Luiz Felipe Pondé (foto), 52, é um raro exemplo de filósofo brasileiro que consegue conversar com o mundo para além dos muros da academia. Seja na sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, seja em livros como o recém-lançado O Catolicismo Hoje (Benvirá), ele sabe se comunicar como o grande público sem baratear suas ideias. Mais rara ainda é sua disposição para criticar certezas e lugares-comuns bem estabelecidos entre seus pares. Pondé é um crítico da dominância burra que a esquerda assumiu sobre a cultura brasileira. Professor da Faap e da PUC, em São Paulo, Pondé, em seus ensaios, conseguiu definir ironicamente o espírito dos tempos descrevendo um cenário comum na classe média intelectualizada: o jantar inteligente, no qual os comensais, entre uma e outra taça de vinho chileno, se cumprimentam mutuamente por sua “consciência social”. Diz Pondé: “Sou filósofo casado com psicanalista. Somos convidados para muitos janta res assim. Há até jantares inteligentes para falar mal de jantares inteligentes. Estudioso de teologia, Pondé considera o ateísmo filosoficamente raso, mas não é seguidor de nenhuma religião em particular. Eis um pensador capaz de surpreender quem valoriza o rigor na troca de ideias.
Luiz Felipe Pondé a Jerônimo Teixeira - VEJA - 9 de julho de 2011
Em seus ensaios, o senhor delineou um cenário exemplar do mundo atual: o jantar inteligente. O que vem a ser isso?
É uma reunião na qual há uma adesão geral a pacotes de ideias e comportamentos. Pode ser visto como a versão contemporânea das festas luteranas nas Dinamarca do Século 19, que o filósofo Soren Kierkegaard criticava por sua hipocrisia. Esse vício migrou de um cenário no qual o cristianismo era base da hipocrisia para uma falsa espiritualidade de esquerda. Como a esquerda não tem a tensão do pecado, ela é pior do que o cristianismo.
Como assim?
A esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca toda a responsabilidade do mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta.
Quais são os temas mais comuns da conversa em um jantar desses?
Filhos são um tema recorrente. Todos falam de como seus filhos são diferentes dos outros porque frequentam uma escola que cobra R$ 2.000 por mês, mas é de esquerda e estuda a sério o inviável modelo econômico cubano. Ou dizem que a filha já tem consciência ambiental e trabalha e uma ONG que ajuda as crianças da África. Também se fala sempre de algum filme chatíssimo de que todos fingem ter gostado para mostrar como têm repertório. Mais timidamente, há certa preocupação com a saúde e o corpo. Reciclar lixo, e mais recentemente, andar de bicicleta também são temas valorizados. Sempre se fala mal dos Estados Unidos, mas Barack Obama é um deus. Fala-se mal de Israel, sem conhecer patativa da história do conflito israelo-palestino. Mas, claro, é obrigatório enfatizar que você é antissionista, mas não antissemita, pois em jantar inteligente muito provavelmente haverá um judeu – apesar de serem muitas vezes judeus em crise consigo mesmos, o que é bem típico dos judeus.
Que assuntos são tabus?
Imagine dizer em uma reunião na Dinamarca luterana de Kierkegaard que algumas mulheres são infelizes porque não chegam ao orgasmo. Seria um escândalo. Simetricamente, hoje é um escândalo dizer que as mulheres emancipadas e donas de seu nariz estão mesmo é loucas de solidão. No jantar inteligente, você tem sempre de dizer que a emancipação feminina criou problemas para as mulheres, que os homens aprenderam a ser sensíveis e que uma mulher nunca vai dar um pé no homem que se mostre sensível demais. Os jantares inteligentes misturam cardápios interessantes -- pratos peruanos ou, sei lá, vietnamitas – como papo-cabeça, mas servem à mesma função que os jantares dos pais dessas pessoas cumpriam: passar o tempo. Os problemas amorosos, sexuais e profissionais são os mesmos, mas todos se acham bem resolvidos. Costumo provocar dizendo que há 100 anos se fazia sexo melhor. Tinha mais culpa e pecado, o que deve ser uma excitação tremenda. Hoje, todos mundo diz que tem um desempenho maravilhoso, e que vive uma relação de troca plena com o seu parceiro ou parceira. Eu considero a revolução sexual um dos maiores engodos da história recente. Criou uma dimensão de indústria, no sentido da quantidade, das relações sexuais – mas na maioria elas são muito ruins, porque as pessoas são complicadas.
Quando começaram os jantares inteligentes?
A matriz histórica são os filósofos da França pré-revolucionária. Os saraus, os jantares em casa de condessas e marquesas eram então uma atividade da burguesia, ou de uma aristocracia falida, aburguesada. Eram uma das formas que a burguesia usava para constituir sua identidade, para mostrar que tinha cultura e opiniões. Mas era um grupo de vanguarda, que discutia a fratura e crises do pensamento. Nos jantares de hoje, a inteligência tem a mesma função do vinho chileno.
Não há lugar para um pensamento alternativo nem na hora da sobremesa?
Não. A gente anos de ditadura no Brasil. Mas, quando ela acabou, a esquerda estava em sua plenitude. Tomou conta das universidades, dos institutos culturais, das redações de jornal. Você pode ver nas universidades, por exemplo, cartazes de um ciclo de palestras sobre o pensamento de Trotsky e sua atualidade, mas não se veem cartazes anunciando conferência sobre a crítica à Revolução Francesa de Edmund Burke, filósofo irlandês fundamental para entender as origens do conservadorismo. Não há um pensamento alternativo à tradição de Rousseau, de Hegel e de Marx. Tenho um amigo que é dono de uma grande indústria e cuja filha estuda em um colégio de São Paulo que nem é desses chiques de esquerda. É uma escola bastante tradicional. Um dia, uma professora falava da Revolução Cubana, como se esse fosse um grande tema. Ela citou Che Guevara, e a menina perguntou: “Ele não matou muita gente?” A professora se vira para a menina e responde: “O seu pai também mata muita gente de fome”. O que autorizou uma professora usar esse tipo de argumento é o status quo que se instalou também nas escolas, e não só na universidade. O infantilismo político dá vazão e legitima esse tipo de julgamento mora l sumário.
Como essa tendência se manifesta na universidade?
O mundo das ciências humanos, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muitos corporativismo e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígenes, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.
Por que a política não pode ser redentora?
O cristianismo, que é uma religião hegemônica no Ocidente, fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. É uma espiritualidade riquíssima, pouco conhecida por causa do estrago feito pelo secularismo extremado. Al lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil. As redenções políticas não têm isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que eu acho brega. Essa visão do homem se responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder. Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. É um conceito complexo e fugidio. Não se sabe se alguém é capaz de ganhar a graça por seus próprios méritos, ou se é Deus na sua perfeição que concede a graça. Em qualquer hipótese, a graça não depende de um movimento positivo de um grupo. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século 20 nos mostrou, é sempre opressivo.
Em que o cristianismo é superior ao pensamento de esquerda?
Pegue a ideia de santidade. Ninguém, em nenhuma teologia da tradição cristã – nem da judaica ou islâmica --, pode dizer-se santo. Nunca. Isso na verdade vem desde Aristóteles: ninguém pode enunciar a própria virtude. A virtude de um homem é anunciada pelos outros homens. Na tradição católica – o protestantismo não tem santos --, o santo é sempre alguém que, o tempo todo, reconhece o mal em si mesmo. O clero da esquerda, ao contrário, é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês. Ele próprio não. Ele está salvo, porque reclica lixo, porque vota no PT, ou em algum partido que se acha mais puro ainda, como o PSOL, até porque o PT já está meio melado. Não há contradição interior na moral esquerdista. As pessoas se autointitulam santas e ficam indignadas com o mal do outro.
Quando o cristianismo cruza o pensamento de esquerda, como no caso da Teologia da Libertação, a humildade se perde?
Sim. Eu vejo isso empiricamente em colegas da Teologia da Libertação. Eles se acham puros. Tecnicamente, a Teologia da Libertação é, por um lado, uma fiel herdeira da tradição cristã. Ela vem da crítica social que está nos profetas de Israel, no Antigo Testamento. Esses profetas falam mal do rei, mas sem idealizar o povo. O cristianismo é descendente principalmente desse viés do judaísmo. Também o cristianismo nasceu questionando a estrutura social. Até aqui, isso não me parece um erro teológico. Só que a Teologia da Libertação toma como ferramenta o marxismo, e isso sim é um erro. Um cristão que recorre a Marx, ou a Nietzsche – a quem admiro --, é como uma criança que entra na jaula do leão e faz bilu-bilu na cara dele. É natural que a Teologia da Libertação, no Brasil, tenha evoluído para Leonardo Boff, que já não tem nada de cristão. Boff evoluiu para um certo paganismo Nova Era – e já nem é marxista tampouco. A Teologia da Libertação é ruim de marketing. É como já se disse: enquanto a Teologia da Libertação fez a opção pelo pobre, o pobre fez a opção pelo pentecostalismo.
O senhor acredita em Deus?
Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor inglês Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou sem si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo. Minha posição teológica não é óbvia e confunde muito as pessoas. Opero no debate público assumindo os riscos do niilista. Quase nunca lanço a hipótese de Deus no debate moral, filosófico ou político. Do ponto de vista político, a importância que vejo na religião é outra. Para mim, ela é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do Estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.
Por que o senhor deixou de ser ateu?
Comecei a achar o ateísmo aborrecido, do ponto de vista filosófico. A hipótese de Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama morais muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica.
Este espaço se destina a discutirmos qualquer assunto de interesse de seus visitantes. Politica, esportes, economia, segurança,relações humanas, ação social,religião, educação, cultura e principalmente saúde, de uma forma simples, direta e sincera para que todos se sintam encorajados a participar.
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segunda-feira, 18 de julho de 2011
domingo, 12 de dezembro de 2010
MESTRE JOÃO.
Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 11 de dezembro de 2010.
“É preciso coragem para sermos o que somos e astúcia para conviver no heterogênio mundo dos desiguais.”.
(João Machado)
Minhas vivências na década de sessenta foram marcadas profundamente pela rotina castrense e os competentes e fleumáticos professores militares do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA). Os Mestres, daqueles tempos, não repassavam apenas conteúdo afeito à sua cátedra, mas, fundamentalmente, educavam para a vida. Poucos professores civis circulavam nas centenárias arcadas do modelar estabelecimento de ensino. Um deles, em especial, despertava nossa atenção e respeito - o Mestre João, de Biologia. Cursava medicina na época e costumava levar para a sala de aula algumas peças de cadáveres para ilustrar suas apresentações, vez por outra, um companheiro passava mal ao contemplar as cadavéricas amostras. O professor João era a antítese dos demais mestres e por isso mesmo sua participação foi assaz salutar na nossa formação, forçava-nos a pensar, inquirir a questionar. Assistimos, emocionados, sua formatura no Teatro Leopoldina. Fomos com a farda de gala do CMPA para que o Dr. João pudesse nos distinguir dos demais expectadores.
Por uma dessas felizes coincidências do destino, novamente tive a oportunidade de travar contato com ele por intermédio de uma de suas filhas, a Tenente Shirin do Hospital Militar. O venerável Mestre continua polêmico, sarcástico, mas, sobretudo, extremamente lúcido, erudito e inteligente. Faço questão de reproduzir na íntegra um texto que ele me enviou recentemente.
- Coragem,
João Machado - Porto Alegre, 8 de dezembro de 2910
Aguentar quem somos nós nos entrenós
Começo com uma frase de Henry Ford: “há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. Esta frase foi surrupiada do livro, RIO-MAR, de um antigo aluno meu no Colégio Militar, mesmo estabelecimento de ensino onde ele foi aluno e eu professor, hoje ele é coronel e professor e escritor. E eu, velho. Ele me mandou o livro sobre o Rio Solimões. Estou lendo, gostando muito e morrendo de inveja dele. É só para dizer que quem quer, corre atrás de seus sonhos...
Mas a frase é apenas um pretexto para chegar onde quero e te dizer o que nada tem a ver com o livro que leio. Agora já estou me referindo a outro livro: “A Ilusão da Alma”, de Eduardo Giannetti. Sobre um cara que imaginava ter um tumor na cabeça. E o cara era ele mesmo. Muito engraçado. Engraçado o autor que tive o privilégio de ouvi-lo numa conferência. Ele inventou um TU cerebral nele mesmo e trava um diálogo consistente dele falando com ele. Doidão. Mas lá pelas calendas do livro ele aborda um tema que nos deixa de cabelo em pé. Seja: ninguém perde o que não tem. Só perde quem tem. São palavras minhas, inspirado nele, no autor de “A Ilusão da Alma”. Claro que eu não tenho coragem de copiá-lo. Mas inspirar-me no que ele conta sim, para me ajudar e ajudar a quem precisa, talvez em termos meio polêmicos que é o que mais me interessa. Bom, tu sabes não é? Que alma para mim é como o pavio da cebola. Só existe na virtualidade e aos olhos de quem a quer vê-la.
Então, nas perdas e ganhos da vida, a perda de confiança em si mesmo estabelece uma luta, força-tarefa, de reencontrar o que se perdeu ou o que se pensa que perdeu. Então, onde está a alma? Para encontrá-la é necessário perdê-la. Ou perdê-la para sempre e não mais encontrá-la. Papo esquisito. E o amor? Onde está o amor? Será preciso perdê-lo para tentar buscá-lo!
Mentes desocupadas, oficina de idéias
Cabeça vazia, macacos na boléia!
Na mais procura e menos oferta de oportunidades, uma posição se impõe: prioridade. Pelas condições de vida, há quem procure mais e outros menos, independentemente das condições e propostas... um mundo sem ofertas de drogas, por exemplo, implica em oportunidade ... dinheiro... nada para fazer na vida... más companhias... nem existem mas companhias... a gente é que não tem discernimento entre o que quero e o que não quero para mim!
E não consegue reconciliar-se consigo mesmo... na procura da paz... e será que existe paz? Não existe paz. Para pessoas inquietas, empreendedoras e ambicionas... não pode existir paz. Quando Camile Paglia, aquela feminista ítalo-americana contou em “personas sexuais” que “amor e paz” ou “paz e amor” era uma rotunda heresia, fiquei desconfiado dela. Mas, explorando melhor, até acho que é verdade porque esta expressão é uma seqüela lingüística do tempo dos hippies e do início da maconha. Porque, segundo Camile Paglia, é humanamente impossível a paz conviver com o amor, porque são coisas antagônicas, porque o sofrimento no amor é tão grande que não dá lugar à paz. Verdade! Quem procura a paz no amor, se engana. Quem procura o amor na paz, morre sem amor.
Eu não tiro o trema de seqüela, lingüista ou de lingüiça, só porque o Sr. Lula, muito letrado, manda fazer uma reforma... e houve um imbecil que obedeceu cegamente a uma excrescência dessas. Pode? Pois pode, porque o homem detém o poder... mesmo sem dedo. Lá do velho Portugal, os portugueses devem acreditar que no Brasil é o poste que mija no cachorro... não? Quando o cachorro é abanado pelo rabo. Pode!?
Para os calados e avessas à polêmica, existem pessoas que resolvem discutir sexo dos anjos e procuram chifre em cavalos, com núcleos de teorias que assustam:
“cada criatura humana traz duas almas consigo, uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”. E quando a alma é cega? Como é que fica! Querendo talvez dizer que temos duas faces, feito cabeça de Janus, mas também dando asas à imaginação de que algumas coisas podem ser ditas e outras jamais ditas, quando o dito do não dito assume seu lugar na entrada solene do panteão do saber...
Todo trabalho investigativo tem seus momentos. Este é o teu momento. Aproveite-o. É o momento de sentar e pensar, ousando cavar mais fundo nos opacos e escondidos recantos da mente onde somente sua subjetividade tem acesso. Será abrir-se de tempos em tempos, à aventura de um pensar menos torcidos pelas amarras da razão vigilante e inibições da lógica severa. Não tenha medo, pensando sequer... a curiosidade está para o conhecimento assim como a libido está para o sexo...
Porque o medo apavora? Livrai-me dos medos. O desejo me atrai, o medo apavora. Assim como o medo, o gosto pelas coisas tem uma contrapartida neuronal definida. O circuito cerebral de recompensa dos desejos, baseado na descarga de um mensageiro químico repassador de sinais entre células nervosas, é essencialmente uniforme no reino animal. Ao saciar um desejo, como a fome ou a sede, ou sexo, ou outro desejo mais denso e intenso, o cérebro premia o animal com a liberação de um neurotransmissor, a dopamina – que produz uma sensação prazerosa (por enquanto é assim que pensamos). Mas, todo ser vivo tem sede e fome. Cada um a seu modo. O córtex frontal, órgão de origem evolutiva mais recente na evolução natural dos homens, está constituído de camadas superpostas de células nervosas, o que é responsável por sofisticados sistemas decisórios de filtro e controle no exercício das possibilidades de gratificação que o ambiente oferece. É a parte nova cerebral entendida como sendo uma extensão do cérebro que vai além do cérebro primitivo e avança no campo social em prolongamento para frente. Daí uma testa bicuda. Sabendo-se que se trata de uma parte refinada e muito nova de desajustes e ajustes, porque o grosso das atitudes e do comportamento das pessoas fica cingido à interface entre regiões antigas e modernas, entre os demais órgãos do sistema límbico e córtex frontal e o que responde pelo núcleo accumbens. O efeito deste estímulo é o incremento da dopamina no cérebro, de modo análogo ao que ocorre quando o animal come, bebe ou copula. O hipocampo dá o impulso para agir e a ínsula cerebral regula com ou sem freios ( que vieram a se tornar freios morais... não acredito muito nessas coisas morais... me parece que todo mundo é um pouquinho imoral... parece que a sociedade é que emperra e impede o homem de mostrar quem ele realmente é... safado... )
Nós e todos os santos somos assim. Nem o deus soube mudar o que nós nos tornamos. Embora calculistas e inibidos por excelência, não é sempre que o córtex consegue se fazer ouvir e evitar o lapsus ou recaídas. Atinge até os santos. A oração de Santo Agostinhos, um dos primeiros psicanalistas aparecidos sem o saber, conta que o avanço dos anos e o reflexo do ardor juvenil mudaram isso – é sintomático: “dai-me, Senhor, a castidade e a continência, mas não já...” Claro, ele não queria perder as chances que sua virilidade garantida. Sua mãe, Santa Mônica, ajudava muito. Seu filho Adeodato era seu tesouro e sua mulher, apagada no silêncio e na espera. Mas ele virou santo e fez parte dos primeiros santos importantes como poeta angelical da Igreja. Com ele Santo Ambrósio, São Jerônimo... todos cheios de desejos.
Santo Agostinho foi o sistematizador da Igreja Latina, com voz;
Santo Ambrósio foi pregador e pastor das almas, com a vez e voz;
São Jerônimo foi encarregado da “Vulgata” dos textos bíblicos;
São Gregório foi o reformador da Liturgia da Igreja com muita voz e muita fala na articulação das palavras com mais vez e mais voz.
O centro da voz – sons emitidos pela goela desde que se nasce – tem lugar “definido” no cérebro, conhecido há muito tempo como centro da fala. Acho que não é assim. Trata-se do centro dos sons emitidos, que vai se tornar a voz, que pode mudar de timbre na modulação da fala e do canto adquire particularidades na linguagem coloquial, mas a articulação da palavra se deve à região frontal, o recanto da disprosexia, da disprosódia, dislexia, do puerilismo, dos geps mnêmicos, de uma memória combalida, da “moria” nos tumores frontais invasivos no lobo frontal, até a gliscroidia pegajosa dos epilépticos de Minskowski. Mas, em princípio, como qualquer pau que produz som, a criança já nasce um carimbó: berra. Não devemos esquecer que a inscrição do homem no mundo se opera pela fala, depois pelos atos e atitudes, mas a fala é postiça, na opinião de Lúcia Santaella, uma professora de semiótica. Depois do nascimento, o resto é sonho.
A vida é um sonho. E “um sonho que se sonha sozinho é apenas um sonho... e um sonho que se sonha junto é uma realidade” no dizer de John Lennon. Já para outros, “los sueños son sueños porque los sueños sueños son” Calderón de La Barca, 1664. E, para Frederico Fellini, “il dialeto è come i nostri sogni, qualcosa di remoto e di rivelatore; il dialeto è la testimonianza più viva de la nostra storia, `e l´espressione della fantasia”. Os sonhos são produtos de sonhos e a língua é produto do meio sócio-familiar.
Revirando a literatura, descortinam-se textos em que a língua materna, também chamada língua primeira, ilumina e nomeia nossas primeiras vivências, nossos afetos e faz nossa inscrição no mundo dos homens. Ela nos acompanha pela vida afora, não nos abandona. No dialeto caseiro de Donatella Di Cesare, a língua é “como uma espécie de segunda pele que nos envolve do primeiro ao último instante, o idioma materno não se pode traduzir, não se pode trair”. Essa língua, transmitida oralmente, por gestos e por comportamento, de pai para filho no aconchego da família, tornou-se, no decurso do tempo, uma língua interdita, uma fala proibida no contexto sócio cultural que nos envolve, que nos abraça e até nos engole. E, quando forçamos, a vergonha de sermos o que somos, nos torna impotentes, confusos, desconcertados, gerando embaraço e bloqueio no meio cultural e intelectual que parece se unirem inabilidade com imobilidade da pessoa para qualquer reação a seu favor ou desfavor num verdadeiro bloqueio de pessoa para pessoa, nos contentando com vivência impessoais. E às vezes, o indivíduo, tocado pela vergonha, fica trêmulo, suas faces enrubescem ou se tornam pálidas, sua palavra morre no percurso virando silêncio. Há uma espécie de túmulo arrasador quando à vergonha junta-se a raiva sufocada, a humilhação desponta. O estado de vergonha envolve culpa impingida por outrem, pela voz do outro, pelo olhar do outro; culpa de falar errado interiorizada, calcada no fundo da alma; sentimento de culpa de falar uma língua materna – um dialeto caseiro – e de não habilidade de falar no meio social, sociocultural como reclamam, sem dizer nada, os que se sentem atingidos. O resultado disto é uma autoestima rebaixada, um desconforto, um ser negativamente marcado por sua fala.
Nasce de cada um de nós um estigma lingüístico que haverá de nos acompanhar, de uma forma ou de outra, durante todos os dias de nossas vidas. O estigma é a marca indelével que vem e que fica. Estigma, palavra de origem grega, significa a marca produzida com ferro em brasa no corpo dos escravos ou de qualquer pessoa considerada nociva à vida em sociedade é marcada. Desde casa nossa fala foi estigmatizada e tornou-se motivo de chacota, de vergonha. Sanada a ferida, restou a cicatriz. A vergonha cede lugar ao orgulho e abala a auto-estima, o amor próprio com a tristeza de sermos diferentes, lembra Vitalina Maria Frosi.
Na formação do indivíduo, nos complexos familiares de Lacan: “entre todos os grupos humanos, a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura. Se as tradições espirituais, a manutenção dos ritos e dos costumes, a conservação das técnicas e do patrimônio são com ela disputados por outros grupos sociais, a família prevalece na primeira educação, na repressão dos instintos, na aquisição da língua, acertadamente chamada materna”. Daí o desenvolvimento dos processos psíquicos, onde preside a organização das emoções, que é a base dos sentimentos, segundo Shand. Mais amplamente, ela transmite estruturas de comportamentos, até ultrapassar os limites da consciência.
A Família, para Lacan, reflete o drama individual caseiro nas interfaces com a sociedade. Repetimos o drama quando saímos da barra da saia, a começar pelo enfrentamento do desmame – ablactação – Acredito que, sob inspiração do totem, Conn tenha cunhado o termo “hereditariedade social” para designar toda sorte de ajustes e desajustes entre o que é psicológico e o que é biológico. De qualquer modo ajudou e atrapalhou na concepção de família como célula social que nos joga no fluxo da mão única e no contra-fluxo das avarias emocionais.
Lactação é função biológica, inerente a nós e outros mamíferos. O mamar, como função biológica, é um processo de autodescoberta nos primeiros meses da vida. Já o desmame é um traço geral genérico. O desmame deixa no psiquismo humano um traço permanente da relação biológica que ele interrompe. Além da inveja, a ameaça que fica para nós é a questão do suicídio: os violentos e os não violentos: forma oral do complexo – aqueles que comem até morrer; os anoréticos que deixam de comer e morrem por inanição pelos regimes com neurose gástrica; e os toxicômanos que usam e abusam das drogas – da maconha ao crack – sob forma de envenenamento lento pela boca. Claro que se Freud tivesse noção mais clara sobre neurotransmissores, não teria tido um câncer de boca por causa do tabagismo: o charuto ou então, ele estava ainda fixado no peito materno. Verdade ou mentira, todos nós mamamos. Entre pobres e ricos, a carência não tem endereço certo: bate em qualquer porta. Em Confissões, Santo Agostinho constata o ciúme infantil: “Vi” diz Agostinho, “e observei uma {criança}, cheia de inveja, que ainda não falava e já olhava, pálida, de rosto colérico, para o irmãozinho colaço”. Claro, ninguém vê isto num outro mamífero com seu irmão de leite. Pelo contrário, até partilham mamadeiras nas tetas sujas da porca.
Na mulher permanece o instinto materno. Nos outros animais o instinto acaba no desmame.
O desmamado fica apenas com a IMAGO do seio da mãe para sempre em sua vida. E o ciúme representa não uma rivalidade vital mas uma identificação mental: eu sinto o mesmo que você sente em relação a certos objetos de amor, de afeto, de ternura... A prevalência do complexo do desmame configura a desarmonia sexual entre os pais que é preciso referir a prevalência que guardará o complexo do desmame num desenvolvimento que ele poderá marcar sob vários modos neuróticos: o sujeito será condenado a repetir indefinidamente o esforço de desprendimento da mãe – e é aí que se encontra o sentido de toda a espécie de condutas forçadas, indo de certas fugas de criança às impulsões vagabundas e às rupturas caóticas que singularizam a conduta de uma idade mais avançada; ou então o sujeito permanece prisioneiro das imagens do complexo, e submetido tanto à sua instância letal como à sua forma narcísica – é o caso da consumação mais ou menos intencionalizada onde, sob o termo de suicídio não violento, nós marcamos o sentido de certas neuroses orais ou digestivas; é igualmente o caso daquele investimento libidinal que atraem e se arrastam na hipocondria às endoscopias mais singulares: um equilíbrio desequilibrado, imaginário, dos ganhos alimentares e das perdas excretórias. Esta estagnação psíquica pode também manifestar o seu corolário social numa estagnação dos laços domésticos, ficando os membros do grupo familiar aglutinados pelas suas “doenças imaginárias” num NÓ isolado na sociedade, queremos dizer tão estéril para o seu comércio como inútil a sua arquitetura.
Neste enfoque, dá para sentir mais claramente o papel essencial da relação entre os pais, que os analistas empedernidos sublinham como o caráter da mãe se exprime também no plano conjugal por uma tirania doméstica, cujas formas larvares ou patentes, da reivindicação sentimental à confiscação da autoridade familiar traírem todas os seus sentidos profundos de protesto viril, encontrando este uma expressão iminente, ao mesmo tempo simbólica, moral e material na satisfação de de deter os “cordões da bolsa”. As disposições que, no marido, asseguram regularmente uma espécie de harmonia a este casal, não fazem mais do que tornar manifestas as harmonias mais obscuras que fazem da carreira do casamento o lugar eleito da cultura das neuroses, depois de ter guiado um dos cônjuges, os dois numa escolha divinatória do seu complementar, as advertências do inconsciente num sujeito respondendo sem intermediário aos sinais pelos quais se trai o inconsciente do outro. Fonte: Lacan, em A Família, pg. 107.
A guisa de entendimento, a Dialética do Indivíduo de Massimo Canevacci comenta que o cristianismo idealizou, no casamento, enquanto união de corações, a hierarquia dos sexos, o jugo imposto ao caráter feminino pela ordenação masculina da propriedade; com isso, aplacava-se a recordação da era pre-patriarcal, de um tempo melhor para a mulher. Na sociedade industrial, o amor é anulado. A dissolução da média propriedade, o declínio do sujeito econômico independente, atinge à família: essa já não é mais, há sociedade, na medida em que não mais constitui a base da existência econômica do burguês. O indivíduo, crescendo, não tem mais a família como horizonte de vida; a independência do pai desaparece e, com ela, a resistência à sua autoridade. Outrora, a servidão na casa paterna despertava na moça a paixão que parecia conduzi-la à liberdade, ainda que esta não se realizasse nem no casamento nem em nenhuma outra parte fora de casa. Na medida em que se abre para a moça a perspectiva do um job, ao mesmo tempo se fecha a do amor. Parece haver uma espécie de comércio, uma vendagem pública, com ou sem sistema industrial moderno, colocado a serviço, tudo que não faz parte do white trash onde desembocam desemprego e trabalho desqualificado. Bobagem: todo trabalho é qualificado. Mas, trabalho qualificado não é só para empresários onde impera a autonomia, mas também para a mulher, profissionalmente ativa. Pg. 154
E para concluir, homens de todas as classes e idades gostam de ser perder na selva de cores brilhantes e sons estridentes, povoada por monstros e generosa de sensações físicas, desde os choques violentos até matizes de incrível doçura. Para os adultos é um retorno aos dias da infância, quando os jogos e as coisas sérias são idênticos, onde coisas reais e irreais se confundem e as aspirações anárquicas experimentam, no vazio, possibilidades infinitas. Através desse retorno, o adulto foge de uma civilização que tende a agigantar e a destruir o caos dos instintos, mas com o objetivo de restaurar o caos sobre o qual repousa a civilização. A feira não é a liberdade, mas a anarquia que implica o caos. O círculo torna-se aqui um símbolo do caos. Enquanto a liberdade se assemelha a um rio, o caos se parece com um redemoinho. Esquecido de si mesmo, pode-se cair no caos, mas é impossível movimentar-se dentro dele. Esta concepção tem algo de cigano, como o são as águas do rio semântico que se alarga e se aperta entre barrancas e curvas por cima de um leito seixoso, áspero, pedregoso em que águas furiosas carregam fogosas tudo pela frente ou abandono muitos coisas pelo caminho sem ninho no rolar das moléculas moles das líquidas águas, movimentadas ou paradas. Neste caminho estamos todos nós, na esperança de sair ilesos dos ninhos do Minho.
De qualquer forma, é bom saber que a porta de entrada na patologia mental se opera mediante complexos:
Complexo de desmame – é difícil deixar de mamar... restos atávicos nos contam como se operam as diferentes manifestações;
Complexo de intrusão – não suporto que alguém se meta na minha relação, notadamente meus afetos no mundo triangular;
Complexo de Édipo – para quem nele acredita: chata esta história rançosa. Mas é preciso que se a considere, para acalmar os raivosos.
São as três portas de entrada para a patologia mental e as três portas de saída para a vida mental hígida. Atualmente, tudo se opera na Fenda Sináptica, segundo os neurocientistas mais vigorosos. O fato é que todos nós continuamos a sofrer de “coisas” – doenças ou não doenças - que não merecemos.
Só para instigar e refrescar nossa memória, quantos são os ataques caseiros, verbais ou físicos que nos marcam para sempre na patologia gestada no seio familiar e que existem sob forma coagulada:
Adulto castrador, que não deixa que alguém expresse seus pensamentos, que não é nada complacente, que proíbe tudo;
Irmão penetrador, que é uma síndrome de perseguição interpretativa... o resto você imagina o que pode acontecer...;
Função antropomórfica, na qual o sujeito, na parafrenia, incorpora o mundo a seu EU, afirmando que inclui o TODO numa conformação megalomaníaca à luz da grandiosidade...;
Casal psicológico, como ocorreu com as “irmãs Papin”, ou entre mãe e filha, ou entre pai e filho, já mais difícil... mas pode;
Uma mãe que deseja ardentemente uma filha e só tem um filho e resolve cria-lo como menina... pode? Pode!
Alguns dos nossos gênios vem a galope montados no mito individual do neurótico de Lacan, entre música e arte, entre pintura e escultura, entre sucesso, fracasso e esforço..., não raro com elevada produtividade, apresentam ao mundo alguma coisa de genial e digna de eterna veneração, mas quando o excesso sacode a estrutura básica da mente, o corpo padece. A base neurotizante parece uma diplopia com até dois panos de fundo e que se operam em planos que não se encontram. Não se encontram porque o neurótico de carteirinha está sempre demissionário, sempre vingativo e nem sempre suportável. Uma obsessão bem ou mal calibrada, como a do homem dos ratos, lembrada por Freud como ambivalência afetiva, mostra uma clivagem entre o amor consciente e o ódio inconsciente: uma relação operada entre seu pai e uma “senhora que ele venera”. Um outro caso bastante explorado foi o de Goethe, 22 anos, Strasburg explode sua paixão por Frédérique Brion, superando o amor de Lucinde, como com qualquer mulher, quanto ao beijo nos lábios. E o posterior abandono de Frédérique, trata-se de um dos episódios mais enigmáticos. Vítima ou Vilão, sim ou não, mas sempre demissionário e vingativo. Sofre e faz os outros sofrerem.
É preciso coragem para sermos o que somos e astúcia para conviver no heterogêneo mundo dos desiguais.
“É preciso coragem para sermos o que somos e astúcia para conviver no heterogênio mundo dos desiguais.”.
(João Machado)
Minhas vivências na década de sessenta foram marcadas profundamente pela rotina castrense e os competentes e fleumáticos professores militares do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA). Os Mestres, daqueles tempos, não repassavam apenas conteúdo afeito à sua cátedra, mas, fundamentalmente, educavam para a vida. Poucos professores civis circulavam nas centenárias arcadas do modelar estabelecimento de ensino. Um deles, em especial, despertava nossa atenção e respeito - o Mestre João, de Biologia. Cursava medicina na época e costumava levar para a sala de aula algumas peças de cadáveres para ilustrar suas apresentações, vez por outra, um companheiro passava mal ao contemplar as cadavéricas amostras. O professor João era a antítese dos demais mestres e por isso mesmo sua participação foi assaz salutar na nossa formação, forçava-nos a pensar, inquirir a questionar. Assistimos, emocionados, sua formatura no Teatro Leopoldina. Fomos com a farda de gala do CMPA para que o Dr. João pudesse nos distinguir dos demais expectadores.
Por uma dessas felizes coincidências do destino, novamente tive a oportunidade de travar contato com ele por intermédio de uma de suas filhas, a Tenente Shirin do Hospital Militar. O venerável Mestre continua polêmico, sarcástico, mas, sobretudo, extremamente lúcido, erudito e inteligente. Faço questão de reproduzir na íntegra um texto que ele me enviou recentemente.
- Coragem,
João Machado - Porto Alegre, 8 de dezembro de 2910
Aguentar quem somos nós nos entrenós
Começo com uma frase de Henry Ford: “há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. Esta frase foi surrupiada do livro, RIO-MAR, de um antigo aluno meu no Colégio Militar, mesmo estabelecimento de ensino onde ele foi aluno e eu professor, hoje ele é coronel e professor e escritor. E eu, velho. Ele me mandou o livro sobre o Rio Solimões. Estou lendo, gostando muito e morrendo de inveja dele. É só para dizer que quem quer, corre atrás de seus sonhos...
Mas a frase é apenas um pretexto para chegar onde quero e te dizer o que nada tem a ver com o livro que leio. Agora já estou me referindo a outro livro: “A Ilusão da Alma”, de Eduardo Giannetti. Sobre um cara que imaginava ter um tumor na cabeça. E o cara era ele mesmo. Muito engraçado. Engraçado o autor que tive o privilégio de ouvi-lo numa conferência. Ele inventou um TU cerebral nele mesmo e trava um diálogo consistente dele falando com ele. Doidão. Mas lá pelas calendas do livro ele aborda um tema que nos deixa de cabelo em pé. Seja: ninguém perde o que não tem. Só perde quem tem. São palavras minhas, inspirado nele, no autor de “A Ilusão da Alma”. Claro que eu não tenho coragem de copiá-lo. Mas inspirar-me no que ele conta sim, para me ajudar e ajudar a quem precisa, talvez em termos meio polêmicos que é o que mais me interessa. Bom, tu sabes não é? Que alma para mim é como o pavio da cebola. Só existe na virtualidade e aos olhos de quem a quer vê-la.
Então, nas perdas e ganhos da vida, a perda de confiança em si mesmo estabelece uma luta, força-tarefa, de reencontrar o que se perdeu ou o que se pensa que perdeu. Então, onde está a alma? Para encontrá-la é necessário perdê-la. Ou perdê-la para sempre e não mais encontrá-la. Papo esquisito. E o amor? Onde está o amor? Será preciso perdê-lo para tentar buscá-lo!
Mentes desocupadas, oficina de idéias
Cabeça vazia, macacos na boléia!
Na mais procura e menos oferta de oportunidades, uma posição se impõe: prioridade. Pelas condições de vida, há quem procure mais e outros menos, independentemente das condições e propostas... um mundo sem ofertas de drogas, por exemplo, implica em oportunidade ... dinheiro... nada para fazer na vida... más companhias... nem existem mas companhias... a gente é que não tem discernimento entre o que quero e o que não quero para mim!
E não consegue reconciliar-se consigo mesmo... na procura da paz... e será que existe paz? Não existe paz. Para pessoas inquietas, empreendedoras e ambicionas... não pode existir paz. Quando Camile Paglia, aquela feminista ítalo-americana contou em “personas sexuais” que “amor e paz” ou “paz e amor” era uma rotunda heresia, fiquei desconfiado dela. Mas, explorando melhor, até acho que é verdade porque esta expressão é uma seqüela lingüística do tempo dos hippies e do início da maconha. Porque, segundo Camile Paglia, é humanamente impossível a paz conviver com o amor, porque são coisas antagônicas, porque o sofrimento no amor é tão grande que não dá lugar à paz. Verdade! Quem procura a paz no amor, se engana. Quem procura o amor na paz, morre sem amor.
Eu não tiro o trema de seqüela, lingüista ou de lingüiça, só porque o Sr. Lula, muito letrado, manda fazer uma reforma... e houve um imbecil que obedeceu cegamente a uma excrescência dessas. Pode? Pois pode, porque o homem detém o poder... mesmo sem dedo. Lá do velho Portugal, os portugueses devem acreditar que no Brasil é o poste que mija no cachorro... não? Quando o cachorro é abanado pelo rabo. Pode!?
Para os calados e avessas à polêmica, existem pessoas que resolvem discutir sexo dos anjos e procuram chifre em cavalos, com núcleos de teorias que assustam:
“cada criatura humana traz duas almas consigo, uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”. E quando a alma é cega? Como é que fica! Querendo talvez dizer que temos duas faces, feito cabeça de Janus, mas também dando asas à imaginação de que algumas coisas podem ser ditas e outras jamais ditas, quando o dito do não dito assume seu lugar na entrada solene do panteão do saber...
Todo trabalho investigativo tem seus momentos. Este é o teu momento. Aproveite-o. É o momento de sentar e pensar, ousando cavar mais fundo nos opacos e escondidos recantos da mente onde somente sua subjetividade tem acesso. Será abrir-se de tempos em tempos, à aventura de um pensar menos torcidos pelas amarras da razão vigilante e inibições da lógica severa. Não tenha medo, pensando sequer... a curiosidade está para o conhecimento assim como a libido está para o sexo...
Porque o medo apavora? Livrai-me dos medos. O desejo me atrai, o medo apavora. Assim como o medo, o gosto pelas coisas tem uma contrapartida neuronal definida. O circuito cerebral de recompensa dos desejos, baseado na descarga de um mensageiro químico repassador de sinais entre células nervosas, é essencialmente uniforme no reino animal. Ao saciar um desejo, como a fome ou a sede, ou sexo, ou outro desejo mais denso e intenso, o cérebro premia o animal com a liberação de um neurotransmissor, a dopamina – que produz uma sensação prazerosa (por enquanto é assim que pensamos). Mas, todo ser vivo tem sede e fome. Cada um a seu modo. O córtex frontal, órgão de origem evolutiva mais recente na evolução natural dos homens, está constituído de camadas superpostas de células nervosas, o que é responsável por sofisticados sistemas decisórios de filtro e controle no exercício das possibilidades de gratificação que o ambiente oferece. É a parte nova cerebral entendida como sendo uma extensão do cérebro que vai além do cérebro primitivo e avança no campo social em prolongamento para frente. Daí uma testa bicuda. Sabendo-se que se trata de uma parte refinada e muito nova de desajustes e ajustes, porque o grosso das atitudes e do comportamento das pessoas fica cingido à interface entre regiões antigas e modernas, entre os demais órgãos do sistema límbico e córtex frontal e o que responde pelo núcleo accumbens. O efeito deste estímulo é o incremento da dopamina no cérebro, de modo análogo ao que ocorre quando o animal come, bebe ou copula. O hipocampo dá o impulso para agir e a ínsula cerebral regula com ou sem freios ( que vieram a se tornar freios morais... não acredito muito nessas coisas morais... me parece que todo mundo é um pouquinho imoral... parece que a sociedade é que emperra e impede o homem de mostrar quem ele realmente é... safado... )
Nós e todos os santos somos assim. Nem o deus soube mudar o que nós nos tornamos. Embora calculistas e inibidos por excelência, não é sempre que o córtex consegue se fazer ouvir e evitar o lapsus ou recaídas. Atinge até os santos. A oração de Santo Agostinhos, um dos primeiros psicanalistas aparecidos sem o saber, conta que o avanço dos anos e o reflexo do ardor juvenil mudaram isso – é sintomático: “dai-me, Senhor, a castidade e a continência, mas não já...” Claro, ele não queria perder as chances que sua virilidade garantida. Sua mãe, Santa Mônica, ajudava muito. Seu filho Adeodato era seu tesouro e sua mulher, apagada no silêncio e na espera. Mas ele virou santo e fez parte dos primeiros santos importantes como poeta angelical da Igreja. Com ele Santo Ambrósio, São Jerônimo... todos cheios de desejos.
Santo Agostinho foi o sistematizador da Igreja Latina, com voz;
Santo Ambrósio foi pregador e pastor das almas, com a vez e voz;
São Jerônimo foi encarregado da “Vulgata” dos textos bíblicos;
São Gregório foi o reformador da Liturgia da Igreja com muita voz e muita fala na articulação das palavras com mais vez e mais voz.
O centro da voz – sons emitidos pela goela desde que se nasce – tem lugar “definido” no cérebro, conhecido há muito tempo como centro da fala. Acho que não é assim. Trata-se do centro dos sons emitidos, que vai se tornar a voz, que pode mudar de timbre na modulação da fala e do canto adquire particularidades na linguagem coloquial, mas a articulação da palavra se deve à região frontal, o recanto da disprosexia, da disprosódia, dislexia, do puerilismo, dos geps mnêmicos, de uma memória combalida, da “moria” nos tumores frontais invasivos no lobo frontal, até a gliscroidia pegajosa dos epilépticos de Minskowski. Mas, em princípio, como qualquer pau que produz som, a criança já nasce um carimbó: berra. Não devemos esquecer que a inscrição do homem no mundo se opera pela fala, depois pelos atos e atitudes, mas a fala é postiça, na opinião de Lúcia Santaella, uma professora de semiótica. Depois do nascimento, o resto é sonho.
A vida é um sonho. E “um sonho que se sonha sozinho é apenas um sonho... e um sonho que se sonha junto é uma realidade” no dizer de John Lennon. Já para outros, “los sueños son sueños porque los sueños sueños son” Calderón de La Barca, 1664. E, para Frederico Fellini, “il dialeto è come i nostri sogni, qualcosa di remoto e di rivelatore; il dialeto è la testimonianza più viva de la nostra storia, `e l´espressione della fantasia”. Os sonhos são produtos de sonhos e a língua é produto do meio sócio-familiar.
Revirando a literatura, descortinam-se textos em que a língua materna, também chamada língua primeira, ilumina e nomeia nossas primeiras vivências, nossos afetos e faz nossa inscrição no mundo dos homens. Ela nos acompanha pela vida afora, não nos abandona. No dialeto caseiro de Donatella Di Cesare, a língua é “como uma espécie de segunda pele que nos envolve do primeiro ao último instante, o idioma materno não se pode traduzir, não se pode trair”. Essa língua, transmitida oralmente, por gestos e por comportamento, de pai para filho no aconchego da família, tornou-se, no decurso do tempo, uma língua interdita, uma fala proibida no contexto sócio cultural que nos envolve, que nos abraça e até nos engole. E, quando forçamos, a vergonha de sermos o que somos, nos torna impotentes, confusos, desconcertados, gerando embaraço e bloqueio no meio cultural e intelectual que parece se unirem inabilidade com imobilidade da pessoa para qualquer reação a seu favor ou desfavor num verdadeiro bloqueio de pessoa para pessoa, nos contentando com vivência impessoais. E às vezes, o indivíduo, tocado pela vergonha, fica trêmulo, suas faces enrubescem ou se tornam pálidas, sua palavra morre no percurso virando silêncio. Há uma espécie de túmulo arrasador quando à vergonha junta-se a raiva sufocada, a humilhação desponta. O estado de vergonha envolve culpa impingida por outrem, pela voz do outro, pelo olhar do outro; culpa de falar errado interiorizada, calcada no fundo da alma; sentimento de culpa de falar uma língua materna – um dialeto caseiro – e de não habilidade de falar no meio social, sociocultural como reclamam, sem dizer nada, os que se sentem atingidos. O resultado disto é uma autoestima rebaixada, um desconforto, um ser negativamente marcado por sua fala.
Nasce de cada um de nós um estigma lingüístico que haverá de nos acompanhar, de uma forma ou de outra, durante todos os dias de nossas vidas. O estigma é a marca indelével que vem e que fica. Estigma, palavra de origem grega, significa a marca produzida com ferro em brasa no corpo dos escravos ou de qualquer pessoa considerada nociva à vida em sociedade é marcada. Desde casa nossa fala foi estigmatizada e tornou-se motivo de chacota, de vergonha. Sanada a ferida, restou a cicatriz. A vergonha cede lugar ao orgulho e abala a auto-estima, o amor próprio com a tristeza de sermos diferentes, lembra Vitalina Maria Frosi.
Na formação do indivíduo, nos complexos familiares de Lacan: “entre todos os grupos humanos, a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura. Se as tradições espirituais, a manutenção dos ritos e dos costumes, a conservação das técnicas e do patrimônio são com ela disputados por outros grupos sociais, a família prevalece na primeira educação, na repressão dos instintos, na aquisição da língua, acertadamente chamada materna”. Daí o desenvolvimento dos processos psíquicos, onde preside a organização das emoções, que é a base dos sentimentos, segundo Shand. Mais amplamente, ela transmite estruturas de comportamentos, até ultrapassar os limites da consciência.
A Família, para Lacan, reflete o drama individual caseiro nas interfaces com a sociedade. Repetimos o drama quando saímos da barra da saia, a começar pelo enfrentamento do desmame – ablactação – Acredito que, sob inspiração do totem, Conn tenha cunhado o termo “hereditariedade social” para designar toda sorte de ajustes e desajustes entre o que é psicológico e o que é biológico. De qualquer modo ajudou e atrapalhou na concepção de família como célula social que nos joga no fluxo da mão única e no contra-fluxo das avarias emocionais.
Lactação é função biológica, inerente a nós e outros mamíferos. O mamar, como função biológica, é um processo de autodescoberta nos primeiros meses da vida. Já o desmame é um traço geral genérico. O desmame deixa no psiquismo humano um traço permanente da relação biológica que ele interrompe. Além da inveja, a ameaça que fica para nós é a questão do suicídio: os violentos e os não violentos: forma oral do complexo – aqueles que comem até morrer; os anoréticos que deixam de comer e morrem por inanição pelos regimes com neurose gástrica; e os toxicômanos que usam e abusam das drogas – da maconha ao crack – sob forma de envenenamento lento pela boca. Claro que se Freud tivesse noção mais clara sobre neurotransmissores, não teria tido um câncer de boca por causa do tabagismo: o charuto ou então, ele estava ainda fixado no peito materno. Verdade ou mentira, todos nós mamamos. Entre pobres e ricos, a carência não tem endereço certo: bate em qualquer porta. Em Confissões, Santo Agostinho constata o ciúme infantil: “Vi” diz Agostinho, “e observei uma {criança}, cheia de inveja, que ainda não falava e já olhava, pálida, de rosto colérico, para o irmãozinho colaço”. Claro, ninguém vê isto num outro mamífero com seu irmão de leite. Pelo contrário, até partilham mamadeiras nas tetas sujas da porca.
Na mulher permanece o instinto materno. Nos outros animais o instinto acaba no desmame.
O desmamado fica apenas com a IMAGO do seio da mãe para sempre em sua vida. E o ciúme representa não uma rivalidade vital mas uma identificação mental: eu sinto o mesmo que você sente em relação a certos objetos de amor, de afeto, de ternura... A prevalência do complexo do desmame configura a desarmonia sexual entre os pais que é preciso referir a prevalência que guardará o complexo do desmame num desenvolvimento que ele poderá marcar sob vários modos neuróticos: o sujeito será condenado a repetir indefinidamente o esforço de desprendimento da mãe – e é aí que se encontra o sentido de toda a espécie de condutas forçadas, indo de certas fugas de criança às impulsões vagabundas e às rupturas caóticas que singularizam a conduta de uma idade mais avançada; ou então o sujeito permanece prisioneiro das imagens do complexo, e submetido tanto à sua instância letal como à sua forma narcísica – é o caso da consumação mais ou menos intencionalizada onde, sob o termo de suicídio não violento, nós marcamos o sentido de certas neuroses orais ou digestivas; é igualmente o caso daquele investimento libidinal que atraem e se arrastam na hipocondria às endoscopias mais singulares: um equilíbrio desequilibrado, imaginário, dos ganhos alimentares e das perdas excretórias. Esta estagnação psíquica pode também manifestar o seu corolário social numa estagnação dos laços domésticos, ficando os membros do grupo familiar aglutinados pelas suas “doenças imaginárias” num NÓ isolado na sociedade, queremos dizer tão estéril para o seu comércio como inútil a sua arquitetura.
Neste enfoque, dá para sentir mais claramente o papel essencial da relação entre os pais, que os analistas empedernidos sublinham como o caráter da mãe se exprime também no plano conjugal por uma tirania doméstica, cujas formas larvares ou patentes, da reivindicação sentimental à confiscação da autoridade familiar traírem todas os seus sentidos profundos de protesto viril, encontrando este uma expressão iminente, ao mesmo tempo simbólica, moral e material na satisfação de de deter os “cordões da bolsa”. As disposições que, no marido, asseguram regularmente uma espécie de harmonia a este casal, não fazem mais do que tornar manifestas as harmonias mais obscuras que fazem da carreira do casamento o lugar eleito da cultura das neuroses, depois de ter guiado um dos cônjuges, os dois numa escolha divinatória do seu complementar, as advertências do inconsciente num sujeito respondendo sem intermediário aos sinais pelos quais se trai o inconsciente do outro. Fonte: Lacan, em A Família, pg. 107.
A guisa de entendimento, a Dialética do Indivíduo de Massimo Canevacci comenta que o cristianismo idealizou, no casamento, enquanto união de corações, a hierarquia dos sexos, o jugo imposto ao caráter feminino pela ordenação masculina da propriedade; com isso, aplacava-se a recordação da era pre-patriarcal, de um tempo melhor para a mulher. Na sociedade industrial, o amor é anulado. A dissolução da média propriedade, o declínio do sujeito econômico independente, atinge à família: essa já não é mais, há sociedade, na medida em que não mais constitui a base da existência econômica do burguês. O indivíduo, crescendo, não tem mais a família como horizonte de vida; a independência do pai desaparece e, com ela, a resistência à sua autoridade. Outrora, a servidão na casa paterna despertava na moça a paixão que parecia conduzi-la à liberdade, ainda que esta não se realizasse nem no casamento nem em nenhuma outra parte fora de casa. Na medida em que se abre para a moça a perspectiva do um job, ao mesmo tempo se fecha a do amor. Parece haver uma espécie de comércio, uma vendagem pública, com ou sem sistema industrial moderno, colocado a serviço, tudo que não faz parte do white trash onde desembocam desemprego e trabalho desqualificado. Bobagem: todo trabalho é qualificado. Mas, trabalho qualificado não é só para empresários onde impera a autonomia, mas também para a mulher, profissionalmente ativa. Pg. 154
E para concluir, homens de todas as classes e idades gostam de ser perder na selva de cores brilhantes e sons estridentes, povoada por monstros e generosa de sensações físicas, desde os choques violentos até matizes de incrível doçura. Para os adultos é um retorno aos dias da infância, quando os jogos e as coisas sérias são idênticos, onde coisas reais e irreais se confundem e as aspirações anárquicas experimentam, no vazio, possibilidades infinitas. Através desse retorno, o adulto foge de uma civilização que tende a agigantar e a destruir o caos dos instintos, mas com o objetivo de restaurar o caos sobre o qual repousa a civilização. A feira não é a liberdade, mas a anarquia que implica o caos. O círculo torna-se aqui um símbolo do caos. Enquanto a liberdade se assemelha a um rio, o caos se parece com um redemoinho. Esquecido de si mesmo, pode-se cair no caos, mas é impossível movimentar-se dentro dele. Esta concepção tem algo de cigano, como o são as águas do rio semântico que se alarga e se aperta entre barrancas e curvas por cima de um leito seixoso, áspero, pedregoso em que águas furiosas carregam fogosas tudo pela frente ou abandono muitos coisas pelo caminho sem ninho no rolar das moléculas moles das líquidas águas, movimentadas ou paradas. Neste caminho estamos todos nós, na esperança de sair ilesos dos ninhos do Minho.
De qualquer forma, é bom saber que a porta de entrada na patologia mental se opera mediante complexos:
Complexo de desmame – é difícil deixar de mamar... restos atávicos nos contam como se operam as diferentes manifestações;
Complexo de intrusão – não suporto que alguém se meta na minha relação, notadamente meus afetos no mundo triangular;
Complexo de Édipo – para quem nele acredita: chata esta história rançosa. Mas é preciso que se a considere, para acalmar os raivosos.
São as três portas de entrada para a patologia mental e as três portas de saída para a vida mental hígida. Atualmente, tudo se opera na Fenda Sináptica, segundo os neurocientistas mais vigorosos. O fato é que todos nós continuamos a sofrer de “coisas” – doenças ou não doenças - que não merecemos.
Só para instigar e refrescar nossa memória, quantos são os ataques caseiros, verbais ou físicos que nos marcam para sempre na patologia gestada no seio familiar e que existem sob forma coagulada:
Adulto castrador, que não deixa que alguém expresse seus pensamentos, que não é nada complacente, que proíbe tudo;
Irmão penetrador, que é uma síndrome de perseguição interpretativa... o resto você imagina o que pode acontecer...;
Função antropomórfica, na qual o sujeito, na parafrenia, incorpora o mundo a seu EU, afirmando que inclui o TODO numa conformação megalomaníaca à luz da grandiosidade...;
Casal psicológico, como ocorreu com as “irmãs Papin”, ou entre mãe e filha, ou entre pai e filho, já mais difícil... mas pode;
Uma mãe que deseja ardentemente uma filha e só tem um filho e resolve cria-lo como menina... pode? Pode!
Alguns dos nossos gênios vem a galope montados no mito individual do neurótico de Lacan, entre música e arte, entre pintura e escultura, entre sucesso, fracasso e esforço..., não raro com elevada produtividade, apresentam ao mundo alguma coisa de genial e digna de eterna veneração, mas quando o excesso sacode a estrutura básica da mente, o corpo padece. A base neurotizante parece uma diplopia com até dois panos de fundo e que se operam em planos que não se encontram. Não se encontram porque o neurótico de carteirinha está sempre demissionário, sempre vingativo e nem sempre suportável. Uma obsessão bem ou mal calibrada, como a do homem dos ratos, lembrada por Freud como ambivalência afetiva, mostra uma clivagem entre o amor consciente e o ódio inconsciente: uma relação operada entre seu pai e uma “senhora que ele venera”. Um outro caso bastante explorado foi o de Goethe, 22 anos, Strasburg explode sua paixão por Frédérique Brion, superando o amor de Lucinde, como com qualquer mulher, quanto ao beijo nos lábios. E o posterior abandono de Frédérique, trata-se de um dos episódios mais enigmáticos. Vítima ou Vilão, sim ou não, mas sempre demissionário e vingativo. Sofre e faz os outros sofrerem.
É preciso coragem para sermos o que somos e astúcia para conviver no heterogêneo mundo dos desiguais.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
CRIARAM VIDA ARTIFICIAL, COMO FICA A SUA?
O homem já é capaz de construir um DNA inteiro, colocá-lo numa bactéria e fazê-la funcionar. Como isso vai afetar nosso cotidiano
Cristiane Segatto
CRISTIANE SEGATTO
Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo cristianes@edglobo.com.br Qual das afirmações abaixo melhor representa a sua opinião?
a) Deus criou o mundo. A natureza é uma obra-prima e não deve ser alterada
b) Deus não criou o mundo, mas a natureza é perfeita. O homem não deve modificá-la
c) A natureza é uma engrenagem admirável, mas o homem tem o direito de modificá-la com o objetivo de tornar sua vida mais confortável
É possível que nos próximos dias você precise reafirmar suas convicções numa roda de amigos. Ou em família. Ou num bate-papo na mesa do bar. Foi divulgado ontem (20 de maio) um feito científico da maior importância. Algo que nos faz lembrar o anúncio da criação da ovelha Dolly, em 1997.
Se você tem mais de 20 anos deve se lembrar da comoção provocada pelo surgimento da ovelhinha mais famosa do mundo. Ao conseguir produzir o primeiro clone de mamífero da história, o escocês Ian Wilmut expandiu o conceito vigente sobre reprodução. Arrebentou o paradigma do papai e mamãe. Provou que é possível criar uma cópia de um animal (ou de um ser humano) a partir de uma célula de pele.
Dolly ampliou os horizontes da medicina. Graças a ela, podemos hoje sonhar com os benefícios da clonagem terapêutica. Ou seja: podemos admirar a ideia de criar tecidos ou órgãos humanos sob medida a partir de uma célula da pele do doente que precisa de um transplante. Por essa técnica, já foi possível criar pequenos pedaços de órgãos humanos. As experiências prosseguem. Não duvido que em breve essa possibilidade se torne um fato corriqueiro.
Dolly fez mais do que isso. Ela colocou à prova nossas convicções éticas, filosóficas e religiosas mais arraigadas. Os cientistas estariam brincando de Deus? O homem teria o direito de intervir sobre a natureza de uma forma tão radical? As discussões duraram anos.
E, agora, devem recomeçar. O americano Craig Venter diz ter criado uma célula sintética. É o primeiro organismo vivo que funciona com DNA feito pelo homem - e não pela natureza. Há mais de 15 anos Venter tenta construir uma forma de vida artificial. Várias reportagens publicadas na última década relataram cada um de seus pequenos passos. A mensagem era sempre a mesma: "Ele está quase lá". Parece que Venter finalmente chegou lá. Acompanhe o que ele fez, segundo o artigo científico que publicou na revista Science:
1) O código genético de uma bactéria (a Mycoplasma mycoides) foi decifrado. Como as bactérias têm apenas uma célula, elas são ideais para esse tipo de experiência
2) Venter descobriu a sequência de cada uma das "letras" químicas que formam o código genético da bactéria. Por exemplo: A (adenina), T (tamina), G (guanina), C (citosina)
3) Em laboratório, ele usou substâncias químicas que imitam a posição e a função de cada uma dessas letras. Assim, criou um DNA sintético (guardado no único cromossomo da célula)
4) Algumas "marcas-d'água" foram adicionadas para diferenciar o DNA sintético do DNA natural
5) O DNA artificial foi transplantado numa outra bactéria viva (Mycoplasma capricolum). A bactéria ficou com os dois DNAs (o artificial e o natural)
6) As bactérias começaram a se multiplicar. Algumas continham o DNA artificial. Outras apenas o DNA autêntico
7) O genoma sintético passou a produzir proteínas que, ao longo de várias gerações, foram substituindo as proteínas biológicas originais
8) Depois de trinta gerações, as bactérias tinham apenas o DNA sintético
Complicado? Sim. Assustador? Talvez. Uma coisa é certa: estamos diante de um conhecimento que não pode ser ignorado.
Venter disse que o organismo unicelular sintético inventado por ele é "a primeira espécie capaz de se reproduzir cujo pai é um computador".
Isso significa que um dia qualquer pessoa poderá criar diferentes formas de vida em casa, mesmo que não seja especialista em bioquímica? O computador será capaz de fazer o trabalho complicado por nós?
Especulações à la ficção científica não faltarão. É preciso saber separá-las dos fatos. É preciso também ter em mente que Venter não criou, a partir do zero, uma forma de vida totalmente nova.
"Ele não criou vida. Ele a imitou", disse o geneticista David Baltimore, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, ao jornal The New York Times. Se não pudesse copiar o funcionamento das bactérias perfeitamente banais que extraiu da natureza, Venter não teria chegado à célula sintética.
Jim Collins, professor de engenharia biomédica da Boston University, usou uma boa analogia para descrever, na revista Nature, o feito de Venter. "Imagine se fosse possível programar genes e células para que eles dessem origem a corações sintéticos que pudessem salvar um doente que precisasse de um transplante", escreveu Collins. "O paciente recuperado não poderia ser considerado uma nova forma de vida artificial. O mesmo vale para o microorganismo que Venter produziu."
Talvez o feito de Venter seja menos bombástico do que ele pretende nos fazer crer. Ainda assim, o tipo de intervenção que ele fez sobre a natureza é inédita e, claro, perturbadora. "Venter e seus colegas demonstraram que o mundo material pode ser manipulado para produzir aquilo que reconhecemos como vida", escreveu Arthur Caplan, professor de bioética da Universidade da Pensilvânia, na revista Nature.
Caplan lembra que há mais de 100 anos o filósofo francês Henri-Louis Bergson dizia que uma força vital (élan vital) distinguia a matéria viva da inorgânica. Segundo Bergson, nenhuma manipulação do mundo inorgânico permitiria a criação de qualquer coisa viva.
Essa perspectiva vitalista manteve-se de várias formas ao longo dos séculos. "O cristianismo, o islamismo, o judaísmo e outras religiões também defendem que uma alma constitui a essência da vida humana", escreveu Caplan. "Todas essas visões metafísicas são colocadas em dúvida pela demonstração de que a vida pode ser criada a partir de componentes não-vivos, ainda que esses componentes tenham sido originados de uma célula".
Se as ousadias de Venter abalam pilares filosóficos, elas também abrem grandes perspectivas para a evolução da ciência. Procurei dois especialistas que sempre me socorrem quando o assunto é bioquímica para saber o que eles esperam desse novo momento. Um deles é o americano Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. O outro é o brasileiro Alysson Muotri, professor assistente da Universidade da Califórnia, em San Diego.
"O artigo de Venter revela que a eficiência dessa tecnologia é muito baixa. Uma minúscula alteração faz com a célula não funcione. Vai demorar para que outros cientistas consigam repetir esse feito, mas acredito que essa tecnologia terá mais impacto na nossa vida do que a criação da ovelha Dolly", diz Muotri. "As implicações são enormes. Não consigo pensar num limite."
Segundo ele, a tecnologia pode permitir a criação de microorganismos para fins ambientais específicos, como degradar o lixo ou o óleo derramado nos oceanos. Também seria possível reduzir o custo da produção de vacinas e criar novas drogas. Quem sofre de intolerância à lactose, por exemplo, poderia tomar uma pílula que levaria uma bactéria capaz de produzir no intestino a enzima lactase (que ajuda a digerir a lactose). É claro que essa bactéria poderia ser nociva. Quem garante que ela não iria provocar úlceras, por exemplo. Nada é para já, mas as perspectivas para a saúde são promissoras.
O interesse principal de Muotri é a pesquisa básica. Ele acha que a biologia sintética poderá ajudar a responder questões fundamentais, tais como o funcionamento do cérebro. "Poderemos recriar o genoma de um Neandertal num sintetizador e movê-lo para dentro de uma célula-tronco embrionária. Assim, poderíamos produzir neurônios Neandertais e compará-los com os neurônios dos humanos modernos". Não seria genial?
A invenção de Venter é excitante e preocupante. Não há dúvida de que ela poderia ser usada para o mal. Ela pode permitir a criação de armas biológicas sofisticadas. Já imaginaram o que seria uma bactéria letal destinada a liquidar um único grupo étnico? "Para evitar isso, o governo americano já está vigiando todos os laboratórios capazes de criar sequências sintéticas longas, como o laboratório do Venter, aqui ao lado", diz Muotri.
Sempre que o homem modifica a vida -- seja pelo corriqueiro melhoramento genético de uma árvore frutífera ou pela biologia sintética - a sociedade deve se preocupar com a segurança e com uma relação satisfatória entre riscos e benefícios.
A ciência deve ser livre para criar, mas é a sociedade quem dá o tom do que é aceitável. O caso da clonagem é um bom exemplo de controle social. Depois de calorosos debates, um acordo firmado nas Nações Unidos baniu a clonagem para fins reprodutivos. Chegou-se ao consenso de que apenas a clonagem para fins terapêuticos é aceitável.
Algo parecido pode acontecer com a biologia sintética. "Ela pode melhorar nossa saúde e nosso bem-estar", diz Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. "Mas precisamos tomar todas as precauções necessárias para garantir que as novas tecnologias sejam usadas com segurança", diz. "Devemos criar mecanismos de regulação sem prejudicar a liberdade científica num campo que pode trazer muitos benefícios à humanidade", afirma Weeks.
A ciência é um agente que faz avançar as fronteiras éticas e morais. O tempo todo ela testa os valores da sociedade e estimula profundas discussões. Venter não é o único cientista a praticar a biologia sintética. Talvez ele seja apenas o mais rico e ousado. Esses cientistas estão brincando de Deus? Não é a primeira vez que ouvimos isso. Nem será a última. Foi assim com as transfusões de sangue, com a fertilização in vitro, com a clonagem, com as células-tronco, com os transgênicos.
A novidade choca, mas em pouco tempo é incorporada tão amplamente a ponto de não nos lembrarmos como era a vida antes dela. "A criatividade humana não tem limites. Podemos aproveitá-la de forma positiva e regulamentada", diz Muotri.
Será que daqui a trinta anos nossos netos ficarão surpresos quando contarmos que a criação da primeira célula sintética foi motivo de espanto e controvérsia? Até lá, quantas intervenções já teremos feito nesse nosso mundo complexo, imperfeito e fascinante?
Você concorda? Discorda? Queremos ouvir a sua opinião.
Cristiane Segatto
CRISTIANE SEGATTO
Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo cristianes@edglobo.com.br Qual das afirmações abaixo melhor representa a sua opinião?
a) Deus criou o mundo. A natureza é uma obra-prima e não deve ser alterada
b) Deus não criou o mundo, mas a natureza é perfeita. O homem não deve modificá-la
c) A natureza é uma engrenagem admirável, mas o homem tem o direito de modificá-la com o objetivo de tornar sua vida mais confortável
É possível que nos próximos dias você precise reafirmar suas convicções numa roda de amigos. Ou em família. Ou num bate-papo na mesa do bar. Foi divulgado ontem (20 de maio) um feito científico da maior importância. Algo que nos faz lembrar o anúncio da criação da ovelha Dolly, em 1997.
Se você tem mais de 20 anos deve se lembrar da comoção provocada pelo surgimento da ovelhinha mais famosa do mundo. Ao conseguir produzir o primeiro clone de mamífero da história, o escocês Ian Wilmut expandiu o conceito vigente sobre reprodução. Arrebentou o paradigma do papai e mamãe. Provou que é possível criar uma cópia de um animal (ou de um ser humano) a partir de uma célula de pele.
Dolly ampliou os horizontes da medicina. Graças a ela, podemos hoje sonhar com os benefícios da clonagem terapêutica. Ou seja: podemos admirar a ideia de criar tecidos ou órgãos humanos sob medida a partir de uma célula da pele do doente que precisa de um transplante. Por essa técnica, já foi possível criar pequenos pedaços de órgãos humanos. As experiências prosseguem. Não duvido que em breve essa possibilidade se torne um fato corriqueiro.
Dolly fez mais do que isso. Ela colocou à prova nossas convicções éticas, filosóficas e religiosas mais arraigadas. Os cientistas estariam brincando de Deus? O homem teria o direito de intervir sobre a natureza de uma forma tão radical? As discussões duraram anos.
E, agora, devem recomeçar. O americano Craig Venter diz ter criado uma célula sintética. É o primeiro organismo vivo que funciona com DNA feito pelo homem - e não pela natureza. Há mais de 15 anos Venter tenta construir uma forma de vida artificial. Várias reportagens publicadas na última década relataram cada um de seus pequenos passos. A mensagem era sempre a mesma: "Ele está quase lá". Parece que Venter finalmente chegou lá. Acompanhe o que ele fez, segundo o artigo científico que publicou na revista Science:
1) O código genético de uma bactéria (a Mycoplasma mycoides) foi decifrado. Como as bactérias têm apenas uma célula, elas são ideais para esse tipo de experiência
2) Venter descobriu a sequência de cada uma das "letras" químicas que formam o código genético da bactéria. Por exemplo: A (adenina), T (tamina), G (guanina), C (citosina)
3) Em laboratório, ele usou substâncias químicas que imitam a posição e a função de cada uma dessas letras. Assim, criou um DNA sintético (guardado no único cromossomo da célula)
4) Algumas "marcas-d'água" foram adicionadas para diferenciar o DNA sintético do DNA natural
5) O DNA artificial foi transplantado numa outra bactéria viva (Mycoplasma capricolum). A bactéria ficou com os dois DNAs (o artificial e o natural)
6) As bactérias começaram a se multiplicar. Algumas continham o DNA artificial. Outras apenas o DNA autêntico
7) O genoma sintético passou a produzir proteínas que, ao longo de várias gerações, foram substituindo as proteínas biológicas originais
8) Depois de trinta gerações, as bactérias tinham apenas o DNA sintético
Complicado? Sim. Assustador? Talvez. Uma coisa é certa: estamos diante de um conhecimento que não pode ser ignorado.
Venter disse que o organismo unicelular sintético inventado por ele é "a primeira espécie capaz de se reproduzir cujo pai é um computador".
Isso significa que um dia qualquer pessoa poderá criar diferentes formas de vida em casa, mesmo que não seja especialista em bioquímica? O computador será capaz de fazer o trabalho complicado por nós?
Especulações à la ficção científica não faltarão. É preciso saber separá-las dos fatos. É preciso também ter em mente que Venter não criou, a partir do zero, uma forma de vida totalmente nova.
"Ele não criou vida. Ele a imitou", disse o geneticista David Baltimore, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, ao jornal The New York Times. Se não pudesse copiar o funcionamento das bactérias perfeitamente banais que extraiu da natureza, Venter não teria chegado à célula sintética.
Jim Collins, professor de engenharia biomédica da Boston University, usou uma boa analogia para descrever, na revista Nature, o feito de Venter. "Imagine se fosse possível programar genes e células para que eles dessem origem a corações sintéticos que pudessem salvar um doente que precisasse de um transplante", escreveu Collins. "O paciente recuperado não poderia ser considerado uma nova forma de vida artificial. O mesmo vale para o microorganismo que Venter produziu."
Talvez o feito de Venter seja menos bombástico do que ele pretende nos fazer crer. Ainda assim, o tipo de intervenção que ele fez sobre a natureza é inédita e, claro, perturbadora. "Venter e seus colegas demonstraram que o mundo material pode ser manipulado para produzir aquilo que reconhecemos como vida", escreveu Arthur Caplan, professor de bioética da Universidade da Pensilvânia, na revista Nature.
Caplan lembra que há mais de 100 anos o filósofo francês Henri-Louis Bergson dizia que uma força vital (élan vital) distinguia a matéria viva da inorgânica. Segundo Bergson, nenhuma manipulação do mundo inorgânico permitiria a criação de qualquer coisa viva.
Essa perspectiva vitalista manteve-se de várias formas ao longo dos séculos. "O cristianismo, o islamismo, o judaísmo e outras religiões também defendem que uma alma constitui a essência da vida humana", escreveu Caplan. "Todas essas visões metafísicas são colocadas em dúvida pela demonstração de que a vida pode ser criada a partir de componentes não-vivos, ainda que esses componentes tenham sido originados de uma célula".
Se as ousadias de Venter abalam pilares filosóficos, elas também abrem grandes perspectivas para a evolução da ciência. Procurei dois especialistas que sempre me socorrem quando o assunto é bioquímica para saber o que eles esperam desse novo momento. Um deles é o americano Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. O outro é o brasileiro Alysson Muotri, professor assistente da Universidade da Califórnia, em San Diego.
"O artigo de Venter revela que a eficiência dessa tecnologia é muito baixa. Uma minúscula alteração faz com a célula não funcione. Vai demorar para que outros cientistas consigam repetir esse feito, mas acredito que essa tecnologia terá mais impacto na nossa vida do que a criação da ovelha Dolly", diz Muotri. "As implicações são enormes. Não consigo pensar num limite."
Segundo ele, a tecnologia pode permitir a criação de microorganismos para fins ambientais específicos, como degradar o lixo ou o óleo derramado nos oceanos. Também seria possível reduzir o custo da produção de vacinas e criar novas drogas. Quem sofre de intolerância à lactose, por exemplo, poderia tomar uma pílula que levaria uma bactéria capaz de produzir no intestino a enzima lactase (que ajuda a digerir a lactose). É claro que essa bactéria poderia ser nociva. Quem garante que ela não iria provocar úlceras, por exemplo. Nada é para já, mas as perspectivas para a saúde são promissoras.
O interesse principal de Muotri é a pesquisa básica. Ele acha que a biologia sintética poderá ajudar a responder questões fundamentais, tais como o funcionamento do cérebro. "Poderemos recriar o genoma de um Neandertal num sintetizador e movê-lo para dentro de uma célula-tronco embrionária. Assim, poderíamos produzir neurônios Neandertais e compará-los com os neurônios dos humanos modernos". Não seria genial?
A invenção de Venter é excitante e preocupante. Não há dúvida de que ela poderia ser usada para o mal. Ela pode permitir a criação de armas biológicas sofisticadas. Já imaginaram o que seria uma bactéria letal destinada a liquidar um único grupo étnico? "Para evitar isso, o governo americano já está vigiando todos os laboratórios capazes de criar sequências sintéticas longas, como o laboratório do Venter, aqui ao lado", diz Muotri.
Sempre que o homem modifica a vida -- seja pelo corriqueiro melhoramento genético de uma árvore frutífera ou pela biologia sintética - a sociedade deve se preocupar com a segurança e com uma relação satisfatória entre riscos e benefícios.
A ciência deve ser livre para criar, mas é a sociedade quem dá o tom do que é aceitável. O caso da clonagem é um bom exemplo de controle social. Depois de calorosos debates, um acordo firmado nas Nações Unidos baniu a clonagem para fins reprodutivos. Chegou-se ao consenso de que apenas a clonagem para fins terapêuticos é aceitável.
Algo parecido pode acontecer com a biologia sintética. "Ela pode melhorar nossa saúde e nosso bem-estar", diz Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. "Mas precisamos tomar todas as precauções necessárias para garantir que as novas tecnologias sejam usadas com segurança", diz. "Devemos criar mecanismos de regulação sem prejudicar a liberdade científica num campo que pode trazer muitos benefícios à humanidade", afirma Weeks.
A ciência é um agente que faz avançar as fronteiras éticas e morais. O tempo todo ela testa os valores da sociedade e estimula profundas discussões. Venter não é o único cientista a praticar a biologia sintética. Talvez ele seja apenas o mais rico e ousado. Esses cientistas estão brincando de Deus? Não é a primeira vez que ouvimos isso. Nem será a última. Foi assim com as transfusões de sangue, com a fertilização in vitro, com a clonagem, com as células-tronco, com os transgênicos.
A novidade choca, mas em pouco tempo é incorporada tão amplamente a ponto de não nos lembrarmos como era a vida antes dela. "A criatividade humana não tem limites. Podemos aproveitá-la de forma positiva e regulamentada", diz Muotri.
Será que daqui a trinta anos nossos netos ficarão surpresos quando contarmos que a criação da primeira célula sintética foi motivo de espanto e controvérsia? Até lá, quantas intervenções já teremos feito nesse nosso mundo complexo, imperfeito e fascinante?
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