Hospedado precariamente num hotel da periferia de Madri, sem muita privacidade e com banheiros compartilhados, Pablo Pacheco não se queixa.
Ao contrário. Acompanhado da família –mulher e filho— Pablo diz que “ninguém no mundo pode estar mais feliz” do que ele.
Pablo é um dos 11 presos políticos que, libertados em Cuba, foram embarcados para a Espanha. “Vivo um sonho, liberdade é tudo”, diz.
A felicidade de Pablo é, porém, contida. “Não celebro”, afirma. “Não há motivos para celebração enquanto houver presos políticos em Cuba”.
Já na condição de ex-preso de consciência, Pablo falou ao repórter gaúcho Leo Gerchmann. Na entrevista, dedicou meia dúzia de palavras a Lula.
“Admiro o presidente Lula. Ele é um dos líderes políticos que mais fizeram pelo Brasil e por nossa América Latina...”
“...O Brasil, de uma hora para a outra, converteu-se em um ator principal na região e no mundo. Eu o felicito pelas muitas coisas boas que fez...”
“...Deveríamos ter mais Lulas e menos Castros. De qualquer forma, creio que ele se equivocou nesse momento, quando nos comparou aos delinquentes de São Paulo”.
Pablo refere-se a uma frase pronunciada por Lula em fevereiro, nas pegadas da morte do preso cubano Orlando Zapata, que fazia greve de fome.
Numa entrevista concedida em Havana, Lula condenou o uso da greve de fome como método de luta. Lamentou que pessoas como Zapata “se deixem morrer”.
Depois, de volta a Brasília, Lula fez a comparação que semeou mais incômodo nos cárceres apinhados de Cuba.
Imagine se todos os presos de São Paulo fizerem greve de fome!, disse o presidente à época. Na opinião de Pablo, Lula é devedor de um pedido de desculpas.
“Creio que, com a cordura que lhe é característica, ele poderia pedir desculpas e, sei lá, dizer que se equivocou. Bem, quem já não se equivocou na vida?”.
Na última terça-feira (16), quando parte dos presos cubanos já havia embarcado rumo a Madri, Lula fez uma declaração sobre o caso.
Nada que se aproximasse, porém, de um perdão. Como se nada houvesse ocorrido, o presidente se disse “feliz” (confira no vídeo lá do alto).
“Eu fiquei tão feliz que os cubanos soltados presos [sic] como eu fiquei feliz quando fui solto da cadeia em maio de 1980”, afirmou Lula.
Acrescentou: “Deus queira que todos os países soltem da cadeia presos que são considerados presos políticos”.
Pôs-se a parabenizar aqueles que fizeram o que ele se absteve de fazer em fevereiro. Teve o zelo de incluir no rol de felicitações a ditadura de Cuba:
“Parabéns à Igreja Católica da Espanha, parabéns ao governo cubano e parabéns a todos que lutarem para liberar algum preso no mundo”.
Esquivou-se de mencionar explicitamente o nome de Guillermo Fariñas, o dissidente cubano que teve papel central na liberação dos presos.
Fariñas sustentou uma greve de fome por heróicos 135 dias. Interrompeu-a, já com a vida pela bola sete, depois que a ditadura dos irmãos Raul e Fidel Castro se dobrou.
Para evitar a exposição de mais um cadáver no noticiário mundial, o presidente Raul Castro concordou em libertar, em quatro meses, 52 presos políticos.
Depois de arrostar uma cana dura de quase oito anos, sob a acusação fazer críticas ao governo e promover “propaganda inimiga”, Pablo vive um recomeço aos 40.
Junto com a mulher Oleivys García, 38, e o filho Jimmy Pacheco, que completará 12 anos na próxima quarta, Pablo será enviado à cidade espanhola de Málaga.
Ele é professor de educação física e jornalista. Ela, médica. É improvável que consigam colocações à altura da qualificação pessoal. Sobretudo numa economia em crise como a espanhola.
Pablo parece dispor de uma única certeza: “Seja aqui na Espanha ou onde eu estiver, mesmo que seja na Antártica, vou ajudar meu país”.
Como? “Falando e escrevendo muito. Em Málaga, que será nosso destino, vou trabalhar de dia e escrever à noite”.
Pablo planeja editar dois livros. Num, vai contar a experiência no calabouço. Noutro, dirá como o amor manteve sua família unida no martírio.
Enquanto isso, aguarda pelo pedido de desculpas de Lula. Talvez devesse puxar uma cadeira.
Blog do Josias.
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