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domingo, 4 de agosto de 2013

A VINDA DE FRANCISCO E A NOVA POLÍTICA

As mensagens de humildade e aproximação com o povo, deixadas, há uma semana, pelo papa Francisco aos brasileiros, podem significar uma nova página no relacionamento da Igreja Católica com a política. Com sorriso permanentemente estampado no rosto, destemor em se aproximar do público e certo despojamento, o líder católico deixou o país ovacionado não só por seu rebanho, mas por lideranças de outras fés. De quebra, deu exemplos de que um “título” não transforma ninguém em figura inalcançável.

O “papa dos pobres”, que adotou a alcunha de São Francisco de Assis, o santo que abandonou uma vida abastada para dedicar-se à pobreza, já na chegada destoou da pompa costumeira da política nacional. Em vez de helicóptero, o ex-cardeal argentino usou carro; nos dias seguintes, visitou hospitais, abraçou delinquentes e ex-drogados. Ele “foi para a galera” sem receio.

Fora épocas de campanha, quando é que os políticos vão às ruas e tocam as pessoas? O abraço papal foi físico; o dos detentores de mandato precisa ir além, traduzido em ações eficientes de cuidado com as pessoas, com investimentos planejados, acesso a educação e saúde de qualidade, por exemplo.


Amarildo




Francisco é um entusiasta das Comunidades Eclesiais de Base (CEB), aquele setor da igreja que vai onde as políticas públicas não chegam. É um homem conhecido por seu trabalho pastoral, de caminhadas e acolhimento. Com ele, a mensagem é límpida: o clero está disposto a se movimentar e influenciar as decisões que hoje são tomadas em gabinetes.

O primeiro passo, nesse sentido, é reformular a linguagem dos religiosos. Em vez de serem insígnias de uma fé distante da realidade, a tendência é que, cada vez mais, as celebrações falem do dia a dia, do que afeta as pessoas. E se nisso o poder público falha, é provável que se transforme em alvo.

As condições para esse novo relacionamento entre a fé e o poder estão se desenhando. Se entre os evangélicos o viés religioso já constitui bancada, com força política e capitalização de votos, agora o povo de Francisco foi, indubitavelmente, chamado a se mexer e pressionar.

O povo já foi às ruas. A igreja foi às ruas. É a hora de os políticos também saírem do conforto do mandato e tentarem entender, mais de perto, o que a voz das multidões – sejam manifestantes ou fiéis – tenta dizer. Quem não o fizer corre sério risco de ser excomungado nas urnas em 2014.

Minientrevista 

“É uma vergonha aceitar pessoas em corredores de hospital” - Dom Luiz Mancilha Vilela, Arcebispo de Vitória

Líder da Igreja Católica no Espírito Santo, o arcebispo de Vitória, Dom Luiz Mancilha Vilela, pondera que a vinda do papa Francisco ao Brasil tonou mais latente a necessidade de o clero se aproximar dos mais necessitados e adaptar sua linguagem para ganhar terreno entre os mais pobres.

O que muda no clero após a passagem do papa pelo país e suas mensagens de humildade e exaltação à simplicidade? 
A Igreja Católica tem que sair de si. Primeiramente, temos que incentivar os políticos católicos a assumirem esse protagonismo e se descobrirem missionários. As comunidades têm que ter formação crítica, sabendo dizer o que tem que ser dito, mas sem quebradeira, sem rosto tampado.

Nos últimos anos, vimos uma expansão das religiões protestantes e algumas seitas. A seu ver, por que isso ocorre?
Precisamos encontrar um jeito maior de aproximação com os pobres, com uma linguagem que eles entendam e se motivem. Alguns irmãos procuram respostas imediatas, milagres. Não somos adeptos de tapear o povo e não oferecemos mágicas para atrair fiéis.

O clero precisa ser repensado? 
Nós, padres e bispos, tendemos a ficar na cúpula, mas temos que nos sentar com o povo, a brincar com o povo, a conversar. Precisamos dar esse passo de aproximação.

O papa pediu que a igreja vá para as ruas. Qual a avaliação do senhor sobre o impacto desse chamado na política? 
Há um estímulo para que todos nos aproximemos. Nas manifestações das ruas, o governador disse que está aberto ao diálogo. Mas isso não está acontecendo. Existe, nos políticos, uma cultura do fechamento. Falta a alguns políticos a consciência da missão que têm. Quem anda de helicóptero jamais saberá se as estradas estão esburacadas.

O que o senhor apontaria, no cenário estadual, como erro? 
A saúde pública precisa melhorar. É uma vergonha aceitar pessoas em corredores de hospital. É preciso ter vontade política e coragem para tratar os enfermos com dignidade. A parte da Segurança precisa de formação cidadã, de bons salários. Os policiais têm que ganhar bem. E na mobilidade, está mais que claro que os ônibus são ruins. Parece que carregam porcos e macacos ali dentro, e não pessoas.


Fonte: Praça Oito = A Gazeta

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

POLITICA E RELIGIÃO NAS ELEIÇÕES DE 2012

Pelo menos quatro padres católicos das regiões Norte e Noroeste do Estado já se colocaram à disposição de partidos políticos para participarem da disputa eleitoral de outubro do ano que vem.

São eles, Valdecir Lima Romão (PV), de Aracruz, Niel Joaquim de Almeida (PSB), de Baixo Guandu, Antônio Wilson (PT), de João Neiva, e Maurício Fornaciari (PTB), de Linhares. Dos quatro, apenas Maurício falou sobre o assunto. Mas apesar da discrição, a adesão partidária dos religiosos já provoca discussão dentro e fora do âmbito da igreja.

"A atividade é incompatível com o ministério", afirmou o padre Edivalter Andrade, da Diocese de São Mateus, enquanto o coordenador diocesano de Pastoral da Diocese de Colatina, padre Roberto Marcelino de Oliveira, considera que, muitas vezes, as circunstâncias justificam o ato.

foto: Zenilton Custódio
Padre Valdecy Lima de filiou em PV em Araruz e poderá ser candidato a prefeito - Foto: Zenilton Custódio
Padre Valdecir Lima é a aposta do PV para concorrer à Prefeitura de Aracruz
No cenário de disputa política, a presença dos padres já faz a diferença. Em Aracruz, a filiação de Valdecir Lima ao PV, oficializada no dia 3 de outubro, teve forte repercussão na cidade.

O presidente municipal do partido, Lenin Amparo Rodrigues, não escondeu a empolgação ao comentar sobre o projeto do PV.

"A ideia é de tê-lo como candidato a prefeito", revelou, afirmando que a proposta conta, inclusive, com o apoio dos nove pré-candidatos a vereador do partido que são evangélicos.

Socialista

Em Baixo Guandu, a boa administração do padre Neil Joaquim de Almeida à frente da paróquia São Pedro despertou o interesse dos partidos do município. Quem levou a melhor, entretanto, foi o PSB.

foto: Divulgação
Padre Maurício Fornaciari, filiado ao PTB de Linhares - Foto: Divulgação
"Muitos fieis não aceitam. Dizem que política é coisa suja, é coisa demoníaca, que lugar de padre é na igreja"
Maurício Fornaciari (PTB), padre de Linhares
O presidente do partido na cidade, Rodrigo de Araújo Martins, vai direto ao assunto. "Ele agrega as forças políticas. Existe uma grande possibilidade de tê-lo como nosso candidato a prefeito", disse, revelando que a proposta é de usar o prestígio do religioso para atrair outros partidos, como o PT, PTB, DEM e PSC.

Em João Neiva, o padre Antônio Wilson, há 20 anos desenvolvendo projetos sociais pela Paróquia São José, se filiou ao PT. A ideia inicial é de que seu nome confira maior visibilidade ao partido, que faz oposição à atual administração. O PT na cidade deve lançar a prefeito o bancário Romero Gobbo Figueiredo.

Norma da igreja

Código Canônico
A matéria que rege a questão relacionada com a participação dos padres na política partidária é abordada pelo Código de Direito Canônico, de 1983.

Proibição
No artigo 3º, o documento destaca que "os clérigos são proibidos de assumir cargos públicos que impliquem participação no exercício do poder civil".

Política partidária
Enfatiza ainda que os padres devem evitar o que é alheio ao estado clerical, mesmo não sendo indecoroso. Sugere ainda que os religiosos não tenham participação ativa na política partidária.

Atividades
O padre que assumir a candidatura, terá suas atividades sacerdotais restringida, impedimento que irá vigorar ao longo do processo da campanha eleitoral.

Filiação é "ato de coragem"

O padre Maurício Fornaciari, de Linhares, atualmente filiado ao PTB e que em 2006 foi candidato a deputado federal pelo PSDB, classificou como um "ato de coragem" a atitude do sacerdote que aceita participar da política partidária.

"Muitos fieis não aceitam. Dizem que política é coisa suja, é coisa demoníaca, que lugar de padre é na igreja", declarou o religioso que, inspirado em sua experiência, se dedica a incentivar jovens a se interessarem pela política. Ele planeja, inclusive, escrever um livro sobre o assunto.

O que Maurício viu do outro lado, entretanto, conforme destacou, foi decepcionante.

"O sistema é desigual, não é democrático", comentou, destacando o poder desigual das forças econômicas, as falcatruas típicas da disputa política, como a compra de votos.

Para o padre, quem quiser mudar esse quadro não deve participar da política apenas durante os pleitos eleitorais. "Não se participa da democracia apenas no dia das eleições. Temos que acompanhar o cotidiano da política", destacou.

Em Linhares, o PTB de Maurício tem como candidato a prefeito José Carlos Elias, que já administrou a cidade.

Fonte: A Gazeta

segunda-feira, 25 de abril de 2011

BRASIL É 3º PAÍS ONDE MAIS SE CRÊ EM DEUS, DIZ PESQUISA.

O Brasil foi o terceiro país em que mais se acredita em 'Deus ou em um ser supremo' em uma pesquisa conduzida em 23 países.

A pesquisa, feita pelo empresa de pesquisa de mercado Ipsos para a agência de notícias Reuters, ouviu 18.829 adultos e concluiu que 51% dos entrevistados 'definitivamente acreditam em uma 'entidade divina' comparados com os 18% que não acreditam e 17% que não têm certeza'.

O país onde mais se acredita na existência de Deus ou de um ser supremo é a Indonésia, com 93% dos entrevistados. A Turquia vem em segundo, com 91% dos entrevistados e o Brasil é o terceiro, com 84% dos pesquisados.

Entre todos os pesquisados, 51% também acreditam em algum tipo de vida após a morte, enquanto que apenas 23% acreditam que as pessoas param de existir depois da morte e 26% 'simplesmente não sabem'.

Entre os 51% que acreditam em algum tipo de vida após a morte, 23% acreditam na vida após a morte, mas 'não especificamente em um paraíso ou inferno', 19% acreditam 'que a pessoa vai para o paraíso ou inferno', outros 7% acreditam que 'basicamente na reencarnação' e 2% acreditam 'no paraíso, mas não no inferno'.

Nesse mesmo quesito, o México vem em primeiro lugar, com 40% dos entrevistados afirmando que acreditam em uma vida após a morte, mas não em paraíso ou inferno. Em segundo está a Rússia, com 34%. O Brasil fica novamente em terceiro nesta questão, com 32% dos entrevistados.

Mas o Brasil está em segundo entre os países onde as pessoas acreditam 'basicamente na reencarnação', com 12% dos entrevistados. Apenas a Hungria está à frente dos brasileiros, com 13% dos entrevistados. Em terceiro, está o México, com 11%.

Entre os que acreditam que a pessoa vai para o paraíso ou para o inferno depois da morte, o Brasil está em quinto lugar, com 28%. Em primeiro, está a Indonésia, com 62%, seguida pela África do Sul, 52%, Turquia, 52% e Estados Unidos, 41%.

Criação X evolução
As discussões entre evolucionistas e criacionistas também foram abordadas pela pesquisa do instituto Ipsos.

Entre os entrevistados no mundo todo, 28% se definiram como criacionistas, acreditam que os seres humanos foram criados por uma força espiritual como o Deus em que acreditam e não acreditam que a origem do homem viesse da evolução de outras espécies como os macacos.

Nesta categoria, o Brasil está em quinto lugar, com 47% dos entrevistados, à frente dos Estados Unidos (40%). Em primeiro lugar está a Arábia Saudita, com 75%, seguida pela Turquia, com 60%, Indonésia em terceiro (57%) e África do Sul em quarto lugar, com 56%.

Por outro lado, 41% dos entrevistados no mundo todo se consideram evolucionistas, acreditam que os seres humanos são fruto de um lento processo de evolução a partir de espécies menos evoluídas como macacos.

Entre os evolucionistas, a Suécia está em primeiro lugar, com 68% dos entrevistados. A Alemanha vem em segundo, com 65%, seguida pela China, com 64%, e a Bélgica em quarto lugar, com 61% dos pesquisados.

Descrentes e indecisos

Entre os 18.829 adultos pesquisados no mundo todo, um total de 18% afirmam que não acreditam em 'Deus, deuses, ser ou seres supremos'.

No topo da lista dos descrentes está a França, com 39% dos entrevistados. A Suécia vem em segundo lugar, com 37% e a Bélgica em terceiro, com 36%. No Brasil, apenas 3% dos entrevistados declararam que não acreditam em Deus, ou deuses ou seres supremos.

A pesquisa também concluiu que 17% dos entrevistados em todo o mundo 'às vezes acreditam, mas às vezes não acreditam em Deus, deuses, ser ou seres supremos'.

Entre estes, o Japão está em primeiro lugar, com 34%, seguido pela China, com 32% e a Coréia do Sul, também com 32%. Nesta categoria, o Brasil tem 4% dos entrevistados.

Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

SARKOZY DENUNCIA PLANO DE DEPURAÇÃO RELIGIOSA NO ORIENTE MÉDIO.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, denunciou ontem um "plano particularmente perverso de depuração religiosa no Oriente Médio", após o atentado que, na sexta-feira passada (31), resultou na morte de 23 pessoas no Egito e na perseguição de outras comunidades cristãs na região.


"Não podemos tolerar o que cada vez se parece mais com um plano particularmente perverso de depuração religiosa no Oriente Médio", declarou Sarkozy em discurso de ano novo perante as autoridades religiosas da França.



                        O presidente da França, Nicolas Sarkozy, em discurso na sede do governo



O presidente francês fez referência ao atentado em Alexandria, mas também às bombas lançadas no dia anterior nas casas de cristãos de Bagdá e ao atentado dois meses antes na catedral síria da capital iraquiana, ação esta que resultou em 46 mortos, incluindo dois padres e sete policiais.

O presidente pediu que se levassem as ameaças a sério e que se protejam nas celebrações natalinas dessa comunidade.

"Os direitos que estão garantidos em nossa casa a todas as religiões devem ser reciprocamente garantidos em outros países", acrescentou.

O presidente se apresentou como a favor do laicismo do Estado e advertiu que "nenhuma religião pode ocupar o espaço público, embora todas tenham direito a um lugar digno para seus fiéis rezarem".

ATENTADO NO EGITO

Um carro-bomba explodiu em frente a uma igreja na cidade de Alexandria, no norte do Egito, matando 23 pessoas que participavam de uma missa de Ano-Novo.

Outras 43 pessoas ficaram feridas na explosão, que levou centenas de coptas --os cristãos do Egito-- a organizar protestos nas ruas durante a madrugada deste sábado. A igreja copta representa uma das crenças orientais mais antigas do mundo, sendo governada pelo atual líder --o papa Shenouda 3º-- ao lado de seu sínodo.

Em entrevista à TV estatal, o governador de Alexandria, Adel Labib, acusou a rede Al Qaeda de planejar a ação, sem fornecer mais detalhes.

Durante as manifestações nas ruas, alguns grupos de coptas e muçulmanos lançaram pedras uns contra os outros, e carros foram incendiados. Os cristãos são cerca de 10% dos cerca de 79 milhões de habitantes do país, de maioria muçulmana.

A polícia usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. Dezenas de homens foram destacados neste sábado para reforçar a segurança.

"As pessoas foram à igreja para rezar, mas acabaram mortas. Esse massacre foi planejado pela Al Qaeda, segue o mesmo padrão das ações em outros países", disse Kameel Sadeeq, do conselho da igreja copta em Alexandria.

Em um comunicado, o Ministério do Interior informou que a explosão ocorreu pouco depois da meia-noite, após uma missa para marcar o Ano-Novo. De acordo com a nota, o ataque também danificou uma mesquita próxima à igreja, e oito muçulmanos estariam entre os feridos.

Fonte: Folha on-line - http://bit.ly/hHr4z8

domingo, 28 de novembro de 2010

NOVO PUXÃO EM ORELHAS MOUCAS.

Quando é que a maioria dos bispos brasileiros, sensatos e fiéis, vai ouvir o Papa e fazer o que precisa ser feito na entidade que os congrega?


Tenho sob os olhos quatro documentos: 1) o Programa Nacional de Direitos Humanos - 3 (PNDH-3); 2) a declaração da CNBB sobre o tal programa, datada de 15 de janeiro deste ano; 3) o manifesto subscrito por mais de duas centenas de entidades que integram a Campanha pela Integralidade e Implementação do PNDH-3, lançado no dia 20 de maio; e 4) o discurso proferido pelo Papa Bento XVI aos bispos da Região Centro-Oeste no dia 15 desde mês de novembro.

O primeiro, o PNDH-3, é um bolo de pretensões ideológicas coberto com merengue de direitos humanos. Muito já escrevi sobre ele, apontando suas agressões a verdadeiros direitos da pessoa, como vida, liberdade e propriedade. O documento sofreu forte rejeição de vários setores. Mesmo assim, o PT o referendou de fio a pavio em seu Congresso Nacional realizado no mês de fevereiro deste ano. No entanto, com a aproximação da campanha presidencial, o bolo foi posto no freezer à espera de dias mais adequados para o retorno à vitrina da confeitaria petista.

O segundo, a declaração oficial da CNBB sobre o PNDH-3, só falta pedir desculpas por ter que discordar dele em quatro pontos. Aliás, bem contadas, das 572 palavras dessa declaração, apenas 100 podem ser lidas como expressão de divergência. As demais são de louvor e endosso àquele horroroso e mal concebido calhamaço. A entidade chega ao cúmulo de se desdobrar em elogios à "tão sonhada democracia participativa" (artimanha petista de lamentáveis resultados no Rio Grande do Sul, onde ficou tão desacreditada que saiu de pauta para nunca mais voltar). Mas até aí nada que surpreenda. A gente sabe que o coletivismo beato adora essas coisas.

O terceiro, o manifesto da Campanha pela Integralidade e Implementação do PNDH-3 é firmado por mais de duas centenas de organizações, em sua maioria pertencente ao segmento de gays, lésbicas, travestis e transgêneros. Sai em ardorosa defesa do programa, que deseja ver implantado sem alterações. Não há surpresa alguma em seu conteúdo, mas no fato de estar subscrito por organismos vinculados à mesma CNBB que senões ao PNDH-3. Ali estão, por exemplo, entre os signatários do apoio, os bem conhecidos Conselho Indigenista Missionário e a Comissão Pastoral da Terra. Ali está, também, a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo. E para completar o enrosco, também o subscreve o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil, o CONIC, do qual faz parte - adivinhem quem! - a própria Igreja Católica. Se você entrar no site do CONIC verá que a primeira e maior das cinco igrejas que integram aquele conselho é a Igreja Católica, representada por Dom Geraldo Lyrio Rocha, presidente da CNBB e signatário daquela declaração de discordância a que me referi acima. Pode uma coisa dessas? Ser contra e a favor? Pode. Na CNBB pode.

Para ampliar o paradoxo, o manifesto do Movimento pela Integralidade e Implementação do PNDH-3, lá pelas tantas, afirma textualmente o seguinte: "Desde que foi lançado, em dezembro de 2009, no entanto, o PNDH-3 vem sofrendo duros ataques de setores conservadores de nossa sociedade - sobretudo da Igreja (sic), dos donos da mídia, de setores antidemocráticos do Exército e de latifundiários. Esses segmentos não reconhecem o processo de construção participativa que resultou no Programa Nacional de Direitos Humanos ...". E lá vai a assinatura do CONIC, arrastando consigo não apenas a CNBB, mas a própria Igreja Católica em nosso país a falar mal de si mesma. Durma-se!

Por essas e por muitas outras, cada vez que Bento XVI se reúne com bispos brasileiros nas tradicionais visitas ad Limina Apostolorum, lá vem um sermão focando os desvios que tantas e tantas vezes tenho apontado na conduta da CNBB. Agora foi a vez dos senhores bispos do Centro-Oeste, recebidos no dia 15 de novembro, saírem com as orelhas ardendo. Ciente dos abusos cometidos em nome da entidade, por seus dirigentes, seus assessores e por alguns de seus organismos vinculados, que pintam e bordam em nome da CNBB e da Igreja, o Papa usou palavras firmes que, muito provavelmente, chegaram, mais uma vez, a ouvidos moucos.

Disse Sua Santidade, entre outras coisas: a) "Trata-se em definitivo de buscar que a Conferência Episcopal, com seus organismos, funcione cada vez mais como órgão propulsor da solicitude pastoral dos bispos, cuja preocupação primária deve ser a salvação das almas, que é, além disso, a missão fundamental da Igreja"; b) "Ao mesmo tempo é necessário lembrar que os assessores e as estruturas da Conferência Episcopal existem para o serviço dos bispos, não para substituí-los"; e c) "Esse organismo deve evitar colocar-se como uma realidade paralela ou substituta do ministério de cada um dos bispos" nem "constituir-se em intermediário entre o bispo e a sé de Pedro".

Quando é que a maioria dos bispos brasileiros, sensatos e fiéis, vai ouvir o Papa e fazer o que precisa ser feito na entidade que os congrega? Quando vai rever suas assessorias, instituições vinculadas e essas associações esdrúxulas a ponto de a tornarem esquizofrênica, como se viu acima?

Percival Puggina. http://bit.ly/gSaZwa

terça-feira, 5 de outubro de 2010

AS URNAS FALARAM.( by Marco Sobreira.)

As urnas falam, este é o principio maior da democracia, a vontade soberana do povo. Tudo perfeito se o Presidente da República, que deveria ser o maior responsável pela manutenção desse conceito, não tivesse interferido tão intensa e escandalosamente nestas eleições. Ter o direito de apoiar uma candidatura é licito, o que é imoral e nada republicano é de como o Chefe da Nação usou toda força do cargo e de sua popularidade para desrespeitar lei, desde a campanha antecipada até o uso de veículos oficiais, passando pela liberação de verbas e cargos a aliados e companheiros. Não satisfeito, Lula ainda ameaça a liberdade de imprensa, pede a extinção da oposição e destila ódio no palanque contra as elites e adversários.

Qual a sua intenção? O que está por trás de atitudes nada recomendáveis a um Presidente? Orgulho, vaidade, reafirmação do prestígio, ou o que é muito mais preocupante, que seria a implantação de um regime socialista disfarçado de democracia direta, ao estilo bolivariano de Chávez, que os petistas tanto admiram?

Tudo levava a crer que a estratégia e ilicitudes do Presidente obteria êxito. Pesquisas de idoneidade duvidosa anunciavam vitória no primeiro turno, festa preparada, discursos decorados, jornalistas avisados para a grande cobertura, enfim o "gran finale" apoteótico e a consagração total. Faltou, entretanto, um pequeno detalhe, faltou combinar com o povo, faltou avaliar melhor o fenômeno Marina, esqueceram da força do PSDB em estados importantes da federação e, faltou principalmente, respeito aos ideais democráticos e aos valores cristãos do povo brasileiro.

O clima de velório no pronunciamento de Dilma, ao lado de um patético e desconfortável Michel Temer, aliado ao desaparecimento do Presidente Lula, revelou a todo o Brasil que a passagem de José Serra ao segundo turno causou estragos ainda impossíveis de se prever em toda extensão.

A imagem que me passa na mente é aquela do cara que acertou os seis números da megasena e perdeu o bilhete. Onde encontrá-lo? Pode ser que seja encontrado, mas também pode ser que tenha ido para o lixo da história e jamais resgatado.

É claro que a candidata oficial ainda é a grande favorita, Lula jogará pesado, usará de todos os meios lícitos e os nem tanto, pressionará a mídia e empresários, a patrulha petista se encarregará dos recados, mas é bom lembrar que um dia, no lançamento do maior e mais formidável navio já construído, seu construtor, assim como Dilma o fez, pronunciou: “Esse nem Jesus Cristo afunda”. Deu no que deu.

Independentemente de qualquer resultado, as urnas já falaram, e o recado foi claro e objetivo: “O povo brasileiro jamais abrirá mão de seus princípios éticos, morais, religiosos e democráticos”

sexta-feira, 21 de maio de 2010

CRIARAM VIDA ARTIFICIAL, COMO FICA A SUA?

O homem já é capaz de construir um DNA inteiro, colocá-lo numa bactéria e fazê-la funcionar. Como isso vai afetar nosso cotidiano


Cristiane Segatto

CRISTIANE SEGATTO

Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo cristianes@edglobo.com.br Qual das afirmações abaixo melhor representa a sua opinião?



a) Deus criou o mundo. A natureza é uma obra-prima e não deve ser alterada



b) Deus não criou o mundo, mas a natureza é perfeita. O homem não deve modificá-la



c) A natureza é uma engrenagem admirável, mas o homem tem o direito de modificá-la com o objetivo de tornar sua vida mais confortável



É possível que nos próximos dias você precise reafirmar suas convicções numa roda de amigos. Ou em família. Ou num bate-papo na mesa do bar. Foi divulgado ontem (20 de maio) um feito científico da maior importância. Algo que nos faz lembrar o anúncio da criação da ovelha Dolly, em 1997.



Se você tem mais de 20 anos deve se lembrar da comoção provocada pelo surgimento da ovelhinha mais famosa do mundo. Ao conseguir produzir o primeiro clone de mamífero da história, o escocês Ian Wilmut expandiu o conceito vigente sobre reprodução. Arrebentou o paradigma do papai e mamãe. Provou que é possível criar uma cópia de um animal (ou de um ser humano) a partir de uma célula de pele.



Dolly ampliou os horizontes da medicina. Graças a ela, podemos hoje sonhar com os benefícios da clonagem terapêutica. Ou seja: podemos admirar a ideia de criar tecidos ou órgãos humanos sob medida a partir de uma célula da pele do doente que precisa de um transplante. Por essa técnica, já foi possível criar pequenos pedaços de órgãos humanos. As experiências prosseguem. Não duvido que em breve essa possibilidade se torne um fato corriqueiro.



Dolly fez mais do que isso. Ela colocou à prova nossas convicções éticas, filosóficas e religiosas mais arraigadas. Os cientistas estariam brincando de Deus? O homem teria o direito de intervir sobre a natureza de uma forma tão radical? As discussões duraram anos.



E, agora, devem recomeçar. O americano Craig Venter diz ter criado uma célula sintética. É o primeiro organismo vivo que funciona com DNA feito pelo homem - e não pela natureza. Há mais de 15 anos Venter tenta construir uma forma de vida artificial. Várias reportagens publicadas na última década relataram cada um de seus pequenos passos. A mensagem era sempre a mesma: "Ele está quase lá". Parece que Venter finalmente chegou lá. Acompanhe o que ele fez, segundo o artigo científico que publicou na revista Science:



1) O código genético de uma bactéria (a Mycoplasma mycoides) foi decifrado. Como as bactérias têm apenas uma célula, elas são ideais para esse tipo de experiência



2) Venter descobriu a sequência de cada uma das "letras" químicas que formam o código genético da bactéria. Por exemplo: A (adenina), T (tamina), G (guanina), C (citosina)



3) Em laboratório, ele usou substâncias químicas que imitam a posição e a função de cada uma dessas letras. Assim, criou um DNA sintético (guardado no único cromossomo da célula)



4) Algumas "marcas-d'água" foram adicionadas para diferenciar o DNA sintético do DNA natural



5) O DNA artificial foi transplantado numa outra bactéria viva (Mycoplasma capricolum). A bactéria ficou com os dois DNAs (o artificial e o natural)



6) As bactérias começaram a se multiplicar. Algumas continham o DNA artificial. Outras apenas o DNA autêntico



7) O genoma sintético passou a produzir proteínas que, ao longo de várias gerações, foram substituindo as proteínas biológicas originais



8) Depois de trinta gerações, as bactérias tinham apenas o DNA sintético



Complicado? Sim. Assustador? Talvez. Uma coisa é certa: estamos diante de um conhecimento que não pode ser ignorado.



Venter disse que o organismo unicelular sintético inventado por ele é "a primeira espécie capaz de se reproduzir cujo pai é um computador".



Isso significa que um dia qualquer pessoa poderá criar diferentes formas de vida em casa, mesmo que não seja especialista em bioquímica? O computador será capaz de fazer o trabalho complicado por nós?



Especulações à la ficção científica não faltarão. É preciso saber separá-las dos fatos. É preciso também ter em mente que Venter não criou, a partir do zero, uma forma de vida totalmente nova.



"Ele não criou vida. Ele a imitou", disse o geneticista David Baltimore, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, ao jornal The New York Times. Se não pudesse copiar o funcionamento das bactérias perfeitamente banais que extraiu da natureza, Venter não teria chegado à célula sintética.



Jim Collins, professor de engenharia biomédica da Boston University, usou uma boa analogia para descrever, na revista Nature, o feito de Venter. "Imagine se fosse possível programar genes e células para que eles dessem origem a corações sintéticos que pudessem salvar um doente que precisasse de um transplante", escreveu Collins. "O paciente recuperado não poderia ser considerado uma nova forma de vida artificial. O mesmo vale para o microorganismo que Venter produziu."



Talvez o feito de Venter seja menos bombástico do que ele pretende nos fazer crer. Ainda assim, o tipo de intervenção que ele fez sobre a natureza é inédita e, claro, perturbadora. "Venter e seus colegas demonstraram que o mundo material pode ser manipulado para produzir aquilo que reconhecemos como vida", escreveu Arthur Caplan, professor de bioética da Universidade da Pensilvânia, na revista Nature.



Caplan lembra que há mais de 100 anos o filósofo francês Henri-Louis Bergson dizia que uma força vital (élan vital) distinguia a matéria viva da inorgânica. Segundo Bergson, nenhuma manipulação do mundo inorgânico permitiria a criação de qualquer coisa viva.



Essa perspectiva vitalista manteve-se de várias formas ao longo dos séculos. "O cristianismo, o islamismo, o judaísmo e outras religiões também defendem que uma alma constitui a essência da vida humana", escreveu Caplan. "Todas essas visões metafísicas são colocadas em dúvida pela demonstração de que a vida pode ser criada a partir de componentes não-vivos, ainda que esses componentes tenham sido originados de uma célula".



Se as ousadias de Venter abalam pilares filosóficos, elas também abrem grandes perspectivas para a evolução da ciência. Procurei dois especialistas que sempre me socorrem quando o assunto é bioquímica para saber o que eles esperam desse novo momento. Um deles é o americano Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. O outro é o brasileiro Alysson Muotri, professor assistente da Universidade da Califórnia, em San Diego.



"O artigo de Venter revela que a eficiência dessa tecnologia é muito baixa. Uma minúscula alteração faz com a célula não funcione. Vai demorar para que outros cientistas consigam repetir esse feito, mas acredito que essa tecnologia terá mais impacto na nossa vida do que a criação da ovelha Dolly", diz Muotri. "As implicações são enormes. Não consigo pensar num limite."



Segundo ele, a tecnologia pode permitir a criação de microorganismos para fins ambientais específicos, como degradar o lixo ou o óleo derramado nos oceanos. Também seria possível reduzir o custo da produção de vacinas e criar novas drogas. Quem sofre de intolerância à lactose, por exemplo, poderia tomar uma pílula que levaria uma bactéria capaz de produzir no intestino a enzima lactase (que ajuda a digerir a lactose). É claro que essa bactéria poderia ser nociva. Quem garante que ela não iria provocar úlceras, por exemplo. Nada é para já, mas as perspectivas para a saúde são promissoras.



O interesse principal de Muotri é a pesquisa básica. Ele acha que a biologia sintética poderá ajudar a responder questões fundamentais, tais como o funcionamento do cérebro. "Poderemos recriar o genoma de um Neandertal num sintetizador e movê-lo para dentro de uma célula-tronco embrionária. Assim, poderíamos produzir neurônios Neandertais e compará-los com os neurônios dos humanos modernos". Não seria genial?



A invenção de Venter é excitante e preocupante. Não há dúvida de que ela poderia ser usada para o mal. Ela pode permitir a criação de armas biológicas sofisticadas. Já imaginaram o que seria uma bactéria letal destinada a liquidar um único grupo étnico? "Para evitar isso, o governo americano já está vigiando todos os laboratórios capazes de criar sequências sintéticas longas, como o laboratório do Venter, aqui ao lado", diz Muotri.



Sempre que o homem modifica a vida -- seja pelo corriqueiro melhoramento genético de uma árvore frutífera ou pela biologia sintética - a sociedade deve se preocupar com a segurança e com uma relação satisfatória entre riscos e benefícios.



A ciência deve ser livre para criar, mas é a sociedade quem dá o tom do que é aceitável. O caso da clonagem é um bom exemplo de controle social. Depois de calorosos debates, um acordo firmado nas Nações Unidos baniu a clonagem para fins reprodutivos. Chegou-se ao consenso de que apenas a clonagem para fins terapêuticos é aceitável.



Algo parecido pode acontecer com a biologia sintética. "Ela pode melhorar nossa saúde e nosso bem-estar", diz Daniel E. Weeks, professor de genética humana e bioestatística da Universidade de Pittsburgh. "Mas precisamos tomar todas as precauções necessárias para garantir que as novas tecnologias sejam usadas com segurança", diz. "Devemos criar mecanismos de regulação sem prejudicar a liberdade científica num campo que pode trazer muitos benefícios à humanidade", afirma Weeks.



A ciência é um agente que faz avançar as fronteiras éticas e morais. O tempo todo ela testa os valores da sociedade e estimula profundas discussões. Venter não é o único cientista a praticar a biologia sintética. Talvez ele seja apenas o mais rico e ousado. Esses cientistas estão brincando de Deus? Não é a primeira vez que ouvimos isso. Nem será a última. Foi assim com as transfusões de sangue, com a fertilização in vitro, com a clonagem, com as células-tronco, com os transgênicos.



A novidade choca, mas em pouco tempo é incorporada tão amplamente a ponto de não nos lembrarmos como era a vida antes dela. "A criatividade humana não tem limites. Podemos aproveitá-la de forma positiva e regulamentada", diz Muotri.



Será que daqui a trinta anos nossos netos ficarão surpresos quando contarmos que a criação da primeira célula sintética foi motivo de espanto e controvérsia? Até lá, quantas intervenções já teremos feito nesse nosso mundo complexo, imperfeito e fascinante?



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