situação de abandono de várias instituições federais de ensino superior.



A expansão das universidades federais é uma das bandeiras que Haddad pretende usar em sua campanha eleitoral e os estudantes que o vaiaram eram, justamente, supostos beneficiários de sua política. Criadas com base mais em critérios de marketing político do que acadêmicos, tendo em vista a eleição presidencial de 2010, várias universidades federais foram inauguradas às pressas em instalações improvisadas, sem laboratórios e professores em número suficiente.

Por isso, os grupos e facções estudantis que não se deixaram cooptar pelo governo federal - que converteu a UNE numa entidade chapa branca, por meio de generosos repasses financeiros - definiram uma pauta de reivindicações e um cronograma de protestos contra Haddad. Também acusam o ministro de não reivindicar um aumento mais expressivo do orçamento da educação.

Nesta década, o País tem investido, anualmente, 5% do PIB em ensino. No Plano Nacional de Educação, que tramita lentamente no Congresso, o governo propôs aumentar os investimentos para 7% do PIB. As organizações estudantis reivindicam 10%. Para tentar granjear a simpatia dos estudantes da USP, Haddad chegou a invocar, sem sucesso, sua condição de ex-líder estudantil. E ainda tentou comparar os gastos com educação dos governos Fernando Henrique e Lula. Segundo ele, o orçamento do MEC subiu de R$ 32,1bilhões para R$ 69,7 bilhões, nos seis anos em que está à frente da pasta. O problema da gestão Haddad, portanto, não é de escassez de recursos, mas de falta de competência administrativa.

Com o objetivo de mudar o foco do noticiário, que destacava o quadro desolador em que se encontra o ensino médio, revelado pelo último Enem, Haddad agora defende o aumento do tempo de permanência dos alunos na escola, seja ampliando de 200 para 220 o número de dias do ano letivo, seja elevando a carga horária diária.

Pedagogos e dirigentes de escolas afirmaram que a ampliação da jornada diária é a medida mais recomendada para a melhoria de qualidade do ensino fundamental e médio, mas lembraram que ela é de difícil implementação, pois não houve investimento na melhoria da infraestrutura da rede pública nem na mudança dos currículos. O ministro disse que já começou a discutir sua proposta com especialistas e secretários de educação, mas entidades do setor informaram que não foram procuradas para tratar do tema.

Esta tem sido a característica da gestão de Haddad à frente do MEC. Ele agita bandeiras vistosas, que lhe permitem sonhar com voos políticos mais altos, mas que carecem de eficácia e desperdiçam recursos escassos em programas sem a necessária conexão entre si. O ministro já defendeu a democratização do acesso ao ensino superior, sem tratar seriamente do ensino fundamental. Ele defendeu propostas irrealistas, como a adoção do tempo integral no ensino básico, quando deveria cuidar de questões fundamentais, como melhorar a qualidade do ensino de português, matemática e ciências. Endossou a introdução de filosofia e sociologia no ensino médio, sem que o País disponha de professores dessas disciplinas em número suficiente. Estimulou a ampliação desenfreada de escolas técnicas, sem que a rede já existente tivesse recursos suficientes para atender às despesas de custeio. E, ao tentar utilizar o Enem para unificar os vestibulares das universidades federais, desmoralizou esse mecanismo de avaliação.

A constrangedora vaia dos alunos da USP para Haddad não causa surpresa. Ela é a reação natural a uma gestão errática, demagógica e, principalmente, inepta.

Fonte: O Estado de São Paulo

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O MINISTRO INEPTO E A EDUCAÇÃO.

É uma sopa de letrinhas, siglas e incompetência: MEC, Inep, Enem, Sisu... A lista de falhas de organização e de método cometidas pelo Ministério da Educação (MEC) não para de crescer. De tão graves, elas provocaram a derrubada política de Fernando Haddad. Citado na cena política como uma das possíveis opções de Lula para sua sucessão logo após sucessivos escândalos terem detonado os planos de José Dirceu e Antonio Palocci, Haddad viu seu prestígio cair diante de sua própria ineficiência, escancarada no caso do roubo das provas do Enem 2009 e nas falhas ocorridas com o exame de 2010. Inexplicavelmente, foi reconduzido ao cargo pela presidente Dilma.


Mal o mandato da presidente Dilma Roussef teve início, lá veio de novo o Ministério da Educação. Desta vez, o problema aconteceu com o Sisu - o sistema de seleção unificada para ingresso no ensino superior, com base no Enem. As dificuldades técnicas foram inúmeras: os alunos não conseguiam acessar a base de dados, não podiam fazer suas opções, passavam a madrugada acordados para entrar no sistema... Para piorar, denunciaram a possibilidade de invasão nos seus perfis.

Desta vez, medidas drásticas foram tomadas. Haddad caiu? Não. A opção foi demitir Joaquim Soares Neto, o presidente do Inep, instituto responsável pela organização do Sisu. É de se perguntar: quem é mais responsável pelos erros do Inep, o presidente do instituto ou quem o colocou lá? Jabuti não sobe em árvore, ensina um velho ditado da política.

A educação do país ainda está muito longe do ponto ideal. Há, inclusive, uma enorme confusão entre educação e ensino técnico - durante a campanha eleitoral, os candidatos sempre acenavam com dados sobre cursos profissionalizantes quando eram questionados sobre as propostas para o setor. Mas também é necessário admitir alguns avanços. Entre eles, o Enem - iniciado no governo Fernando Henrique Cardoso e revigorado no governo Lula -, o Prouni e até mesmo o Sisu. Mas esses avanços não podem esconder as falhas clamorosas, cometidas pelo ministério comandado por Fernando Haddad.

Logo na sua posse, a presidente Dilma afirmou claramente sua opção em apostar fortemente na melhoria da educação nacional. Nada pode ser mais importante para o desenvolvimento consolidado da Nação, sem dúvida. Por isso, as palavras da presidente merecem aplauso, elogio, apoio. Mas é difícil acreditar na concretização desse projeto quando se olha na fieira interminável de falhas cometidas recentemente pelo Ministério da Educação. Haddad pode surpreender e fazer desse seu "segundo mandato" algo primoroso? Pode - e até devemos torcer para isso ocorrer. O problema é que nada o credencia nessa prova de competência. Muito pelo contrário. Se tivesse de passar por um exame de aptidão pública, o ministro já teria sido reprovado.

Fonte: A Gazeta.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A ROTINA DE VAZAMENTO DO ENEM.

“Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”.

(Henry Ford)

A mídia amestrada e o INEP, sugestiva abreviatura que materializa na sua sigla a total INÉPcia do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, relatam apenas problemas de erros de impressão num dos cadernos das provas realizadas no dia seis de novembro. A quebra de sigilo sobre o tema da redação só veio a público graças à coragem e a determinação de jornais independentes como o Estadão. Até quando os estudantes brasileiros serão enganados por exames cujas autoridades se mostram totalmente incapazes de garantir o sigilo. O ENEM, uma iniciativa extremamente válida, vem acumulando desde a sua criação, uma sucessão de vazamentos e falhas que expõem ao Brasil e ao mundo a incompetência e a falta de ética de uma sociedade e de um governo que perderam, há muito, a noção do dever, da dedicação e da honra.

Pais corruptos, omissos e coniventes ao justificar suas violações ou a de seus filhos, expõem as vísceras de uma coletividade enferma. As agressões gratuitas promovidas, em São Paulo, por jovens da classe média alta chocaram o país. A cena da desvairada e irresponsável mãe justificando a atitude de seu “filhinho”, que atacou um rapaz com lâmpadas fluorescentes, estarreceram e revoltaram a todos os cidadãos de bem do país. A falta de limites e a certeza de impunidade de quem pode contar com bons advogados são responsáveis pela virulenta falta de consciência e responsabilidade que se alastra por nossa pobre nação.

O ‘TER’, hoje, tornou-se mais importante do que o ‘SER’. Muitos desses “deficientes morais” desconhecem a necessidade de se respeitar o próximo e de aprender e amadurecer com as derrotas. Fracassar perante intricados obstáculos tem muito mais valor do que alcançar sucesso frente a vitórias fáceis. O importante não é se chegar ao topo ou alcançar a vitória, mas o que se fez para lá chegar.

- Nota do INEPto

O INEPto, em nota oficial, continua insistindo em considerar válidas as provas apesar dos novos fatos.

“O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira comunica que as novas provas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza, para os alunos que foram prejudicados por erros de impressão nas provas realizadas no dia 6 de novembro passado, serão realizadas no próximo dia 15 de dezembro às 13 horas. Informa ainda que segue o trabalho de análise e reanálise das 116.626 atas dos locais de prova, com o objetivo de identificar os estudantes que, por algum motivo, não tenham substituído as provas com problemas de impressão. Foram identificados, até o momento, 2.817 estudantes, menos de 0,1% do total”.

- PF Quebra Sigilos e Refaz Roteiro de Vazamento do ENEM

O Estadão - 24 de novembro de 2010.

Candidato de Petrolina (PE) soube do tema da redação pelos pais, de Remanso (BA); a mãe dele trabalhou na aplicação do exame.

“A Polícia Federal (PF) em Juazeiro (BA), a 502 quilômetros de Salvador, quebrou sigilos telefônicos e teve acesso a arquivos de computador para traçar o roteiro do vazamento do tema de apoio à redação do Enem, no dia 7 deste mês. Eram cerca de 10 horas (horário local) quando a professora de Remanso (BA) Marinilde de Brito Affonso, aplicadora do exame para deficientes visuais no Colégio Ruy Barbosa, abriu a remessa de caderno de provas na presença de sete fiscais. A orientação do Inep, órgão responsável pelo Enem, era de que a conferência do material só fosse feita a cinco minutos do início do exame - às 11h55, no horário local. A checagem das provas deveria ser registrada em ata, o que não ocorreu.

No depoimento em que confessou o vazamento, Marinilde disse à PF que ligou para a casa de sua sogra e repassou ao marido, Eduardo Ferreira Affonso, o tema da redação como sendo ‘trabalho e escravidão’. Mas o título era de um texto de apoio, pois o tema efetivo do exame era ‘O trabalho na construção da dignidade humana’. 10h06. Eduardo começa a pesquisar sobre o assunto ‘trabalho e escravidão’ na internet. Às 10h17, ele liga para o filho Eduardo Ferreira Affonso Júnior, de 21 anos, que faria a prova em Petrolina, no sertão do São Francisco, a 769 quilômetros de Recife. O pai explica a Júnior sobre o vazamento do tema sem contar como soube da informação. O relógio marcava por volta de 11h quando Júnior pediu ajuda a professores do cursinho Geo Petrolina Pré-Vestibular para desenvolver a redação caso fosse sobre trabalho e escravidão. Ele disse aos docentes que o tema havia vazado em São Raimundo Nonato (PI) e ele havia sido informado. O boato se espalhou e outros candidatos recorreram aos professores de português Marcos Freire, Ramón Bandeira e Diego Alcântara.

Depois da prova, os professores deram entrevista a emissoras de rádio e televisão locais informando sobre a possibilidade de vazamento. A PF instaurou inquérito e, após dez dias de investigação, concluiu pela culpa do casal Marinilde e Eduardo. Eles foram indiciados por violação de sigilo funcional e podem ser punidos com 6 anos de prisão. O filho teve a prova cancelada pelo MEC”.

Hiram Reis e Silva

domingo, 14 de novembro de 2010

REZANDO PRA XANGÔ, O ENEM 2011 IRÁ BEM

Nosso Guia disse bem a respeito da catástrofe do Enem: "Se for necessário fazer uma prova, faremos. Se for necessário fazer duas, faremos. Se for necessário fazer três, faremos, mas o Enem continuará a ser fortalecido".


No seu sentido literal, Lula fez mais uma bravata. O Inep e seus educatecas não têm capacitação para organizar uma prova, muito menos três. Para fortalecer o Enem, a doutora Dilma precisa aprender a lição: um MEC de burocratas-companheiros que mandam "A" fazer uma coisa, sabendo que disso resultará uma ordem para "B" e outra para "C", só produzirá novos desastres.

O MEC comprou a aposta do fracasso em abril do ano passado, um mês depois de lançar o Enem/Vestibular, quando anunciou que só realizaria uma prova. Prometera duas. Os educatecas sabiam que com isso mantinham os estudantes sob a velha tensão do vestibular. Se as provas fossem duas, a tensão seria diluída. Esqueceram-se de que concentravam a probabilidade do próprio fracasso.

À época, disseram que em 2010 as provas seriam duas. Recuaram e repetiram o erro.

Para apressar a prova de 2009, o Inep reduziu todos os prazos de elaboração e impressão das provas. Neste ano, apressaram o treinamento dos fiscais.

Em maio do ano passado, o MEC disse que a Polícia Federal cuidaria da segurança do exame. Isso foi feito à la educateca: o Inep mandou um ofício à PF, recebeu de volta outro, informando que ela não estava capacitada nem autorizada para a tarefa. Em vez de ligar o alarme, arquivaram o ofício da PF.

Nenhum dos dois exames naufragou por conta de orientações pedagógicas. Todas as ruínas decorreram de erros logísticos, porque "A" (o MEC) deu uma ordem para "B" (o Inep), que contratou "C" (os consócios Connasel e Cespe/Cesgranrio), e todos acharam que o assunto estava resolvido.

O erro básico de 2009 foi o abandono da segunda prova. Agora, juntaram outro, que continua encravado. A realização da prova em papel é arriscada, megalomaníaca e anacrônica. Se o MEC e o Inep começarem a trabalhar amanhã, em 2011 poderão ser realizados no mínimo dois exames, on-line. Basta copiar o sistema do exame TOEFL americano e expandir o banco de questões de 10 mil para no mínimo 100 mil.

Para isso, será necessário seguir a "oração pra Xangô" proposta por Carlos Lyra e Vinicius de Moraes:

"Pra pôr pra trabalhar gente que nunca trabalhou".

Elio Gaspari

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ENEM 2, o omissão.

O que está acontecendo com o Enem é absolutamente normal.


E nem podia ser diferente. O governo trabalhou duro, de sol a sol, para dar de presente aos brasileiros a eleição de Dilma Rousseff. Como se sabe, os ministros de Lula penduraram o paletó na cadeira e se jogaram na campanha.

Como poderia o ministro da Educação, lá do alto do palanque, enxergar probleminhas numa simples prova de ensino médio?

Vamos pensar grande. O ministro estava olhando para objetivos muito mais nobres, que têm a ver com o futuro do Brasil – e do cargo dele, que ninguém é de ferro.

Fernando Haddad ajudou a eleger Dilma. Contribuiu com seu suor para a permanência do PT no poder. O que o povo quer mais? Que o ministro da Educação, além de tudo, ainda cuide da credibilidade do Enem?

É esse pensamento pequeno-burguês que impede o Brasil de avançar.

O ministro está lá fazendo o trabalho dele, compenetrado nos altos conchavos para ficar mais quatro anos no governo, e vêm os eternos insatisfeitos incomodá-lo com papo de vestibular. O que essa juventude tem na cabeça?

De quebra, ainda estragaram o passeio do senhor Haddad a Moçambique. O ministro estava de malas prontas para embarcar noAeroLula, ao lado do chefe, e teve que ficar na aridez de Brasília, falando de Enem. Ninguém merece.

O pior é que toda essa discussão é inútil. De Moçambique, Lula já declarou que o Enem foi “um sucesso extraordinário”. Por que insistir no tema?

“Até hoje tem gente que não se conforma com o Enem”, afirmou Lula, explicando que há interessados em prejudicar a imagem do exame.

Mas a imagem do Enem está ótima. Os cartões de respostas com as questões trocadas deram até um charme especial à prova. Estava tudo muito careta. As inovações do módulo amarelo, que suprimiam algumas questões e repetiam outras, deram um tom revolucionário ao exame.

Essa gente conservadora não entende nada de revolução.

É disso que a juventude precisa. No momento crucial de sua vida estudantil, buscando vaga na universidade e projetando uma carreira, nada melhor do que dar de cara com uma prova bêbada. É relaxante.

Estão de parabéns o ministro Fernando Haddad e o governo do PT. Pelo segundo ano consecutivo, tiraram o Enem da monotonia. Depois do vazamento e da anulação em 2009, ninguém apostaria na reedição de tanta emoção.

Mas eles conseguiram. Com criatividade e muito suor derramado nos palanques. Ficar no gabinete cuidando de governar é coisa da direita.

Aos queixosos, que ficam no twitter criticando a prova confeccionada pelo Inep(to), o MEC já avisou que estão todos “sendo monitorados”.

É isso aí. Prendam e arrebentem essa garotada malcriada. Quem são eles perto dos 55 milhões de votos da Dilma?

gmfiuza

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A GRANDE TRAPALHADA.

Devemos discutir o Enem ou avaliar sua credibilidade? Os erros consecutivos no Enem nos últimos dois anos são impressionantes, e pior, a culpa é somente da gráfica. Será que o instituto contratado para aplicação do exame não tem alguma responsabilidade? E o Inep tem culpa? Como foram treinadas as pessoas responsáveis pela aplicação das provas? Elas foram instruídas e orientadas para eventuais erros? Como resolver prováveis dúvidas geradas pela falta de questões em provas, duplicação de questões, numerações sem sequência, gabaritos invertidos e uma infinidade de problemas? Quantos serão os prejudicados se a prova for anulada ou se não for anulada?


Por enquanto só estamos falando se devemos anular ou não o Enem. A grande verdade é que o governo criou uma prova que passou a ser gigantesca com a participação de 4 milhões de jovens interessados em participar de um exame para concorrer a uma vaga em uma universidade ou uma faculdade privada que utilize as notas do Enem como acesso.

O exame deixou de lado o aspecto fundamental que é avaliar o ensino brasileiro. Ele pretende juntar diferentes objetivos: avaliar o desempenho individual do estudante, produzir avaliações da qualidade, mérito de instituições de ensino e ainda selecionar candidatos ao ingresso na universidade. Esses objetivos são distintos, têm sentidos e lógicas diferentes, então a discussão deve ser centrada se a prova é realmente necessária tal como está sendo aplicada.

Devemos observar que os erros praticados não estão na elaboração das questões, mas sim na logística de impressão e aplicação da prova. Parece que não existe tempo de análise e revisão das matrizes elaboradas para impressão, que os responsáveis desconhecem o grande problema que será criado se ocorrer algum tipo de erro no processo, ou seja, as pessoas envolvidas não estão preocupadas com o grande problema que é gerado no meio social nacional. Isso é uma grande trapalhada.

Os estudantes dedicaram-se durante o ano inteiro para se submeterem a essa avaliação, e vejam só, todos estão decepcionados com o que está ocorrendo, as famílias estão angustiadas, todos querem saber o resultado, mas ele está suspenso pela Justiça e foi solicitado o cancelamento da prova.

Caros estudantes e educadores, a dedicação de vocês é grandiosa e merece respeito, as escolas comprometem-se com tudo e com todos a fim de dar os subsídios necessários para que os nossos alunos participem desse processo imposto sem as devidas discussões com aqueles que fazem a educação em nosso país.

Antônio Eugênio Cunha é presidente do Sinepe-ES.

Fonte: http://bit.ly/aT9x3O

UMA POLITICA DO ESTRESSE.

Neste último final de semana, milhões de alunos se submeteram ao Enem e ficaram expostos a mais estresse do que o esperado na já tradicional prova de Vestibular. O estresse se deve ao fato de o Enem, adotado por várias universidades, integral ou parcialmente, desde o ano passado, como processo seletivo para acesso às universidades brasileiras, vir se constituindo em uma política de avaliação marcada por problemas, o que demonstra a inadequação de uma avaliação diagnóstica de larga escala ser utilizada como uma política de acesso ao ensino superior. É importante destacar que a natureza e a especificidade de uma avaliação diagnóstica se diferenciam da de um processo seletivo para ingresso nas universidades.

O Enem, originalmente pensado como uma avaliação diagnóstica, foi criado com o objetivo de avaliar a etapa final da educação básica a partir do que revelam as aprendizagens dos alunos concludentes e/ou egressos desse nível de ensino.

Já o vestibular historicamente se constituiu como um processo que visa a selecionar dentre os inscritos no exame aqueles que melhor respondem ao perfil de alunos desejados pelas instituições de ensino superior. Ao se menosprezar essas especificidades e tratar os dois processos como se tivessem a mesma natureza e, portanto, como se pudessem servir a mesma finalidade de selecionar ingressantes para as universidades públicas, o MEC vem contribuindo para que milhares de jovens e seus familiares passem por muitos momentos estressantes.

Vale lembrar que, no ano passado, os jovens brasileiros viveram momentos de tensão desde a inscrição no Enem pelo fato de o sistema utilizado pelo Inep/MEC não ter comportado a grande demanda de inscrições. Em seguida, veio o estresse gerado pela desconfiança da seriedade do Enem diante do vazamento da prova pela gráfica responsável pela sua impressão.

Este ano os alunos tiveram que conviver com mais momentos de estresse diante da proibição de uso de lápis, borracha e relógio para fazer a prova, o que levou o Ministério Público Federal do Espírito Santo, sabiamente, a recorrer contra essa proibição, indo em defesa da juventude e de seus familiares diante do horror que se transformou a vida dos estudantes pela proibição de uso de objetos já consagrados historicamente pela nossa cultura escolar.

Como se não bastasse tudo isso, os estudantes se depararam com erros na impressão dos cartões-resposta. Com esses problemas, o Enem apenas se tornou uma política do estresse.

Cleonara Maria Schwartz é doutora em Educação e professora do PPGE/Ufes