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domingo, 18 de dezembro de 2011

ONDE FALTAM ESCOLAS, SAÚDE CULTURA, SOBRA VIOLÊNCIA


ES - Vila Velha - Sem Área de lazer, moradores do Bairro Barramares usam a rua sem pavimentação como campo de futebol

Na falta de um campinho, as traves improvisadas na rua são a alternativa para passar o tempo no bairro; o jogo é interrompido quando alguém precisa passar


Anny Giacomin

A cada semana, uma pessoa é assassinada na Grande Terra Vermelha, região de Vila Velha que concentra mais de 40 mil moradores em 12 bairros e 2,8% dos homicídios registrados no Espírito Santo. Um estudo feito pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) ajuda a entender a razão de o tráfico conseguir atrair tantos jovens. E porque é tão difícil deixarem essa realidade para trás.

O trabalho - feito a pedido do governo para subsidiar a implantação do Programa Estado Presente, que visa a reduzir os índices de violência no local - mostra que o desafio é enorme. Falta literalmente de tudo nos bairros que fazem parte de uma das áreas mais assoladas pelo medo no Estado.

A população é predominantemente jovem - metade tem até 24,7 anos e 44% têm entre 25 e 59 anos - mas faltam vagas no ensino médio e centros que ofereçam lazer e cultura. O estudo classifica como "precárias" as estruturas básicas de saúde, educação e saneamento no bairro.

Em 75% das escolas, há lixo em locais próximos; em 30%, esgoto a céu aberto. Além disso, quase 60% das unidades de ensino contam com bares por perto.

Vontade não basta O diagnóstico, que também envolve a realidade de Nova Bethânia, em Viana, revela que a precariedade é tanta que exige muito mais do que somente a vontade do poder público e o reforço na área de segurança para mudá-la.

Nessas áreas, viver sem perspectivas é a regra. Por causa das poucas vagas no ensino médio - que conta com apenas uma escola - muitos adolescentes abandonam os estudos quando terminam o ensino fundamental. Assim,
foto: Carlos Alberto Silva
ES - Viana - Erley Gaudino Neves, de 42 anos,  junto da esposa Alessandra Rodrigues Nascimento, de 27 anos, e os filhos. Eles são moradores do bairro Vale do Sol
Saúde? Onde?
A dona de casa Alessandra Nascimento, 27, sofre quando precisa levar os filhos ao posto de saúde da região de Nova Bethânia. Além de ter que andar 30 minutos a pé, ainda corre o risco de chegar lá e não ter médico. "É uma loteria, e tem vez que perdemos a viagem", critica ela.
arranjar emprego fica difícil.

Juliana (nome fictício), 21 anos, como a maioria dos jovens de Terra Vermelha, nunca chegou ao ensino médio. Diz que abandonou a escola na 7ª série, depois de ficar grávida.

Desempregada, passa o dia cuidando da casa - que fica em uma rua sem calçamento e bem próximo a um esgoto a céu aberto - e dos dois filhos, de 1 e 3 anos de idade.

Sua maior preocupação, hoje, é não deixar as crianças saírem de casa, por causa da violência. "Não tenho como deixar meus filhos brincarem nessa lama misturada com esgoto. Criar um filho aqui é sinônimo de ficar preso dentro de casa, enquanto os bandidos estão soltos", constata.

O medo é companheiro constante, e as alternativas são escassas. "É difícil. Não temos nada para fazer, um curso, uma praça. Por mais que tentem melhorar, aqui nunca terminam o que começam. Se um traficante acha que você está olhando torto para ele, vem e te mata", desabafa a jovem.

Juliana não está só. Assim como ela, a prima Roberta, de 20 anos, e boa parte dos 20 mil jovens que moram na Grande Terra Vermelha não frequentam a escola.

Além da falta de estrutura nas unidades de ensino, é comum na região a violência invadir a escola, com tráfico, roubos frequentes a professores, batidas policiais e tiroteios na rua.

Falta saúde

Problemas nas escolas de Nova Bethânia também existem. Mas muito maiores são os das unidades de saúde da região. Em todas as cinco, as paredes e telhados apresentaram mau estado de conservação. Em 80% há problemas na pintura, assentos, portas e janelas, banheiros, instalações hidráulicas e elétricas. Todas elas estão localizadas em locais próximos do tráfico de drogas.

A dona de casa Alessandra Rodrigues do Nascimento, 27, vive em Vale do Sol e sofre todas as vezes que precisa levar os filhos ao médico. São 30 minutos de caminhada até o posto mais próximo. "Eu e meu marido estamos desempregados. Se pudéssemos, nos mudávamos para um lugar melhor. Já passamos dificuldade, mas não temos muito o que fazer. Aqui pelo menos a casa é nossa".

A pior situação é a da unidade de saúde de Nova Bethânia. A estrutura foi condenada pela defesa civil municipal, mas continua funcionando. O banheiro dos funcionários está interditado por problemas no esgoto. Não há cozinha, refeitório, nem água para o consumo.

foto: Carlos Alberto Silva
ES - Vila Velha - Rua sem pavimentação e com esgoto aberto no Bairro Ulisses Guimarães
Em meio ao esgoto
A maioria das ruas de Terra Vermelha, além de não ser calçada, não tem rede de esgoto e funciona como um verdadeiro depósito de lixo, já que, segundo os moradores, não há coleta. "Isso aqui é um verdadeiro esgoto a céu aberto. Dá nojo", destaca Lívia, 20

SonhosOs filhos de Alessandra sonham com um campo de futebol e um lugar para brincar. Para ela, esse espaço de lazer é fundamental para manter as crianças ocupadas. "A gente tem medo de que eles se envolvam com coisa errada. Conversamos bastante, mas só Deus para livrá-los disso", diz a mulher.

Sem lugar, as crianças se divertem jogando bola na rua. A mesma coisa acontece em Barramares, Vila Velha, onde traves móveis improvisadas ajudam a matar o tédio nas tardes em que a bola rola. Mas o jogo tem que ser interrompido quando alguém passa pela rua.

Mudanças

Mudar cenários como os de Terra Vermelha e Nova Bethânia exige investimentos. E o secretário de Ações Estratégicas, André Garcia, reconhece que esse não é um processo rápido.

"Precisamos de um trabalho multidisciplinar, e proteção policial para sustentar isso. Estamos olhando para o problema. Trabalhamos com a perspectiva de que tudo esteja bem melhor em 2014, mas queremos que esse trabalho seja permanente", explica o secretário.

O diagnóstico do IJSN vai nortear o planejamento das ações a serem implantadas pelo Estado Presente. Para isso, o governo conta com a parceria das prefeituras e da iniciativa privada.

Já estão sendo entregues 400 casas populares em Jabaeté, Vila Velha, assim como foram desenvolvidos projetos e cursos de corte e costura nas regiões. Ruas estão para ser pavimentadas e serão construídos mais escolas e postos de saúde.

Anny Giacomin - A Gazeta
EnchentesMorador de Campo Verde, Viana, há 26 anos, o aposentado Ciro Garcia Vieira, 67, diz que adora o local. O problema, segundo ele, é quando chove. "Enche tudo de água aqui. As ruas não são calçadas, aí já viu, né?". Também falta rede de esgoto. "Cai tudo dentro do rio", lamenta ele.

Insegurança
Moradora de Ulisses Guimarães, Juliana, de 21 anos, não deixa que os dois filhos saiam de casa para brincar. "Tem tiroteio a todo momento, nunca se sabe. Melhor prevenir", diz a jovem, que abandonou a escola na 7ª série e hoje, desempregada, admite: "Não temos muitas perspectivas".

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CRISE MORAL

As notícias sucedem-se dia a dia. É ministro que cai após acusações de corrupção em sua pasta. É deputado que acusa os colegas de venderem emendas. É detento que consegue regalias na prisão por meio de facilidades concedidas por algum carcereiro. É obra concluída com base em documentos de autorização forjados. É estabelecimento comercial que consegue alvará por meio de propina.

A esta altura os cidadãos brasileiros se perguntam como pode um país se desenvolver com base na tão disseminada cultura das transgressões. Isso mesmo, cultura das transgressões - expressão, que, no nosso entender, designa de forma clara o conjunto de ideias e atitudes que não respeitam a ética, pondo o interesse pessoal acima do interesse coletivo e das leis.

Se queremos mudar essa cultura, precisamos todos entender que o único caminho para chegarmos a um Brasil desenvolvido econômica e socialmente é o do respeito às leis, não corrompendo nem sendo corrompido, pagando impostos e combatendo a pirataria, a falsificação e o contrabando. Para começar, precisamos exigir de nossos governantes que ajam sempre dentro dos padrões éticos. E - por que não dizer? - dos mais elevados padrões éticos. Afinal, a corrupção instalada na base da sociedade é mais fácil de ser combatida do que a corrupção que permeia esferas elevadas de poder.

Já passamos por momentos históricos em que parecia que os brasileiros iam perceber o prejuízo generalizado que a corrupção causa. Chegamos até a aprovar o impeachment de um presidente da República, numa onda de civismo que parecia estar nos levando a uma nova nação, de cidadãos conscientes e éticos. Mas, quase 20 anos depois do impeachment, pouco mudou.

O historiador José Murilo de Carvalho, professor titular de História do Brasil da UFRJ, distingue bem o medo e o respeito à lei. Só uma sociedade que tenha respeito às suas leis pode alçar-se a um patamar destacado de desenvolvimento. Enquanto a lei só for cumprida por medo, sem que os valores que a nortearam sejam compreendidos pela população, não conseguiremos modificar a cultura de leniência e até conivência com as transgressões.

Estudos e pesquisas mostram que os sonegadores recorrem ao argumento de que não adianta pagar impostos se as autoridades responsáveis por lhes dar o destino previsto acabam por desviá-los. Ou seja, se não há confiança em que os recursos serão aplicados para o bem geral - na saúde, na educação, na infraestrutura, na habitação -, por que ser um cidadão ético?

Sempre insistimos em que uma coisa não depende da outra. Se formos esperar o modelo ideal de governante, não construiremos nada. Temos de pagar os impostos previstos em lei e exigir que eles sejam aplicados onde devem. E é isso o que estamos fazendo agora: exigimos que os governantes brasileiros se imbuam de seu dever maior como cidadãos e deem o exemplo de boa conduta a toda a população.

Há tempos dizemos que a crise no Brasil não é econômica. É social, não há dúvida. Mas, mais do que tudo, é uma crise moral. Chegamos a um ponto em que empresários comentam que as regras do jogo são essas mesmo e que sem "molhar a mão" de quem concede licenças e autorizações nada se consegue. Na medida em que a iniciativa privada acaba por se mancomunar com as autoridades de várias instâncias, fica difícil desatar o nó da corrupção.

Isso se aplica a negociações entre poderosos e entre pequenos. Grandes conglomerados de empresas acabam se enredando em ligações perigosas com quem tem o poder de autorizar obras e empreendimentos, de conceder licenças ou autorizações. Da mesma forma, e seguindo o mesmo rito, ela se dá entre um fiscal municipal e um camelô. Não é de hoje que, nas ruas do centro de grandes cidades, um veículo de fiscalização passa devagar, anunciando-se ostensivamente para que os camelôs tenham tempo de recolher sua mercadoria irregular. É o fiscal fingindo que fiscaliza.

Por isso não só políticos e administradores em geral, como fiscais e gestores do que deveria ser a coisa pública, têm sido alvo de denúncias de corrupção. As discussões chegaram ao Poder Judiciário, que, por definição, deveria estar acima e à distância de qualquer suspeita de irregularidade ou malversação. As divergências entre a corregedora do Conselho Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, e alguns integrantes do Judiciário são impensáveis em qualquer país que preze a imaculabilidade de seus juízes.

Com um PIB de R$ 3,6 trilhões, o Brasil deveria ter um atendimento à saúde decente, uma educação pública exemplar, aeroportos à altura dos eventos internacionais previstos para os próximos anos, sem falar em ferrovias e rodovias - estas mostram como parcerias podem ter bons resultados, já que as rodovias concedidas à iniciativa privada são as melhores do País.

A corrupção não deve ser tolerada em nenhum nível. Se ela chega a dimensões tão escancaradas quanto hoje no País, é impossível calar. É impossível aceitar esse fingir que as leis são cumpridas, pois isso envenena as entranhas da sociedade e provoca, lentamente, sua destruição.

A esperança de mudar essa cultura vem com a estabilidade da economia (após 17 anos de Plano Real), o respeito às regras democráticas e a ascensão da classe C. Não poderia haver melhor momento para o Brasil fazer uma profunda análise comportamental e mudar sua cultura no que diz respeito a transgressões. É o momento de incentivar campanhas para que esqueçamos, de uma vez por todas, que no passado alguns de nós valorizavam a Lei de Gerson, pensando em tirar vantagem de tudo.

É o momento histórico de construir uma sociedade em que o caminho seja impérvio para a corrupção. É o momento perfeito para pensarmos coletivamente em como construir uma sociedade da qual todos nos possamos orgulhar.

ROBERTO ABDENUR, DIPLOMATA,

terça-feira, 10 de maio de 2011

TORRE DE 25m É ATRAÇÃO NA ARGENTINA

                        Construída com livros, torre de 25m é atração na Argentina
                                                    Foto: Agência Estado
                      Uma Torre de Babel com 25 metros de altura, construída em espiral com 30 mil livros de todas as línguas, criação da artista Marta Minujin, foi erguida na Plaza San Martín, no centro de Buenos Aires, Argentina. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) nomeou Buenos Aires como Capital Mundial do Livro 2011.
A torre será a principal atividade para comemorar Buenos Aires como Capital Mundial do Livro. A montagem foi organizada pelo Ministério da Cultura de Buenos Aires. "Será uma obra emblemática e representa a ideia de pluralismo e diversidade que é identificada com a cidade", disse ministro da Cultura da cidade de Buenos Aires, Hernán Lombardi.
Ao longo do caminho em espiral, as pessoas podem passear entre os livros, ouvir uma trilha sonora que foi gravada especialmente e decifrar os diferentes idiomas.
Cerca de 26 mil livros foram doados por 52 países, representados por embaixadas, associações e delegações. O restante foi recolhido em bibliotecas, livrarias e CGCP. Após o encerramento das festividades, em 28 deste mês, os livros serão catalogados e farão parte da primeira biblioteca multilingue na cidade.

Fonte: Terra-Notícias

segunda-feira, 25 de abril de 2011

BRASIL É 3º PAÍS ONDE MAIS SE CRÊ EM DEUS, DIZ PESQUISA.

O Brasil foi o terceiro país em que mais se acredita em 'Deus ou em um ser supremo' em uma pesquisa conduzida em 23 países.

A pesquisa, feita pelo empresa de pesquisa de mercado Ipsos para a agência de notícias Reuters, ouviu 18.829 adultos e concluiu que 51% dos entrevistados 'definitivamente acreditam em uma 'entidade divina' comparados com os 18% que não acreditam e 17% que não têm certeza'.

O país onde mais se acredita na existência de Deus ou de um ser supremo é a Indonésia, com 93% dos entrevistados. A Turquia vem em segundo, com 91% dos entrevistados e o Brasil é o terceiro, com 84% dos pesquisados.

Entre todos os pesquisados, 51% também acreditam em algum tipo de vida após a morte, enquanto que apenas 23% acreditam que as pessoas param de existir depois da morte e 26% 'simplesmente não sabem'.

Entre os 51% que acreditam em algum tipo de vida após a morte, 23% acreditam na vida após a morte, mas 'não especificamente em um paraíso ou inferno', 19% acreditam 'que a pessoa vai para o paraíso ou inferno', outros 7% acreditam que 'basicamente na reencarnação' e 2% acreditam 'no paraíso, mas não no inferno'.

Nesse mesmo quesito, o México vem em primeiro lugar, com 40% dos entrevistados afirmando que acreditam em uma vida após a morte, mas não em paraíso ou inferno. Em segundo está a Rússia, com 34%. O Brasil fica novamente em terceiro nesta questão, com 32% dos entrevistados.

Mas o Brasil está em segundo entre os países onde as pessoas acreditam 'basicamente na reencarnação', com 12% dos entrevistados. Apenas a Hungria está à frente dos brasileiros, com 13% dos entrevistados. Em terceiro, está o México, com 11%.

Entre os que acreditam que a pessoa vai para o paraíso ou para o inferno depois da morte, o Brasil está em quinto lugar, com 28%. Em primeiro, está a Indonésia, com 62%, seguida pela África do Sul, 52%, Turquia, 52% e Estados Unidos, 41%.

Criação X evolução
As discussões entre evolucionistas e criacionistas também foram abordadas pela pesquisa do instituto Ipsos.

Entre os entrevistados no mundo todo, 28% se definiram como criacionistas, acreditam que os seres humanos foram criados por uma força espiritual como o Deus em que acreditam e não acreditam que a origem do homem viesse da evolução de outras espécies como os macacos.

Nesta categoria, o Brasil está em quinto lugar, com 47% dos entrevistados, à frente dos Estados Unidos (40%). Em primeiro lugar está a Arábia Saudita, com 75%, seguida pela Turquia, com 60%, Indonésia em terceiro (57%) e África do Sul em quarto lugar, com 56%.

Por outro lado, 41% dos entrevistados no mundo todo se consideram evolucionistas, acreditam que os seres humanos são fruto de um lento processo de evolução a partir de espécies menos evoluídas como macacos.

Entre os evolucionistas, a Suécia está em primeiro lugar, com 68% dos entrevistados. A Alemanha vem em segundo, com 65%, seguida pela China, com 64%, e a Bélgica em quarto lugar, com 61% dos pesquisados.

Descrentes e indecisos

Entre os 18.829 adultos pesquisados no mundo todo, um total de 18% afirmam que não acreditam em 'Deus, deuses, ser ou seres supremos'.

No topo da lista dos descrentes está a França, com 39% dos entrevistados. A Suécia vem em segundo lugar, com 37% e a Bélgica em terceiro, com 36%. No Brasil, apenas 3% dos entrevistados declararam que não acreditam em Deus, ou deuses ou seres supremos.

A pesquisa também concluiu que 17% dos entrevistados em todo o mundo 'às vezes acreditam, mas às vezes não acreditam em Deus, deuses, ser ou seres supremos'.

Entre estes, o Japão está em primeiro lugar, com 34%, seguido pela China, com 32% e a Coréia do Sul, também com 32%. Nesta categoria, o Brasil tem 4% dos entrevistados.

Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

MOQUECA CAPIXABA, O RESTO É PEIXADA.




A tradição é genuinamente indígena. E conseguiu resistir, sem grandes alterações, à chegada de imigrantes de vários países no Brasil. Símbolo maior da culinária do Espírito Santo, a moqueca capixaba, na verdade, não é só capixaba. É um prato típico do país inteiro, mas com o nosso sabor, é claro.


Hoje em dia, para comer uma boa moqueca à beira da praia é preciso, antes de tudo, ter bastante dinheiro no bolso. Mas nem sempre foi assim. Até o século XIX só comiam moqueca os habitantes de vilarejos ribeirinhos e pessoas que consumiam o pescado por não ter dinheiro para comprar carne vermelha, como explica o presidente da Comissão Espíritossantense de Folclore, Eliomar Carlos Mazoco.



"Hoje o peixe é caro, mas antes o caro era comprar carne. O povo comia era o pescado mesmo. Esse prato começou como receita popular e depois foi se espalhando para as outras classes. E isso ajudou muito para o Espírito Santo ser conhecido como o Estado da melhor moqueca".

A origem da palavra moqueca, segundo Câmara Cascudo, pode estar na expressão pokeka, do tupi, que significa "assado de peixes". Ou mesmo no termo "moquém", que é a grelha de madeira sobre o fogo onde os índios assavam o peixe.

Mas, mesmo com a origem indígena, a moqueca recebeu um toque especial em cada parte do país. Na Bahia, por exemplo, o azeite de dendê - que vem da tradição africana - está presente na moqueca. Aqui no Espírito Santo é o azeite doce de oliva, de tradição portuguesa, que faz a diferença. Assim como em outras regiões o elemento a mais é o pimentão.

O elemento novo que mais alterou a moqueca ao longo do tempo foi a presença do alho, que é uma base de tempero alimentar comum no Espírito Santo. "Fora isso, qualquer elemento novo já não é moqueca capixaba, é peixada inventada. Historicamente os ingredientes são os mesmos: peixe, tomate, cebola, o colorau, o coentro e o azeite de oliva".

Eliomar Mazoco: "Vir ao Estado e não comer a moqueca, é como ir a Roma e não ver o Papa".É capixaba e ninguém tasca

Sendo um prato do país inteiro e com o Espírito Santo se apropriando dessa delícia da culinária, a responsabilidade é grande para continuar tendo a melhor moqueca de todo o Brasil. Mas, ao contrário de vários aspectos culturais que perdem força ao longo do tempo, a moqueca fica mais famosa a cada dia, afirma Eliomar Carlos Mazoco.

"Tem crescido a procura. Porque é um prato muito simples e não tem grandes segredos culinários. Você faz a moqueca e em torno da mesa reúne a família. É produto chique, de uma panela só. Comer uma moqueca é momento de festa, algo especial. Cresce a cada dia", avalia.

Então, para quem é do Espírito Santo e principalmente para quem está em terras capixabas a passeio, não é preciso nem dizer que uma moqueca no fim de semana é essencial é fundamental. A confirmação é de quem entende bem de cultura.

"Vir ao Espírito Santo e não comer a moqueca, é como ir a Roma e não ver o Papa. Ela vem à frente de vários produtos excelentes que nós temos. E se você provou a moqueca capixaba, deve provar também o vinho de jabuticaba, a polenta dos italianos, a nossa farinha que já foi consumida pelo Imperador. São muitos produtos excepcionais.

No video abaixo vc aprende fazer a moqueca capixaba. Bom apetite.




Fonte: A Gazeta - Guia cultural capixaba  

sábado, 15 de janeiro de 2011

MEU ROL DE IMPLICÂNCIAS.

Retomo o rol que tenho escrito neste espaço, de vez em quando, nos últimos 30 anos:


1) Os que acham de bom gosto vernacular dizer presidenta da República por que também não a chamam de chefa de Estado e governanta do País?

2) De repente, todos os discursos começam com a expressão "todos e todas", como se o masculino plural, em lugar de designar o coletivo dos gêneros desde que nossa língua existe, não passasse de manifestação machista.

3) É usual os políticos, cientistas políticos, comentaristas e até intelectuais de peso se referirem a determinado fato ou comportamento como algo sem ética e sem moral. Mas qual a diferença entre ética e moral? Qual o filósofo que distingue esses conceitos absolutamente equivalentes?

4) Outro exemplo de modismo linguístico sem nenhuma lógica é referente à expressão "enterro do corpo" de fulano. Por acaso alguém poderia supor o enterro, também, de uma alma?

5) Ainda no campo do idioma, as novelas de TV são as maiores demolidoras da língua portuguesa. Personagens de qualquer nível econômico-social ignoram por completo a colocação de pronomes. Nas novelas jamais se diz "eu a amo", e sim "eu amo ela"; nem "eu os odeio", mas "eu odeio eles". É extremamente implicante o esforço de enfiar na cabeça dos jovens, na escola e na vida real, as regras corriqueiras de uso correto de pronomes, quando o "conhecimento" que adquirem nos mais poderosos veículos de comunicação opera justamente em sentido contrário.

6) Ainda sobre novelas, não são as tramas macabras ou as personagens sem nenhum caráter que chocam quem a elas assiste. O mais indigesto e revoltante é o jeito como os patrões tratam seus empregados domésticos. Embora tenham com eles aparente intimidade, a ponto de lhes fazerem descabidas confidências, por qualquer pequena contrariedade que lhes causem, ou mesmo por pequeno estresse patronal, sem culpa alguma de seus colaboradores domésticos, patrões xingam os servidores, a torto e a direito, de imbecis, cretinos, antas ambulantes e coisas cabeludas do gênero. Certamente, quem não implica com tal comportamento é porque o adota.

7) Tratando ainda de televisão, tenho uma pequena implicância - é claro que nem comparável à megaimplicância exposta no item anterior - com a maneira pretensamente inovadora adotada pela principal rede de TV e (como sempre) imitada pelas demais. Alguém achou que os apresentadores de telejornais, para seguirem a momentosa e politicamente correta política da interatividade (no caso, só a dois), têm de olhar um para o outro, sempre fixando os olhos no(a) companheiro (a) que está falando. Desde que a televisão existe apresentadores olhavam para as câmeras, pois essa é a forma de transmitir com respeito, diretamente, informações ao telespectador. Os olhares para quem está ao lado só se justificam nas entrevistas dos apresentadores com convidados e em seus diálogos com comentaristas.

8) Saindo de linguagem e TV, acho tremendamente implicantes as programações culturais dos concertos e óperas que se produzem nos palcos brasileiros, pela seguinte razão. Todos sabem que é baixíssimo o nível de conhecimento e experiência da população brasileira no campo da música clássica. Nos EUA e nos países europeus, onde música erudita é um hábito semanal, é necessário sempre apresentar, para estimular o interesse das plateias, coisas novas, compositores e obras pouco conhecidos, tais como as indecifráveis peças musicais de autores contemporâneos. No Brasil os produtores querem fazer a mesma coisa. A um público que nunca assiste, por exemplo, a La Traviata ou a O Barbeiro de Sevilha, assim como nunca escuta Beethoven, o maior compositor de todos os tempos, apresentam-se obras absolutamente desconhecidas, às vezes até mundialmente inéditas. O público caboclo bate palmas fingida e educadamente, para não se mostrar ignorante ao não entender uma peça sem nenhuma melodia ou harmonia agradável a seus ouvidos. Mas no final, geralmente, os produtores fazem uma "concessão" ao púbico e tocam, por exemplo, obras popularíssimas de Tchaikovski, Strauss, Katchaturian - e então o público explode em aplausos, entusiasmado, deliciando-se com sons que lhe são familiares. Ora, por que não se oferece ao público, para conquistá-lo, algo que o delicie desde o começo, apresentando-lhe peças a ele ininteligíveis só de vez em quando?

9) E agora sobre artes plásticas: acho sumamente implicante o fato de as galerias de arte serem fechadas, sem comunicação alguma com o cidadão comum. Este pensa que para entrar numa delas é preciso pagar algo ou comprar alguma obra. O cidadão que passa de ônibus não tem oportunidade de conhecer o que lhe é escondido dos olhos e às vezes perde a chance de ter contato com uma extrema beleza que até poderia modificar sua sensibilidade e estimular sua qualidade de vida. Mas os galeristas parecem só se interessar pelo negócio como escritório de compra e venda, com fregueses selecionadíssimos, ricos e geralmente sem noção alguma do impulso transformador das artes visuais, daí procurarem apenas as grifes pictóricas - para eles decifráveis ou não - para nas rodas de amigos comentarem o valor e o "poder" de suas coleções.

10) Aí houve uma mais que implicante substituição do mecenato que sustentava os grandes artistas do passado pelo glamour não dos artistas, mas dos exibidos possuidores de blue chips visuais. Então o talento e a criatividade dos artistas plásticos novos, que lhes brotam moto-próprio, sem maiores ligações com escolas ou tendências de mestres já consagrados, nascem e permanecem no sereno sociocultural, sem condições de encontrar abrigos que os possam acolher para se desenvolverem.

E assim termino esta implicante lista, prometendo voltar a ela quando outros implicantes fatos e condutas ocorrerem em território nacional.

JORNALISTA, ADVOGADO, ESCRITOR, ADMINISTRADOR DE EMPRESAS E PINTOR. E-MAIL: MAURO.CHAVES@ATTGLOBAL.NET







quarta-feira, 17 de novembro de 2010

COMO FAZER OPOSIÇÃO?

Roberto da Matta - O Estado de S.Paulo



Somos bons para mandar e, quando a ordem é dada pessoal e diretamente, a obedecer; mas não conseguimos seguir nenhuma regra. Não somos capazes de nos guiar por normas sem cara ou corpo, mãos e chibata, dívida e promessa. Se o mandão se relaciona conosco, seguimos; se é uma lei escrita num papel ou revelada num sinal de trânsito, mandamos plantar batata. Aprendemos, faz tempo, que seguir uma norma feita para todos, produz uma ordem anônima, impessoal e universal. Mas seguir tais leis é um sinal de inferioridade. Como discordar delas sem parecer grosseiro ou rebelde? Os superiores fazem as leis e com elas se enroscam em exegeses profundas e eruditas, distinguindo o não do nada e ambos do zero e do vazio; já os subordinados, obedecem. A lei não foi feita para todos do mesmo modo não governamos para todos, mas somente para os necessitados: para o "povo" pobre e faminto. O tão teorizado e um tanto gasto papel de cidadão, não engloba o de pobre, esse personagem favorito dos políticos, porque (como os ricos) ele é o foco irredutível de toda a vida política e moral. Em nome dos extremos, todos os extremos se justificam, pois eles são os meios que permitem chegar a um destino do qual o governo seria instrumento. Tudo o mais é ardil.


A lei vale para todos mas eu não sou todo mundo: sou especial. Filho de dona M. e do dr. P. Eleito pelo povo, sou exclusivo. Pelos laços de família escapulo como uma aranha dessas obrigações de todos. Esses que, para mim, são populares e inferiores. Coisas e gentes a serem elevadas e protegidas, salvas e entronizadas em alguns lugares e tempos, mas não todo o tempo. Elas justificam um ministério da cultura, jamais a cultura de um ministério. Eis a concepção de "cultura" vigente no País...

Isso explica por que é tão fácil indiciar e acusar e tão difícil prender os facínoras que livres, ricos, risonhos, engravatados e brejeiros, nos ensinam o estar em paz com a vida. Quanto maior o bandido, mais complicado fica julgá-lo e prendê-lo porque sua fama já o situa num nível especial e diferenciado. Não é por acaso que todo criminoso sonha virar político. Entre nós, não é o ato mas quem o pratica que condena. Se for pé rapado, "teje preso!". Se for deputado, entra o recurso e chega a veemente defesa porque "No caso de T., não! Esse eu conheço! Esse é meu amigo! É dos nossos! A ele eu devo favores!". Há a biografia que, na visão autoritária de um mundo graduado, as pessoas comuns não têm, porque sendo simples, honestas, indefesas, boas, pobres e humildes, - numa palavra: sendo cidadãos comuns e anônimos - elas não teriam, vejam o atraso e a arrogância histórica pessoal!

Um dia, ouvi perplexo, um médico famoso dizer que jamais havia pago um centavo de Imposto de Renda. O rompante do olhar tinha aquele brilho que ofusca os otários e os imbecis que, cidadãos, pagam e não chiam. Um americano que partilhava conosco o jantar engasgou-se. Nos Estados Unidos, todos sabem que só há duas certezas nesta vida: a morte e os impostos, esse dinheiro sagrado que vem do povo e permite a existência do governo. No Brasil, pelo contrário, é o governo que legitima o povo. Um papel timbrado vale mais do que o sujeito que ele representa. Na América, os impostos são as grades da jaula de ferro que, como viram Weber e Kafka, independem da vontade humana; aqui eles são as barras de chocolate comidas pelos políticos.

Fora da situação somos mais implacáveis do que um carrasco nazista e mais sérios e duros do que guarda americano da imigração. Dentro, amaciamos e viramos cúmplices. "Você deveria ter dito isso antes!", falamos num pedido sem desculpas. "Se eu soubesse que era o Chiquinho eu mesmo teria colocado uma cláusula especial no decreto." Ou, então: "Não custava pedir vistas ou engavetar o processo!"

Como ser oposição se um dia chegamos ao governo e, o poder é muito mais um instrumento capital para retribuir favores e não para tentar melhorar o mundo, servindo a este mundo? Se tudo se dividia entre nós e eles, mocinhos e bandidos, revolucionários e reacionários, vira de ponta-cabeça e agora "nós" somos "eles", como fazer? Normalmente, vamos por parte. Os mais próximos, primeiro; depois os outros e o que sobrar, vai para a sociedade. Mas o que ocorre quando a demanda igualitária aumenta e a mídia aproxima governo e governados, revelando suas incríveis proximidades? Mostrando como os hábitos ficam, embora a ideologia troque de lugar? Exibindo que, no fundo, todos são muito mais parecidos do que pensávamos?

A resposta, amigos, se resposta existe, é que não pode haver oposição se não há uma efetiva diferença. Democracia tem truques, mas ela não suporta uma ética de condescendência, um espírito com dois pesos e medidas.