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sábado, 29 de junho de 2013

CADÊ A ESTADISTA?

Capa - Edição 788 (Foto: ÉPOCA)
Na manhã da última quarta-feira, num dos muitos encontros políticos do “pacto nacional” que prometera na TV dias antes, a presidente Dilma Rousseff aceitou receber para uma conversa, no Palácio do Planalto, os presidentes das principais centrais sindicais do país. Não houve papo. Dilma defendeu, por 40 minutos ininterruptos, a proposta que sacudira o Brasil nos últimos dias: uma reforma política com participação popular. Em seguida, determinou que cada convidado teria apenas dez minutos para dizer o que pensava – mas nem tanto. Wágner Freitas, presidente da CUT, central ligada ao PT, queria falar. Até tentou, mas foi interrompido algumas vezes por Dilma. No momento em que Dilma parecia hostilizar qualquer contribuição que destoasse do que ela, na verdade, já decidira, era inevitável para alguns dos presentes lembrar o pobre sindicalista Artur Henrique, ex-presidente da CUT. Em maio do ano passado, numa das raras vezes em que Dilma pediu a opinião dos sindicalistas para qualquer coisa, Henrique ousara criticar uma medida do governo. “Você está falando besteira, cala a boca!”, disse Dilma. 
Desta vez, não houve grosseria. Mas sobrou rispidez – e constrangimento. No meio da reunião, um participante quis ir ao banheiro ao lado da sala, no 3° andar do Planalto. Um segurança aproximou-se, meio sem graça: “Amigo, não usa esse banheiro, vai no lá de baixo”. O sindicalista quis saber por quê. “É que, quando dá descarga, a presidenta fica muito brava com o barulho”, disse o segurança. À medida que a reunião transcorria, quando algum sindicalista ia ao banheiro, outro soltava a piada baixinho: “Ela vai meter o braço em você...”. Não demorou para que Dilma interrompesse a conversa. “Meu tempo acabou, meu tempo acabou, não dá mais para vocês falarem”, disse. A reunião durara menos de duas horas. Os sindicalistas saíram do gabinete presidencial convencidos de que Dilma os despreza. Saíram, também, sem entusiasmo por qualquer pacto – e sem vontade de voltar.
PRESSIONADA O estilo de governo e a personalidade de Dilma a afastaram do Congresso, das ruas e até do próprio PT. Sua reeleição está em risco? (Foto: Roberto Stuckert Filho)
A personalidade de Dilma – a caminho de completar seu terceiro ano de mandato, com dez de Brasília nas costas e metida na mais grave crise política brasileira desde o mensalão – tornou-se um problema para o país. Não apenas por causa dos abundantes episódios de rispidez com políticos e subordinados – mas, sobretudo, porque esses episódios revelam uma presidente inflexível, aparentemente incapaz de se curvar ao erro, mesmo quando confrontada com as vozes das ruas, que agora chegam a poucos metros do Planalto. Revelam uma tecnocrata obstinada, não uma estadista consciente de que, para liderar o país num momento de crise, é preciso genuinamente buscar o diálogo não apenas com a população, mas também com todas as forças políticas que compõem a democracia brasileira. Se o Brasil estivesse no rumo certo, as inquebrantáveis convicções de Dilma – nas opções de política econômica, na centralização obsessiva da gestão do governo, no desprezo pelos políticos – poderiam ser consideradas corretas. Mas o Brasil está no rumo certo? Não há maquiagem na propaganda oficial que consiga camuflar os problemas no governo, apesar de os gastos com esse quesito estarem em alta no Planalto (de acordo com o jornal Folha de S.Paulo, as despesas com o visual da presidente subiram 681% desde dezembro de 2012 e somam R$ 3.125 a cada aparição de TV em cadeia nacional).
A aprovação de Dilma entrou em parafuso depois que as manifestações começaram. Um dos registros é do instituto Ideia, ligado a marqueteiros que trabalham para a oposição. Antes das manifestações, 72% dos entrevistados consideravam o governo Dilma bom ou ótimo. Agora, são 46%. Houve impacto também na intenção de voto. Há duas semanas, Dilma tinha 54%. Caiu para 44%. Marina Silva (Rede) ganhou 4 pontos percentuais e foi para 24%. Aécio Neves (PSDB) somou mais 2 e foi para 20%. Eduardo Campos (PSB) tem 5%. A avaliação de governadores e prefeitos de capitais caiu 30 pontos, em média. Levantamentos feitos nos Estados por outros institutos também mostram o derretimento dos governantes. Dados em mãos do PT baiano a colocam no patamar dos 30 pontos. No Amazonas, ela ficou com 32. Esses números começam a lançar sementes de dúvidas sobre sua reeleição e impõem a necessidade de mudança em seu comportamento para recobrar o rumo político. Mas, sem reconhecer erros, será possível mudar?
Revista Época

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O ESTADISTA E O POPULISTA.

Para entender como ocorreu a melhoria de renda das chamadas classe C e D, inclusive com uma nova classe média emergente, fazendo com que economistas e empresários dediquem estudos e produtos para o consumo deste segmento, temos que entender principalmente qual foi a grande causa do aumento da desigualdade e o empobrecimento dessa parcela da população. Não tenho a menor dúvida que a partir da metade do século XX , esse grande fator chama-se inflação. Façamos um retrospecto, de 1958 a 1964 a inflação passou de 20 a 80% ao ano por dois motivos principais. O primeiro o excesso dos gastos públicos no Governo JK e o agravamento da crise política que levou ao golpe de 64. De 1964 a 1973, devido a um bom momento da economia mundial e a um programa bem sucedido de estabilização pelos Militares, a inflação declinou a 15% ao ano, voltando a patamares de até 100% ao ano, entre 1974 e 1979, principalmente pela primeira grande crise do petróleo que atinge o Brasil em cheio, pois estava praticamente sem produção do ouro negro e também pela teimosia em querer fazer o País manter o ritmo de crescimento, com aumento significativo da dívida externa. O segundo choque do petróleo e um choque dos juros pega o Brasil muito endividado, inclusive decretando a moratória da dívida externa e faz com que a inflação ultrapasse a 200% ao ano, no período que vai de 1980 a 1985. A partir de 1986 até 1994, o que se viu foi uma sucessão de planos econômicos heterodoxos, baseados principalmente em congelamento de preços que elevaram a inflação a imagináveis mais de 1000 %/ano. Quem viveu o período, deve lembrar muito bem que o pão nosso de cada dia, mudava de preço diariamente, chegando a custar um preço pela manhã e outro à tarde. Muita gente fez fortunas nesse período, ganhava-se aplicando no overnight e todo tipo de aplicação financeira, mas os pobres e os assalariados viam seu dinheiro desaparecer diariamente, aumentando ainda mais a nossa desigualdade social.

Devido a corrida inflacionária, tivemos entre 1967 a 1993, seis moedas, a saber: Cruzeiro Novo, Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro e Cruzeiro Novo. O total da inflação nesse período foi de 1.1 quatrilhão por cento, inflação de 16 dígitos , um IGP-DI de 1.142.332.741.811.850%. Foi neste ambiente que em 1993, o então Presidente Itamar Franco, convoca Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, então Ministro de Relações Exteriores para assumir o Ministério da Fazenda com o compromisso de acabar ou pelo menos diminuir a inflação .Em agosto de 1993 o Ministro transformou o Cruzeiro em Cruzeiro Real para ajuste de valores. Em janeiro de 1994, com inflação de 42,19%, o Presidente Itamar Franco, responsável pela criação do Plano Real,determinou que os trabalhos se dessem de maneira irrestrita e com máxima extensão necessária a seu êxito.

Lançado oficialmente em 27 de fevereiro de 1994, com a Medida Provisória 434, instituía a URV (Unidade Real de Valor ) que estabeleceu regras de conversão e valores monetários, desindexando a economia e determinou a criação de uma nova moeda, o Real. Em 1º de março de 94, passou a vigorar a Medida Provisória nº 10, crindo o FSE ( Fundo Social de Emergência ) considerado essencial para o êxito do plano. A emenda produziu a desvinculação de verbas do orçamento da União, direcionando os recursos para o fundo, que daria ao governo margem para remanejar e/ou cortar gastos supérfluos. Os gastos do governo contribuíam grandemente para a hiperinflação, uma vez que a máquina do Estado brasileiro era grande, dispendiosa e ávida por mais gastos. Poucas horas antes, o Ministro FHC foi à televisão e, em pronunciamento oficial em rede nacional, deu um ultimato ao Congresso Nacional para que aprovasse a emenda à Constituição Federal.[6]



Em 1º de julho de 1994 houve a culminância do programa de estabilização, com o lançamento da nova moeda, o Real (R$). Toda a base monetária brasileira foi trocada de acordo com a paridade legalmente estabelecida: CR$2.750,00 para cada R$1,00.[7] A inflação acumulada até julho foi de 815,60%, e a primeira inflação registrada sob efeito da nova moeda foi de 6,08%, mínima recorde em muitos anos. O Plano Real foi um programa definitivo de combate a hiperinflação implantado em 3 etapas,[8] a saber:

1 - Período de equilíbrio das contas públicas, com redução de despesas e aumento de receitas, e isto teria ocorrido nos anos de 1993 e 1994;

2 - Criação da URV para preservar o poder de compra da massa salarial, evitando medidas de choque como confisco de poupança e quebra de contratos;

3 - Lançamento do padrão monetário de nome Real, utilizado até os dias atuais.

Após a implantação do plano, durante mais de seis anos, uma grande sequência de reformas estruturais e de gestão pública foram implantandas para dar sustentação a estabilidade econômica, entre elas destacam-se: Privatização de vários setores estatais, o Proer, a criação de agências reguladoras, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a liquidação ou venda da maioria dos bancos pertencentes aos governos dos estados, a total renegociação das dívidas de estados e municípios com critérios rigorosos (dívida pública), maior abertura comercial com o exterior, entre outras.

A conclusão é que sem dúvidas, a inflação é a grande responsável pela concentração e de desigualdades no Brasil a partir dos anos 50 do século passado.Além de ser uma espécie de imposto para os pobres, dificulta a organização da vida das pessoas e  empresas, tornando o futuro uma incógnita. Pela dificudade de se memorizar os preços, em período hiperinflacionário, os maus intencionados e pilantras se aproveitam para enganar e se aproveitar, tornando o problema mais cruel ainda.

Finalizando, a verdade é que o Plano Real foi o grande divisor de águas, o grande projeto que possibilitou o crescimento, a estabilização e a melhoría de vida de todos os brasileiros, principalmente os das classes menos favorecidas. O mérito do Presidente Lula foi permanecer no rumo traçado por FHC e naturalmente com uma situação economica mundial favorável pode ampliar os programas sociais do seu antecessor. É justo lembrar aqui, que Lula e o PT foram fortes opositores do plano. O Presidente devería ser grato e reconhecer as bases implantadas, mas sua arrogância, sua vocação narcisista e seu egoísmo o impede e, aproveitando a popularidade conseguida em parte pelos benefícios a longo prazo do Plano real, vangloria –se como se tudo tivesse começado no seu mandato. Fernando Henrique está coberto de razão e não deve  mesmo, temer a comparação proposta insistentemente entre os dois governos ou os dois Presidentes. Trata-se de comparar um ESTADISTA com um OPORTUNISTA POPULISTA.