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domingo, 27 de outubro de 2013

AS ESCOLHAS ERRADAS NA SAÚDE

O Estado de S.Paulo
Quando se observa o conjunto das ações do governo na área da saúde, não há como fugir à penosa impressão de que ele se tem limitado a medidas pontuais, em torno das quais faz muito alarido, deixando de lado os verdadeiros problemas. Enquanto cuida do programa Mais Médicos e de medidas destinadas a melhorar o desempenho dos planos de saúde, por exemplo, ele descuida do Sistema Único de Saúde (SUS), que, no entanto, deveria ser o principal alvo de suas atenções. O governo revela, assim, uma visão de curto prazo, medíocre, que compromete o futuro de um setor-chave da administração pública.
A última novidade é a ideia - ainda em estudo, segundo o presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), André Longo - de abrir uma linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para as empresas de planos de saúde investirem na ampliação de sua rede hospitalar. O pedido partiu das empresas, que dizem não ter como bancar sozinhas esse investimento.
Em setembro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, disse que se estudava o oferecimento, pelo BNDES, de uma linha de crédito desse tipo às cooperativas de médicos, que agora se pretende estender a todas as empresas do setor. Tal como já então propunha Pimentel, as operadoras deverão dar "como garantia as reservas técnicas que detêm junto à ANS".
Para Longo, a medida se justifica porque o crescimento da rede hospitalar privada não acompanhou o aumento do número de clientes dos planos - principalmente os coletivos, oferecidos pelas empresas -, que hoje chega a 49 milhões. Isso é fato. Mas é preciso acrescentar que tal aconteceu porque as empresas venderam o que não podiam entregar. Elas sabiam muito bem que sua rede de hospitais, laboratórios e médicos não tinha condições de suportar o aumento de clientes.
Isso só seria possível se elas investissem na ampliação da rede, principalmente a hospitalar, o que não fizeram, como dizem, por não terem recursos suficientes. Querem fazer isso agora com o crédito a juros favorecidos - em última instância, bancados pelo contribuinte - do BNDES. Se dinheiro público será aplicado em hospitais, ele deve ir para a rede pública. Ela está disso muito necessitada, pois perdeu quase 13 mil leitos entre janeiro de 2010 e julho deste ano, de acordo com levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM)com base em dados do Ministério da Saúde. Este, sim, é um dos grandes problemas da saúde no Brasil.
Pouco antes de propor esse financiamento, a ANS tinha tomado uma medida - a inclusão de dezenas de novos procedimentos e medicamentos na lista daqueles que os planos de saúde são obrigados a oferecer - que traz inegáveis benefícios para os clientes da rede de saúde privada, mas, ao mesmo tempo, ajuda a mostrar os seus limites. A partir de janeiro, os clientes dos planos terão direito a mais 50 procedimentos, em cirurgias, exames, tratamentos e consultas, e a 37 medicamentos orais para câncer.
Muitos ficaram de fora, porque a medicina progride rapidamente, mas se torna também cada vez mais cara. Se todos ou a grande maioria dos novos tratamentos e remédios fossem incluídos na lista da ANS - e a tendência natural tanto das associações médicas como dos pacientes é querer que assim seja -, isso acarretaria custos enormes, que tornariam os planos de saúde proibitivos para as camadas de baixa renda. Mesmo a classe média teria dificuldade de honrar esse compromisso.
A dura realidade é que há uma forte tendência de a médio e a longo prazos os planos de saúde se tornarem restritos a uma parcela pequena da população. Este é mais um elemento que mostra a necessidade urgente de se investir maciçamente no SUS, para que ele possa cumprir aqui o seu papel de sistema público e universal de saúde, atendendo a grande maioria da população. Essa é a sua vocação original. Deixar um quarto da população (49 milhões) por conta dos planos e ainda oferecer-lhes crédito do BNDES é uma aposta errada - para não dizer irresponsável - que custará muito caro ao Brasil.

domingo, 11 de julho de 2010

O BRASIL ESTÁ COM A BOLA.

Neste domingo, com o encerramento da Copa na África do Sul, começa efetivamente a caminhada (de inúmeras providências) para a Copa no Brasil.


A logomarca para a maior festa do futebol em 2014 foi apresentada durante a semana em clima de euforia. Para isso, realizou-se uma grande solenidade com as presenças do presidente Lula e dos dirigentes máximos da CBF, Ricardo Teixeira, e da Fifa, Joseph Blatter. Está dado o pontapé inicial para um evento do qual o Brasil se orgulha em sediá-lo, mas terá de se esforçar para construir em tempo hábil a infraestrutura compatível.

O presidente Lula declarou há dois dias que "é descabido alguém se preocupar com alguma coisa sobre a Copa de 2014". Não é. Têm cabimento, sim, algumas preocupações importantes. Principalmente as que se realacionam a aeroportos, estradas, condições gerais de mobilidade urbana nas cidades que sediarão jogos e segurança, entre outras. Nem em relação aos estádios há certeza sobre o que acontecerá. O projeto de reforma do estádio do Morumbi foi vetado pela Fifa, e é difícil imaginar São Paulo excluído da Copa no Brasil.

Há também temor sobre as consequências da pressa para realizar obras. Várias delas já deveriam estar bem encaminhadas, mas não é o que se vê. A corrida contra o tempo para compensar atrasos em projetos pode ter duas vulnerabilidades no uso de dinheiro público: desperdício e desvio de recursos. Ficaram impressões e denúncias desse tipo nos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio, e, além disso, deve-se ter presente que a Copa do Mundo é um evento de dimensão muito maior.

Aliás, é fundamental, desde já que o poder público (governos federal, estaduais e municipais) delimitem, com inteira clareza, o tamanho da participação do setor estatal nos empreendimentos visando à Copa de 2014. É preciso que a sociedade saiba o montante de recursos que sairão dos cofres governamentais e a explicação dos gastos com base na relação custo-benefício.

Na semana que passou, o presidente Lula prometeu que os gastos do governo com a Copa 2014 serão divulgados pela internet. Que bom, mas não basta isso. Para ser completa, a transparência exige amplo detalhamento dos dispêndios. Há poucos dias, o Ministério dos Esportes fechou contrato no valor de R$ 1,4 milhão com uma empresa chamada Calandra Soluções. Tal firma deverá prestar "serviços de implantação da solução de gestão de informação e participação colaborativa que será adotada para acompanhamento e controle do Plano Diretor da Copa 2014". O mínimo que o governo deve fazer é explicar do que se trata.

Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2011, aprovada pelo Congresso, permite a flexibilização de mormas de fiscalização para agilizar obras a serem feitas em regime de empreitada por preço global - tanto para 2014 quanto para os Jogos de 2016. Isso exigirá atenção do Tribunal de Contas da União e da sociedade civil para denunciar eventuais irregularidades.

Ressalte-se também que os cidadãos esclarecidos não desejam a estatização de todos os projetos a serem erguidos em nome da Copa. Ele entende que há diversas prioridades para uso do dinheiro recolhido em forma de pesados impostos. Sabe também que é fundamental dividir o bolo do empreendimento com empresas particulares. Especialistas estimam negócios em torno da Copa do Mundo que somarão mais de R$ 140 bilhões. Então, aí está uma grande oportunidade para incrementar a economia e ampliar o bem-estar social. No entanto, o excesso de estatismo pode tolher essas perspectivas

A Gazeta;