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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

GUERRA ÀS DOENÇAS TROPICAIS

Embora as doenças tropicais aflijam cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, elas são geralmente chamadas pelos especialistas de "doenças esquecidas". E, seja por deficiência dos serviços de saúde pública, seja pela falta de pesquisa de novos remédios pelos principais centros médico-científicos e pelas indústrias farmacêuticas, não recebem os cuidados e a atenção devida. Na verdade, são as populações pobres que têm sido esquecidas, como disse Caroline Anstey, do Banco Mundial (Bird). Há anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os governos de vários países procuram amenizar o problema, mas não há meta definida de erradicação desses males. Isso pode começar a mudar com a destinação de US$ 785 bilhões para a erradicação de dez doenças tropicais, como a hanseníase, a malária, a doença de Chagas, a esquistossomose e a dengue, até 2020. Metade dos recursos virá da Fundação Bill & Melinda Gates, em parceria com o Bird, a OMC e os governos dos EUA, Grã-Bretanha e Emirados Árabes Unidos, como foi há pouco anunciado em Londres. Como assinalou a OMC não se trata apenas de uma questão humanitária. Essas doenças causam perdas bilionárias de produtividade.



Sem desmerecer a importância de doações filantrópicas, há uma forte motivação econômica nessa iniciativa, que pode vir a ser a maior na área de saúde pública, em termos globais, até agora. Com a expansão das economias dos países em desenvolvimento nos últimos anos, houve um aumento apreciável do poder aquisitivo das populações das regiões tropicais, fortalecendo mercados antes de pouca importância no comércio internacional. Os 13 maiores laboratórios farmacêuticos do mundo, que se engajaram na campanha, têm pleno conhecimento disso e não ignoram que, além de vender novos medicamentos que vierem a ser desenvolvidos, terão também de subsidiar ou doar milhões de doses, uma vez que, se o objetivo é a erradicação de endemias, o esforço não pode ficar limitado pela baixa renda de boa parte dos povos que vivem em países tropicais.

Até agora as grandes indústrias farmacêuticas mundiais não vinham dando a importância devida à pesquisa e desenvolvimento de remédios para tratamento de doenças comuns nos trópicos, concentrando-se na produção de medicamentos destinados ao mundo desenvolvido ou às camadas de maior renda dos países emergentes. A introdução de novos tratamentos ficava, em grande parte, a cargo dos institutos de pesquisas dos países tropicais - e o Brasil obteve avanços significativos nessa direção - ou de instituições públicas de países que foram, no passado, grandes impérios coloniais, como a Grã-Bretanha e a França. O ingresso de laboratórios internacionais na campanha deve dar grande impulso à pesquisa nessa área. A Bayer se comprometeu, por exemplo, com um projeto para tratamento e possível cura da doença de Chagas, que mata 10 mil pessoas por ano na América do Sul.

O secretário de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, que esteve na reunião de Londres em que foi lançado esse programa, considera possível a erradicação e o controle das doenças tropicais mais virulentas. O Ministério está atualmente empenhado no combate a três doenças que afetam milhares de brasileiros, mas que vinham merecendo menos atenção das autoridades: o tracoma (infecção bacteriana nos olhos), a helmintíase (transmitida por alimentos contaminados) e a esquistossomose (transmitida por caramujos).

É lógico que, para que essa campanha tenha êxito, não basta medicar, mas é necessário também prevenir. Pode haver, no futuro, vacinas contra aquelas doenças, assim como contra a dengue. Mas essas doenças, como advertem as autoridades sanitárias, podem ser evitadas e controladas com maior vigilância por parte da população para coibir a proliferação dos seus vetores.

É também fundamental que se expandam os serviços de tratamento de água e as redes de esgoto, que ainda são precários no Brasil. Se o clima tropical favorece o surgimento dessas doenças, elas se tornam muito mais facilmente transmissíveis na ausência de condições mínimas de higiene e saneamento.

Fonte: O Estado de São Paulo

FALTA REMÉDIO PARA DOENTES DO MAL DE CHAGAS

Brasil é o único país que produz o medicamento. Indústria farmacêutica despreza a doença porque não dá lucro
Durante sete meses, entre abril e outubro de 2011, o laboratório brasileiro deixou de fabricar o benznidazol, fórmula usada no tratamento da doença em fase crônica e aguda. Apesar de o Ministério da Saúde garantir que "não há registro de falta localizada" do remédio, até hoje o abastecimento não foi de todo regularizado. Em Posse (GO), por exemplo, o posto de saúde não tem recebido o medicamento, como revela a série de reportagens que o Correio publica nesta semana.
Portadores da doença de Chagas sofrem com a carência de medicamentos. O único disponível teve a fabricação interrompida entre abril e outubro de 2011
Posse (GO) — A enfermeira Rúbia Rodrigues da Silva coordena o posto do Programa Saúde da Família (PSF) na cidade goiana, na divisa com a Bahia. Está acostumada a atender moradores de Posse com a doença de Chagas e a tentar encaminhamentos para centros médicos especializados, em Brasília e em Goiânia. "Aqui, é difícil achar uma família que não tenha Chagas." Os pais e um irmão de Rúbia têm a doença. A família da enfermeira, a exemplo dos pacientes da unidade do PSF, não teve privilégios: ninguém consegue o medicamento indicado para casos agudos e crônicos. "O que nos dizem é que não está fabricando mais. Fico preocupada com meus pais e meu irmão."

O que "dizem" a Rúbia e o que vive sua família são o reflexo de uma falha grave do governo brasileiro e do desinteresse da indústria farmacêutica por uma doença associada exclusivamente à pobreza, nada lucrativa. Por sete meses, pelo menos, o Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe) deixou de produzir o benznidazol, praticamente o único medicamento utilizado no tratamento de casos agudos e até mesmo crônicos da doença de Chagas. A interrupção da produção ocorreu entre abril e outubro do ano passado. Os problemas gerados pela paralisia quase passaram despercebidos, não fosse o manifesto de setores da comunidade científica e de entidades do terceiro setor, como os Médicos sem Fronteiras.

A indústria farmacêutica desistiu de mais uma doença da pobreza, e isso já faz nove anos. Desde 2003, a Roche Farmacêutica não fabrica o rochagan, nome ainda usado por quem tem Chagas para denominar o benznidazol. A licença foi transferida para um laboratório público, o Lafepe, que só produziu os primeiros lotes do medicamento cinco anos depois. Suspensa a fabricação no ano passado, o problema ganhou contornos internacionais. O Lafepe é o único no Brasil e no mundo a produzir o benznidazol. Praticamente todos os pacientes do mal de Chagas, a maioria deles na América Latina, dependem do medicamento produzido em Pernambuco.

"A situação chegou a um ponto crítico", admite o diretor-presidente do Lafepe, Luciano Vasquez Mendez. "Se a matéria-prima não chegasse, haveria colapso no abastecimento." O Correio apurou que houve, sim, desabastecimento. Municípios do interior do país, como Posse, deixaram de receber o benznidazol ao longo do ano passado. São exatamente locais com grande quantidade de doentes crônicos e com possibilidade de novos casos da fase aguda da doença. O acompanhamento, o custeio da produção e a regulação dos estoques de benznidazol são responsabilidades do Ministério da Saúde.

Apesar de o presidente do Lafepe ter admitido ao Correio que a produção do benznidazol foi paralisada por sete meses, o Ministério da Saúde diz que "não é verdade" que o medicamento deixou de ser produzido. "Não há desabastecimento e, até este momento, não há registro de falta localizada do referido medicamento", sustenta, por meio da assessoria de imprensa.

Fila de espera
Além do desabastecimento interno, países que pagaram pelo medicamento entraram numa fila de espera. É o que atestaram participantes da 27ª Reunião de Pesquisa Aplicada em Doença de Chagas, realizada em Uberaba (MG), em outubro do ano passado. Um documento foi elaborado para protestar contra a paralisia da produção do benznidazol e divulgado à comunidade científica brasileira e internacional.

"Iniciou-se uma ruptura de estoque mundial, que pode ser comprovada pela existência, só na América Latina, de uma lista de espera de 12 países que pagaram pelo benznidazol e que hoje aguardam sua distribuição", cita o documento. "Considerando o grave contexto mundial de aumento progressivo da demanda pelo medicamento, essa situação compromete de forma dramática o tratamento de indivíduos acometidos pela doença de Chagas."

Estimativa da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) aponta a existência de 8 milhões de doentes crônicos na América Latina e 55,1 mil casos novos a cada ano. Diante da falta do benznidazol e da distribuição exclusiva pelo Sistema Único de Saúde (SUS), muitos médicos deixam de prescrever o medicamento, que combate o protozoário causador do mal de Chagas. "Como saiu de mercado e só há distribuição por farmácias de hospitais públicos, o acesso ficou limitado", afirma a médica cardiologista Dayse Campos, que atua no ambulatório de Chagas do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia.

Em dezembro, o Ministério da Saúde se comprometeu a aumentar a produção para 3,2 milhões de comprimidos e garantir o abastecimento dentro e fora do Brasil. Desde 2008, uma parceria do Lafepe com a DNDi, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa de medicamentos para doenças negligenciadas, tenta garantir a fabricação e distribuição de um comprimido pediátrico do benznidazol. Hoje, para uso infantil, o comprimido precisa ser fracionado.

O diretor-presidente do Lafepe garante que a produção foi normalizada a partir de outubro, com a mudança do fornecedor da matéria-prima. Os primeiros lotes para crianças estão prontos desde dezembro, segundo ele. Em pacientes na fase aguda, o índice de cura do benznidazol é de 60% a 80%. Na fase crônica, varia de 10% a 20%.

Fonte: Ucho.Info

A ANGÚSTIA DAS GESTANTES

O exame para detectar o mal de Chagas ainda não está incluído no Sistema Único de Saúde, um risco tanto para a saúde das mães quanto dos bebês

Goiânia e Aparecida de Goiânia (GO) — A dona de casa Sônia Lopes de Oliveira, de 38 anos, recebeu a reportagem do Correio em sua casa, em Aparecida de Goiânia (GO), com um choro nervoso. Ela imaginou que a equipe do jornal fosse do Laboratório de Chagas do Hospital das Clínicas, em Goiânia. Sônia tem a doença de Chagas e espera há um ano, desde o nascimento do filho, Marco Paulo, o resultado do exame ao qual o bebê foi submetido. "Eu nem sabia que tinha isso. Descobri quando engravidei. O teste do Marco Paulo foi feito e refeito, e ainda não tenho o resultado", diz Sônia.

Exames laboratoriais durante a gravidez têm sido uma das principais formas de descoberta do mal de Chagas por mulheres mais jovens. Somente em Goiás, estado que adotou há oito anos o chamado teste da mamãe, 2,2 mil mulheres receberam o diagnóstico da doença. Mais de 1,5 mil delas passaram por exames e foram triadas para acompanhamento médico no ambulatório de Chagas do Hospital das Clínicas.

O estado pioneiro foi Mato Grosso do Sul, com mais de 500 mães diagnosticadas com a doença em quatro anos. O teste existe também em Alagoas e Rio Grande do Sul, com subsídio do Sistema Único da Saúde (SUS), mas não é preconizado pelo Ministério da Saúde. No pré-natal, o SUS custeia espontaneamente apenas exames para HIV e sífilis.

Na maior parte do território brasileiro, portanto, as mulheres grávidas não se submetem a exames para detectar Chagas e outras doenças, como toxoplasmose e hepatite C. É um risco evidente tanto para a saúde da mãe quanto do bebê. A possibilidade de gestantes infectadas transmitirem o Trypanosoma cruzi aos fetos, pela placenta, é de 0,5% a 3%, principalmente no terceiro mês de gestação. E as chances de cura dos bebês, que precisam ser monitorados por seis meses, são muito altas. Quanto maior a demora para o diagnóstico, menores são essas chances.

A família de Sônia é de Correntina (BA), uma cidade com alta incidência da doença de Chagas. A existência de outros casos na família preocupa a mãe de Marco Paulo. Um irmão morreu aos 19 anos. "De repente, ele caiu e morreu. Hoje a gente pensa que pode ter sido Chagas", afirma Olinda Maria de Oliveira, 66, mãe de Sônia. A morte súbita, por parada cardíaca, é característica da doença. "Morávamos todos na roça. Lá tinha muito "bicudo". Dormia muita gente no chão, do lado dos "bicudos"." Bicudo é como o barbeiro é conhecido em cidades da Bahia.

Monitoramento

No quarto mês de gestação, a também baiana Beatriz Rocha da Silva, 28, descobriu ter a doença de Chagas há três anos, quando estava grávida do terceiro filho. "Fiquei assustada quando me deram o resultado." Os três filhos de Beatriz já fizeram os testes e o resultado foi negativo. "Como essa doença ataca mais o coração, sinto um pouco de medo. Já ouvi falar de muita gente que morreu." Beatriz mora em Maurilândia (GO), no sul do estado, e vai a Goiânia para a realização dos exames do pré-natal. Quando seu quarto filho nascer, precisará se monitorado por seis meses. "Não posso parar com o tratamento. Sei que a possibilidade é pouca de passar para a criança."
Nascida na comunidade quilombola dos calungas, em Cavalcante (GO), Adeuzenira Pereira da Cunha, 35 anos, foi infectada pelo Trypanosoma cruzi. A mãe morreu com "problemas no coração". O pai e uma tia têm a doença de Chagas. Adeuzenira não sabe se a infecção ocorreu pela picada do barbeiro ou se foi transmitida pela mãe. A angústia agora é com a saúde dos filhos. Kawã, 7, faria os exames ainda em janeiro. A filha que espera — Adeuzenira está grávida de cinco meses — será submetida ao teste após o nascimento. "Tenho medo de morrer e deixar eles aí sofrendo."

Adeuzenira, o marido, que é carpinteiro, e o filho moram há 13 anos num bairro periférico de Aparecida de Goiânia. Construíram uma casa espaçosa, conquistaram conforto. O pai da dona de casa ainda vive na comunidade quilombola, em Cavalcante. A casa é de barro e o teto da cozinha anexa é feito de palha, ambientes propícios ao barbeiro. "Antes tinha muito barbeiro, mas ainda encontro o inseto quando passo um mês lá. Tenho muito medo."

Cinco pesquisadores do mal de Chagas, que estudam o assunto há décadas, concluíram no ano passado um inquérito sobre a prevalência da doença em crianças, entre 2001 e 2008. Amostras de sangue de 104,9 mil crianças, de quase toda a zona rural brasileira (com exceção do estado do Rio de Janeiro), foram coletadas pelos estudiosos. Em 104 casos, os testes foram positivos, com confirmação da infecção para 32 casos.

Vinte crianças contraíram das mães a infecção — 60% delas no Rio Grande do Sul. Onze foram infectadas por barbeiros no Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Amazonas e Paraná. Como, no momento da pesquisa, a mãe de uma das crianças já havia morrido, não foi possível detectar a causa dessa última infecção. Os resultados "reforçam a necessidade de manutenção de um programa de controle que garanta a consolidação" do combate à doença, concluem os pesquisadores.

Fonte Ucho.Info

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O MAL ESQUECIDO (DOENÇA DE CHAGAS)

Das 120 casas do povoado de Nova Vista (GO), 40 abrigam doentes de Chagas. Apesar de ter eliminado, há seis anos, o barbeiro Triatoma infestans, o Brasil não conseguiu proteger os brasileiros mais pobres das outras espécies do inseto. São 3 milhões os portadores do mal e 606 municípios com alto risco de infestação. O Correio percorreu regiões endêmicas para uma série de reportagem que será publicada a partir de hoje.
Série de reportagens do Correio revela a situação de abandono e invisibilidade de brasileiros que sofrem de Chagas, uma doença que atinge 3 milhões de pessoasNotíciaGráfico

Posse (GO) — O Estado, para uma legião de doentes de Chagas nas comunidades rurais de Posse, cidade de 31,4 mil habitantes distante 320km de Brasília, se resume a dois "gringos". Interessados no mapeamento genético das famílias e em respostas para a evolução da doença, os norte-americanos escolheram uma região antes completamente infestada por barbeiros e hoje habitada por herdeiros de um mal esquecido. A dupla do Texas aparece uma vez por semestre, há 10 anos. Não há, num local tão isolado no Centro-Oeste brasileiro, quem não conheça os "gringos", como são chamados pelos moradores.

No banco de genes formado até agora, estão 2 mil nomes. São 2 mil pessoas que só souberam oficialmente ter a doença de Chagas em função da existência de um projeto financiado de forma integral pelo governo dos Estados Unidos. O Estado brasileiro se esqueceu desses doentes crônicos. Inexistem diagnósticos, exames, acompanhamento, tratamento médico. Saber, pelos "gringos", da manifestação da doença é um irônico detalhe.

O exame positivo para Chagas não muda nada na vida desses brasileiros. Uma das dificuldades encontradas pelos pesquisadores norte-americanos, aliás, é o encolhimento do banco de genes. Quando os "gringos" retornam aos povoados de Posse, muitos moradores já morreram por complicações cardíacas ou por inchaços no esôfago e no intestino que se mostraram irremediáveis.

É o Brasil real, e não é apenas o Brasil do passado. A doença que leva o nome de um brasileiro, Carlos Chagas, conta a história recente do país — sob a perspectiva dos mais pobres — e continua a escrever o futuro. Pequenos povoados do nordeste goiano estão infestados por barbeiros, vetores da doença. É o mesmo cenário na zona rural e até mesmo em áreas periféricas de cidades do Oeste da Bahia. O Estado, mais uma vez, virou as costas. Nessas regiões, as pesquisas com os vetores — para saber o nível de infestação — e os simples atos de borrifação de veneno estão paralisados. Faltam carros para o transporte e agentes de saúde no Brasil rural.

Alto risco
A doença de Chagas não é democrática, pertence a um estrato social, está associada à pobreza. Há quase seis anos, em 2006, o Brasil recebeu da Organização Mundial de Saúde (OMS) um certificado pela virtual eliminação do principal vetor da doença, o barbeiro Triatoma infestans. Foi o resultado de 60 anos de uma ação sanitária contínua, iniciada poucas décadas depois da descoberta feita por Carlos Chagas, em 1909. A realidade, hoje, coloca em xeque a certificação da OMS.

Novos barbeiros assumiram o lugar do Triatoma infestans. O combate ao vetor estagnou-se exatamente nos municípios com alto risco de infestação. São 606 cidades — 11% do país — classificadas pelo Ministério da Saúde como de alto risco para infestação de barbeiros. Outros 1,49 mil municípios (26,9%) têm um risco médio. A volta do Triatoma infestans, caso não sejam mantidos os mecanismos de controle, é admitida em notas técnicas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vinculada ao ministério.

O Brasil não varreu a doença de Chagas do mapa, como virtualmente ocorreu com o principal vetor da infecção e como se faz crer pela inexistência de ações do poder público nas regiões mais atingidas. A herança de um país desigual, sem serviços básicos de saúde e sem a presença do Estado nas décadas passadas, são pelo menos 3 milhões de doentes crônicos. Esses são os que sabem ser portadores do mal de Chagas. Em alguns lugares, como na zona rural de Posse e de Santa Maria da Vitória, no oeste da Bahia, o diagnóstico só ocorre em razão de trabalhos isolados de pesquisa científica.

Para revelar a situação de abandono e invisibilidade desses doentes crônicos e os riscos que o país ainda corre diante do mal de Chagas, o Correio percorreu regiões endêmicas e sob ameaça de infestação de espécies de barbeiros. São lugares onde famílias e gerações inteiras, por décadas, sofrem com as consequências da doença de Chagas.

Fonte: Ucho.Info