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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

MÉDICOS CUBANOS, SUSTOS TRABALHISTAS

José Pastore
Li nos jornais que o governo se assustou ao saber que o subterfúgio da "bolsa-formação" a ser usado para remunerar os médicos cubanos não está isento do recolhimento das contribuições previdenciárias. O aviso veio da Secretaria da Receita Federal. O órgão alertou que a importância mensal paga aos médicos constitui salário e, como tal, está sujeita ao recolhimento ao INSS de 11% pelos contratados e de 20% pelo contratante. Para o governo, a despesa mensal subiu de R$ 10 mil para R$ 12 mil por médico.
                    
Como se trata de salário, haverá sobre ele incidência de todos os encargos sociais (FGTS, seguro acidente do trabalho, salário-educação, descanso semanal remunerado, férias, abono, aviso prévio e outros) que somam 102,43% do salário. É isso que diz a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
                                  
O governo, que previa gastar R$ 511 milhões para contratar 4 mil médicos cubanos por quatro anos, terá de reservar mais de R$ 1 bilhão só para essas despesas. Não estão nessa conta os gastos com transporte e acomodação dos médicos no Brasil, nem tampouco os adicionais por insalubridade e periculosidade a que muitos farão jus.
                                  
Há que se considerar ainda que, mais cedo ou mais tarde, os médicos cubanos conhecerão o alcance das nossas leis trabalhistas, que, se não forem cumpridas, detonarão ações judiciais - individuais ou coletivas - com vistas a receberem atrasados e reparar danos morais. Eles saberão que, ao contrário de Cuba, as portas dos tribunais do Brasil estão permanentemente abertas para todos os cidadãos que aqui trabalham. Basta acioná-los.
                            
Por isso, a conta pode subir muito. Todos sabem que, no campo trabalhista, quem paga mal paga duas vezes. Pagamentos realizados por força de sentenças judiciais são sujeitos a elevadas multas e pesada correção monetária.
                          
Suponho que os competentes advogados da União tenham prevenido os nossos governantes sobre os riscos a que estavam submetendo a Nação. Tudo indica, porém, que a urgência para montar um programa eleitoral falou mais alto, e venceu. Agora, o bom senso recomenda fazer provisões para o desfecho, que pode ser desastroso.
                       
Tenho estranhado o silêncio do Ministério Público do Trabalho. Da mesma forma, intriga-me o mutismo das associações de magistrados do trabalho. Mais surpreendente ainda é a indiferença das centrais sindicais, que, sendo contrárias à necessária regularização da terceirização no Brasil, assistem pacificamente a um tipo de contratação que tem tudo do trabalho escravo. Basta lembrar que os médicos cubanos não podem trazer seus familiares; estão impedidos de sair do Brasil; se pedirem asilo, será negado; e ainda têm 70% do seu salário confiscado e remetido ao governo cubano, que nada pode fazer para os brasileiros. Situações mais brandas que essa têm sido denunciadas pelas centrais sindicais como "análogas ao trabalho escravo". Neste caso, "ouve-se um sonoro silêncio". Não me deterei nesse aspecto, pois o assunto já foi bastante comentado pela imprensa. Não comentarei tampouco a insinuação de que os recursos que vão para Cuba acabarão voltando para o Brasil - não se sabe para quê.
                    
A minha preocupação está na área trabalhista, porque, a julgar pela conduta rigorosa da Justiça do Trabalho, a conta dessa contratação pode se tornar colossal, o que vai demandar recursos que poderiam ser aplicados na própria solução eficaz do problema da saúde em prazo médio.
                              
Para dizer o mínimo, a fórmula escolhida pelo governo agrediu o interesse nacional. Por mais nobres que sejam os propósitos do Programa Mais Médicos, nada justificava afrontar o nosso ordenamento jurídico de forma tão contundente. Afinal, tudo poderia ser feito seguindo as regras vigentes, como, aliás, ocorre com os médicos que vêm da Argentina, Portugal, Espanha e de outros países que aqui estão para ajudar a aliviar a dor dos brasileiros. Até quando nossos governantes poderão desperdiçar o dinheiro do povo impunemente?
                                                                                                 
José Pastore é professor de relações do trabalho da Faculdade de Economia e Administração e membro da Academia Paulista de Letras.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

COMO PODE, MEU DEUS?


No Complexo Agroindustrial Pindobas, propriedade do deputado federal Camilo Cola, 20 homens e uma mulher trabalhavam em regime análogo a de escravos.

Foi o que constatou uma fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), na manhã desta quinta-feira (6). A fazenda fica entre os municípios de Brejetuba e Muniz Freire, no sul do Estado, e os trabalhadores atuavam no corte e tombamento de pinus.

Eles foram aliciados em Minas Gerais, onde tiveram as carteiras de trabalho retidas, em situação flagrantemente irregular. Na fazenda, eles se alojavam em espaços precários, numa situação extremamente degradante.

Matéria publicada nesta edição é rica em detalhes sobre a situação. Convém consultá-la para que se saiba do que é capaz um homem que, além de poderoso economicamente, é detentor de mandato eletivo em nível federal e almeja exercer o cargo máximo do Executivo no município em que possui sua base eleitoral e o filé mignon de seu complexo empresarial, o Grupo Itapemirim.

Por que um homem nessas condições faz isso? O que o move –, além, é claro, da ambição? Não cabe neste espaço especular sobre o que, de fato, está por trás desse comportamento do parlamentar e megaempresário.

Esta é uma tarefa para especialistas no estudo de personalidades controversas como a deste neo-escravocrata. O que se deve buscar nesse caso é o histórico da prática?

Há quanto tempo, exatamente, Camilo Cola vem utilizando mão de obra em regime de escravidão nos seus negócios? Quando isso começou?

Que tipo de contratação foi esta, feito para além de nossas fronteiras territoriais? Por que Minas Gerais foi escolhida para fornecer os trabalhadores explorados?

Ainda que teoricamente, seria de todo conveniente também que se apurasse quanto ele prometera pagar àqueles trabalhadores. Principalmente para se saber o tipo de avaliação que ele faz de uma mão de obra (sem especialização) que se encontra em qualquer lugar.

São perguntas simples, mas esclarecedoras. Certamente o mega empresário responderá a algum tipo de procedimento judicial. Não se sabe exatamente quando isso vai acontecer. Nem mesmo se pode prever uma data aproximada, já que o mandato lhe dá foro privilegiado para responder por malfeitos.

Mas é importante que se saiba, objetivamente – abstraindo-se problemas de personalidade –, o que pode levar um homem como Camilo Cola a práticas tão frontalmente contrárias à dignidade humana.

Como isso pode acontecer, meu Deus, em pleno Século XXI e no alvorecer do terceiro milênio?

Fonte: Século Diário