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domingo, 26 de agosto de 2012

MEU AMIGO PETISTA


“Meu Amigo Petista”

 
Tenho um amigo petista (pessoa incrível e honestíssima), que escreveu sobre o relatório da OIT - Organização Internacional do Trabalho, mostrando que a pobreza no Brasil caiu 36% em 6 anos, e dizendo que deve ter gente mordendo os cotovelos de tanta raiva. Não resisti e respondo publicamente.

 
‘Rir com dente é fácil’.

 
Quero ver agora que o preço das commodities caiu, que o modelo de exploração de petróleo criado pela presidenta prova-se inviável, que a Petrobras não consegue mais segurar a inflação artificialmente baixa, que o pibinho petista não vai sequer chegar a 2%, que o Brasil começa a ser encarado como um país onde é difícil fazer negócio por tanta intervenção e achaques às empresas, que o prazo razoável de fazer as importantes reformas (previdenciária, tributária, fiscal, política…) já venceu, que não houve um mísero progresso nas variáveis que impactam o aumento da produtividade e da competitividade (infraestrutura, educação, ciência e tecnologia), que todos os esforços foram direcionados à anabolização dos números no curto prazo em detrimento da poupança e do investimento no longo, que os sete (eu disse SETE) pacotes lançados nos últimos meses para tentar ressuscitar o paciente moribundo mostraram-se tão patéticos quanto as pessoas que os maquinaram, que as famílias estão endividadas até o talo de tanto estímulo ao consumo, que a arrecadação já dá demonstração de queda (mesmo com o aumento das alíquotas, o que representa perda real em base tributável — ou atividade econômica)…

 
Eu poderia continuar por mais uma semana elencando a sequência de burradas dos governos petistas. E olha que eu nem entrei no mérito moral — aí, é “capivara” mesmo, ficha policial!

Com economia aquecida e uma carga tributária boçal (em ambos sentido: quantidade e qualidade), é fácil ter muito dinheiro para gastar. Distribuir aos pobres parece coisa de gente de bom coração. Renda na mão de pobre vira consumo e consumo conta para o PIB. E, na mão de petista, vira voto na certa.

Mas agora que o dinheiro vai começar a rarear, quero ver onde vai estar o coração dessa gente. Ou vão cravar mais fundo os dentes no setor produtivo da sociedade ou vão ter que escolher o que deixa de receber recursos. Tenho certeza de que o caixa 2 das campanhas eleitorais deles está garantido — até porque este parece ser (por mais surreal que possa parecer) o ÁLIBI dos 36 réus do mensalão.

O fato é que, 10 anos depois, o pobre brasileiro pode ter ficado momentaneamente menos pobre na carteira, mas não se tornou um milímetro mais capaz de enfrentar os desafios do mundo moderno em que o país compete. Basta ver que os analfabetos funcionais das faculdades de gesso do Luladdad chegam a 38% (é inacreditável, mas é verdade).

Acabada a farra da gastança, voltaremos para a mesma estaca em que estávamos antes. Um pouco piores, na verdade, graças aos retrocessos que representam os constantes ataques às instituições da sociedade (a Justiça, a liberdade de imprensa, a independência dos poderes, o que restava de honradez no Congresso, a política externa que deixou de servir à nação para se dobrar a um projeto particular de poder…) e às bases da economia de mercado tão sólidas que os petistas herdaram de seus antecessores mais capazes (a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Bolsa Escola — este, sim, carregava uma contrapartida que produzia um efeito positivo no longo prazo em vez de boçalizar a população com esmola–, a autonomia do Banco Central, a confiabilidade dos dados oficiais, o modelo de privatização, o ordenamento jurídico que atraiu o investidor estrangeiro, a estabilidade econômica e de regras, a não-intervenção nos mercados…).

Eu não mordo os cotovelos porque as pessoas estão menos pobres. Mordo de ver que o PT transformou em mais um vôo de galinha a maior oportunidade que o Brasil jamais teve de entrar definitivamente para a elite global. Mordo de ver que gente inteligente como você não consegue perceber a destruição do nosso futuro que está sendo promovida dia após dia por gente que só quer se locupletar e perpetuar seu poder sobre a máquina estatal — cada dia maior e mais nefasta para a economia e, por extensão, à sociedade. Mordo de ver que estamos abandonando as fontes que trouxeram riqueza para este país para nos alinharmos cada dia mais aos membros do Foro de São Paulo — do qual fazem parte o mais abominável ditador do século na América do Sul e o grupo narco-guerrilheiro que ele apóia no país vizinho. Mordo de ver que gente do bem ainda se alinha com os maiores bandidos que já ocuparam o poder central deste país. Mordo de pena. Mordo de tristeza. Mordo de desesperança.
 
Escrito pela Dra. Elizabeth Rondelli, Doutora em Ciências Sociais, professora aposentada das Universidades Federais do Rio de Janeiro e Juiz de Fora:

segunda-feira, 13 de junho de 2011

FHC MERECE OS PARABÉNS.

Fernando Henrique Cardoso completa 80 anos no próximo dia 18. Eis aqui minha opinião sobre como ele mudou o Brasil.

Pode-se dizer que ele caiu de paraquedas no Ministério da Fazenda do governo Itamar Franco, em 19 de maio de 1993. FHC era chanceler desde 1992, estava satisfeito no cargo e foi surpreendido pela decisão de Itamar, que acabava de perder seu terceiro ministro da Fazenda.

FHC não é economista nem era especialmente entusiasmado pelo tema. Meio de brincadeira, meio a sério, sempre deixava escapar aqui e ali suas ironias a respeito do, digamos, excesso de confiança dos economistas. E foi assim que liderou talvez a maior virada econômica da história brasileira.

Nada foi por acaso. Ao contrário, foi um caso exemplar em que um líder político enxerga um caminho, reúne colaboradores para apoiá-lo tecnicamente e constrói a sustentação política para tocar o projeto.

FHC definiu o objetivo central: eliminar a inflação, devolver ao País uma moeda confiável. Cercou-se de economistas que ainda não tinham a fórmula pronta, mas eram acadêmicos que trabalhavam numa determinada linha de pensamento - o pessoal da PUC-Rio, mais ortodoxo. Deixou de lado, assim, uma turma paulista que sempre o acompanhara, mas que, na visão (acertada) de FHC, não tinha propostas firmes para enfrentar a inflação brasileira.

Muitos economistas convidados por FHC já tinham passado pelo governo. Haviam trabalhado no fracassado Plano Cruzado (1986-1987) e traziam dessa experiência uma impressão negativa do ambiente político brasileiro. Achavam difícil viabilizar um plano de estabilização, dadas as enormes mudanças que seriam necessárias em praticamente todos os setores da vida econômica.

Por exemplo: na ocasião, até como herança do regime militar, era tudo estatal (mineração, siderúrgicas, telecomunicações, bancos estaduais) e tudo ineficiente. Os políticos da democracia haviam gostado muito desse monte de vagas a ocupar. Como dizer a eles que seria preciso um amplo programa de privatização?

Só o prestígio pessoal e a liderança de FHC poderiam reunir, num fraco governo Itamar, os talentosos economistas chamados para a enorme tarefa de refazer a moeda brasileira.

A história da URV/real já é bastante conhecida. Menos conhecida é a arquitetura política desenhada por FHC para conseguir que o plano fosse aprovado dentro do governo, no Congresso e na sociedade.

Mesmo o sucesso imediato do real não tornou fácil aprovar as complementações, especialmente a reforma da Previdência, a Lei de Responsabilidade Fiscal, as privatizações, a quebra do monopólio da Petrobrás. Já como presidente, FHC certamente tinha mais poder, mas ainda assim precisou gastar muito capital político na votação das reformas constitucionais.

A oposição a essas medidas não vinha apenas do PT, mas dos próprios aliados de FHC, de seus amigos da academia e de amplos setores da sociedade, todos ainda com a cabeça antes da queda do Muro de Berlim.

FHC foi um dos raros políticos de seu tempo a entender o novo mundo. E soube como realizar essa agenda que mudou o Brasil de forma duradoura. Certamente houve equívocos e acidentes de percurso.

Mas eis o que importa: ficamos com uma moeda de verdade e todo um arcabouço institucional que preserva a estabilidade macroeconômica. Um outro país.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

sexta-feira, 22 de abril de 2011

EFEITO DUVIDOSO.

Ninguém duvida de que os juros são a principal ferramenta do Banco Central, quando ele resolve desaquecer a economia. É um clássico remédio anti-inflacionário. Mas até que ponto funciona? Essa é a discussão que renasce, provocada pelo novo aumento da Selic que chega a 12% ao ano. É maior taxa desde março de 2009, quando cravava em 12,75%. Ou seja, estamos pegando parelha com o passado. O argumento é evitar um cenário muito mais triste, também do passado: o de inflação alta.


Com a Selic a 12%, os juros reais atingem 6,2% ao ano. Nem é necessário repetir que são os maiores do planeta. Quase três vezes maiores do que a taxa de 2,2% praticada na Turquia, a segunda do ranking. Em terceiro lugar está a Austrália, com 2%. E daí? Essa é uma liderança no mínimo incômoda para o Brasil. O preço é a atrofia do crescimento econômico. As expectativas sobre o PIB em 2011 vão definhando, e a inflação, alvo dos juros, continua firme. O INPC, termômetro usado pelo governo para definir a meta inflacionária de cada ano, subiu 6,3% nos últimos 12 meses. Enquanto isso, a Confederação Nacional da Indústria reduziu de 4,5% para 3,5% a previsão de crescimento do PIB em 2011. E elevou de 5% para 6% a expectativa para a inflação neste ano. Ainda segundo a CNI, o PIB industrial deve aumentar 2,8% em 2011. A previsão divulgada em dezembro último era de 4%.

Então, sobram preocupação, insatisfação e críticas à política monetária em curso. Reclama-se de pouco esforço fiscal para ajudar a política monetária no combate à inflação. O corte de R$ 50,1 bilhões ao longo do ano, em despesas previstas no Orçamento, é muito pouco para remediar a gastança de 2010. A esse respeito o Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) emitiu uma nota com alto teor de acidez. O texto assinala que "o novo aumento da taxa básica de juros expõe a carência de uma política fiscal que contribua para conter a inflação e a persistente apreciação cambial. Em um cenário que combina elevada liquidez internacional com expressivos diferenciais de juros e crescimento econômico, a redução dos gastos públicos é o único remédio para esses males. No entanto, o comportamento das contas públicas é desanimador. A opção de arrefecer os aumentos dos preços exclusivamente através da política monetária, além de limitar a geração de empregos, comprometer o crescimento econômico e privilegiar as importações, dificilmente será exitosa."

Como um comentário puxa outro, vale registrar a análise da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade). Para essa entidade, o aumento da taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual (de 11,75% para 12%), terá pouco impacto nos juros das operações de crédito.

De acordo com as simulações feitas pela Anefac, a taxa média das operações para os consumidores, hoje em 6,78% ao mês, deve aumentar apenas 0,02 ponto percentual, chegando a 6,80%. Já entre as taxas para as pessoas físicas, os juros do cartão de crédito devem subir de 10,69% ao mês para 10,71%. De fato, não é um avanço que assusta o consumidor determinado a comprar. Mas não se deve duvidar de novas medidas, talvez no campo dos impostos, visando a retrair as compras a prazo.

Fonte: A Gazeta - Angelo Passos

sábado, 5 de março de 2011

INFLAÇÃO, RISCO IMEDIATO.

A inflação continua sendo a maior ameaça ao consumidor brasileiro e o principal desafio imediato para o governo. Há sinais de arrefecimento da atividade econômica, mas não do consumo. Em fevereiro os índices de preços aumentaram pouco menos que em janeiro, mas não há razão para otimismo. O custo da alimentação continua em alta no atacado, a inflação dos serviços ganhou impulso e o mercado internacional de alimentos, petróleo e outras commodities permanece aquecido, espalhando pressões inflacionárias por todo o mundo. "Estamos extremamente preocupados com a alta de preços dos alimentos, em especial por causa de seu impacto nos mais pobres e mais vulneráveis", disse em Washington a diretora do Departamento de Relações Externas do Fundo Monetário Internacional (FMI), Caroline Atkinson. Ela se referia principalmente às populações dos países menos desenvolvidos e mais dependentes da importação de comida, mas ninguém - mesmo nos grandes países produtores, como o Brasil - é imune aos desajustes no mercado global.


Em fevereiro, o índice de preços de alimentos da FAO, a agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, ficou 2,2% acima do nível de janeiro e atingiu o ponto mais alto desde sua criação, em 1990. O aumento dos índices é explicável pelas condições mais apertadas de oferta (já conhecidas no ano passado), pela especulação financeira, favorecida pelos juros muito baixos no mundo rico, e pela corrida de alguns governos para formação de estoques. A crise política no Oriente Médio empurrou para cima os preços já elevados do petróleo, criando um duplo risco inflacionário. Além da pressão imediata sobre os preços dos combustíveis, o encarecimento do petróleo serve de base para a projeção de custos mais altos de produção agrícola neste ano.

Diante desse quadro, a pequena melhora dos indicadores nacionais de inflação parece bem pouco significativa.

No mês passado, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), produzido pelo IBGE e usado como referência para a política oficial, subiu 0,80%, pouco menos que em janeiro (0,83%). A maior parte do aumento resultou das despesas com educação, um problema sazonal. O custo de alimentos e bebidas subiu menos que no mês anterior. Houve uma evolução favorável, mas sobra pouco espaço para otimismo quando se examinam os preços ao produtor pesquisados pela Fundação Getúlio Vargas.

Mais alguns números podem dar uma ideia mais clara da situação. O Índice de Preços ao Produtor Amplo aumentou 1,23% em fevereiro. No mês anterior havia subido 0,96%. A maior pressão veio do grupo "alimentos in natura", com variação de 6,28%, depois de uma taxa negativa de 1,33% em janeiro. As matérias-primas brutas encareceram 2,21%, pouco menos que no mês anterior (2,46%), mas em ritmo ainda acelerado. Somando-se a esse quadro os dados internacionais e a avaliação da FAO, ninguém poderá apontar um bom motivo de tranquilidade.

Mas falta adicionar as condições particulares da economia brasileira. Os números do trimestre final de 2010 mostram uma clara tendência para o desequilíbrio entre oferta e demanda. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 7,5% ao longo do ano, mas sua expansão perdeu impulso nos meses finais. Entre outubro e dezembro o PIB foi apenas 0,7% maior que no trimestre anterior. Isso equivale a um crescimento anualizado de apenas 2,82%. Mas no mesmo período o consumo privado foi 2,5% maior que no terceiro trimestre, ritmo equivalente a 10,38% ao ano.

Os dados parciais da indústria e do comércio no primeiro bimestre de 2011 mostram um mercado consumidor ainda aquecido, com o poder de compra das famílias fortalecido pelo alto nível de emprego, pelos ganhos salariais e pelo crédito ainda farto. No mês passado, a produção e as vendas de veículos foram recordes para os meses de fevereiro. Mesmo com a desaceleração econômica já perceptível em alguns setores, dificilmente o Banco Central poderá evitar novas altas de juros para frear os aumentos de preços. Nesse quadro, o Executivo tem justificativa muito mais que suficiente para conter seus gastos e contribuir para um pouso suave da economia.


Fonte: O Estadão - http://bit.ly/eVnf09