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sábado, 15 de setembro de 2012

PAÍS DOENTE



Há pouco mais de seis anos, quando se preparava para a campanha pela reeleição, o messiânico Luiz Inácio da Silva, em momento de mitomania extrema, disse que a saúde pública no Brasil estava a um passo da perfeição. Acintosa inverdade, a fala do então presidente foi desmentida meses depois por ele próprio, que reconheceu que tudo não passou de mais um dos seus embustes eleitoreiros.

Como se fosse pouco o passa-moleque aplicado na porção incauta da população, Lula ousou sugerir a Barack Obama que o governo norte-americano adotasse o modelo do SUS, que segundo o ex-metalúrgico é barato e eficiente.

Como se sabe, o SUS é uma as grandes vergonhas nacionais, que agora tem a companhia da saúde privada, administrada por empresas de planos de saúde à beira da bancarrota. Sem saída, o cidadão que vive no chamado “país de todos” bambeia entre a incompetência do Estado e a malandragem reticente das empresas de saúde privada.

Para provar que Lula sofre de uma doença incurável, a mentira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, nesta sexta-feira, pesquisa que aponta que o gasto dos brasileiros com saúde aumentou de 7% do orçamento familiar, no período de 2002 e 2003, para 7,2%, em 2008 e 2009. Os dados são da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009 – Perfil das Despesas do Brasil.

O aumento nesse tipo de despesa foi puxado pelas regiões Sudeste, cujos gastos passaram de 7,5% para 7,9% no período, e Sul, que passou de 6,6% para 7%. Já nas outras regiões, os gastos com saúde passaram a representar uma parte menor de seus orçamentos: Nordeste (que passaram de 5,4% para 4,9%), Nordeste (de 6,6% para 6,5%) e Centro-Oeste (de 6,8% para 6,4%).

Em termos absolutos, o brasileiro gastava, em média, R$ 153,81 por mês com saúde no período de 2008 e 2009. Na Região Sudeste, o gasto é maior: R$ 198,89. Já a Região Norte é o local onde os brasileiros gastam menos: R$ 82,22. Há diferença também entre áreas urbanas e rurais: os moradores das cidades gastam R$ 167,58 por mês, mais que o dobro gasto pelos moradores do campo (R$ 79,19).

A maior parte dos orçamentos de saúde dos brasileiros é gasta com remédios (48,6%) e planos de saúde (29,8%). Outras despesas representam menos de 5%, cada um, como consulta e tratamento dentário, consultas médicas e hospitalização.

Tanto os gastos com remédios quanto com planos de saúde aumentaram em relação ao período de 2002 e 2003, quando os itens representavam, respectivamente, 44,9% e 25,9% dos orçamentos destinados à saúde.

Na pesquisa de 2008 e 2009, o IBGE observou que há diferenças nos gastos com saúde por faixas de renda. As famílias de menor rendimento gastaram 74,2% de seus orçamentos de saúde com remédios, enquanto para aqueles de maior renda, os remédios representaram apenas 33,6% dos gastos com saúde.

“A gente vê que os remédios tiveram maior peso para as famílias com os menores rendimentos. Por outro lado, as despesas com planos de saúde são muito maiores para as famílias de maior rendimento”, afirma o pesquisador do IBGE José Mauro Freitas.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares é realizada de cinco em cinco anos pelo IBGE e analisa a composição orçamentária das famílias brasileiras, investigando hábitos de consumo, alocação de gastos e distribuição dos rendimentos. (Com informações da Agência Brasil)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A ANGÚSTIA DAS GESTANTES

O exame para detectar o mal de Chagas ainda não está incluído no Sistema Único de Saúde, um risco tanto para a saúde das mães quanto dos bebês

Goiânia e Aparecida de Goiânia (GO) — A dona de casa Sônia Lopes de Oliveira, de 38 anos, recebeu a reportagem do Correio em sua casa, em Aparecida de Goiânia (GO), com um choro nervoso. Ela imaginou que a equipe do jornal fosse do Laboratório de Chagas do Hospital das Clínicas, em Goiânia. Sônia tem a doença de Chagas e espera há um ano, desde o nascimento do filho, Marco Paulo, o resultado do exame ao qual o bebê foi submetido. "Eu nem sabia que tinha isso. Descobri quando engravidei. O teste do Marco Paulo foi feito e refeito, e ainda não tenho o resultado", diz Sônia.

Exames laboratoriais durante a gravidez têm sido uma das principais formas de descoberta do mal de Chagas por mulheres mais jovens. Somente em Goiás, estado que adotou há oito anos o chamado teste da mamãe, 2,2 mil mulheres receberam o diagnóstico da doença. Mais de 1,5 mil delas passaram por exames e foram triadas para acompanhamento médico no ambulatório de Chagas do Hospital das Clínicas.

O estado pioneiro foi Mato Grosso do Sul, com mais de 500 mães diagnosticadas com a doença em quatro anos. O teste existe também em Alagoas e Rio Grande do Sul, com subsídio do Sistema Único da Saúde (SUS), mas não é preconizado pelo Ministério da Saúde. No pré-natal, o SUS custeia espontaneamente apenas exames para HIV e sífilis.

Na maior parte do território brasileiro, portanto, as mulheres grávidas não se submetem a exames para detectar Chagas e outras doenças, como toxoplasmose e hepatite C. É um risco evidente tanto para a saúde da mãe quanto do bebê. A possibilidade de gestantes infectadas transmitirem o Trypanosoma cruzi aos fetos, pela placenta, é de 0,5% a 3%, principalmente no terceiro mês de gestação. E as chances de cura dos bebês, que precisam ser monitorados por seis meses, são muito altas. Quanto maior a demora para o diagnóstico, menores são essas chances.

A família de Sônia é de Correntina (BA), uma cidade com alta incidência da doença de Chagas. A existência de outros casos na família preocupa a mãe de Marco Paulo. Um irmão morreu aos 19 anos. "De repente, ele caiu e morreu. Hoje a gente pensa que pode ter sido Chagas", afirma Olinda Maria de Oliveira, 66, mãe de Sônia. A morte súbita, por parada cardíaca, é característica da doença. "Morávamos todos na roça. Lá tinha muito "bicudo". Dormia muita gente no chão, do lado dos "bicudos"." Bicudo é como o barbeiro é conhecido em cidades da Bahia.

Monitoramento

No quarto mês de gestação, a também baiana Beatriz Rocha da Silva, 28, descobriu ter a doença de Chagas há três anos, quando estava grávida do terceiro filho. "Fiquei assustada quando me deram o resultado." Os três filhos de Beatriz já fizeram os testes e o resultado foi negativo. "Como essa doença ataca mais o coração, sinto um pouco de medo. Já ouvi falar de muita gente que morreu." Beatriz mora em Maurilândia (GO), no sul do estado, e vai a Goiânia para a realização dos exames do pré-natal. Quando seu quarto filho nascer, precisará se monitorado por seis meses. "Não posso parar com o tratamento. Sei que a possibilidade é pouca de passar para a criança."
Nascida na comunidade quilombola dos calungas, em Cavalcante (GO), Adeuzenira Pereira da Cunha, 35 anos, foi infectada pelo Trypanosoma cruzi. A mãe morreu com "problemas no coração". O pai e uma tia têm a doença de Chagas. Adeuzenira não sabe se a infecção ocorreu pela picada do barbeiro ou se foi transmitida pela mãe. A angústia agora é com a saúde dos filhos. Kawã, 7, faria os exames ainda em janeiro. A filha que espera — Adeuzenira está grávida de cinco meses — será submetida ao teste após o nascimento. "Tenho medo de morrer e deixar eles aí sofrendo."

Adeuzenira, o marido, que é carpinteiro, e o filho moram há 13 anos num bairro periférico de Aparecida de Goiânia. Construíram uma casa espaçosa, conquistaram conforto. O pai da dona de casa ainda vive na comunidade quilombola, em Cavalcante. A casa é de barro e o teto da cozinha anexa é feito de palha, ambientes propícios ao barbeiro. "Antes tinha muito barbeiro, mas ainda encontro o inseto quando passo um mês lá. Tenho muito medo."

Cinco pesquisadores do mal de Chagas, que estudam o assunto há décadas, concluíram no ano passado um inquérito sobre a prevalência da doença em crianças, entre 2001 e 2008. Amostras de sangue de 104,9 mil crianças, de quase toda a zona rural brasileira (com exceção do estado do Rio de Janeiro), foram coletadas pelos estudiosos. Em 104 casos, os testes foram positivos, com confirmação da infecção para 32 casos.

Vinte crianças contraíram das mães a infecção — 60% delas no Rio Grande do Sul. Onze foram infectadas por barbeiros no Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Amazonas e Paraná. Como, no momento da pesquisa, a mãe de uma das crianças já havia morrido, não foi possível detectar a causa dessa última infecção. Os resultados "reforçam a necessidade de manutenção de um programa de controle que garanta a consolidação" do combate à doença, concluem os pesquisadores.

Fonte Ucho.Info

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

VAMOS CRIAR A CCMEF ?

Ruth de Aquino

"Quem falar que resolve a saúde sem dinheiro é demagogo.

Mente para o povo.”

Dilma está certa. É urgente. Em lugares remotos do Brasil, hospitais públicos são mais centros de morte que de cura. Não é possível “fazer mágica” para melhorar a saúde, afirmou Dilma. Verdade. De onde virá a injeção de recursos? A presidente insinuou que vai cobrar de nós, pelo redivivo “imposto do cheque”. Em vez de tirar a CPMF da tumba, sugiro criar a CCMEF: Contribuição dos Corruptos Municipais, Estaduais e Federais.

A conta é básica. A Saúde perdeu R$ 40 bilhões por ano com o fim da CPMF, em 2007. As estimativas de desvio de verba pública no Brasil rondam os R$ 40 bilhões por ano. Empatou, presidente. É só ter peito para enfrentar as castas. Um país recordista em tributação não pode extrair, de cada cheque nosso, um pingo de sangue para fortalecer a Saúde. Não enquanto o governo não cortar supérfluos nem moralizar as contas.

Uma cobrança de 0,38% por cheque é, segundo as autoridades, irrisória diante do descalabro da Saúde. A “contribuição provisória” foi adotada por Fernando Henrique Cardoso em 1996 e se tornou permanente. O Lula da oposição dizia que a CPMF era “um roubo”, uma usurpação dos direitos do trabalhador. Depois, o Lula presidente chamou a CPMF de “salvação da pátria”. Tentou prorrogar a taxação, mas foi derrotado no Congresso.

A CPMF é um imposto indireto e pernicioso. Pagamos quando vamos ao mercado e mesmo quando pagamos impostos. É uma invasão do Estado nas trocas entre cidadãos. Poderíamos dizer que a aversão à CPMF é uma questão de princípio.

Mas é princípio, meio e fim. Não é, presidente?

“Não sou a favor daquela CPMF, por conta de que ela foi desviada. Por que o povo brasileiro tem essa bronca da CPMF? Porque o dinheiro não foi para a Saúde”, afirmou Dilma. E como crer que, agora, não haverá mais desvios?

Como acreditar? O Ministério do Turismo deu, no fim do ano passado, R$ 13,8 milhões para uma ONG treinar 11.520 pessoas. A ONG foi criada por um sindicalista sem experiência nenhuma com turismo. Como acreditar? A Câmara dos Deputados absolveu na semana passada Jaqueline Roriz, apesar do vídeo provando que ela embolsou R$ 50 mil no mensalão do DEM.

Como acreditar? Os ministros do STF exigem 14,7% de aumento para passar a ganhar mais de R$ 30 mil. Você terá reajuste parecido neste ano? O orçamento do STF também inclui obras e projetos, como a construção de um prédio monumental para abrigar a TV Justiça. É prioridade?

O Congresso gasta, segundo a organização Transparência Brasil, R$ 11.545 por minuto. O site Congresso em Foco diz que cada um de nossos 513 deputados federais custa R$ 99 mil por mês. Cada um dos 81 senadores custa R$ 120 mil por mês. São os extras. E o Tiririca ainda não descobriu o que um deputado federal faz.

“É sério. Vamos ter de discutir de onde o dinheiro vai sair (para a Saúde).”

Tem razão, presidente. Mas, por favor, poupe-nos de seu aspirador seletivo.

A senhora precisa mesmo de 39 ministérios consumindo bilhões? Aspire os bolsos gordos da turma do Novais, do Roriz, do Sarney. Apele à consciência cívica dos políticos e juí­zes que jamais precisaram do Sistema Único de Saúde.

Vamos criar o mensalão da Saúde.

Um mensalão do bem, presidente. Corruptos que contribuírem serão anistiados. ONGs fantasmas, criadas com a ajuda de ministros & Cia., terão um guichê especial para suas doações.

O pessoal que já faturou por fora com a Copa está convocado a dar uns trocados para a Saúde.

Enfiar goela abaixo dos brasileiros mais um imposto, nem com anestesia. Um dia nossos presidentes entenderão o que é crise de governabilidade. Não é a revolta dos engravatados em Brasília nem a indignação dos corredores e gabinetes.

A verdadeira crise de poder acontece quando o povo se cansa de ser iludido.

Os árabes descobriram isso tarde demais.

Deitavam-se em sofás de sereias de ouro, cúmulo da cafonice.

Eles controlavam a mídia, da mesma forma que os companheiros do PT estão tentando fazer por aqui.

Não deu certo lá. Abre o olho, presidente.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

FAZ DE CONTA (DILMA ACHA QUE SOMOS IDIOTAS)




Na entrevista que foi ao ar na noite de domingo (11) no “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão, a presidente Dilma Rousseff garantiu que é contra a volta da CPMF, o imposto provisório que foi criado para financiar a saúde. A declaração da primeira presidente mulher do Brasil não é exatamente o que acontece nos bastidores da política entre os 300 metros que separam o Palácio do Planalto do Congresso Nacional.

As palavras de Dilma escondem um desejo de criação de um novo imposto para evitar que a União e os estados ajustem seus orçamentos. Contabilmente, as administrações mascaram os valores efetivamente gastos na saúde preventiva e curativa. Mais para os estados que o governo federal, a questão do financiamento da saúde pública virou um cavalo de batalha chamado Emenda Constitucional 29.

O projeto que regulamenta a Emenda está prestes a ser votada na Câmara dos Deputados. Ele estabelece vinculações orçamentárias para a área da saúde. Antes disso, uma comissão geral a ser constituída no dia 20, vai discutir a regulamentação. Entre os convidados do debate estarão o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), representantes da área financeira do governo federal, prefeitos, governadores e dirigentes de entidades da sociedade civil ligadas ao setor.

A tranqüilidade que em alguns momentos são passados para a Imprensa, seja pelo Palácio do Planalto, como por alguns governos, se justifica por conta de uma emenda à 29, que pode tirar mais de R$ 7 bilhões do atendimento à Saúde feito pelos estados. O autor da emenda é um parlamentar do PT, Pepe Vargas, do Rio Grande do Sul. É por isso que as lideranças do governo não estão muito preocupadas com a aprovação da Emenda 29.

Em artigo distribuído há pouco, o ex-governador de São Paulo, José Serra, explica a manobra. O gasto tem de ser corrigido pela inflação mais o crescimento real da economia. No caso dos estados e municípios, o gasto mínimo em Saúde deve ser igual a 12% e a 15% das suas receitas correntes, líquidos de transferências.

Serra observa que metade dos estados, embora tenham aumentado suas despesas no setor, não cumprem direito a EC 29, pois incluem como gastos em saúde recolhimento ou tratamento de lixo, asfalto, alimentação etc. O projeto de lei procura, de forma acertada, corrigir essa situação, definindo com clareza quais são os itens de despesas com saúde.

“No entanto, o projeto contém o tal dispositivo perverso, introduzido por um parlamentar do PT, que muda a forma de se calcular os 12% mínimos, pois elimina, sem razão nenhuma, das “receitas correntes” o montante equivalente ao Fundeb estadual. Ou seja, reduz o denominador a fim de diminuir o gasto mínimo estadual obrigatório em Saúde. O Fundeb estadual equivaleu a cerca de R$ 58 bilhões no ano passado. Os 12% desse montante promoveriam uma garfada de R$ 7 bilhões no compromisso constitucional de gasto mínimo em Saúde dos estados. Para este ano, seriam mais do R$ que 7 bilhões, dada a inflação”.

Segundo Serra, sem a obrigatoriedade dos 12% cheios, mesmo os estados cumpridores vão tender a encolher, no futuro, seus gastos em Saúde como proporção das suas receitas correntes. “É preciso lançar luz sobre o que está acontecendo e mobilizar a opinião pública contra esse verdadeiro atentado à saúde pública”, sugere

Fonte: Ucho.Info

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

OS CINCO DESAFIOS DO SUS.

MARCUS PESTANA

Deputado Federal (PSB-MG), ex-secretário de Saúde de Minas Gerais

A consolidação nos últimos 22 anos do Sistema Único de Saúde, com sua generosa proposta de acesso universal e integral de qualidade, é das mais importantes heranças da Constituição de 88. Avançamos, mas estamos a léguas de distância do sistema público de saúde dos sonhos. A saúde no Brasil é melhor que há 20 anos, mas são inúmeros os pontos de estrangulamento.

Nesse ciclo que se abre com a posse da nova presidente da República, do Congresso, de governadores e assembleias legislativas, é preciso colocar como tarefa central o ataque aos obstáculos que inviabilizam avanços nas políticas públicas de saúde. Cinco são os desafios, adiante indentificados.

Mudança do modelo de atenção: somos presididos pela lógica hospitalocêntrica. A oferta dos serviços se apresenta à população de forma desarticulada. O objetivo deve ser a construção de redes de assistência integral coordenadas por uma atenção primária à saúde extremamente qualificada. É fundamental que hospitais, UPAs, centros de especialidades, centros de diagnóstico, formem um todo articulado, orquestrado pela estratégia de saúde da família cada vez mais fortalecida. Experiências implementadas em Minas Gerais, como o Canal Minas Saúde, o Programa de Educação Permanente, o Plano Diretor da Atenção Primária e a Rede de Urgência e Emergência oferecem boa pista sobre os caminhos a serem percorridos. Sem investirmos na prevenção, promoção da saúde e atenção primária de qualidade para enfrentar o predomínio das doenças crônicas, ficaremos enxugando gelo na porta de hospitais e UPAs.

Mudança do modelo de financiamento. Impossível garantir o direito constitucional de acesso integral e universal ao sistema de saúde com pouco mais de R$ 700 para habitantes/ano de investimento. A comparação a outros países com sistemas semelhantes e com saúde complementar (um plano com cobertura próxima ao que propõe o SUS custaria em média R$5 mil/ano) evidencia forte subfinanciamento. Não há mágica. O SUS precisa de muito mais dinheiro. O gargalo é financeiro. Há resistência à criação de impostos. A carga tributária é pesada. Cabe ao governo federal e ao Congresso descobrirem alternativas de rearranjo orçamentário para viabilizar o aumento de investimentos na saúde.

3) Mudança no modelo de gestão. O dinheiro é curto, mas é possível fazer mais e melhor no uso de cada real. Profissionalizar a gestão, incorporar modernas ferramentas de gerenciamento, evitar duplicação de meios, clarear o pacto federativo setorial, inovar nas estruturas, introduzir ganhos de escala, permitirá avanços a partir do aumento da produtividade dos recursos. Construção de modernos sistemas de regulação, introdução do cartão SUS e do prontuário eletrônico, racionalização da estrutura de serviços hospitalares fragmentada em uma rede pulverizada e com ineficiências podem produzir resultados. Também a quebra de preconceitos e a adoção de estruturas gerenciais flexíveis (OSs, OSCIPs, fundações públicas de direito privado) contribuirão para melhorar o desempenho do sistema.

Mudança do modelo de incorporação tecnológica. Diariamente são descobertos medicamentos, novas linhas terapêuticas e sofisticados equipamentos hospitalares. São avanços importantes, mas caros. Sem a preocupação de restringir o acesso, mas conscientes de que não podemos ter postura passiva e ingênua diante de tão poderoso mercado, o SUS precisa solidificar forte regulação sobre a introdução de novas tecnologias. O caminho poderia ser a criação de agência específica para tratar do assunto. Teríamos impacto positivo, atenuando a judicialização da saúde.

5) Mudança do modelo de organização do mercado de trabalho. Aspecto complexo, em que a capacidade de indução dos gestores tem limites claros, mas precisa avançar. Como estimular jovens médicos a se especializarem em saúde da família, pediatria, clínica geral e geriatria? Como fixar profissionais na Amazônia, no Nordeste, no Jequitinhonha? Como lidar com a realidade das cidades que, pobres e distantes, pagam altos salários e ainda assim não conseguem atrair médicos? Essa discussão precisa ser aprofundada.

Todas as pesquisas apontam a saúde como prioridade um da população. "O SUS não é um problema sem solução, é uma solução com problemas". Cabe a todos que têm responsabilidade com a construção da cidadania se debruçar sobre essa agenda de desafios e garantir avanços para que a chama da reforma sanitária de 88 não se apague.

Publicado no jornal Correio Braziliense, em 18 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

PEDIATRAS PEDEM DEMISSÃO, E A POPULAÇÃO É QUEM SOFRE.

Pediatras que trabalham na rede estadual pediram demissão em massa à Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) e ameaçam deixar os hospitais em duas semanas. Ao todo, 127 profissionais aderiram ao movimento e isso pode prejudicar o atendimento de emergência e de pronto-socorro em sete hospitais localizados em Vitória, Vila Velha, São Mateus e Colatina.


Os médicos reivindicam um salário de R$ 14 mil por 40 horas semanais trabalhadas e querem que o Estado firme contrato com a Cooperativa dos Pediatras do Estado do Espírito Santo (Copedees), entidade criada em outubro do ano passado.

Segundo dados da Sesa, 434 pediatras trabalham nos hospitais do Estado - 319 efetivos e 115 temporários - e recebem, atualmente, piso de R$ 3.697,29 por 24 horas semanais.

Segundo o advogado da Copedees, Alexandre Rossoni, que protocolou os pedidos de demissão dos médicos, os profissionais querem que seus salários se equiparem ao de profissionais de outras especialidades, que também estão reunidos em cooperativas. Esse é o caso dos anestesistas, neurologistas, médicos intensivistas, ortopedistas, entre outros.

Rossoni diz que o número de demissões pode ser ainda maior na próxima semana. "Já recebi outros 49 requerimentos de pediatras que querem demissão, mas eles vão esperar um pouco mais porque estão perto da aposentadoria. Acredito que na próxima semana já teremos pelo menos 300 profissionais fora da rede. Se não houver negociação, em 15 dias o atendimento ficará caótico", afirma.

Contratação

Os médicos também reivindicam a contratação de mais profissionais e o aumento no número de leitos nas unidades. O grupo diz que vai entregar um estudo na próxima semana para a Sesa, que indica as mudanças que o Estado precisa realizar em cada hospital.

Sete unidades poderão ser afetadas com o afastamento dos médicos: Hospital Infantil de Vitória, Hospital Infantil de Vila Velha, Hospital da Polícia Militar (HPM), Hospital Dório Silva, Hospital Sílvio Avidos (Colatina), Hospital Roberto Silvares (São Mateus) e a Maternidade de Vila Velha.

Pacientes de planos particulares têm de pagar R$ 80 por consulta

Os pediatras que atuam em consultórios estão cobrando R$ 80 por consulta de usuários de planos de saúde que não aceitaram o reajuste exigido pelos médicos no ano passado. Os profissionais rescindiram os contratos com várias operadoras por conta do impasse referente aos valores das consultas.

Segundo o presidente da Comissão de Honorários Médicos da Sociedade Espírito Santense de Pediatria, Mário Tironi Júnior, atualmente, apenas os usuários da Unimed, do Bradesco Saúde, do São Bernardo Saúde, da Vale, da Arcelor Mittal e da Funcef - Fundação dos Economiários Federais-, estão recebendo atendimento credenciado de médicos pediátricos. As demais operadoras, como a União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde (Unidas-ES), que possui 24 instituições filiadas, não aceitaram pagar nem o valor mínimo proposto pelos médicos, de

R$ 60 por consulta. Inicialmente, a categoria exigia R$ 80.

"Os pediatras estão cobrando R$ 80 por consulta de usuários de planos que não estão mais credenciados. O médico dá o recibo para o paciente para que ele procure o reembolso junto a operadora. Poderíamos cobrar

R$ 150, já que esse é o valor praticado no mercado, mas acreditamos que R$ 80 é o valor mínimo para manter o consultório funcionando", afirma Tironi.

A Unidas foi procurada para falar sobre o assunto, mas até o final da noite de ontem não havia se pronunciado.

"A população só pode rezar ou tomar chá caseiro"

Alexandre Rossoni, advogado da Cooperativa dos Pediatras do Es, dando sugestão para pacientes que ficarem sem atendimento

Sesa diz que desligamento dos médicos não é imediato

Em resposta ao pedido de demissão em massa dos pediatras, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) afirma apenas que vai adotar todas as medidas cabíveis para garantir atendimento à população, e que o desligamento dos médicos não é imediato.

A assessoria de imprensa da Sesa informou, ainda, por meio de nota, que na primeira semana de governo, o secretário de Saúde, José Tadeu Marino, recebeu representantes dos pediatras e continua à disposição para manter o diálogo.

Apesar da Cooperativa dos Pediatras afirmar que 127 médicos pediram demissão à Sesa, a secretaria contabilizou no início da noite de ontem 63 solicitações de desligamento ou exoneração. A Sesa também acrescenta que vem investindo na melhoria do atendimento à saúde pública em todo o Estado.

"Em 2010, foi inaugurado o pronto-socorro do Hospital Estadual Infantil e Maternidade de Vila Velha (Himaba), com 25 leitos de observação clínica e seis consultórios médicos. Além disso, está em elaboração o projeto da construção do novo Hospital Estadual Infantil de Vitória, que poderá ter até 180 leitos. Atualmente, são 118", diz a nota enviada pela secretaria.

"Se com médico já é difícil, sem eles vai ser pior"

A auxiliar de serviços gerais Isabel Santos Marques, 43, moradora de Forte São João, em Vitória, não se conformou com a notícia do pedido de demissão em massa dos pediatras. Ela, que foi levar sua enteada ao Hospital Infantil por estar com sintomas de dengue, frisou que a situação é uma injustiça com a população. "Já está difícil com médicos, porque sempre temos que enfrentar filas e a demora para ser atendido nos hospitais. Se eles pedirem demissão, vai ficar ainda mais difícil para a gente", ressaltou a mulher.

Reivindicação

14 mi lreais. Esse é o salário reivindicado pelos pediatras que trabalham nos hospitais estaduais.

Fonte: A Gazeta - http://glo.bo/gAsJON


Comento: Nada contra a reinvindicação dos colegas pediatras, mas convenhamos, salário de R$ 14.000, quando os médicos do Estado não chegam a receber 5 mil reais pelo mesmo período de trabalho? Cooperativas de especialidades médicas estão criando uma nova categoria de médicos e isso requer uma intervenção do CRM, antes que a saúde, já tão ruim, piore mais ainda.
Inadmissível e infeliz o comentário do advogado da Cooperativa ao mandar a população "tomar chá caseiro na falta de uma consulta". Será que o faria com seus filhos? Deveria ser demitido, se é que ainda não o foi.