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domingo, 29 de setembro de 2013

INSENSATEZ E DESFAÇATEZ

Não dá para acreditar, mas esta verdade é bem brasileira: a União ofereceu a um pobre agricultor do Piauí, Nelson Nascimento, de 67 anos, R$ 5,39 (isso mesmo) pela indenização de sua propriedade, que corta o traçado da Ferrovia Transnordestina, uma das principais obras do PAC. A quantia, equivalente a menos de um centavo por metro quadrado, é metade do custo de uma passagem para Nascimento tomar um ônibus, no quilombo Contente, e ir ao Fórum da cidade, Paulistana, contestar o "rico dinheirinho".
A ferrovia, promessa do governo Lula, começou com orçamento de R$ 4,5 bilhões, as obras estão pela metade e o custo hoje seria mais de R$ 8 bilhões. Trata-se de um empreendimento privado, com execução pelo governo federal. A Secretaria de Transportes do Piauí, responsável pelas desapropriações, garante que o preço da indenização segue "as normas à risca". O Dnit, que firmou o convênio com a secretaria, confirma que o cálculo de R$ 5,39 obedeceu "a parâmetros usados em todas as desapropriações".
A trombeta da Justiça anuncia o veredicto: o Estado de Direito vence por nocaute o Estado do bom senso. E assim a nau da insensatez vai multiplicando seus hóspedes a cada porto em que atraca, particularmente naqueles onde as águas do nosso oceano se apresentem revoltas em razão de choques entre as correntes humanas e os braços do Estado. As ondas acabam arrebentando sobre os diques do Judiciário, que, por sua vez, estribado na interpretação das normas, nem sempre consegue equilibrar a balança da justiça, usando o peso do entendimento de Spinoza de que "justiça é uma disposição constante da alma a atribuir a cada um o que lhe cabe de acordo com o direito civil". Pior é ver que a balança dos justiceiros não raro pende para um lado, desequilibrando o sistema de freios e contrapesos, engenhosa construção que o barão de Montesquieu criou para harmonizar os Poderes.
Um exemplo? O "palpitômetro" montado para combater o Projeto de Lei 4.330/2004, que trata da terceirização de serviços, em debate na Câmara dos Deputados, e visa a formalizar a situação de 15 milhões de trabalhadores, hoje sob a égide da ultrapassada Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Pois bem, o verbo contra esse projeto legislativo não só foi encampado pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, como recebeu o endosso de 19 ministros do TST, cuja assinatura em manifesto público escancara a tese de um prejulgamento. Imagine-se como se comportaria a plêiade de altos juízes ante a eventual aprovação de uma lei pelo Poder ao qual, de direito, cabe legislar. Sua decisão seria justa? Não estamos diante de um flagrante de controle prévio de constitucionalidade? Bacon (1561-1626) já ensinava que cabe ao magistrado jus dicere, e não jus dare - interpretar leis, e não dar ou fazer leis.
Analisemos, porém, a tese de que o juiz, como cidadão da polis, pode ser qualificado como ente político, agregando a condição de participar do processo político e opinar sobre os destinos da sociedade. Vamos ao cerne da questão. Não há dúvida quanto à identidade política do juiz, mas haverá de prevalecer em seu sistema decisório o múnus da judicatura, que abriga princípios e valores, a começar da integridade, virtude que os caracteriza. Em O Espírito das Leis, Montesquieu alertava: "Se o poder de julgar estiver unido ao Poder Executivo, o juiz terá a força de um opressor". Imagine-se, agora, uma estrutura de administração da justiça atrelada às pressões de grupos de interesses, organizações corporativas, lideranças políticas e se deixando levar pelas correntes quentes das paixões. O momento nacional sugere que façamos um mergulho nessa hipótese.
A insensatez faz-se presente na vida de outros figurantes da vida institucional. Entorta seus passos em variadas instâncias. Veja-se o caso do Ministério Público (MP), com sua função essencial à justiça, constituído por um batalhão de guerreiros em defesa da sociedade, muitos ainda jovens, mas tocados pela chama cívica. Projetos de magnitude, vitais para o desenvolvimento do País, são retardados ou mesmo se tornam inviáveis por ações impetradas pelo MP, com base em irregularidades apontadas na concessão de licenças ambientais. Recorrente indagação: os processos não estariam contaminados por vieses ideológicos, visões ortodoxas, erros de análise ou mesmo falta de informações?
Multiplicam-se queixas contra o Ibama, o órgão de licenciamento ambiental. Recorde-se o caso da perereca de dois centímetros encontrada na Floresta Nacional Mário Xavier, em Seropédica, entre a Via Dutra e a antiga Rio-São Paulo, que atrasou em um ano e meio as obras do Arco Metropolitano - 77 km de pistas que ligam Itaboraí ao Porto de Itaguaí. Solução? Um viaduto sobre o lago das pererecas. Há mais de 1.600 processos de licenciamento em curso, o que cria suspeitas sobre as razões da excessiva morosidade.
E a que atribuir o fato de a Petrobrás ter gasto US$ 1,18 bilhão, em 2009, na compra de uma refinaria em Pasadena, no Texas (EUA), que custou, em 2005, US$ 42,5 milhões? Má gestão ou "possível compra superfaturada de ações pela Petrobrás", nos termos do Ministério Público Federal?
Da insensatez para a desfaçatez o salto é menor que o da perereca fluminense. É só olhar para o Ceará, onde o governo do Estado pagou caro artistas contratados para shows. Chegaram a custar até oito vezes mais que o preço pago em outros Estados. Na inauguração de um hospital em Sobral, o cachê da cantora Ivete Sangalo foi de R$ 650 mil. Um mês depois uma chuva derrubou a fachada do estabelecimento. Na abertura de um centro de eventos, o tenor Plácido Domingo embolsou R$ 3,1 milhões. Artistas desse porte devem ganhar isso mesmo. A questão é saber se um Estado carente de serviços básicos pode esbanjar seus parcos recursos. Ora, no Brasil, tudo é possível.
GAUDÊNCIO TORQUATO

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ESCÂNDALO DE VITÓRIA: PRESSA PARA A COMPRA, MAS PARA A OBRA...

Vilmara Fernandesvfernandes@redegazeta.com.br

A agilidade dada à desapropriação de alguns imóveis em Vitória não se repetiu para reformar as propriedades ou para utilizá-las. Alguns prédios levaram anos até passarem por algum tipo de obra, e outros continuam praticamente abandonados.

Um exemplo dessa situação é a antiga União Capixaba de Ensino (Uces) - um esqueleto de prédio em uma área de 22 mil m2 - adquirido pelo município por R$ 15,2 milhões. A propriedade, em Tabuazeiro, foi desapropriada pelo município em 2007. Todo o processo foi concluído em 78 dias, mas as obras demoraram mais de três anos.

Só em 2011 começaram as obras que vão permitir no local a instalação de uma escola de ensino fundamental e outra de educação infantil. O gasto aos cofres públicos será de, no mínimo, R$ 6,9 milhões.

foto: Carlos Alberto Silva
Construçao do prédio da Uces, na Avenida José Martins, bairro Tabuazeiro - Editoria: Cidades - Foto: Carlos Alberto Silva
Pronto, o prédio da antiga Uces, em Tabuazeiro, custará mais R$ 22 milhões

Outro caso
Um destino diferente teve uma área de mais de 5 mil m2 comprada em 2006, na Vila Rubim, por R$ 2,8 milhões. O galpão seria destinado à criação de um centro educacional de atendimento em horário integral para estudantes das escolas de ensino fundamental de Vitória. No entanto, apenas uma pequena área vem sendo utilizada para projetos educativos.

O restante permanece praticamente abandonado. O fato foi constatado por uma vistoria do próprio município, em 2010. O estudo apontou que a edificação tem pisos alagados, infiltrações e partes até com risco de ruir.
Crise

A secretária de Gestão Estratégica, Marinely Santos Magalhães, destaca que algumas obras demoraram a ser realizadas em função de vários fatores. Uma delas foi a crise econômica, que impôs uma redução de custos.

Outra situação vem das características da execução das obras. "É uma caixa de surpresa. Após começar os trabalhos, às vezes se descobrem situações que demandam mais tempo para serem resolvidas."

foto: Carlos Alberto Silva
Um conjunto de lojas de mais de 5 mil  m2 foi desapropriado há cinco anos na Vila Rubim. Avaliado em R$ 2,2 milhões pelo próprio município, foi comprado por R$ 2,8 milhões.
Imóveis abandonados, em obras ou subutilizados
Galpão Vila RubimA área de mais de 5 mil m2 foi comprada em dezembro de 2006 por R$ 2,8 milhões. Desde então, apenas uma pequena área do prédio vem sendo utilizada pela Secretaria de Educação

União Capixaba de EnsinoLocalizada em Tabuazeiro, foi desapropriada por R$ 15,2 milhões em dezembro de 2007. A obra no local, cujo valor inicial é de R$ 6,9 milhões, começou há poucos meses

Hotel Príncipe
Localizado no final da Vila Rubim, o prédio que vai abrigar um Centro de Especialidades Médicas foi comprado em outubro de 2008. A reforma, que já custou R$ 7,9 milhões, só começou no ano passado. E pode ficar 50% mais cara graças a um aditivo assinado há duas semanas

Fábrica 747
Comprada em 2005 por R$ R$ 6,9 milhões, ficou anos abandonada. Só em 2008 começou a obra, que vem se arrastando. O custo da intervenção era de R$ 19,7 milhões há dois anos

Hotéis Tabajara e Pouso Real
A data da desapropriação dos prédios não foi informada, mas em 2006 a prefeitura já cadastrava famílias para residirem nesses locais. As obras, orçadas em mais de R$ 3 milhões, arrastam-se desde então

Antigo Colégio Americano
A unidade localizada no Parque Moscoso foi desapropriada por R$ 7 milhões, em 2006. Foi comprada para abrigar uma escola de educação infantil e de ensino fundamental. Só parte da obra, orçada em mais de R$ 1 milhão, foi concluída, e o restante ainda se arrasta

foto: Gildo Loyola
Um conjunto de lojas de mais de 5 mil  m2 foi desapropriado há cinco anos na Vila Rubim. Avaliado em R$ 2,2 milhões pelo próprio município, foi comprado por R$ 2,8 milhões.
Prefeito vai à Câmara

O prefeito João Coser vai à Câmara de Vitória na manhã de hoje para prestar esclarecimentos sobre as denúncias envolvendo desapropriações na Capital. Em nota, Coser reafirmou que os processos são pautados pela legalidade, não havendo nada de ilícito.

Ontem, o Ministério Público Estadual ajuizou outra ação de improbidade administrativa contra Coser. O motivo é a compra do prédio do Pronto-Atendimento da Praia do Suá por R$ 600 mil acima do valor de avaliação. Também respondem ao processo Sílvio Ramos, Jader Guimarães, o vereador Zezito Maio e Álvaro Silva, presidente da Colônia de Pescadores.


PRB e PSDB exigem apuração de denúncias


As denúncias de supostas irregularidades em processos de desapropriação de imóveis realizados pela Prefeitura de Vitória mobilizaram ontem diretórios municipais do PRB e do PSDB, que exigem a apuração dos fatos.

Ex-ouvidor da Prefeitura de Vitória, entre 2005 e 2010, e presidente da executiva municipal do PRB, Jadilson Luiz Damascena vai requerer hoje à Corregedoria da Câmara de Vereadores investigação do vereador Zezito Maio (PMDB).

Para Damascena, denúncias envolvendo o nome de Zezito Maio estariam "sujando o nome da Câmara e de alguns pares que não compactuam com as ações". Ele quer, inclusive, que se apure a evolução do patrimônio do vereador.

Zezito, segundo o Ministério Público, teria atuado na negociação de um imóvel da Colônia de Pescadores da Praia do Suá, que resultou em um prejuízo de R$ 600 mil ao município. O vereador se diz inocente.

Já o presidente do diretório do PSDB, Luiz Emanoel Zouain, promete entrar na Justiça com uma ação popular para investigação de 10 processos de desapropriação da prefeitura.

Zouain quer que a prefeitura apresente os laudos técnicos de avaliação das desapropriações. (Claudia Feliz e Gazeta Online)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

PREFEITO DO PT TEM BENS BLOQUEADOS E SOFRE AMEAÇA DE CPI

João Coser em coletiva - Vitória 460 anos

Coser teve os bens bloqueados pela justiça na última semana

Apesar da postura amena na Câmara de Vitória, os vereadores tucanos irão encaminhar na próxima semana a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as desapropriações de terrenos e imóveis pela Prefeitura da Capital.

O diretório municipal do PSDB se reuniu na noite de ontem e definiu a postura de seus dois parlamentares, Neuzinha Oliveira - que estava em Brasília e não compareceu - e Aloísio Varejão.

O presidente municipal do partido, Luiz Emanuel Zouain, explicou que o bloqueio dos bens do prefeito João Coser (PT) e a indagação judicial sobre a desapropriação de um terreno próximo à Ponte da Passagem - noticiada com exclusividade por A GAZETA - é o ponto de partida.

"Mas queremos ir além. Verificar todas as desapropriações realizadas em Vitória", afirmou.

Para que o pedido de CPI seja aberto, os tucanos precisarão da assinatura de mais três vereadores. O regimento interno da Câmara prevê o apoio mínimo de cinco parlamentares. "Acredito que não teremos problemas. Vamos conseguir as assinaturas", disse confiante Luiz Emanuel.

Na última sessão ordinária na Casa - primeira após o bloqueio dos bens de Coser vir a tona -, nenhum dos 15 vereadores tocou no assunto em discursos.

Fonte: A Gazeta