Como os amigos e seguidores que acompanham esse blog sabem, sou médico, trabalho exclusivamente em serviço público, sou Diretor Geral do PAM de Presidente Kennedy e Diretor Clinico do Hospital Municipal de Atílio Vivácqua, faço ambulatório de Clinica Médica de 2ª a 5ª no PAM e sou responsável pelos pacientes internados ou em observação. No hospital, dou plantão 2ª e 3ª feiras no período de 19 às 07 h, além de ambulatório de clinica médica, tuberculose e hanseníase nas 6ª feira e faço acompanhamento dos pacientes internados na 5ª e 6ª feira. Como podem ver, vivo na estrada entre esses dois municípios. Como Diretor, sou responsável pelos plantonistas e cobrir suas eventuais faltas.
O que vou relatar aqui, faz parte da minha rotina, mas quero compartilhar, até para desabafar, com os amigos, as 24 horas em que morreu um pedaço de mim.
Para que possam entender melhor, Rodrigo é o meu quarto filho, perdeu o João Lucas
http://bit.ly/hCZx9L e http://bit.ly/aDfRTG , após um ano e meio sua esposa Fernanda engravidou novamente e nasceu Felipe em 26/11/10, forte e lindo, para alegria de todos nós. Em 27/11 foi constatado que o mesmo nascera com eritroblastose fetal apesar de todos os procedimentos de imunização da mãe que é RH negativo, após o parto de João Lucas e todos os procedimentos de rotina no Pré-natal de Felipe. Todos os médicos envolvidos ( obstetra, radiologista ( usg semanais), pediatras e intensivistas ainda não têm explicação, do porque não houve a imunização esperada.
Dia 29/11 , 2ª feira ,16h
-A recepcionista do PAM me interfona para dizer que o Dr. Antonio, plantonista da quarta-feira mandou atestado médico de 3 dias ( por fax ) com data de 29/11.
Liguei para uma colega e consegui que ela viesse cobrir o plantão no período da noite, já que durante o dia, trabalhava no PSF e em último caso eu seguraria o plantão durante o dia, como faço eventualmente.
Dia 30/11, 3ª feira, 09,30 h a Diretora Administrativa do Hospital me liga e informa que a Dra. Ângela, plantonista de quarta-feira dia, estava internada e não poderia trabalhar.
Como não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, tinha que conseguir um plantonista. Orientei a Diretora Administrativa que ligasse para todos os nosso médicos do corpo clinico e outros de contatos e tentasse conseguir um plantonista, se não conseguisse, ligasse para a Secretária de Saúde pra ver se poderia liberar alguém do PSF para dar cobertura no Hospital.
Dia 30/11, 3ª feira, 12 h
Recebo telefonema da Diretora do Hospital :
- Dr Marco
- Fala Elza
- Liguei pra todo mundo, infelizmente não consegui ninguém...
- E o colega do PSF?
- É melhor o Sr ligar para a Secretária.
- Ok, tchau
Ligo para a Secretária:
- Oi Adriana, como vai?
- Tudo bem, olhe o Dr. Valter alega que está com a agenda cheia no PSF e não pode ir cobrir o hospital. A decisão é dele, não posso obrigar.
- Entendo, não sei o que fazer, não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, já te falei que precisamos arranjar um plantonista definitivo para as 4ª feiras, já que a Dra Ângela não está bem de saúde , só que com o salário no nível que está não consigo quem queira, já te falei que se não melhorar o salário vai ficar cada vez mais difícil, até porque estamos muito abaixo do que paga hoje o mercado.
- Eu sei, mas o Sr também sabe que isso não depende só de mim, precisamos nos reunir com o Prefeito, mas te adianto que não é fácil no momento conseguir um reajuste.
- Ok, secretária, vou continuar tentando, mas está difícil, tchau, abraços.
- Tchau.
Neste meio tempo, descubro que o colega que mandou o atestado médico estava de plantão no PAM Paulo Pereira em Cachoeiro, ligo pra ele mas o telefone está desligado.
Entro em contato com a enfermeira e peço que lhe dê um recado nos seguintes termos:
Peça ao Dr. Antonio que me ligue, pois tenho um assunto urgente e de interesse dele.
Nesse meio tempo continuo atendendo os meus pacientes agendados no ambulatório de clinica médica.
Dia 30/11 , 14,30 h
Toca o celular e vejo que é o Dr. Antonio,
-Oi Marco, quer falar comigo?
-Sim, estou muito preocupado, você mandou um atestado de três dias, ontem, hoje e amanhã, e todo mundo já sabe que está de plantão aí em Cachoeiro, isso vai trazer problemas pra vc, amigo.
-Você sabe que estou com problemas, mas me ligaram dizendo que não tinha ninguém aqui no Paulo Pereira e me imploraram pra que eu viesse, mas não estou bem...
- Olhe amigo, entendo, mas preciso que você venha trabalhar, te ajudo no que puder aqui, vou retirar o seu atestado pra não te dar problemas e à tarde já consegui uma colega pra cobrir o plantão da noite e te libero, ok?
- Ta bom, vou sim e a gente conversa aí...
- Certo, vou retirar seu atestado e a gente conversa, abraços.
Parte do problema resolvido, faltava o plantonista do hospital, termino meu ambulatório, dou uma olhada nos pacientes internados, peço alguns exames e me preparo para ir para Atílio Vivácqua pois pegaria no plantão às 19 hs, não sem antes ligar para o recursos humanos e cancelar o atestado médico do Dr. Antonio.
Na estrada, pensando no problema, lembrei que a Dra Nina faria ambulatório de Ginecologia em Presidente Kennedy na quarta-feira e como também trabalha comigo no Hospital de Atílio Vivácqua tive uma idéia, assim que chegar vou ligar pra ela. Meus pensamentos voam até Vitória onde meu netinho continuava internado na UTIN me causando profundas preocupações e decidi que ligaria pro meu filho assim que chegasse.
Dia 30/11, 17,30h
Ligo para o meu filho, não consigo falar e ligo então para a Dra Nina.
-Oi Nina boa tarde, tudo bem?
-Tudo bem, como vai seu netinho?
-Não tive noticias hoje, vou tentar falar com meu filho mais tarde. Olhe amiga, tive um dia difícil e preciso de um favor seu...
-Hum, quando você me liga já sei que é só problema...
-Pode atrasar um pouco seu ambulatório em P. Kennedy e segurar o plantão em Atílio pra mim até as 9,30? Tenho que ir a Kennedy resolver uns problemas no PAM, conversar com o Antonio, aviso que vc vai atrasar um pouco, retorno e assumo o plantão...
-Tudo bem, avise lá...
-Obrigado Nina, olhe o Antonio não está bem, se precisar dê uma mãozinha a ele lá no plantão, beijos.
Dia 30/11, 19 h
Inicio o plantão, o hospital está lotado e o primeiro caso é de um rapaz com um profundo corte na testa, causado pela parte de trás de um machado que bateu num arame atingindo o moço, apesar do susto e de estar sangrando muito, gastei uns 30 minutos pra suturar e verificar que não tinha maiores danos, mantive-o em observação e me preparei para continuar atendendo, mas antes liguei pro meu filho.
-Rodrigo
-Oi pai, tudo bem?
-Comigo sim, como está o Felipe?
-Acabei de sair no hospital, amanhã deve sair da luz (fototerapia), a icterícia diminuiu, a urina está mais clara, mas teve um exame do fígado ( não soube me explicar qual) que deu um pouco alterado, ele tomou um plasma, mas segundo a médica de plantão está evoluindo bem...
-Será que ele vai precisar de mais sangue?
-Pai, segundo a pediatra não será mais preciso...
-Ok filho, estou de plantão, por favor, dê noticias pois estou preocupado, e você como está?
-Estou bem, acho que tudo vai dar certo...
-Ta bom filho, Deus te Abençoe, dê um beijo na Fernanda.
Continuei atendendo no plantão, parei para jantar às 23,30h aproveitei para ir um pouco ao twitter e postar alguma coisa no blog. A partir daí o plantão foi daqueles que ninguém gosta, pacientes chegando no espaço mais ou menos de uma hora entre um e outro, o que significa que o máximo que consegui foi uns cochilos entre um e outro atendimento, quando foi 5,30 atendi mais um paciente , desisti de tentar dormir e me levantei, aproveitei para dar uma olhada nos pacientes internados.
Dia 01/12, 7,00hs
Dra Nina chegou, agradeci me despedi prometendo retornar às 9,30hs como combinamos, encarei a estrada sem imaginar que seria um dos piores dias da minha vida.
Cheguei no PAM em Presidente Kennedy às 07,40h e após um rápido café fui examinar os pacientes internados, avisei que a Dra Nina chegaria por volta das 10h, fui à sala da direção para tomar conhecimento dos acontecimentos da noite e me preparei para conversar com o Dr Antonio.
Esperei acabar de atender uma urgência e me reuni com ele, esclarecemos os fatos e lhe disse que teria que ir para Atílio, pois estava sem plantonista, mas que às 18h uma colega viria substituí-lo. Avisei a minha atendente que se conseguisse alguém para segurar o plantão no hospital voltaria para fazer o ambulatório às 13h, se não, que ela remarcasse as consultas para o dia seguinte pela manhã. Peguei a estrada para percorrer os 40km e retornar ao hospital, assumir o plantão e liberar a Dra Nina.
Dia 01/12 , 09,22h
Ao entrar no hospital o celular tocou, quando vi o nome do meu filho, o coração disparou e fui tomado de terrível pressentimento...
-Rodrigo?
-Pai, o hospital acabou de me ligar, o Felipe teve uma parada cardíaca e não resistiu, ele morreu...
-Pelo amor de Deus meu filho, não me diga isso, meu Deus...
-Pai, o que vou fazer, como dizer isso à Fernanda...
-Calma meu filho, procure se acalmar, já estou indo pra aí, não sei o que dizer meu filho, só procure se acalmar por favor...
-Pai, o que vou fazer? De novo, perdi meu filho, de novo...
-Por favor meu filho, tenha força, papai está indo...
-Ta bem pai, venha....
Minhas lágrimas escorriam rosto abaixo, o pessoal do hospital espantados, não sabia o que fazer ou dizer, em prantos liguei para meus filhos e minha esposa, todos ficaram inconsoláveis e preocupados comigo. Meu primeiro impulso foi pegar a estrada, mas me convenceram a esperar meu filho caçula que iria dirigir pra mim, já que não tinha dormido à noite. Avisei a Dra Nina, pedi que ela ficasse no plantão e fui pra casa. Pedi para não avisar a minha filha mais nova ( Nathália) que estava no colégio fazendo provas, pedi a mãe que mandasse buscá-la e só então desse a notícia. Aguardei meu filho chegar e fomos para Vitória , foram os 160 km mais longos da minha vida, estava doido pra chegar, abraçar, beijar meu filho, tentar de alguma maneira aliviar ou pelo menos dividir sua dor.
Como consolar, o que dizer ao filho que perdeu seu segundo filho? O que fiz foi abraçar, beijar e chorar. Dia 1º de dezembro de 2010, o dia que junto com Felipe, eu e toda minha família morremos um pouco.
Este espaço se destina a discutirmos qualquer assunto de interesse de seus visitantes. Politica, esportes, economia, segurança,relações humanas, ação social,religião, educação, cultura e principalmente saúde, de uma forma simples, direta e sincera para que todos se sintam encorajados a participar.
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
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