faculdade de Filosofia, depois o do Rio de Janeiro, e aí eu me mudo final de 77 princípio de 78, e eu
me separo, e nessa época eu trabalhava em Belo Horizonte na...num órgão do governo estadual por
ajuda... que ajuda assim que mesmo eu sem ter ainda o processo de anistia...
Joana: uhum.
Eleonora:... eu fui contratada como técnica de um órgão superintendente de planejamento urbano, o
XXX, então eu trabalhava lá. E aí no início de 78 eu já tinha me separado do meu ex-marido e resolvo
sair de Belo Horizonte. Aí quando eu saio de Belo Horizonte eu busco um lugar bem longe porque eu
não queria mais ser referência para a esquerda.
Joana: Entendi.
Eleonora: Porque é uma carga muito pesada.
Joana: Imagino.
Eleonora: Muito pesada.
Joana: Todo mundo te espia.
Eleonora: Me espia e me demanda.
Joana: E cobra.
Eleonora: Me chupa e me demanda, e eu não queria mais aquilo naquele momento. Eu queria viver a
minha individualidade, a minha sexualidade...
Joana: uhum.
Eleonora:...e eu não podia. Então eu procurei isso sou muito amiga, por incrível que pareça, a vida
inteira do Frei Beto e pedi a ele pra me encontrar um lugar o mais longe possível de Belo Horizonte.
Aí ele falou “Eu tenho dois lugares onde a Diocese é muito aberto, em Vitória com Dom Luís ou em
João Pessoa com Dom José Maria Pires. Eu falei “Eu quero João Pessoa”, quanto mais longe melhor.
Não tinha nem avião, eu fui de ônibus gastei 58 horas.
Joana: Foste com teus filhos?
Eleonora: Com os dois filhos.
Joana: Sim.
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Eleonora: E João Pessoa foi... eu digo que João Pessoa de 78 a 84 foram anos fundamentais na minha
vida e no meu reencontro comigo mesma.
Joana: uhum.
Eleonora: Porque eu cheguei lá sem cartão de apresentação e sem...
Joana: A Frei Beto?
Eleonora: É... mas assim, eu cheguei, eu. Eu tive que construir minha vida.
Joana: uhum. Fosse trabalhar?
Eleonora: No Centro de Direitos Humanos da Arquidiocese da Paraíba.
Joana: Tá legal.
Eleonora: E aí eu comecei a trabalhar com as mulheres rurais de Alagamar, que era o que eu queria, na
época muito pesado trabalhar com os movimentos de trabalhadoras rurais, e comecei , logo depois
retomei um grupo, a minha atividade de grupo de reflexão feminista com algumas mulheres em João
Pessoa. A maioria de fora de João Pessoa e duas de dentro...
Joana: uhum.
Eleonora:... de João Pessoa. Então nós criamos o primeiro grupo feminista lá em João Pessoa chamado
Maria Mulher.
Joana: Olha só!
Eleonora: É. Esse Maria Mulher...
Joana: Já ouvi falar.
Eleonora:... foi um grupo fortíssimo que teve desdobramento, hoje o CUNHA é um desdobramento
dele. Críamos esse grupo, esse grupo foi fortíssimo...
Joana: Também teve um jornal?
Eleonora: Não.
Joana: Não chegou a ter?
Eleonora: Esse grupo não chegou a ter. Esse grupo chegou a ter várias publicações chamadas Maria
Mulher...
Joana: É?
Eleonora: É. Esse termo de história em quadrinho...
Joana: uhum.
Eleonora: E...
Joana: Tipo divulgação?
Eleonora: É, da questão da mulher.
Joana: uhum. Divulgação da questão da mulher.
Eleonora: É. Nós trabalhávamos com a questão da violência, contra a violência contra a mulher.
Fizemos uma enorme...um enorme movimento de visibilidade contra o assassinato de uma poetisa lá
chamada Violeta formiga que foi assassinada por um cara de classe alta, seu ex-marido...
Joana: uhum.
Eleonora:... senhor do engenho rural e da alta burguesia. E nós fomos pra rua. Fomos pra “quem ama
não mata” naquela insígnia que o Brasil estava...
Joana: Estás falando da Diniz?
Eleonora: É. “Quem ama não mata” e O silêncio é cúmplice da violência, e aí começamos a nos
articular dentro do Nordeste.
Joana: Tá.
Eleonora: Era o S.O.S Mulher...o S.O.S Corpo e um grupo de reflexão que tinha em Natal...
Joana: uhum.
Eleonora:... de auto-reflexão, e o Maria Mulher o quê que nós fazíamos? Nós fazíamos auto-exame de
colo de útero, auto-exame de mama...
Joana: O que tu fez de Medicina estava ajudando?
Eleonora: Estava ajudando muito. Trabalho com violência contra a mulher e trabalho de sensibilização
e cursos de educação pra mulheres da periferia e mulheres rurais.
Joana: Vocês tinham apoio financeiro?
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Eleonora: Nenhum.
Joana: Quer dizer, por conta própria.
Eleonora: Eram grupos de auto-ajuda. Naquela época não tinha as agências financiadoras.
Joana: Não tinha é.
Eleonora: Grupos de auto-ajuda. Com esse grupo nós colocamos o feminismo paraibano no nível
nacional, e ele foi se fortalecendo muito, esse grupo. Por causa desta militância toda... aí eu feminista,
eu tive minha casa em João Pessoa incendiada.
Joana: Nossa!
Eleonora: É.
Joana: Isso foi em que ano?
Eleonora: Foi em 81.
Joana: 81.
Eleonora: Foi durante a primeira greve de professores, eu era da ANDES e também era feminista.
Joana: A essas alturas tu já eras professora de novo?
Eleonora: Ai eu entro para a Universidade Federal da Paraíba como colaboradora 80 que existia...
Joana: Tu ainda não tinhas mestrado?
Eleonora: Não. Eu fui fazer...fiz o meu mestrado na Paraíba, em Sociologia do Trabalho...
Joana: Depois de 81?
Eleonora: É. Terminei em 82, 83...aí encontro na Paraíba a Lourdes Bandeira que já estava na Paraíba
também. E aí eu entro para a Universidade...
Joana: Certo.
Eleonora:...eu faço concurso e entro pra Universidade.
Joana: uhum.
Eleonora: Não, eu entrei pra Universidade mais cedo. Eu entrei pra Universidade em 78, eu chego em
78. E nesse momento da primeira greve com as questões feministas, a minha participação em... (toca
um celular)
Eleonora: Só um minutinho.
(Interrupção da gravação)
Joana: Tu estavas dizendo que entraste na Universidade pra dar aulas como...
Eleonora: Colaboradora.
Joana:...colaboradora em 78.
Eleonora: Em 78. E na greve de 82, que fomos todos incorporados, eu entro para o quadro permanente
da Universidade.
Joana: Ah tá.
Eleonora: Entendeu? Mas eu dava aula até naquele contrato de colaboradora 80.
Joana: uhum.
Eleonora:...que tinha nas universidades federais. Foi durante a primeira greve nacional, eu era do
comando de greve , eu estava voltando de Olinda com o Francisco Julião e quando cheguei , minha
casa havia sido destruída por uma bomba...
Joana: Certo.
Eleonora:...e voltei junto com ele. Eu dei carona pra ele, e quando eu chego a minha casa estava
incendiada.
Joana: Nossa. E foi incêndio criminoso?
Eleonora: Foi criminoso, teve processo, teve...
Joana: Nossa.
Eleonora: Foi.
Joana: Não descobriram quem era?
Eleonora: Não, mas há ainda suspeitas bem...bem claras que foi um latifúndiário.
Joana: Certo.
Eleonora: Exatamente por causa, não só do meu trabalho feminista, mas meu trabalho de mulheres
com as trabalhadoras rurais.
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Joana: Certo.
Eleonora: E aí é que eu conheço a Margarida Alves, a Penha, que morreu com a Bete Lobo, e eu passo
a ter uma...elas passam a ter uma importância muito grande na minha vida e vice-versa.
Joana: uhum, uhum.
Eleonora: E aí eu...
Joana: Fala, e daí tu fosse fazer mestrado...
Eleonora: Não, eu fiz mestrado na Paraíba.
Joana: Na Paraíba mesmo.
Eleonora: Na Paraíba mesmo.
Joana: Isso em 81, 82...
Eleonora: Eu terminei de 82 para 83.
Joana: Certo.
Eleonora: Meu mestrado foi O Feminismo:o reinventar da educação...
Joana: Certo.
Lenora:...a partir de práticas feministas.
Joana: E isso foi na Educação?
Eleonora: Não, foi na Sociologia.
Joana: Na Sociologia.
Eleonora: Na Sociologia do Trabalho.
Joana: Tá.
Eleonora: Eu fiz com um grupo de mulheres da periferia...
Joana: Tá.
Eleonora:...em João Pessoa mesmo.
Joana: Tá.
Eleonora: Depois em 84 eu venho pra São Paulo fazer doutorado na Ciência Política, já
articuladíssima...
Joana: Imagino.
Eleonora:...com o feminismo, e com linhas de pesquisa bem definidas do ponto de vista feminista.
Joana: Quem é que te orientou em São Paulo?
Eleonora: Em São Paulo foi a Maria Lúcia Montes, uma antropóloga. Embora na época ela fosse da
Ciência Política. E em 84 eu faço, entro para o doutorado com uma tese que era sobre Direitos
Reprodutivos e Direitos Sexuais a partir...é...a construção da cidadania a partir do conhecimento sobre
o próprio corpo.
Joana: Isso por conta do teu trabalho com as mulheres? Certamente, claro.
Eleonora: Por conta do meu trabalho com as mulheres em uma favela chamada Favela Beira-Rio.
Joana: Certo.
Eleonora: Lá em João Pessoa.
Joana: uhum.
Eleonora: Que hoje é um bairro. Então nesta época eu fiquei quatro anos em São Paulo fazendo a tese
e voltando a João Pessoa
Joana: Por que os meninos ficaram lá?
Eleonora: Comigo em São Paulo.
Joana: Em São Paulo.
Eleonora: Em São Paulo. E aí fui coordenadora do grupo de Mulher e Política da ANPOCS, do GT.
Joana: uhum.
Eleonora: Dois anos...dois mandatos seguidos, e voltei pra João Pessoa. Aí em São Paulo eu integrei
um grupo do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Eu a Maria José Oliveira, a Vera Soares, a
Tereza Verardo a Margareth Lopes, a Magali Marques, críamos o Coletivo Feminista Sexualidade e
Saúde, que é uma ONG, para atender as mulheres de forma diferenciada com respeito a... E nesse
período estive também pelo Coletivo fazendo um treinamento de aborto na Colômbia.
Joana: Certo.
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Eleonora: O Coletivo nós críamos em 95...
Joana: Como é que era esse curso de aborto?
Eleonora: Era no Clínicas em Aborto...a gente aprendia a fazer aborto...
Joana: Aprendia a fazer aborto.
Eleonora: Com aspiração AMIU
Joana: Com aquele...
Eleonora: Com a sucção.
Joana: Com a sucção. Imagino. Uhum.
Eleonora: Que eu chamo de AMIU . Porque a nossa perspectiva no Coletivo, a nossa base...
Joana: Que as pessoas se auto...auto...fizessem
Eleonora: Auto-capacitassem, e que pessoas não médicas podiam...
Joana: Claro.
Eleonora:...lidar com o aborto.
Joana: Claro.
Eleonora: Então vieram duas feministas que eram clientes, usuárias do Coletivo, as quais fizeram o
primeiro auto-exame comigo. Então é uma coisa muito linda...
Joana: uhum.
Eleonora:...muito bonita, descobrirem o colo do útero e...
Joana: uhum.
Eleonora:...ter uma pessoa que segura na mão.
Joana: Certo.
Eleonora: E elas dão esses depoimentos em vários encontros. E depois em São Paulo, em... ...em 89...
Joana: Já devias ter defendido a tese a essas alturas?
Eleonora: Não, eu defendi em 90.
Joana: Defendesse em 90.
Eleonora: 90. Em dezembro de 90. Eu voltei pra Recife. Voltei pra João Pessoa e morei em Recife.
Joana: uhum.
Eleonora: Trabalhei tanto no Maria Mulher e na volta, em 90, eu pedi transferência pra Universidade
Federal de São Paulo, a então Escola Paulista de Medicina, porque meus filhos queriam ficar em São
Paulo...
Joana: Certo.
Eleonora: Eu pedi transferência....
Joana: E foi tranqüilo?
Eleonora: Não, foi difícil transferência na época do Collor.
Joana: Imagino.
Eleonora: E ai eu me...eu fui uma das que teve direito de transferência garantida porque eu vim
liberada com a seguinte questão, se o Collor ganhar a presidência, e assumir e exigir que todos
retornem, a sua transferência é será dada.
Joana: uhmm.
Eleonora: Ele exigiu, ele ganhou e exigiu e a minha transferência foi incentivada. Eu volto...eu
venho...aí nós críamos em 90 a Rede Nacional Feminista de Saúde, em Itapecerica da Serra
Joana: Certo.
Eleonora: E...dentro da Escola Paulista nós temos um núcleo.de estudos e pesquisas em saúde e
realções de gênero. Eu não tinha um Departamento de Medicina Preventiva que me acolhesse ainda, aí
eu fiz a escolha de ir para o Departamento de Enfermagem na perspectiva de contribuir com a
melhoria da qualidade de assistência das mulheres.
Joana: uhum.
Eleonora:...na ponta dos serviços. Na Escola Paulista eu tive...e nós críamos o Núcleo de Estudo em
Saúde da Mulher e Relações de Gênero, e junto com outro grupo de mulheres feministas, inclusive a
Margareth Rago, a Miriam Grossi, e a Magda Neves, nós fizemos parte de um núcleo que com um
recurso da Ford a partir de um encontro de São Paulo, da Fundação Carlos Chagas...
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Joana: Certo.
Eleonora:...cria a REDEFEM, cria a Revista de Estudos Feministas...
Joana: Sim.
Eleonora:...e cria esse grupo que ia pensar o ensino feminista através dos núcleos de estudos.
Joana: uhum.
Eleonora: Esse grupo era composto por essas pessoas...
Joana: Sai aquele livro inclusive, “Questão de Gênero”...
Eleonora Exatamente. Exatamente.
Joana: uhum.
Eleonora: E eu continuo com duas linhas....hoje eu sou professora livre docente, do Departamento de
Medicina Preventiva com uma tese que se transformou em livro, eu fiz meu pós-doutorado em Milão,
na Itália, na Faculdade de Medicina na área de Saúde, Trabalho e Gênero.
Joana: uhum.
Eleonora: Hoje eu coordeno um diretório de pesquisa que é Saúde e Relações de Gênero no CNPq. Eu
sou pesquisadora 1B do CNPq, e toda a minha atividade de pesquisa é na área de Saúde e Relações de
Gênero, e Saúde da Mulher, com um olhar feminista.
Joana: uhum.
Eleonora: Tem um impacto disso na construção do conhecimento da saúde.
Joana: uhum.
Eleonora: E...no ativismo eu faço parte da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivo,
uma das fundadoras, e até novembro eu ocupo lugar de relatora das Nações Unidas do Direito a Saúde
no Brasil.
Joana: Certo.
Eleonora: Fui indicada pela Rede...
Joana: Certo.
Eleonora:...e selecionada curricularmente. E toda a minha produção, tanto acadêmica como o meu pé
na militância, no ativismo feminista, ele se dá via duas grandes linhas de pesquisa que é Feminismo, e
Saúde e Relações de Gênero. Dentro da Saúde e Relações de Gênero tudo o que diz respeito a Direitos
Reprodutivos e Sexuais, Saúde e Trabalho.
Joana: Certo.
Eleonora: E Violência. Hoje eu faço parte da coordenação de um dos serviços de violência que atende
mulheres vítimas de violência sexual, que é o da UNEFESP, o da Casa de Saúde, atendemos mulheres
que foram vítimas de violência sexual e fazemos o aborto nesses casos.
Joana: Certo.
Eleonora: E também hoje faço parte das Jornadas Brasileiras pela Legalização do Aborto,no grupo de
coordenadoras.
Joana: uhum, uhum. Essa é tua militância atual?
Eleonora: É minha militância atual.
Joana: Tu também fazes parte da REDEFEM eu acho.
Eleonora: Faço, faço parte da REDEFEM, exatamente.
Joana: Estás em várias frentes.
Eleonora: Sou consultora de várias.Revistas e Agências de Fomento..
Joana: Imagino.
Eleonora: Capes, CNPq, barará...barará...barará...Fundação Carlos Chagas.
Joana: uhum.
Eleonora: Agora esses últimos dois anos eu concentrei nesse trabalho de relatoria da ONU...
Joana: uhum.
Eleonora:...e onde foi fantástico porque nós definimos...isso até eu gostaria de dizer, nós definimos
como eixo estruturador dessa relatoria, são seis relatorias pra Educação, a Saúde, Água, Terra e
Alimentação, Moradia, Trabalho e Meio Ambiente...
Joana: uhum.
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Eleonora:... e só sou eu de relatora, o resto tudo é homem. E na relatoria da saúde nós definimos como
os dois grandes eixos estruturadores dos casos paradigmáticos de violência a questão da saúde da
mulher e a saúde no trabalho. Na saúde da mulher nós visitamos vários municípios do interior de
Recife onde a morte materna é altíssima pra sair do eixo Rio, São Paulo e de Minas Gerais, e a questão
do aborto.
Joana: uhum.
Eleonora: Visitamos várias maternidades: duas grandes maternidades do Rio de Janeiro, duas
maternidades do Rio, duas de Belo Horizonte, uma de Fortaleza, onde nós tínhamos recebido notícia
que mulheres tinham morrido por aborto e as profissionais tinham sido presas. Na do Rio mais grave,
que a profissional algemou a mulher na cama e chamou a polícia.
Joana: Meu Deus!!!
Eleonora: É. Pra prender. Isso foi há seis meses. E a outra Saúde e Trabalho são questões de
contaminação e da questão de método, e essas denúncias são levadas pra ONU. Nós vamos agora para
Genebra, como fomos no ano passado. E duas dela foram para a Organização dos Estados Americanos
para responsabilizar o Estado por essas relações. O Estado brasileiro, é uma questão...a minha questão
feminista faz parte da minha vida integral.
Joana: Eu tô vendo.
Eleonora: Completamente.
Joana: Tu te lembras de mais alguma coisa? Eu acho que eu esgotei as nossas questões.
Eleonora: Eu completei?
Joana: Uhum, completaste.
Eleonora: A não ser que você tenha...
Joana: Bom, eu iria te perguntar se tu autorizas a divulgação da entrevista. Eu vou te mandar de
qualquer maneira a transcrição, se tu quiser acrescentar ou tirar alguma coisa.
Eleonora: Quero. Quero. E pra mim, uma questão que eu acho que é importante, é dizer que hoje eu
tenho 60 anos e sou avó.
Joana: uhum.
Eleonora: E eu digo que a questão feminista é tão dentro de mim, e a questão dos Direitos
Reprodutivos também, que eu sou avó de uma criança que foi gerada por inseminação artificial na mãe
lésbica.
Joana: uhum, uhum.
Eleonora: Então eu digo que sou avó da inseminação artificial...
Joana: (risos)
Eleonora:...alta tecnologia reprodutiva.E aí eu queria colocar a importância dessa discussão que o
feminismo coloca, no sentido do acesso às tecnologias reprodutivas.
Joana: Certo.
Eleonora: Entendeu? E eu diria...eu fiz dois abortos, e também digo que sou avó do aborto, também
porque por mim já passou.
Joana: Sim
Eleonora: Também já passou nesse sentido. E diria que eu sou uma mulher muito feliz e muito
realizada, e eu pauto em duas questões: na minha militância política e no feminismo.
Joana: Certo. A tua história, né?
Eleonora: Que é a minha história de vida e eu acredito que os sujeitos são construídos a partir de sua
própria história.
Joana: Claro. Tá certo.
Eleonora: Tô falando isso pra historiadora...
Joana: (risos). Tá certo. Bom, Eleonora eu te agradeço bastante, e se a gente tiver uma outra questão a
gente volta a conversar.
Eleonora: Sem dúvida. Estou a disposição.
Fonte: Ucho.Info