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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

AVIÕEZINHOS DE PAPEL

O Brasil acaba de comprar, por US$ 4,5 bilhões, o direito de participar do desenvolvimento do projeto de um avião supersônico. O Gripen NG, da Saab, é o sucessor do Gripen, um caça de sucesso (e tem sua origem remota no Viggen, avião de combate de ótima reputação, símbolo da boa engenharia sueca), mas ainda está no papel. Isso foi apontado como vantagem: ao participar do projeto, o Brasil leva de brinde ampla transferência de tecnologia, podendo criar uma base que lhe permitirá, no futuro, desenvolver aqui jatos de combate e ataque ao solo.
OK, não é bem assim; falta combinar com os americanos, que fornecem parte das peças e precisam autorizar a transferência desta tecnologia. Mas é um bom começo. Ou seria: afinal, quais as necessidades militares do Brasil? E da FAB?
As Forças Armadas estão mal de verbas, equipamentos e infraestrutura. Há falta de refeições para os recrutas e de munição para exercícios de tiro. Seria a compra de aviões o projeto prioritário? Imaginemos que seja. Mas é de caças supersônicos que o Brasil, que não tem pendências com os vizinhos há mais de um século, precisa? Vigiar as fronteiras, patrulhar o pré-sal, tudo isso não seria feito, e bem, por aviões não tripulados, os drones, que custam muito menos? Quantos drones de última geração poderiam ser comprados pelo preço dos Gripen?
É questão de conceito: as magníficas trincheiras francesas, de ótima tecnologia, não resistiram ao novo conceito da guerra blindada alemã. Os drones talvez sejam o futuro da aviação militar num país pacífico com muita coisa a defender.
Sem piloto
O ministro da Defesa, Celso Amorim, disse que o Brasil comprará 300 drones neste ano. E o país se estrutura para produzir aviões não tripulados em grande escala. Em outubro, foi liberado pelo Governo o acordo entre Avibrás, Embraer Defesa e AEL Sistemas para construir o drone Falcão, projetado para uso das Forças Armadas. O drone será capaz de “apontar alvos, auxiliar na direção de tiro, avaliar danos” e fará “missões de reconhecimento, vigilância terrestre e marítima”. Um avião desse tipo pode transportar foguetes e bombas, guiadas ou não.
Carlos Brickmann

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

FRONTEIRAS ABANDONADAS



Protesto justo – Policiais federais promoverão na quinta-feira (24) manifestações e Operação Padrão por melhores condições de trabalho e valorização dos servidores da instituição. Os policiais federais lotados em regiões de fronteira farão operação padrão para protestar contra o abandono e as precárias condições de trabalho dos servidores que atuam nas localidades de difícil provimento.

Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Acre, Rondônia, Roraima, Amazonas, Maranhão e Amapá são os estados que servirão de palco para os protesto, que devem acontecer em delegacias e unidades de fronteira. Cerca de 500 policiais federais lotados nestas localidades participarão do movimento.

Na manhã de quinta-feira, policiais federais em Brasília (DF) reúnem-se em frente ao edifício-sede da PF para cobrar melhores condições de trabalho. Na pauta de reivindicações consta também o repúdio às perseguições, por parte de dirigentes da Polícia Federal, contra representantes sindicais dos servidores, o fim da terceirização de serviços da PF, falta de critérios nas remoções dos servidores, além de outros problemas de gestão na Polícia Federal.

A cobrança dos policiais federais é mais do que justa, pois a quantidade de drogas e armas apreendida durante a ocupação das favelas da Rocinha, do Vidigal e Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, mostra o grau de abandono das fronteiras brasileiras por parte do governo

Fonte: Ucho.Info

domingo, 3 de julho de 2011

AS DESPROTEGIDAS PORTAS DO BRASIL.

 

Tabatinga, Amazonas: todo tipo de mercadoria passa livremente pela zona portuária
Bruno Abbud
Três cães farejadores da Força Nacional de Segurança descansam num canil em Tabatinga, na Amazônia brasileira ─ que se limita por terra com a cidade colombiana de Letícia e é separada do Peru por um rio ─ enquanto dezenas de carros e caminhões ultrapassam a fronteira livres de vigilância. Sobre as águas turvas do Solimões, uma lancha da Receita Federal avaliada em 4 milhões de reais enferruja estacionada desde 2008. Mais de cem toras de madeira clandestina flutuam à espera de um navio cargueiro que as levará para os Estados Unidos. Um dos afluentes do extenso Solimões alcança Marechal Thaumaturgo, no Acre, onde um agente da Polícia Federal lamenta a falta de um farolete no mesmo instante em que incontáveis canoas peruanas motorizadas esquentam as turbinas para entrar em território brasileiro durante a noite, carregadas com pasta-base de cocaína.
Esses exemplos ilustram a imensa constelação de irregularidades que assolam as fronteiras nacionais e comprometem a segurança dos brasileiros. Durante quatro dias, a reportagem do site de VEJA percorreu 17 municípios do Amazonas e do Acre e fez entrevistas com 31 pessoas. O quadro é perturbador. Bananas, galinhas, refrigerantes, gasolina, cimento, brinquedos, roupas, toras de madeira, drogas, praticamente tudo passa livremente pelas fronteiras do norte. E passa muita gente. (Veja as fotos no infográfico)
Nos 1.644 quilômetros que separam o Brasil da Colômbia, por exemplo, há apenas uma delegacia da Polícia Federal e um posto do Fisco. Ambos ficam em Tabatinga. São 33 agentes da PF, um para cada 49 quilômetros de fronteira. O efetivo da Receita Federal é ainda menor. Apenas uma inspetora está incumbida de fiscalizar toda a divisa com a Colômbia. Nos 2.995 quilômetros que marcam a linha entre o Brasil e o Peru, há três postos da Polícia Federal ─ cada um com dois agentes ─ em Santa Rosa do Purús, Marechal Thaumaturgo e Assis Brasil, três municípios do Acre. Para controlar o contrabando, um deles teria de patrulhar 499 quilômetros de fronteira todos os dias. Nem sequer um metro é fiscalizado.
Crime ambiental: toras de madeira brasileira flutuam na divisa do Amazonas com o Peru
O governo espalha duplas de agentes federais em municípios considerados estratégicos. Em vez de vigiarem a travessia de produtos ilegais, os policiais passam o dia carimbando documentos e regularizando o uso de armas pela população ribeirinha. A mesma disfunção se repete com o quadro de funcionários da Receita Federal. Enquanto sobram fiscais nas capitais, algumas cidades nos confins do país têm um só. Por conta das más condições de trabalho, eles não vêem a hora de transferir-se para cidades maiores, mais movimentadas e menos perigosas. Pelas desprotegidas fronteiras do Amazonas e do Acre, entram 70% da cocaína vendida no Brasil.
Um Brasil esquecido
Tabatinga é um microcosmo das fronteiras na região. É fácil sair do Peru ou da Colômbia e alcançar o solo brasileiro em qualquer dia, com qualquer bagagem de qualquer tamanho. Ninguém é abordado. Não há indício da presença de integrantes da Polícia Federal, Receita Federal, Vigilância Sanitária ou Ibama. A bagagem que vem do Peru e da Colômbia pode percorrer o Solimões a bordo de lanchas alugadas por 370 reais e chegar até Manaus sem sobressaltos. Nesse trajeto, não há um único posto policial. Nenhuma lancha da Polícia Federal ou da Receita Federal costuma aparecer. Existem três cidades ─ Tefé, Fonte Boa e São Paulo de Olivença ─ que comportam aeroportos em que não há revista pessoal, raio x ou a inspeção com cães farejadores. As pistas de pouso são cercadas de mato alto. Um avião carregado com qualquer coisa pode pousar e decolar sem vistorias.
Em Tabatinga, até o que está dentro da lei apresenta riscos para o país. Às 21h19 da quarta-feira, 25 de maio, 80 estivadores descarregavam 15.000 sacos de cimento no principal porto da cidade. Tudo veio do Peru. A carga estava com toda a documentação em dia, garantiu Daniela Sampaio, única inspetora da Receita Federal em Tabatinga. O problema é que, no momento em que descarregavam o gigantesco carregamento, não havia qualquer fiscal. “Se fosse cocaína, por exemplo, nós estaríamos descarregando do mesmo jeito, mas sem saber”, disse Geraldo Daniel Vela, presidente do Sindicato dos Estivadores de Tabatinga. As fronteiras do norte retratam um Brasil esquecido.
Drogas e religião
Às 8h14 no porto da Feira, o segundo mais movimentado da cidade, um grupo de mulheres com véus pretos cobrindo a cabeça começam a descarregar enormes cachos de banana, sacos de batata, tomate e galinhas engaioladas de barcos peruanos. Elas vêm do outro lado do rio, dos municípios peruanos de Isla Santa Rosa e Islândia, ambos na província de Mariscal Ramón Castilla. Pertencem à Associação Evangélica da Missão Israelita do Novo Pacto Universal, uma seita de fanáticos que se vestem como personagens bíblicos e costumam sacrificar animais nos seus templos. Segundo o delegado Mauro Spósito, da PF em Manaus, os chamados “israelitas” também constituem o principal grupo de produtores de folha de coca no Peru. “Em Tabatinga, do outro lado do rio, há pelo menos mil famílias que plantam coca”. Os fanáticos, informa o delegado, colhem as folhas, retiram delas a pasta-base da cocaína e repassam aos traficantes, que atravessam a fronteira e levam às capitais brasileiras o produto que pode ser transformado em pó de cocaína, crack e, ultimamente, oxi.
O véu preto caracteriza as integrantes de uma seita que produz folhas de coca no Peru
Toda manhã ─ e frequentemente também à noite ─ os barcos dos israelitas e de outros traficantes atravessam o Solimões. Toda manhã, uma lancha da Receita Federal avaliada em 4 milhões de reais, blindada e equipada com aparelhos de visão noturna, pode ser vista parada e enferrujando na margem brasileira. Segundo a Receita, não há agentes preparados para pilotá-la nem dinheiro para manutenção. Tais carências também mantêm paralisadas duas embarcações da Polícia Federal. A repressão ao tráfico e contrabando nos rios que dividem a fronteira do Amazonas é zero. Centenas de toras de madeira são derrubadas por peruanos perto do município amazonense de Benjamin Constant. Os criminosos amarram umas às outras e as conduzem por vias fluviais até uma madeireira clandestina no Peru. Também no lado peruano, postos de combustível flutuantes vendem gasolina e diesel a 1,75 real o litro. Um tonel de 240 litros sai por 420 reais. Como no outro lado o preço é duas vezes maior, os municípios amazonenses só consomem a gasolina peruana.
Violência urbana
O contrabando desenfreado está na origem da crescente violência. Logo pela manhã, um velório em curso num dos bares da zona portuária pouco altera os rostos sonolentos. O caixão sobre uma mesa de sinuca abriga um peruano de 48 anos, morto com cinco tiros na cabeça por envolvimento com o tráfico. Só a viúva chora. Os mototaxistas da cidade, muito solicitados por quem procura pasta-base de cocaína, invadem o lugar à caça de clientes interessados em chegar ao cemitério junto com o finado. “Todos os dias matam um”, conta a viúva. “Há muitos pistoleiros em Tabatinga”, revela um mototaxista.
A poucos metros do caixão, algumas lanchas descarregam haitianos que, por 2.000 dólares, contrataram um “coiote” que os conduziu até o Brasil. “Chegam quase 40 haitianos por dia neste porto”, diz Pedro Pereira da Silva, vereador em São Paulo de Olivença, município vizinho a Tabatinga. Alguns haitianos pagam mais dólares para tentarem a sorte como operários na usina de Jirau, em Rondônia. Outros esperam pela documentação emitida pela Polícia Federal, algo que os classifica como refugiados, e partem na direção de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Segundo o delegado Spósito, essa sempre foi a rotina de Tabatinga. “João Figueiredo, Sarney, Collor, Lula. Todos os presidentes estiveram aqui e prometeram fazer algo por Tabatinga”, diz. “Eu estava aqui. Nada fizeram”. A cidade ainda não recepcionou Dilma Rousseff.

Delegado Mauro Spósito mostra, em sua mesa de trabalho, uma muda de folhas de coca
O atalho ideal
O barulho do aparelho de ar condicionado faz vibrar toda a estrutura de madeira do posto da Polícia Federal em Marechal Thaumaturgo, que separa o Acre do Peru. Dois agentes – o pernambucano Alisson Costa e o paranaense George Haikal – ambos com cabelos pretos e óculos de grau, são responsáveis pela fronteira. Para Guilherme Delgado, também agente da Polícia Federal, mas lotado em Rio Branco, esse é “o ponto do Acre onde mais passam drogas”.
“Se vierem do rio metralhando o posto, estamos perdidos”, diz Costa. “Somos só dois. O ideal seria ter mais quatro agentes aqui”, lamenta Haikal. Cada um recebe 177 reais por dia para trabalhar em Marechal Thaumaturgo. Cada temporada dura dois meses, ao fim dos quais outros agentes chegarão. Durante a madrugada, quando os contrabandistas peruanos atravessam o estreito Rio Amônia, que marca a divisa entre o Acre do Peru, Costa e Haikal permanecem imóveis. “Não temos nem farolete, que é uma coisa básica”, diz Costa. “Não há o que fazer”, concorda Haikal. Às vezes, eles têm de dividir a única lancha com os militares do Exército, instalados na área rural do município. Os soldados estão sempre confinados no quartel ou em treinamento militar nas redondezas. São odiados pelos moradores, que os acusam de engravidar as mulheres da cidade e sumir. Haikal e Costa nunca saem do posto.
Quilômetros ao sul, centenas de veículos saem da boliviana Cobija para a acreana Brasiléia com o posto da Receita Federal às escuras. Mais ao norte, em Santa Rosa do Purús, duas funcionárias da Câmara de Vereadores redigem ofícios em máquinas de escrever Olivetti. Outros dois agentes trabalham sozinhos à beira de um rio que, à noite, se transforma num viveiro de contrabandistas. “O movimento é intenso de madrugada”, conta a agente federal Ana Paula. “Não dá para fazermos nada, somos só dois”, reclama seu parceiro Bina. Neste ano, a policial foi infectada por sarna ao dormir no colchão do posto.
Em Epitaciolândia (a mais de 550 quilômetros de Santa Rosa do Purús), para onde Ana Paula voltará daqui a dois meses, colchões semelhantes forram o chão do ginásio municipal. Servem para acomodar quase 300 haitianos, que costumam cantar à noite, utilizar um banheiro de odor insuportável e conferir num mapa cravejado de tachinhas vermelhas qual será o destino a comportar a vida melhor que vieram buscar depois que descobriram a fragilidade das fronteiras brasileiras. Pelas divisas acreanas, chegam mais de cem haitianos por dia, informa o agente Guilherme Delgado, da Polícia Federal em Rio Branco. Poucos tiveram suas vidas abaladas pelo terremoto de janeiro de 2010. A maioria decidiu mudar de país em busca de trabalho, algum dinheiro e mais conforto. Encontraram no Amazonas e no Acre o atalho ideal.

Augusto Nunes - @Veja

terça-feira, 21 de junho de 2011

É FÁCIL FALAR QUANDO O SANGUE É DOS OUTROS...

“ ...Acho que os nossos antepassados nos deixaram um país com fronteiras tranquilas, sem nenhum atrito com países que tenham fronteira com o Brasil. A nossa história foi construída não com batalhas, foi construída com a capacidade de os nossos antepassados de negociarem a formação do país, de maneira que tenho muita preocupação de que hoje tenhamos oportunidade de abrir questões históricas, que devem ser encerradas para frente em um interesse nacional.” (Portal G1 – 13 Jun) – declarações do Senador José Sarney.

“...(Sarney) reclamou que foi mal interpretado nas declarações que deu na última segunda-feira (13) sobre o assunto. Sarney ressaltou que quando usou o termo “abertura de feridas” referiu-se à possibilidade de que, a partir da divulgação de documentos históricos da delimitação das fronteiras, fossem criados problemas já superados com países como a Bolívia e o Peru, por exemplo. (Portal R7 – 14 Jun) – sobre declarações do Senador José Sarney.

Se proposital ou não, o Senador José Sarney, ao justificar nos últimos dias por que alguns assuntos de governo devem ficar submetidos a sigilo eterno, foi soltando, de forma clara, pistas de que fazia referência a problemas relacionados com a formação das fronteiras do Brasil. Chamou-me a atenção o fato de o acompanhar nesse ponto de vista o Senador Fernando Collor (também ex-presidente), mas não o faz o também Senador e ex-Presidente Itamar Franco.

O Senador Sarney, em seus comentários sobre o assunto, declarou que “A nossa história foi construída não com batalhas...” e que a formação das fronteiras do Brasil se deu uma forma tranquila e negociada não cabendo reabrir feridas com nossos vizinhos.

Senador Sarney! Com as devidas vênias, Vossa Excelência tem a obrigação de não ser descuidado em suas declarações, simplificando dessa forma a História do Brasil. Fronteiras negociadas? Sim. Mas tranquilas? Não. Que o digam os gaúchos, os mato-grossenses, os nordestinos, amazonenses e acreanos de cada época.

A definição da fronteira ao Sul foi marcada por guerras e guerrilhas entre luso-brasileiros e os povos de origem espanhola. Chegou a ser denominada de “fronteira do vai e vem” devido a ora estar demarcada por uma linha mais ao Sul e, logo depois, por conta de uma guerra ou de um tratado não bem aceito regionalmente, ser transportada mais para o Norte. E nesse “vai e vem” da fronteira, que chegou a ser demarcada pelo Rio da Prata, muito sangue de brasileiros correu, em repetidas refregas com os “orientales” e “correntinos” e, até mesmo, com povos indígenas de ascendência guarani, gênese da tradição missioneira gaúcha.

Vossa Excelência tem por obrigação saber que, dentre outros, um dos motivos para a criação do Uruguai como país foi dar um fim a essas refregas, comportando-se a nova nação como um “estado tampão” entre o Império Brasileiro e a Argentina, ou como “um algodão entre cristais”, no dizer de outros.

Deve-se lembrar também que, no primeiro ano da Guerra da Tríplice Aliança, o Paraguai invadiu o Brasil por duas frentes, por Forte Coimbra e Dourados, no Mato Grosso, e por São Borja, no Rio Grande do Sul e, do mesmo modo que no Sul, também a Oeste muito sangue foi derramado, com incontáveis atos de heroísmo protagonizados por civis e militares brasileiros.

Depois, já na República, nordestinos, principalmente cearenses, e amazonenses, ao comando de Plácido de Castro, bateram-se em guerra contra o exército da Bolívia, na região em que hoje fica o nosso Estado do Acre, onde mais sangue foi derramado, o inimigo, derrotado e o Brasil, com luta, ali firmou pé.

Dito isto, desculpe-me por relembrar, Senador, que muito se lutou pelas fronteiras que hoje temos e, se negociações foram importantes, também o foi o espírito de luta dos brasileiros. Fronteiras negociadas? Sim, mas, tranquilas? Nunca.

Prosseguindo em suas descuidadas declarações sobre assuntos de relevância nacional, o Senador Sarney esclareceu um pouco mais a charada, por ele mesmo lançada, dizendo, em 14 de junho, que o que se queria era evitar problemas com a Bolívia e o Peru.

Por sua condição privilegiada de acesso a documentos ultrassecretos relacionados com os dois Tratados de Petrópolis (1903 e 1908), que, respectivamente, definiram as fronteiras com a Bolívia e com o Peru, é de se supor que sucessivos ex-presidentes tenham tomado conhecimento de prováveis cláusulas confidenciais, ou mesmo detalhes das negociações, que nem imaginamos. O que se sabe é que as articulações políticas pela fronteira com a Bolívia, no atual Acre, custaram muito caro ao Brasil, financeiramente falando, em que pese as declarações do atual presidente da Bolívia, em maio de 2006, quando disse que o Acre fora trocado com o Brasil por um cavalo. E o dinheiro com que o Brasil indenizou a Bolívia? Ficou com quem?

Quando da definição da fronteira com o Peru, mais atritos fronteiriços com mortes aconteceram, embora de pequena monta, sem configurar uma guerra. Mas isso importa aos que morreram? Em função do Tratado de Petrópolis de 1908, um tanto da terra que recém tínhamos comprado da Bolívia, foi entregue aos peruanos.

Portanto, como cidadão e militar, peço a devida vênia para dizer ao Senador José Sarney que as fronteiras brasileiras, se não no seu todo, mas em significativa parte de sua extensão, podem sim ter sido negociadas, mas, antes, sem nada de tranquilo, foram conquistadas, mantidas e restauradas com o sangue de muitos brasileiros (...o que se espera não aconteça quando o Brasil – no futuro - tiver que retomar a região do Maranhão).

Jorge Alberto Forrer Garcia - Coronel Reformado do Exército