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domingo, 6 de outubro de 2013

RIO MUQUI, O RIO QUE TEIMA EM NÃO MORRER



Uma cena me chamou a atenção alguns dias atrás, várias pessoas pescando na ponte em frente a antiga exposição no centro de Atilio Vivácqua, o que aguçou a minha curiosidade, já que há muito não via alguém se se despusesse a achar que ainda haveria peixes de porte a justificar tal iniciativa, tal o grau de poluição do rio Muqui. Afluente do Itapemirim, esse importante rio vem sofrendo ao longo dos anos degradação de todo tipo, desde dejetos industriais, oriundos da agropecuária e até esgotos das casas jogadas em seu leito.

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O desrespeito ao rio começa no Município de Muqui, lá se observam os mesmos problemas detectados aqui, ou seja, o mesmo descaso, a mesma falta de ações que visem preservar esse importante sitio ecológico tão importante aos dois municípios. Apesar de tudo, como um paciente que luta pela sua vida, o rio Muqui teima em permanecer vivo e os pescadores na ponte são prova inconteste disso.

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Na chegada em Atilio Vivácqua, o rio recebe as águas oriundas do córrego da fama, e o que deveria ser motivo de fortalecimento do mesmo, acaba sendo mais um problema, já que as águas já vêm poluídas pelos mesmos motivos descritos acima, enfim o desrespeito é total, falta educação ambiental e o homem teima em destruir o que a natureza levou milhares de anos para construir.

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Para piorar a situação, ao me informar sobre o tipo de peixe que estavam sendo motivo de tanta gente pescando, constatei mais uma agressão ao meio ambiente, já que bagres africanos e tilápias, peixes exóticos e importados são os que estão predominando no rio, em vez dos nossos peixes nativos, ou seja, como não têm predadores naturais esses peixes altamente predadores estão literalmente acabando com nossas piavas, bagres nativos, carás, mandis, traíras e até os camarões e lagostas são devorados por esses peixes, que por sinal têm carne de sabor não muito agradável.

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Como a criação desses peixes em poços e açudes não são devidamente fiscalizados, acabam chegando ao rio e aos córregos quando atingidos por enchentes, infestando, se proliferando e praticamente extinguindo nossos peixes nativos.

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As fotos que acompanham esse texto, são uma pequena amostra, do desrespeito, do descaso e da falta de educação da população que teima em fazer do rio um depósito de seus dejetos. Precisamos de ações urgentes para preservar e revigorar esse importante patrimônio até porque não podemos esquecer que a água que chega às nossas casas são provenientes do rio e sua qualidade está diretamente proporcional ao respeito que lhe devotarmos.
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Precisamos de ações urgentes em seu socorro, poderíamos começar com uma limpeza de todo o trajeto do rio, pelo menos em nosso território, aliás o Ministério do Meio Ambiente deveria criar um benefício a quem preservar e punição a quem poluir, assim, cada Município seria responsável pela qualidade e preservação dos rios, recebendo a água limpa com a responsabilidade de repassar ao próximo Município com a mesma qualidade, mas isso é sonhar demais, não?
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Outra ação fundamental seria o tratamento total do esgoto , canalizar e acabar a imagem vergonhosa dos canos de pvc jogando os dejetos das casas diretamente no leito do rio, é uma imagem própria do nosso subdesenvolvimento. Educação ambiental, é necessário que nossas crianças aprendam desde cedo a respeitar e preservar o meio ambiente e é preciso que se crie uma lei que puna, com multas, quem jogar dejetos no rio, a exemplo da Lei do Lixo Zero já em vigor em algumas cidades brasileiras, talvez mexendo no bolso, as pessoas passem a respeitar o nosso rio.


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Na última ação de limpeza do rio encontramos de tudo, móveis, animais mortos, plásticos, fezes, entulhos, enfim, tudo que se imaginar de porcarias foi encontrada, e olhe que essa limpeza, com a participação de população, foi com certeza há mais de 10 anos, tenham certeza que se fizermos novamente uma ação desse tipo, vamos encontrar o mesmo quadro deprimente encontrado na última limpeza do rio, mas apesar de tudo, o RIO MUQUI TEIMA EM NÃO MORRER.

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Esta foto foi tirada de um morro próximo ao rio, vocês têm dúvidas do destino de todo esse lixo?

Dr. Marco Sobreira

sábado, 17 de dezembro de 2011

O CÓDIGO FLORESTAL E OS "AMIGOS DO REI"

 
O grande escândalo da aprovação do novo Código Florestal não é a anistia a quem desmatou até 2008. Como apontou o artigo A tolerante lei da selva, de Manuela Carneiro da Cunha, Ricardo Ribeiro Rodrigues e Jean-Paul Metzger (Estado, 10/12), "antes disso, os infratores já sabiam o que estavam fazendo". Data mais justificável seria 24 de agosto de 2001, "data da medida provisória que definia e regulamentava as atividades em reserva legal e áreas de proteção permanente. Ou a data de 1998, da Lei de Crimes Ambientais. Quem obedeceu e tem consciência limpa deve hoje se sentir 'otário'".

O escândalo, daqueles que, "em nome da agricultura familiar" (desvirtuando este acertado conceito), apequenaram a lei de 1965, decepcionando os cerca de 20 milhões que na última eleição expressaram seu interesse pelo meio ambiente votando em Marina Silva, foi a introdução da emenda que permite a ocupação de apicuns e manguezais.

Mas até o ruim tem lado bom. O ato tem força de prova. Desmascara o ardil que pretendia transformar o debate nacional numa peleja de ambientalistas e ruralistas. Os manguezais nada têm que ver com o agronegócio, tão importante para o Brasil do século 21.

Antes da aprovação do novo texto, eles eram considerados áreas de proteção permanente. E sua ocupação, proibida. Mas proibir alguma coisa, no Brasil, é risível. Depende do tipo que afronta a lei: se for pobre, vai para a cadeia; se não, quase sempre é "anistiado".

Já expliquei, em outros artigos, os benefícios dos manguezais: proteção à linha da costa, agindo como anteparo às ressacas, aos ventos, às ondas e às correntes que assolam o litoral. Criatórios de vida marinha, deles dependem peixes, moluscos e crustáceos para se reproduzir. Suas raízes aéreas retêm nutrientes, o que os torna parques de engorda para a vida marinha; e quando submersas, filtram e melhoram a qualidade da água. Ponto importante a favor da sua manutenção, num país que não dá a mínima para o saneamento básico. O IBGE mostra: só 20% de todo o esgoto produzido pelos brasileiros recebe algum tipo de tratamento - a maior causa de poluição dos oceanos, no mundo, é o despejo de esgoto não tratado.

Os mangues amenizam a caradura de governantes que não investem em saneamento.
Suas copas são hábitat de aves marinhas e migratórias. E a fotossíntese de suas folhas produz parte do oxigênio que respiramos, enquanto sequestram dióxido de carbono - gás causador do efeito estufa - da atmosfera, suavizando o aquecimento global.

Mesmo assim, o lobby dos carcinicultores foi mais forte. Caiu a proteção legal. E isso ocorreu no mesmo momento em que a comunidade acadêmica mundial não se cansa de avisar que a morte da vida marinha se avizinha. Motivos?
O desaparecimento de hábitats como, entre ouros, os mangues; a introdução de espécies exóticas, como, mais uma vez, a criação de camarões em cativeiro; a poluição, a pesca predatória, o aquecimento e a acidificação dos oceanos em razão do excesso de gás carbônico, que alterou seu pH, afetando "metade dos corais do Globo (desde 1950), matando 80% destas formações no Caribe e causando, simultaneamente, uma preocupante diminuição de 40% dos proclorococos em décadas recentes (minúsculas algas também conhecidas como fitoplâncton, produtoras de oxigênio e base da cadeia alimentar)", disse Sylvia Earle, cientista americana, referência mundial no tema, no livro The World is Blue - How Our Fate and the Ocean's Are One, ou O Mundo é Azul - Como Nosso Destino e o dos Oceanos São Um Só, Random House).

Sylvia Earle conta que mais de 400 zonas mortas se formaram no litoral (o estuário de Santos e a Baía de Guanabara são contribuições brasileiras às estatísticas), "refletindo mudanças na química dos oceanos". E ressalta a cientista: todas essas ações, em conjunto, "estão matando o ecossistema que tornou possível a vida na Terra".

Mas por que a ocupação de manguezais nada tem que ver com a discussão maior, e sim com interesses particulares de uma minoria privilegiada, razão deste artigo?
Um agricultor - seja ele plantador de cana, de soja ou café - precisa investir, comprando a terra que vai explorar. Sem esse primeiro dispêndio não há como produzir. A não ser... criando camarões.

Nossos mangues, por sua importância, são áreas públicas. Não estão à venda. São doados a brasileiros especiais, os "amigos do rei": grandes empresários, prefeitos, deputados e senadores. Os únicos a ganhar com a medida, em detrimento de todos os outros.

Quando produzi a série Mar Sem Fim, para a TV Cultura, visitei pelo menos 90% das fazendas instaladas, sobretudo, no Nordeste, desde o Piauí até o sul da Bahia. E constatei mais: poucos empregos gerados (normalmente sem carteira assinada, empregos temporários) e conflitos socais impostos aos nativos que têm no mangue o sustento de seu dia a dia. Poluição dos estuários por abuso de produtos químicos, contaminação de lençóis freáticos pelo mesmo motivo e salinização de água doce também foram observados.

A carcinicultura nunca foi tradição. É fenômeno recente, esperteza de quem se aproveita de um bem público em proveito próprio.
A Constituição federal reconhece a importância dela e define a zona costeira como "patrimônio ambiental brasileiro". Por isso, acrescenta: "Sua ocupação deve se dar de modo autossustentável".

No ano que vem o Rio de Janeiro sediará a conferência de cúpula mundial Rio+20, para discutir as questões relativas ao meio ambiente e aquecimento global.
Se o texto passar na Câmara dos Deputados, restará apenas o possível veto presidencial.

Presidenta Dilma, a senhora vai agir ou prefere se explicar?

João Lara Mesquita, jornalista, mantém o site www.marsemfim.com.br - O Estado de S.Paulo

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ONDE O CRIME COMPENSA


Esse caso da redução da multa aplicada pelo Iema à Samarco é uma verdadeira agressão às consciências cidadãs do Estado.

Reincidente na prática de crimes ambientais, a empresa mereceu do diretor-presidente do Iema, Aladim Fernando Cerqueira, uma espécie de compensação, ao reduzir de R$ 5.420.000,00 para R$1.980.000,00 uma multa que punia um grave crime ambiental.
Para Aladim, entretanto, o crime nada tinha de grave. E é claro que tinha.

Deem os leitores uma olhada na matéria a respeito, nesta edição, e verão que se tratou de algo inadmissível numa gestão ambiental que se preze, e que deveria fazer valer os direitos da população e não a prática de agrados a predadores ambientais.

Muito já se comenta nos meios políticos que está na área ambiental do governo o grande problema da gestão Renato Casagrande. Não sabemos se é este, realmente, o gargalo da administração atual.
Mas é fora de dúvidas que se trata de um setor fortemente comprometido com os grandes conglomerados industriais que emporcalham o ambiente em nosso Estado. Comprometimento que começa lá no alto, na cadeira em que se senta o secretário Ruy Carnnelli.

Este cidadão não tem, nem mesmo, tradição de militância na área ambiental. É um executivo – de duvidosa competência, inclusive –, mas não um técnico, a quem se possa criticar por ações objetivas.
As críticas que ele tem recebido dos militantes da causa ambiental são de cunho político, pois nada mais é do que um instrumento a serviço das ações políticas de seu padrinho, o ex-governador Paulo Hartung.

Como, então, poderia ele interferir num caso escandaloso como este da redução da multa aplicada à Samarco? Isso jamais ele faria.
Quanto ao diretor-presidente do Iema, ainda não disse, objetivamente, a que veio. E, neste caso da Samarco, cometeu, no mínimo, um ato de tolerância descabida.

O crime pelo qual a empresa fora multado ocorreu no dia 10 de fevereiro deste ano, como constatou o próprio Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídrico, por meio de fiscalização.
A empresa simplesmente tingiu de vermelho, com seus rejeitos minerais, as águas do mar na praia do
Além. Surfistas e banhistas de lá fugiram apavorados.

Mas essa equipe de Aladim é muito engraçada. Uma de suas auxiliares – vejam só este detalhe na matéria da repórter Flávia Bernardes – disse que o valor inicial da multa não era justo porque só quem freqüenta a praia são surfistas.

É ou não é de duvidar da seriedade dessa gente? O laudo da Gerencia de Fiscalização do Iema apontou quatro agravantes no episódio e nenhum atenuante. E ainda destacou a reincidência específica da empresa no mesmo tipo de crime, chegando ao valor de R$ 5.420.000,00.

Com isso não concordou Aladim, secundado por seus auxiliares. Para os quais crime ambiental, no Espírito Santo, não pode nem deve ser punido com rigor.
Este, para eles, é o tipo de crime de compensa.

Fonte: Séculodiario

quinta-feira, 28 de abril de 2011

TERREMOTOS ALTERAM EIXO DA TERRA, MAS NÃO MUDAM CLIMA



Pesquisadores do JPL (Laboratório de Propulsão a Jato), da agência espacial americana Nasa, calculam que o terremoto recente no Japão deslocou o eixo rotacional da Terra em mais de 16,5 centímetros, alterando levemente a distribuição de massa no planeta.


Mas, segundo Allegra N. LeGrande, do Centro de Pesquisa de Sistemas Climáticas da Universidade Columbia, "alterações naturais na massa da Terra na atmosfera e oceanos também causam mudanças de aproximadamente 99 centímetros no eixo rotacional todo ano", diz.


"Trocando em miúdos, as mudanças ligadas a terremotos são muito menores do que as alterações imperceptíveis que acabam ocorrendo todos os anos", diz.

De acordo com LeGrande, são as alterações maiores no eixo que provocam mudanças climáticas.
A mudança cíclica na inclinação do eixo associada a deslocamentos astronômicos, chamadas de obliquidade, tem um ciclo bastante longo, cerca de 41 mil anos, e mudam a inclinação de cerca de 22,1 graus para 24,5 graus. No presente momento, ela está ao redor de 23,4 graus.


Em latitudes mais altas, uma obliquidade maior significa maior irradiação anual total. Nas latitudes baixas, o oposto é válido e, nas médias, praticamente inexiste mudança.


Segundo LeGrande, quando a obliquidade é elevada, as diferenças entre o equador e os polos na irradiação total e, também, na temperatura, é mais ampla, resultando em estações do ano mais extremas.
"Só que as alterações que acontecem todo ano com a obliquidade são tão minúsculas que não percebemos", explica.



Fonte: Folha.com

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

UM NEGÓCIO INSUSTENTÁVEL.

Marcos Sá Corrêa - O Estado de S.Paulo


Antes de gerar o primeiro quilowatt, a usina hidrelétrica de Belo Monte, na bacia do Rio Xingu, no Pará, conseguiu incluir o Ministério do Meio Ambiente num negócio insustentável. Eletrocutou nesta semana mais um presidente do Ibama. Governo vai, governo vem, cada vez mais eles passam e ela fica.

Tragados por Belo Monte, os nomes passam pelo cargo tão depressa que mal dá tempo de aprendê-los. Geralmente saem de fininho, "exonerados a pedido" e condecorados por processos. Mas chegam com estardalhaço digno de plenipotenciários do patrimônio natural.

E é assim que o Brasil está inaugurando mais um presidente do Ibama. Quem? O catarinense Américo Ribeiro Tunes.

Como presidente substituto, Tunes nem precisou assinar a posse no Ibama. Assinou diretamente seu passaporte para a posteridade, assinando de cara a licença "parcial" de Belo Monte. Ela autoriza o desmatamento de 23 hectares na bacia do Rio Xingu para a instalação de um canteiro de obras que formalmente poderá ou não construir a hidrelétrica. Mas com isso deixou na poeira todos os recursos técnicos e judiciais que o projeto ainda não conseguiu responder.

O demissionário Abelardo Bayma, antecessor de Tunes, assinou a licença prévia de Belo Monte. O antecessor do antecessor, Roberto Messias Franco, desencalhou em 2009 os estudos de impacto da hidrelétrica. Em 2008, demitiu-se a ministra Marina Silva, ao entrar em rota de colisão com Belo Monte, depois de capitular diante das pressões para liberar as usinas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira. Mesmo sem eletricidade, Belo Monte dá choque.

Dure muito ou pouco essa interinidade de Tunes, ele tem um lugar na história da usina e da burocracia ambiental, juntando sua assinatura à estreia da "licença parcial", um truque que a rigor serve para testar encanador em reforma de banheiro. "Parcial", neste caso, quer dizer o quê?

Interesses insensatos. Se o termo for sincero, o País está entregue a interesses poderosos, sem dúvida, mas insensatos a ponto defenestrar presidentes do Ibama só para construir um canteiro de obra sem a menor garantia de fazer a obra. Ideia semelhante só passou por Brasília uma vez, há mais de 30 anos, por meio da cabeça prodigiosa do economista Mario Henrique Simonsen. Como ministro do governo João Figueiredo, ele propôs que o Brasil legalizasse o pagamento de comissões por obras que não se pretendia executar. Alegava que assim todos sairiam ganhando. A começar pelos brasileiros, que assim gastariam menos com empreitadas inúteis e perdulárias.

Simonsen estava brincando. Queria simplesmente dizer com isso que muita coisa no País só sai do papel porque alguém está de olho na porcentagem da intermediação. Mas a licença "parcial" de Belo Monte, a julgar pelo número de baixas que já causou, está falando a sério, mesmo sem esclarecer se aquilo custará menos de R$ 19 bilhões ou mais de R$ 30 bilhões e gerará 11 mil ou 4 mil megawatts.

Belo Monte é urgente porque o Palácio do Planalto está sentado sobre mais de 60 projetos de usinas, a maioria na Amazônia. Isso porque a região tem potencial sobrando? Não. Por enquanto, o que há são advertências no mínimo plausíveis, como a do engenheiro Enéas Salati, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável.

Salati está combinando com calma e cautela o que já se sabe sobre mudança climática com o que se conhece dos rios nas 12 grandes regiões hidrológicas do território brasileiro. Encara um horizonte de 2015 a 2100. Não tem pressa, porque não vai ganhar nem perder um tostão com obra nem desmatamento. Mas já tem dados para prever que a vazão média dos rios na Amazônia cairá de 30% a 40% até o fim do século. O Rio Tocantins tende a chegar lá com a metade do volume que tinha antes de 1990. É para lá que o governo está nos levando, custe o que custar.


Fonte: Marcos Sá Corrêa - O Estado de S.Paulo





quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ABERTO A PORTEIRA PARA BELO MONTE.



Uma espécie de dique acaba de ser aberto nas entranhas da Amazônia: estão liberadas a implantação de estradas de acesso e áreas para estoque de solo e madeira, além da terraplenagem, para a construção de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. A licença para que o consórcio Norte Energia realize as obras foi concedida ontem (26) pelo Ibama, especificamente para os sítios Belo Monte e Pimental (veja a localização).

Embora as atividades principais da usina ainda tenham que passar por uma análise e por outras licenças ambientais, uma coisa é certa: a porteira para o estrago na região foi aberta. O consórcio está autorizado a derrubar 238,1 hectares de vegetação (2,38 milhões de metros quadrados) para a instalação de um acampamento, um canteiro industrial e a tal área de estoque de madeiras (as informações estão no site do Sistema Informatizado de Licenciamento Ambiental Federal).

A expectativa inicial do governo era de que a construção tivesse começado no segundo semestre de 2010, mas as obras estão atrasadas. O consórcio Norte Energia tinha preparado aporte de R$ 560 milhões para tocar as operações. Quando tiver a licença para o canteiro de obras, ele poderá dar início à mobilização de seus funcionários.

Fonte: EPtv.com - http://glo.bo/fDVHwg

sábado, 1 de janeiro de 2011

MAIS DÉJÀ-VU OU NOVAS ESTRATÉGIAS?

Washington Novaes - O Estado de S.Paulo


E se chega ao fim do ano com a incômoda sensação - relendo o que o autor destas linhas escreveu neste espaço no primeiro dia de 2010 - de que o tempo não passou ou não foi aproveitado para enfrentar as graves questões ali enumeradas. De novo, várias capitais e outras cidades às voltas com inundações, evidenciando seu despreparo para se adaptarem às mudanças climáticas com programas de readequação das áreas urbanas aos eventos extremos, cada vez mais frequentes. O último balanço do ano acusa 250 mil mortos no mundo em consequência de "desastres naturais" (incluindo enchentes, terremotos, etc.), mais que os 115 mil que perderam a vida em atos terroristas ao longo de 40 anos (The Washington Post, 20/12). E US$ 222 bilhões de prejuízo.

Mas pouco ou quase nada conseguimos avançar, como demonstrou a reunião da Convenção do Clima em Cancún - com duas questões novas e graves: 1) A Bolívia recorrendo e cortes internacionais porque seu voto na reunião - que impedia o consenso indispensável para decisões - não foi levado em conta; 2) os países-ilhas, como o Arquipélago de Marshall, com 61 mil habitantes, perguntando quem assumirá a solução se ele desaparecer do mapa com a elevação do nível do mar (a seu pedido, a Universidade Columbia, nos EUA, discutirá a questão em abril). Enquanto isso, países "emergentes" e "em desenvolvimento acusam os industrializados e recusam-se a assumir compromissos de redução de emissões - deslembrando a proposta brasileira de 1997, em Kyoto, de que cada país deveria assumir cotas de redução proporcionais à sua contribuição para o acúmulo de gases na atmosfera desde a revolução industrial e às atuais emissões.

E assim seguimos impermeabilizando nossas cidades, entupindo-as com veículos (no mundo, são 170 mil veículos novos por dia), assoreando rios com deposição de esgotos, sem regras para a expansão urbana. Diz a Agência Nacional de Águas que em seis anos 1.896 de 2.965 municípios analisados atingirão o limite máximo de fornecimento de água. Mas as perdas de água nas redes urbanas continuam por volta de 40% (26% em São Paulo), sem que haja programas de financiamento para projetos de recuperação e manutenção das redes, muito mais baratos que construir mais barragens, adutoras e estações de tratamento. Quase metade dos brasileiros não conta com redes de coleta de esgotos em sua casa, pelo menos 20 milhões não recebem água tratada, menos de 30% dos esgotos coletados recebem algum tratamento. Mas não se cumprem sequer os objetivos previstos no PAC e a "universalização" do saneamento levará pelo menos 20 anos.

Agora temos uma Política Nacional de Resíduos Sólidos. Mas nos faltam instrumentos e recursos para dar destinação adequada a pelo menos 230 mil toneladas diárias de lixo domiciliar e comercial. Os municípios gastam hoje mais de R$ 15 milhões por dia na coleta, mas os aterros das grandes cidades estão quase todos esgotados e 70% dos municípios não dão destinação adequada aos resíduos. Com a colaboração do Senado - que suprimiu no projeto de lei nacional a indicação de que a incineração só seria permitida se inviáveis o reaproveitamento, reciclagem ou aterramento do lixo -, os caríssimos e inadequados projetos de incineração avançam a passos céleres em vários lugares. Nos últimos dias do ano, o decreto-lei presidencial que regulamentou a política de novo restabeleceu a prioridade para outras possibilidades.

A Convenção da Biodiversidade em Nagoya demonstrou a gravidade da situação no mundo, que consome 30% mais de recursos naturais do que o planeta pode repor. Mas se tenta por aqui mudar o Código Florestal para reduzir as exigências de conservação. Avança-se um pouco na Amazônia na questão do desmatamento, mas se vai em frente a todo vapor com os projetos de novas hidrelétricas, comentados aqui na semana passada. E o Cerrado, que este ano se transformou num imenso caldeirão, com número recorde de queimadas, continua a perder vegetação em 14 mil km2 anuais, segundo o governo, 22 mil segundo as ONGs. Até pelo avanço descontrolado do plantio de cana-de-açúcar. Certamente com consequências muito fortes, inclusive no acúmulo de água para as três bacias hidrográficas que abastece, e na agricultura, que já se ressente de perdas fortes. Mais que nunca, fica evidente a ausência da chamada "transversalidade" nas ações do governo federal - o ex-secretário-geral do Ministério do Meio Ambiente João Paulo Capobianco chegou a dizer que "o governo não tem política ambiental".

Quando se reveem temas sociais tratados ao longo do ano, fica evidente que o setor de saúde continua empacado, e agora com a alegação de que é preciso recriar a CPMF para financiá-lo, quando a administração federal continua a gastar mais de R$ 150 bilhões por ano em pagamento de juros bancários e a investidores em papéis financeiros (mais de 12 vezes o orçamento anual do Bolsa-Família). Mas não se empenha numa verdadeira reforma tributária, que cesse com os programas de incentivos fiscais concedidos pelos Estados e que somam centenas de bilhões de reais por ano - concentrando a renda e desviando recursos da saúde e da educação. Esta última, sem profundas modificações, não conseguirá avançar na qualificação de pessoas para o mercado e na abertura de saídas para jovens que abandonam a escola e aderem à marginalidade.

É evidente que o País avançou em muitas áreas sociais nos últimos anos, com a estabilização monetária, os vários programas sociais consolidados, o crédito consignado. Mas terá de conceber novas estratégias, se não quiser ser vítima da crise financeira mundial e das transformações internacionais na produção de bens que concorrem com os nossos.

Agora, é esperar se as novas administrações se conscientizarão das novas realidades ou seguirão no déjà-vu inquietante.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A VIDA DO HOMEM DO CAMPO.

Recebi esse e-mail e vou publicalo aqui, porque achei fantástico.






Carta do Zé Agricultor para Luís da Cidade



Luís, quanto tempo!

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite

De madrugada pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade.

To vendo todo mundo falar que nós da agricultura estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode

fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

Pra ajudar com as vacas de leite contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender

no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas

leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem

fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia,isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de biodigestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava

morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia.. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta em papel reciclado pois não existe por aqui, mas aguarde até eu vender o sítio.





*(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.) *

"Na prática, a teoria é outra."