Mostrando postagens com marcador tragédia no rio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tragédia no rio. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

MORTOS NA REGIÃO SERRANA JÁ SÃO 841.

- O número de mortos por causa das chuvas na região serrana fluminense já chega a 841, segundo informações da Polícia Civil e da prefeitura de Teresópolis. O município com maior número de mortes é Nova Friburgo, que tem 404 mortos, segundo a Polícia Civil fluminense.


Ainda de acordo com a Polícia Civil, há 67 mortos em Petrópolis, 21 em Sumidouro, quatro em São José do Vale do Rio Preto e um em Bom Jardim.

Já em Teresópolis, segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, 344 pessoas morreram por causa das chuvas.














UM "CASE" NA SERRA.

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


Engenheiros, geólogos, bombeiros e sobreviventes da catástrofe que atingiu a região serrana do Rio de Janeiro, ainda não conseguiram compreender o que aconteceu exatamente naquela madrugada de 11 para 12 de janeiro, cujas consequências somam mais de 800 mortos, cinco centenas de desaparecidos, prejuízos materiais ainda incalculáveis e a completa alteração geográfica de uma área que alcança sete municípios.

A explicação não cabe toda na expressão "tragédia anunciada", embora uma parte dela esteja mesmo na imprevidência do poder público, no desmatamento, na ocupação desordenada do solo e no tabu que se criou em torno dos atos de remoção de moradias, sinônimo de autoritarismo e remissão de memória ao lacerdismo.

O polêmico governador Carlos Lacerda, que há quase 50 anos tomou decisões que impediram que a hoje nobilíssima área da Lagoa Rodrigo de Freitas se transformasse em um imenso favelão. Quem não gosta do termo nem do conceito, mil perdões, mas a vida é mesmo assim.

Segundo o vice-governador Luiz Fernando Pezão, que há 15 dias se transferiu para Friburgo, a palavra "remoção" voltará a fazer parte do vocabulário oficial, até porque depois do ocorrido o Judiciário e o Ministério Público, empecilhos habituais, tendem a rever suas posições."Agora estão todos conosco", assegura ele.

Os responsáveis pelas equipes de salvamento, de reconstrução e de análise sobre o desastre admitem que não estavam preparados para enfrentar o que aconteceu. Falhou o homem? Falhou e precisa rever seus métodos de atuação, mas a natureza naquela madrugada realmente enlouqueceu.

Quem diz isso não é um místico. É o engenheiro Ícaro Moreno Júnior, presidente da Empresa de Obras Públicas (Emop): "Era impossível prever algo daquela dimensão. Foi como se a natureza decidisse despejar toda sua força de uma vez só."

Entre os dias 11 e 13 choveu 300 milímetros em Friburgo, cidade cujo centro foi arruinado. Segundo os técnicos, eles estavam preparados para enfrentar as consequências de uma chuva de até 180 milímetros que foi o índice ocorrido no município em todo o mês de janeiro de 2010.

O comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Pedro Machado, também não nega o despreparo do poder público, principalmente no que tange a sistemas de alarmes e socorro.

Mas não acha que se possam fazer comparações com as enchentes ocorridas na Austrália, onde houve inundações, mas o número de vítimas fatais foi de algo em torno de três dezenas.

"Na Austrália ocorreu uma enchente. Aqui houve enchente, deslizamento, desabamento e inundação, tudo ao mesmo tempo. Eu só conhecia a palavra cataclismo no dicionário. Pela primeira vez vi o que significa", diz o coronel.

Ele tem uma tese baseada nos relatos de sobreviventes: "Uma tempestade de raios atingiu o alto dos morros, quebrou as pedras que, junto com a enxurrada, provocaram os deslizamentos de blocos de cinco, dez toneladas."

Sobrevoando a região dos sete municípios a imagem mais impressionante que se vê é a de uma série de montanhas como que rasgadas em sulcos abertos entre a mata fechada.

"Inexplicavelmente, algumas áreas que seriam de risco não foram atingidas e outras que teoricamente eram seguras foram devastadas", acrescenta o coronel Pedro Machado.

O gabinete de crise montado em Friburgo trabalha basicamente em duas frentes: uma comandada pelo vice-governador visa ao atendimento das vítimas e à revitalização econômica da região, com a instalação de polos de atividade como um grande hospital de referência e a ampliação do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A outra diz respeito aos estragos físicos. Rios, canais e córregos saíram do curso, estradas desapareceram, pontes sumiram, ruas não existem mais. Quais as exigências dessa nova geografia? Só um diagnóstico preciso, que está sendo feito agora, poderá dizer.

"Não dá ainda para saber quanto tempo levará nem quanto custará", adianta o engenheiro Ícaro Moreno.

Até o último sábado, 10 dias após a tragédia, os 130 geólogos do Brasil todo que se apresentaram como voluntários não tinham uma explicação: sabiam apenas que estavam diante de um "case" a ser minuciosamente estudado.

Porque, como se viu, o impossível acontece.





quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SEGUNDO O CREA-RJ, 80% DAS MORTES PODERÍAM TER SIDO EVITADAS.

Ao apresentar o relatório preliminar da inspeção realizada na região serrana do Rio, o presidente do Conselho Regional de Arquitetura, Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ), Agostinho Guerreiro, disse que 80% das mortes em decorrência das chuvas seriam evitadas, caso a legislação ambiental do país fosse respeitada pelas prefeituras das cidades afetadas. "Técnicos apuraram que o desmatamento fez a velocidade da cabeça-d'água atingir em alguns trechos mais de 100 km/h", afirmou.


Wilton Junior/AEDocumento apresentado pelo presidente do Crea sugere obras de baixo custo para evitar nova tragédiaAlém do diagnóstico, o documento sugere um conjunto de obras de baixo custo para evitar a repetição da tragédia na região. "São intervenções simples nas encostas e pequenas barragens no alto dos rios para controlar a velocidade e o volume das águas. O que matou as pessoas foi esta combinação, além dos deslizamentos", declarou o presidente do Crea-RJ.







CARTA DE UMA SOBREVIVENTE ( TRAGÉDIA NO RIO )

Envio o relato que escrevi como voluntária nos esforços de socorro às vítimas nas áreas mais afetadas de Teresópolis, dias após as chuvas que assolaram a região.


17 de janeiro de 2011

Nunca vi nada igual. Posse, Caleme e Campo Grande praticamente soterradas. Um rio caudaloso onde não havia rio, um campo de pedras onde antes ficava uma fileira de casas, dois metros de lama por quilômetros e quilômetros vale abaixo.

Olhando pra cima, uma geografia violenta: a montanha sucumbiu à chuva e partiu-se em dois. O barranco estatelou-se no chão do vale, e a encosta de cá agora é côncava. Uma poeira fina e alaranjada recobre cada folha que restou.

Fincados no lodo: pedregulhos do tamanho de carros, carros virados de cabeça pra baixo, toras atravessando telhados. Muitas casas parecem intactas, só que a linha da água nas paredes está mais alta do que a das portas. Outras moradias ficaram escondidas sob camadas de lama tão pegajosa que, quando piso numa área molhada, é preciso duas pessoas para soltar a galocha.

No final do vale, o rio novo se despeja pela porta de um motel, atravessa o que ficou dos quartos e sai pelos fundos. Fora o borbulho da água, há apenas um silêncio medonho, entrecortado pelo barulho dos helicópteros que sobrevoam o vale (e não pousam).

O caminho, a pé, é difícil, e nós o percorremos debaixo de um sol a pino, mas não temos escolha. Postes e árvores foram arrancados do solo e carregados feito gravetos pela enxurrada. Presos entre as raízes, os detalhes mais difíceis: um pote de condicionador, fotos de uma moça sorridente e muito grávida, uma fantasia do Homem-Aranha. E, por todo o vale, aquele cheiro indescritível. Devíamos ter trazido máscaras, mas estão em falta aqui na serra.

O número de mortos é, sem dúvida, muito maior do que as estimativas atuais. As escavadeiras ainda nem chegaram aos lugares por onde andamos: sobre a pista de lodo e entulho que a avalanche deitou no vale, sobre casas e ruas soterradas. Pompéias.

E a prefeitura, lá no centro da cidade? Apaixonada pela própria burocracia, exigindo cadastro de quem distribui e documento de quem recebe (mas muitos perderam tudo, inclusive carteira de identidade), bloqueando a Cruz Vermelha e atrapalhando a distribuição de donativos. Um monopólio doentio.

Desabrigados e órfãos ainda sobrevivem sem assistência adequada do estado, e o socorro foi praticamente terceirizado. As igrejas, as ONGs que surgiram ao longo da semana, os mações e as associações-- estão todos fazendo um belo trabalho, mas a coordenação entre os grupos ainda é fraca. A sociedade civil pode preencher algumas lacunas deixadas pelo estado em tempos de emergência, mas a organização desses esforços depende de um centro eficaz e inteligente. A assistência, onde ela existe, permanece fragmentada.

No Pedrão, onde (até ontem) eram acolhidos os desabrigados: milhares de pilhas de roupas sobre as arquibancadas. Tudo meticulosamente organizado. Do lado de fora, sob uma tenda, crianças arrebentadas por correntezas estão sendo cadastradas, cadastradas, cadastradas Homens vagam pelo estacionamento com o olhar perdido, mulheres esperam na porta do ginásio pedindo fraldas e camisetas. Voluntários e funcionários alocam os mantimentos com afinco, mas têm pouca informação. Para onde estão sendo enviados os desabrigados? "Não sabemos informar." E as famílias que não conseguem chegar aqui, recebem esta ajuda? "Não sabemos informar."

Dentro do trailer no pátio, assistentes sociais e voluntários preenchem maços de fichas. Famílias atordoadas recitam as suas perdas. Os parentes viram nomes, as casas viram endereços, rotinas viram profissões. Vidas transformam-se em dados. Na parede, um cartaz feito a mão: "Todo voluntário deve cadastrar-se com a T___.". Perguntamos pela T___. "Não veio hoje." Veio ontem? "Também não." Outro cartaz: "Encaminhamento para abrigos." A mesa embaixo, desocupada.

Na saída, uma senhora, aos prantos, vê que temos celular e nos pede para tentar localizar o filho desaparecido. Ela tira do bolso um papel dobrado, mas o número de contato foi borrado pela chuva, e não conseguimos descifrar a sequência.

Resolvemos bater à porta do secretário. Ninguém é capaz de nos mostrar uma lista dos abrigos. Precisam de psicólogas? Subimos a serra com seis! Todas prontas para atender as crianças órfãs, qualquer pessoa que precise de ajuda. Ninguém da prefeitura fornece informações. "Vamos marcar reunião para amanhã, e depois avisamos." Algumas das voluntárias, impedidas de atender as vítimas e temendo a chuva forte que se aproxima, voltam pro Rio.

Por toda a cidade: caminhões do exército levam soldados sem pás nem máquinas adequadas. Moradores de máscara cirúrgica procuram corpos em zonas interditadas pela defesa civil. Alguns grupos de policiais vagam pela cidade, abanando as mãos, enquanto voluntários têm que driblar as autoridades para entregar água, soro e feijão de moto ou a pé.

A situação na serra é bem pior do que tinha imaginado. Já trabalhei em campos de refugiados e zonas pós-conflito. E repito: nunca vi tamanha destruição. Nem, devo acrescentar, tanto descaso por parte de um governo que dispõe dos recursos materiais e humanos necessários para, no mínimo, organizar os esforços e donativos oferecidos por um batalhão de voluntários.

3 pensamentos avulsos:


- O que aconteceu não é surreal: é real. O lodo, as crianças, os abrigos estão lá. Não é a cólera de deus, não é cenário de filme, não é campo de guerra, não é o Haiti. É a serra fluminense, e parte dela foi destruída, e ainda está sofrendo terrívelmente.


- Se não canalizarmos a atual onda de solidariedade para exigir mudanças a longo prazo, ano que vem estaremos lá de novo, estarrecidos com novas perdas e com a nossa própria incapacidade (falta de vontade? apatia coletiva? amnésia seletiva?) de aprender com os erros do passado. Mais uma vez.


- Os sentimentos mais úteis no momento são: a fúria e a esperança. O resto é comodismo.

Adriana Erthal Abdenur

Professora de Desenvolvimento Internacional na Columbia University em Nova York e voluntária em Teresópolis da ONG Salve a Serra

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

700 MORTOS E 8 PASSAPORTES.

Demétrio Magnoli - O Estado de S.Paulo


Marco Aurélio Garcia qualificou como assunto "de uma irrelevância absoluta" a concessão de passaportes diplomáticos aos filhos e netos de Lula. Ele, certamente, considera relevante a tragédia que ceifou mais de 700 vidas e destruiu cidades inteiras na Região Serrana do Rio de Janeiro. Os dois eventos, cujos impactos sobre a vida nacional são incomparáveis, estão relacionados, ainda que indiretamente. Eles, além disso, têm igual relevância, pois procedem da mesma fonte: a delinquência atávica de uma elite política hostil ao interesse público.

A lei é cristalina ao listar os critérios que regulam a concessão de passaportes diplomáticos. O ex-ministro Celso Amorim violou a lei, a pedido de Lula, quando presenteou a prole estendida do ex-presidente com o privilégio reservado aos representantes do Estado. O gesto ilegal não é amenizado, mas agravado pelo recurso cínico à invocação do "interesse nacional". O que o Ministério Público precisa para acusar o ex-ministro e o ex-presidente de abuso de autoridade?

Certos grupos ambientalistas propensos à mistificação culpam as mudanças climáticas globais pela catástrofe no Rio de Janeiro. Mas as precipitações torrenciais e os deslizamentos em encostas de morros fazem parte da dinâmica climática e geomorfológica normal das serras do Sudeste brasileiro. A intensidade das chuvas não é explicação suficiente das causas de uma das maiores tragédias humanas da história do País. Uma urbanização descontrolada, com ocupação extensiva de encostas de morros e várzeas inundáveis, moldou o cenário do desastre. Os mortos, as famílias devastadas, os desabrigados são o produto de décadas de escolhas políticas baseadas numa racionalidade avessa ao interesse público e, muitas vezes, às próprias leis. O que o Congresso Nacional precisa para instalar uma CPI dedicada à investigação do enredo completo da tragédia anunciada?

O patrimonialismo "é a vida privada incrustada na vida pública", segundo a definição de Octavio Paz. Na sua trajetória rumo ao poder, o lulismo conectou-se com um anseio profundo da sociedade brasileira ao fazer a denúncia sistemática de uma elite política consagrada ao intercâmbio de privilégios oriundos do controle do aparelho de Estado. Lula tocou um nervo exposto com seus "300 picaretas do Congresso", tirada irresponsável que se converteu em canção popular e sintetizou a bandeira de mudança com a qual alcançaria o Planalto. De lá para cá, ele e seu partido traíram noite e dia o compromisso original. A emissão dos passaportes diplomáticos equivale a uma abjuração escrita: o presidente que sai transforma a corrupção em virtude, zombando da "lei das gentes".

Não há mais de 700 mortos no Rio de Janeiro porque Lula concedeu à sua descendência o privilégio ilegal, mas porque a elite política que hoje Lula personifica zomba da "lei das gentes". Cada uma das áreas de risco ocupadas na Região Serrana fluminense tem a sua história singular. Alguns bairros surgiram por incúria das autoridades públicas. Outros se estabeleceram sob o amparo de acordos espúrios entre loteadores e políticos em cargos de mando. Prefeitos e vereadores formaram clientelas eleitorais estimulando a ocupação de vertentes e várzeas, ou apenas condescendendo com a violação das normas. A catástrofe foi tecida com os fios de uma política que combina populismo, patrimonialismo e clientelismo. Na Austrália, inundações muito mais amplas deixaram um saldo de mortes que se conta na casa de poucas dezenas, não de várias centenas.

Lula e os seus não se limitaram a absorver os usos e costumes da elite política estabelecida, mas foram bem mais longe, produzindo uma espécie de elogio público do patrimonialismo. O ex-presidente proclamou a inimputabilidade de José Sarney (o "homem incomum"), mudou a lei para beneficiar a empresa financiadora do negócio de seu filho e, na hora da despedida, comportou-se como um potentado, oferecendo passaportes diplomáticos aos familiares com a desenvoltura de um pai que distribui ovos de Páscoa. Como exigir de autoridades estaduais e municipais o respeito à lei, a adesão à norma, quando a República se transfigura na fazenda dos Lula da Silva?

"Sempre tem a hora de fazer avaliação. Tem que se fazer uma autocrítica, por que se permitiu fazer tudo isso. Mas agora é resgatar corpos e ajudar famílias desabrigadas. Não vamos perder tempo nesse momento." O governador Sérgio Cabral não é mais responsável pela tragédia que seus predecessores ou que os prefeitos, vereadores e lideranças locais da Região Serrana do Rio de Janeiro. Contudo, ao fabricar uma acusação preventiva contra os críticos, ameaçando crismá-los como inimigos da ajuda às vítimas, revela-se mais inteligente - e muito mais nocivo ao interesse público. A sua operação de linguagem tem o objetivo de suspender o debate político enquanto perdurar a emergência humanitária. É a receita certa para proteger a elite política que parasita a sociedade.

Uma tristeza avassaladora começou a se espalhar pelo Brasil inteiro com as primeiras imagens da tragédia. A memória dos mais de 700 mortos merece um monumento que não seja feito de pedra nem se preste à demagogia das inaugurações políticas. O monumento só pode ser um programa plurianual ambicioso de reconstrução das cidades devastadas e remodelação estrutural dos padrões de ocupação do solo na Região Serrana fluminense e em inúmeras outras cidades e corredores urbanos do País. Os recursos para tanto existem, mas serão queimados na pira ardente das obras colossais da Copa do Mundo e da Olimpíada.

As chuvas de janeiro provocaram um trauma nacional duradouro. O verão não terminou. As águas da destruição ainda podem apagar o fogo do desperdício sem freios e das negociatas fabulosas promovidas em nome do orgulho nacional. É a única homenagem verdadeira que os vivos podem prestar aos mortos.



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

REVITALIZAÇÃO DOS RIOS.

MAIS UMA PROVA QUE TINHAM TUDO E NÃO FIZERAM.

ENCHENTES, A PROVA DO CRIME.

Tudo o que estamos vendo acontecer no Rio de Janeiro foi previsto por estudos da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado do Rio de Janeiro. Portanto, as centenas de mortes, destruição, sofrimento, perda de bens, desespero, poderia (e deveria) ter sido evitado se os vereadores, deputados, governo estadual e governo federal tivesse assumido com o minimo de seriedade seu compromisso de proteção da população. Temos representantes políticos para que eles gestionem bem os recursos públicos (advindos dos impostos que pagamos) objetivando nossa melhor qualidade de vida.


O que temos é total descaso, mau funcionamento, má gestão, e além de tudo roubo e corrupção!

Temos que dar um BASTA!!!!!!!


BASTA DE POLÍTICOS MENTIROSOS E CORRUPTOS!!!!

O que ocorreu na região serrana do Rio e em outros locais é simplesmente assassinato em massa.Check out

SE TIVESSEM ASSUMIDO A PROTEÇÃO À POPULAÇÃO!!!

Veja em que desde 2001 que tudo sobre enchentes no Rio de Janeiro está documentado.

Portanto não existe desculpa possível para o descaso das autoridades,mascadeia que é bom só mesmo para ladrão de galinhas. Ô republiqueta de bananas chamada Brasil.

A TRAGÉDIA DO TEMPO PERDIDO.

No terceiro ano do governo Lula, em 2005, o Brasil foi um dos 168 países a se comprometer com as Nações Unidas a elaborar um plano de defesa prévia das populações na iminência de uma catástrofe ambiental - como o tsunami asiático daquele ano, que deu origem à iniciativa. Para dar tempo aos países mais desvalidos, fixou-se em 10 anos o prazo máximo para a implantação das medidas. Na segunda-feira, quando chegava a 665 o número de mortos da tragédia na região serrana do Rio, o governo anunciou a criação de um Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais do País. Foram, portanto, seis anos desperdiçados.


Costuma-se dizer que, nas grandes burocracias, a mão esquerda não sabe o que faz a direita, e vice-versa. Mas o Planalto sabia que não tinha feito quase nada para cumprir o acordo que assinara - e admitiu a desídia em documento remetido à ONU, revelado domingo por este jornal. Instituiu-se um Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, que ainda não viu a cor dos míseros R$ 3 milhões que deveria ter recebido a contar de 2008. Agora, como se fosse uma proeza, o governo alardeia que, graças ao novo sistema - que parece ser pouco mais do que um ajuntamento de palavras -, será possível reduzir em 80% o total de vítimas nas áreas por ele cobertas em caso de calamidades. Quando? Até o final do mandato da presidente Dilma Rousseff.

Os brasileiros sabem que, em matéria de promessas oficiais, "até o final" costuma significar "no final" - e isso, na melhor das hipóteses. No caso da tragédia fluminense, o prazo é "assustador", avalia a consultora da ONU e diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres, Debarati Guha-Sapir. "Não entendo a razão de um país levar quatro anos para ter um sistema de alerta em funcionamento", espanta-se. Para o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, os primeiros efeitos do plano se farão sentir já no próximo verão. Mas será preciso começar de muito baixo. Segundo dados oficiais, apenas 426 dos 5.565 municípios brasileiros têm órgãos de Defesa Civil minimamente estruturados. "O sistema tem se revelado frágil", constata o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho.

O governo estima que 5 milhões de pessoas vivem em 500 áreas de risco, ou de deslizamento, ou de inundações. Mas são números incertos. Em São Paulo, por exemplo, a população exposta alcançaria 115 mil, mas o mapeamento encomendado pela Prefeitura - que, por sinal, ainda não o divulgou - exclui áreas sujeitas a cheias. O novo secretário de políticas e programas de pesquisa do Ministério de Ciência e Tecnologia, Carlos Nobre, enfatiza a urgência em remover os moradores de margens de rios e favelas não urbanizadas em áreas de "declive suicida". Que o diga a promotora Anaiza Helena Malhardes Miranda, do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Ela conta que uma ação civil pública para remover habitantes de 30 casas irregulares numa região de risco em Teresópolis se arrasta há inacreditáveis 19 anos. Quando a ação foi julgada em primeira instância, passados 9 anos, havia na área 350 moradias, com água, luz, telefone e asfalto. "O Poder Judiciário mandou o município reflorestar o local, mas não deu autorização para a retirada das pessoas", relata Anaiza. "Em suma, quase 20 anos depois da ação, não temos nenhuma casa demolida e nenhuma área reflorestada." Por sorte, o lugar não foi atingido pelas águas da semana passada. Mas, em outro ponto de Teresópolis, pedido idêntico de demolição perdeu o sentido. "A liminar da natureza foi mais eficiente", lamenta a promotora.

Não fosse a tragédia serrana, cujos efeitos levarão se sabe lá quantos anos para ser superados, histórias como essa nem viriam a público. É auspicioso que o sistema de alerta lançado pelo governo tenha no seu cerne o supercomputador Tupã, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Mas a previsão de catástrofes, com base em tecnologia avançada, será um exercício acadêmico, se os poderes públicos deixarem encostas e várzeas habitadas - e abandonadas.

Fonte : O Estadão - http://bit.ly/goUXcY





terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O BRASIL MERECE MAIS ( by Marco Sobreira )

Impossível no momento não abordarmos o tema da tragédia na região serrana do Estado do Rio de Janeiro e as enchentes que trazem imensos problemas às populações de Minas Gerais e de São Paulo, especialmente da capital. Ao ligar a TV agora pela manhã, me deparo com o Ministro Mercadante explicando o tal Programa de Alerta e Prevenção de Desastres que o Governo pretende implantar, “vamos comprar radares, 700 pluviômetros, mapear áreas de risco em todo o Brasil, capacitar o pessoal da Defesa Civil” dizia um entusiasmado Mercadante, esquecendo-se entretanto de dizer que estão há oito anos no poder e o referido plano de prevenção já estava pronto desde 2006 , o Governo não mexeu uma palha para que fosse efetivamente implantado, dando razão a todos nós em culpar essa omissão inaceitável e irresponsável.

Ano passado Angra dos Reis sofreu tragédia semelhante, só diferenciando da atual pelas proporções e número de mortos, as causas são as mesmas, ocupação irregular das encostas, falta de fiscalização da Prefeitura quanto ao local e tipo de construção, falta de aviso de risco iminente e retirada da população área de risco. Se não me falha a memória foram 57 as mortes em Angra dos Reis e a julgar pelas providências, não sensibilizaram nossos governantes. Do mesmo jeito as enchentes no Nordeste se repetiram e como numa roleta, temos que esperar o próximo período chuvoso para saber quais os Estados “premiados” com as novas tragédias, e aí tudo vai se repetir, cobertura em tempo real pelos canais de televisão, repórteres competindo pra ver quem mostra o maior drama, bombeiros, militares, povo se comovendo e fazendo doações, Governador e Presidente sobrevoando o desastre e dando entrevistas , prefeito e vereadores socorrendo a população, todos se apressando em aparecer como benfeitores do povo, quando na verdade não passam de exploradores do sofrimento alheio.

A dura realidade é que na grande maioria de nossos municípios a Defesa Civil só existe no papel, quando muito são funcionários deslocados para a função, sem a menor capacitação, que se esforçam para desempenhar uma função para a qual não foram preparados.

Devido a proporção desta tragédia e à custa de mais de 1000 mortos, com certeza, e com a repercussão internacional, parece que daqui em diante as ações de prevenção e alerta começarão a acontecer. O povo está saturado de tanto descaso e tanta omissão, não daremos trégua, tolerância zero é o nosso sentimento, estaremos de olho. O Brasil merece mais.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SISTEMA DE ALERTA CONTRA DESASTRES? SÓ EM 4 ANOS.

- O governo federal vai implementar um sistema nacional de prevenção e alerta contra desastres naturais a partir de um cruzamento de dados meteorológicos e um mapeamento das áreas de risco do País. O sistema completo, no entanto, só deverá estar em total funcionamento dentro de 4 anos. O País precisa, ainda, finalizar a identificação das áreas de risco e ampliar a cobertura de satélites, radares e equipamentos medidores de chuva.


Em reunião na manhã desta segunda-feira, 17, no Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff determinou aos ministros presentes - Fernando Bezerra Coelho, da Integração Nacional; Nelson Jobim, da Defesa; Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia; José Eduardo Cardozo, da Justiça; Alexandre Padilha, da Saúde, e Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação da Presidência - que melhorem a capacidade de resposta nacional aos desastres naturais.

De acordo com Mercadante, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais recebeu há um mês um novo supercomputador que permitirá a diminuição das áreas climáticas mapeadas dos atuais 20 quilômetros quadrados para 5 quilômetros quadrados. Também terá a capacidade de acelerar cálculos e previsões de níveis de chuva. No entanto, ainda não há o detalhamento das áreas de risco. Para isso será preciso mais satélites, radares e pluviômetros, um equipamento que mede a quantidade de chuvas. A intenção é ter uma rede totalmente integrada de radares, incluindo os hoje usados exclusivamente pela aeronáutica.

Hoje, o Brasil teria 300 áreas sujeitas a inundações e 500 áreas de risco de deslizamentos onde moram 5 milhões de pessoas. Mas apenas Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina tem um detalhamento. Ainda assim, nenhum dos Estados brasileiros têm um sistema, mesmo que rudimentar, de alerta antecipado. Segundo Mercadante, o ideal é que o sistema consiga avisar as pessoas nessas regiões com uma antecedência de pelo menos seis horas. "Não acabaria com as perdas materiais, mas reduziria ou acabaríamos com as vítimas", afirmou o ministro.

Na reunião ficou definido, ainda, que as Forças Armadas terão um papel maior na resposta aos desastres naturais, seja comandando as ações, seja em apoio aos Estados e municípios, como está acontecendo hoje no Rio de Janeiro. "Em áreas isoladas, por exemplo, o Ministério da Defesa pode assumir o comando. O ministério tem capacidade de trabalho pronta. A participação deverá ser decidida caso a caso pela presidente da República", disse Nelson Jobim.

O governo admite que a capacidade de resposta, atualmente, da Defesa Civil nacional é bastante limitada. "A secretaria de defesa civil tem muito o que reestruturar. O sistema tem se revelado frágil,é uma realidade. Ninguém vai tapar o sol com a peneira. Temos que encarar a realidade e reagir", disse Bezerra.


Fonte: O Estadão - http://bit.ly/hZxDpU

IRRESPONSABILIDADE EM CADEIA.

Não passa de escapismo político a tentativa de alguns governantes de atribuir a fenômenos naturais os dramas que, periodicamente, afligem as populações de determinadas áreas e às vezes se transformam em imensa tragédia humana, como ocorreu na região serrana do Rio de Janeiro. As pessoas não morrem por causa das chuvas, disse ao Estado a diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres, Debarati Guha-Sapir, considerada uma das maiores especialistas do mundo em desastres naturais. As pessoas morrem porque "não há vontade política para resolver seus dramas, que se repetem ano após ano". A principal causa de tantas mortes em desastres naturais é o descaso político, resume ela.


Um exame das políticas públicas - ou da falta delas - de proteção de populações contra desastres naturais mostra, de fato, uma extensa cadeia de imprevidência, incompetência administrativa, incapacidade técnica e irresponsabilidade política. Trata-se de um problema antigo. Espera-se que as dimensões da tragédia do Rio de Janeiro finalmente alertem as autoridades para a questão e as forcem a elaborar políticas e projetos que evitem sua repetição.

As falhas são nítidas na esfera municipal, onde programas de defesa civil foram negligenciados e a intensa ocupação de áreas de risco foi tolerada. Cabe às prefeituras impedir a ocupação dessas áreas. Mas isso é só o começo dos problemas. Na área federal, quando há dinheiro, só uma parte, às vezes ínfima, é aplicada. É injustificável que, mesmo após a tragédia em Angra dos Reis, em 2010, quando um deslizamento provocou a morte de 53 pessoas - em todo o Estado do Rio, as chuvas causaram 74 mortes no ano passado -, apenas R$ 1 milhão tenha sido liberado para o governo fluminense pelo Programa de Prevenção e Preparação para Emergência e Desastres, do governo federal.

O governo Lula caracterizou-se, entre outros aspectos negativos, pela notória dificuldade de administrar os recursos de que dispôs para investir em programas como os de prevenção de desastres naturais. Mas o problema não se limitou à esfera federal. Governos estaduais não se habilitaram a receber a parcela que lhes poderia ser destinada, e alguns governadores, como o do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, ainda se declaram satisfeitos com o apoio que recebem do governo federal.

Por falta de quadros técnicos, muitas prefeituras não conseguem avaliar a extensão dos danos causados por desastres naturais nem elaborar projetos de recuperação das áreas atingidas. Nesse caso, tem razão o Ministério da Integração Nacional ao alegar que, sem projetos adequados, não pode liberar as verbas. Afinal, há um procedimento legal que precisa ser seguido - a apresentação de um projeto, a realização de licitação para a contratação de obras, entre outras providências - para que a operação não seja depois objeto de restrições por parte do Tribunal de Contas da União (TCU).

Apesar de este ser um problema conhecido há muito tempo, não há nenhum programa de capacitação técnica dos municípios, de modo a lhes permitir ter acesso a recursos de outras esferas de governo. Falta articulação entre os três níveis de governo. E falta até num mesmo nível, é o caso do federal, que só agora está programando uma ação conjunta dos Ministérios da Integração, das Cidades e de Ciência e Tecnologia para a elaboração de um programa eficiente de prevenção de enchentes.

Quando houver informações relevantes, é preciso que elas fluam. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais dispõe de um supercomputador para previsão do tempo e estudos climáticos. Se necessário, suas previsões devem chegar rapidamente, e com clareza, aos órgãos de prevenção e ao público, como ocorre na Austrália.

Horas antes da catástrofe do Rio, o Instituto Nacional de Meteorologia divulgou boletim alertando que havia "condições meteorológicas favoráveis à ocorrência de chuvas moderadas ou fortes". É uma informação relevante, sem dúvida, mas insuficiente para forçar as autoridades a remover as pessoas das áreas de risco. Em que situação ficariam as autoridades se tivessem determinado a remoção dessas pessoas e, no fim, as chuvas tivessem sido "moderadas"?

Fonte: O Estado de São Paulo.

domingo, 16 de janeiro de 2011

NÃO SOU HERÓI, HERÓI NÃO EXISTE.

"Não sou herói. Herói não existe. Foi coisa de Deus mesmo. O herói foi Ele. A gente só foi a ferramenta usada por Ele". A frase é do vidraceiro Gilberto Branco Faraco, 23 anos, um dos responsáveis por resgatar, na quarta-feira, a dona Ilair Pereira de Souza, 53 anos, - que estava em uma casa prestes a desmoronar - de uma enxurrada em São José do Vale do Rio Preto, na Região Serrana do Rio. Ele e Daniel Lopes aparecem nas imagens que correram o mundo e foram exibidas no site do jornal "The New York Times" e na rede de TV CNN, entre outros.


Ele conta que só teve tempo de ouvir o pedido de socorro de Ilair. "Ela estava sob o telhado e não tinha como vermos onde ela estava ao certo. Pegamos a primeira corda, com uma cadeirinha de pintor, daquelas usadas em escalada, e jogamos, mas a cadeirinha ficou presa. Corremos para pegar uma segunda corda, que segurava o andaime e jogamos para ela. Eu tentei umas três vezes, e o Daniel outras três até acertarmos onde ela estava."

Gilberto disse que a operação de resgate durou entre 5 e 10 minutos. "Não dava tempo para pensar muito. Foi um desespero só. O Daniel foi muito forte para fazer o que fez, pois ainda tomou cuidado para que a corda, com o peso de dona Ilair, pudesse se cortar com o atrito na grade do prédio onde estávamos." Ele está na casa de um tio, em Queiroz, e evita dar entrevistas para tentar apagar a imagem de que tenha sido um herói.

Vidraceiro ainda não viu imagens do salvamento

Gilberto reencontrou dona Ilair Pereira de Souza, 53 anos - que na quarta-feira estava em uma casa prestes a desmoronar - na tarde de sexta-feira, quando voltou ao apartamento onde morava para pegar alguns objetos pessoais. "Ela me agradeceu muito, mas o que vale mesmo é que pudemos ajudar uma pessoa. Estamos aqui para isso. Foi tudo muito rápido. Tudo conspirou para dar certo. Quando a reencontrei, fiquei feliz porque vi que ela tinha voltado a sorrir." Apesar de ter corrido o mundo, Gilberto ainda não viu as imagens do salvamento.

"Ainda não vi a cena da gente tirando ela da água e puxando para o prédio. Só lembro do que aconteceu, mas ainda não vi o vídeo. Estou sem energia e internet na casa de meu tio desde aquele dia. Não tenho nem ideia direito do que aconteceu na região com essa chuva."

Alerta salva vidas de moradores

Em Areal, cidade da Região Serrana, um aviso de "alerta máximo" feito pela prefeitura do município em um carro de som impediu que a cheia do Rio Piabanha, que corta a cidade, provocasse estragos maiores. A prefeitura pediu que moradores fossem para local seguro pois o leito subiria em minutos. (Com informações do G1)

Eles viram tudo de perto e sobreviveram

"Só consegui salvar meu terço"

Marlene da Silva Vicente, 57 anos teve a casa coberta por lama

"Não deu tempo de pegar nada, saí correndo com a roupa do corpo. O que estou vestindo é roupa de doação. A única coisa que veio comigo é o terço, mas só porque ele estava no meu bolso. Só hoje (sexta-feira) que vou ver como ficou minha casa. Só sei que ela estava com barro pela metade das paredes"

"Nunca vi a morte de tão perto"

Gladys Garcia, 50, dentista Ficou mais de 12h isolada no trabalho

"Estava de plantão com outras 20 pessoas na Unidade de Pronto Atendimento quando começou a chover forte. A água cercou o prédio e começou a entrar por todos os lados, por volta de meia-noite. Tentamos sair pelo telhado, mas ele afundou. Muitos de nós não sabíamos nadar. Tínhamos a certeza de que íamos morrer ali, sozinhos"

"De repente só tem terra"

Werner Hiller, empresário Teve a casa destruída por um deslizamento

"Nenhum filme vai mostrar o que a gente viu, o que a gente presenciou. Nenhum livro vai conseguir explicar o que nós tivemos. Não tem como. É só tristeza, e a mente com aquilo gravado dia e noite. Você vê cinco casas sumirem, em apenas um minuto depois você tem só um monte de terra. É muito difícil"

Fiquei feliz porque ela voltou a sorrir", Gilberto Faraco, vidraceiro que resgatou dona Ilda da enxurrada.

Eu pensei que ia morrer, mas pedi, pelo amor de Deus, que meus vizinhos não me deixassem morrer ali.", Ilda Pereira, 53 anos, dona de casa resgatada.

Números da tragédia

7 dias de luto

Período de luto oficial decretado pelo governador Sérgio Cabral no Rio pelas vítimas das chuvas.

610 mortos

Número de mortos confirmado após chuvas na Região Serrana do Rio.

R$ 100 milhões

Valor liberado para o Rio - R$ 70 milhões para o Estado e o restante para 7 municípios.

225 homens

Número de homens da Força Nacional de Segurança que chegaram à Região Serrana.

Fonte: A Gazeta - http://glo.bo/ed4eCF

DIÁRIO DE UM SOBREVIVENTE.

O universitário Emanoel Pavani Torres, de 30 anos, que estava na casa dos pais, em Teresópolis, na madrugada de terça-feira, registrou todos os instantes da catástrofe que atingiu a cidade desde a hora em que foi acordado, no meio da noite, até quando socorreu o caseiro e conseguiu levá-lo para o Rio. A casa dos pais dele está irreconhecível. Piscina, lago e rio viraram um mar de lama. Após deixar o caseiro, Emanoel voltou à serra com alimentos não perecíveis para ajudar no resgate das vítimas. "Tem muita gente, mas muita gente mesmo precisando de socorro em Teresópolis."


"Acordei com um barulho muito forte de temporal e vento nas janelas. Fui até a sala, vi água no chão e olhei para o teto achando que fosse goteira. A semana anterior tinha sido úmida, de chuva intermitente. Mas, agora, o quadro era diferente: do lado de fora da casa, uma árvore caída represou a água e fez seu nível subir até cerca de um metro na porta de vidro que separa a sala da varanda.

Dei a volta pelos fundos, para tentar sair e ver a situação do jardim na frente da casa. O riacho que passa pelo terreno havia transbordado, a rua estava completamente submersa e a piscina e o lago viraram uma coisa só. Então, percebi que estava ilhado.

Já não tinha como chegar até o caseiro, a casa dele fica mais perto da rua. Ele também não conseguiria vir até a casa maior.

Escalei a chaminé da lareira para subir no telhado e de lá chegar até a caixa d"água, numa tentativa de avaliar na escuridão até onde ia o estrago.

Ouvi um forte barulho, percebi que a casa do caseiro estava desmoronando. Já era uma segunda avalanche de terra. A terceira derrubou uma parede da casa maior e empurrou os móveis na direção da piscina. Tive a impressão de que a construção não resistiria.

Sem celular, apenas com uma bermuda e a carteira, esperei lá em cima até o dia amanhecer para saber que rumo tomar.

O carro e a moto estavam perdidos, cobertos por uma montanha de lama. O galinheiro desapareceu, os marrecos, os patos, o cachorro, nunca mais os vi. O terreno da casa, de 3 mil m2, fica em um vale onde vivia uma comunidade muito carente, dizimada com os deslizamentos. Calculo que 90% daquela população morreu ou está desaparecida. Os sucessivos desmoronamentos traziam não só terra, mas pedras gigantescas, troncos, partes das casas, e corpos. Um deles, de uma criança, foi parar no jardim de casa. A essa altura, meu desespero já tinha virado resignação: achei que ia morrer e aceitei isso.

Mais tranquilo, desci da caixa d"água e caminhei pelos montes de terra até o lugar onde passava a estrada. Gritei para ver se fazia contato com algum vizinho. Alcancei uma casa próxima, onde havia 17 pessoas - senhoras, adolescentes e crianças, a maior parte desesperada. As crianças menos. Pareciam excitadas com a "aventura", sem se darem conta da dimensão da catástrofe. Fiquei um pouco com eles, até conseguir retirá-los dali e encaminhá-los a um condomínio grande que não fora atingido. Montamos ali um posto de atendimento informal aos sobreviventes, que apareciam enlameados, em número cada vez maior, e fornecemos água potável.

A partir daí, como a defesa civil demorou um tempo para chegar, passei o resto da manhã e parte da tarde ajudando no resgate das pessoas. Essa foi a parte mais dolorosa. Apesar de ter feito um curso de primeiros socorros, confesso que agi por instinto, sem pensar, simplesmente fazendo o que conseguia, para não fraquejar.

Encontrei o caseiro enlameado até os cabelos e o levei até o condomínio para que pudesse tomar água e comer alguma coisa.

As vítimas eram transportadas em macas feitas de bambu e cobertor para o campo de futebol da região, que funcionou também como heliponto. O helicóptero da Globo eventualmente levava alguém, mas, como era pequeno, não cabia mais de uma pessoa por vez. Era preciso escolher quem embarcaria, no meio daquele campo de agonizantes. Foi muito ruim. Muitos dos que ficavam morriam na nossas mãos. Uma menina grávida mudou de cor aos poucos, foi amolecendo, e morreu. Outra eu carreguei por quase 1 km, até o local mais próximo onde pudessem atendê-la.

Vi muitos corpos inchados, ou aos pedaços, largados na estrada ou escorados em árvores, crianças pedindo socorro aos prantos. Não pensei que fosse viver para ver algo assim.

Lembrei que precisava me alimentar para poder continuar. Estava completamente sem energia, exausto, com os pés cheios de feridas.

Fui até o condomínio para buscar o caseiro e, como precisávamos tomar antitetânica, pegamos carona com uma picape do Corpo de Bombeiros até o hospital. Dali, caminhamos até a rodoviária, que fica perto, e pegamos um ônibus para o Rio. Passei o dia juntando mantimentos não perecíveis para levar aos sobreviventes. Voltarei amanhã para retomar o resgate."

Fonte: O Estadão - http://bit.ly/ehZhvx

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

TRAGÉDIA FLUMINENSE.

Desastres naturais de proporções assustadoras, como os que ocorreram na região serrana do Rio de Janeiro, geralmente são causados por uma rara combinação de fatores, como uma chuva de intensidade anormal, a existência de solo encharcado e instável em decorrência de chuvas anteriores, declives acentuados, falta de vegetação adequada, entre outros. Mas desastres como esses só se transformam em tragédias humanas porque, com a tolerância e até o estímulo irresponsável do poder público, áreas sob risco permanente de deslizamentos são ocupadas desordenadamente. Na região serrana fluminense, nas encostas e nas áreas devastadas pela avalanche de lama e pedras encontram-se desde favelas até residências de padrão elevado, sítios de lazer e hotéis de luxo.


A ocorrência, há décadas, de tragédias semelhantes à registrada agora em Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis e Sumidouro - os municípios mais afetados pelos deslizamentos que, além das centenas de mortes, provocaram o caos, com a interrupção dos serviços urbanos essenciais, o que dificultou ainda mais o socorro às vítimas - deveria ter servido de alerta às autoridades no sentido de adotar medidas preventivas para, pelo menos, reduzir os efeitos das tempestades de verão. Em 1967, a região de Petrópolis foi duramente castigada por um temporal que provocou a morte de 300 pessoas. No ano passado, deslizamento em Angra dos Reis matou 53 pessoas e desalojou outras 3.500. Em todo o Estado do Rio, desastres naturais decorrentes das chuvas provocaram a morte de 74 pessoas em 2010.

A liberação imediata de R$ 780 milhões do governo federal - por meio de medida provisória assinada pela presidente Dilma Rousseff -, para auxiliar os Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo e os municípios mais afetados pelas chuvas recentes, permitirá o início rápido de obras e serviços de recuperação da infraestrutura danificada ou destruída. O dinheiro se destinará também a socorrer as vítimas e, na medida do possível, restabelecer a normalidade nas localidades mais atingidas. Certamente essa verba é insuficiente para tudo isso, mas sua rápida liberação - da mesma forma que a liberação de 7 toneladas de remédios e materiais médicos e o envio de homens da Força Nacional de Segurança Pública para auxiliar no socorro às vítimas - autoriza a esperança de que as coisas mudem com o novo governo.

O que não houve, até agora, foi a decisão de impedir que as tempestades que açoitam a região serrana todos os verões produzam tragédias como a de quarta-feira. Desde sempre, as autoridades locais, às quais compete regulamentar e fiscalizar o uso do solo e impedir a construção de moradias em áreas de risco, como as encostas e as regiões sujeitas a inundações, assistiram impávidas à ocupação desordenada dessas áreas.

Na esfera federal, a verba reservada no orçamento do ano passado do Ministério da Integração Nacional para o Programa de Prevenção e Preparação para Emergência e Desastres era de R$ 425 milhões, mas apenas R$ 167,5 milhões foram aplicados, de acordo com levantamento da organização não governamental Contas Abertas, com base em dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) do governo.

Nenhum centavo dos R$ 450 mil previstos para "apoio a obras preventivas de desastres/contenção na estrada Cuiabá" (em Petrópolis, uma das áreas onde houve deslizamentos) foi aplicado. Nova Friburgo, que registrou o segundo maior número de mortes na quarta-feira, deveria receber R$ 21,5 milhões para "obras de pequeno vulto de macrodrenagem", mas nada recebeu, de acordo com reportagem do jornal O Globo.

Foi graças à imprevidência das autoridades - para não dizer descaso - que se repete em 2011 a tragédia de 1967. Além de afetar dolorosamente a vida das famílias, a falta de projetos e ações destinadas a evitar a ocorrência de desastres naturais em áreas ocupadas por residências tem um forte impacto financeiro. Por não aplicar o que pode em prevenção, o governo acaba tendo de gastar muito mais em obras de recuperação. Que a presidente Dilma aproveite este primeiro desafio a que é submetida para demonstrar que não veio apenas para continuar o que Lula fez.

Fonte: O Estadão - http://bit.ly/eo1ayN

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

CABRAL CULPA DESGRAÇA DO POPULISMO POR TRAGÉDIA NO RIO.

KELLY LIMA - Agência Estado


Ausente do Rio e com paradeiro desconhecido durante a tragédia que aconteceu na região serrana e deixou mais de 400 mortos, o governador Sérgio Cabral (PMDB) vociferou contra os antecessores que permitiram a ocupação inadequada de encostas em todo o Estado. "Lamentavelmente, o que tivemos na região serrana foi um problema muito semelhante ao que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, que é a desgraça do populismo. Deixaram a ocupação de áreas acontecer como se fossem aliados dos mais pobres. A grande maioria atingida é de populares. Políticos oportunistas de plantão sempre se aproveitam para fazer defesa de ocupações irregulares", disse, em entrevista coletiva, ao lado da presidente Dilma Rousseff, com quem sobrevoou hoje as áreas atingidas.

Durante todo o tempo, Cabral elogiou Dilma e o governo do ex-presidente Lula, destacando que o Rio de Janeiro recebeu nos últimos quatro anos não só solidariedade, mas também apoio com recursos financeiros. "Nunca antes o Rio de Janeiro recebeu recursos com tanta velocidade", afirmou, para completar em seguida: "Obviamente, não dá para fazer uso do dinheiro público sem prestar contas ao TCU e a toda a burocracia. Mas não há uma reclamação do governo estadual sobre a liberação de recursos até hoje."

Cabral recebeu em troca da presidente Dilma um afago, quando ela afirmou que há excelente parceria desenvolvida entre o Estado e o governo federal. "O Sérgio me ligou ontem, ele estava no exterior, e aí tem as vantagens de estar no exterior para poder tomar providências imediatas. Ele me pediu para colocar imediatamente a ministra de Desenvolvimento Social e o secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos em contato para que ambos fizessem um levantamento sobre as áreas atingidas e o que seria preciso. Isso foi agilizado e pudemos tomar medidas para acelerar a liberação de benefícios, como aluguel social, e outras medidas, antecipando Bolsa Família e benefício da prestação continuada", disse Dilma. Foi a única menção ao fato de o governador estar fora do País, provavelmente entre Paris e Londres, no momento da tragédia.

Ainda segundo Cabral, "o que está angustiando são as próximas horas e os próximos dias". "Hoje não temos só Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo, mas problemas também em Areal, São José do Vale do Rio Preto e Sumidouro. Há áreas ainda com risco de desabamento, com queda de barreiras e com índice pluviométrico com previsão elevada", afirmou Cabral.

Fonte: http://bit.ly/eJJx7X

TRAGÉDIA SEM IGUAL.

RIO - O número de mortos na Região Serrana do Rio em razão dos deslizamentos de terra causados pela chuva já chega a 351. A presidente Dilma Rousseff vai sobrevoar a região na manhã desta quinta-feira e deve disponibilizar R$ 780 milhões para as áreas atingidas por desastres.



Marcos de Paula/AENa foto, o centro de Nova Friburgo após os deslizamentos causados pela chuvaA Secretaria também afirma que até este momento a Defesa Civil estadual não tem um balanço, mesmo que parcial, do número de pessoas desabrigadas e desalojadas, uma vez que militares da corporação ainda estão em campo, ajudando os municípios mais afetados e socorrendo vítimas.

Doações. A Prefeitura de Teresópolis abriu uma conta corrente para que sejam feitas doações para as pessoas afetadas pelo mau tempo. As doações podem ser feitas no Banco do Brasil, na agência 0741, conta corrente 110000-9. Alimentos, roupas e itens de higiene pessoal podem ser entregues no Ginásio Pedrão, na Rua Tenente Luiz Meirelles, 211, Várzea.

Nesta sexta-feira, 14, será instalado em Nova Friburgo o hospital de campanha solicitado pelo governador Sérgio Cabral. Desde a noite de quarta-feira, a Secretaria de Saúde e Defesa Civil estaduais estão montando também em Teresópolis outro hospital de campanha.

Hoje, a Petrobrás enviará helicópteros que serão utilizados em operações de busca nas áreas rurais e de difícil acesso em Nova Friburgo, enquanto a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) enviará caminhões-pipa aos municípios de Teresópolis e Nova Friburgo para o auxílio imediato no abastecimento de água à população.

Mata Atlântica. A região serrana é formada por montes cobertos pela Mata Atlântica, onde os solos são mais instáveis e mais propensos a deslizamentos. A construção de casas e prédios em vales, próximos a rios, também facilita as formação de enchentes. Em 1988, um temporal havia deixado 171 mortos em Petrópolis, na maior tragédia provocada pela chuva na região serrana até hoje.

Famílias inteiras morreram com a força da enchente ou com deslizamentos. Em alguns pontos, rios subiram até 5 metros e invadiram casas enquanto os moradores dormiam. Centenas de casas foram varridas pela terra que desceu as encostas, arrastando árvores e pedras.

Com ruas e estradas bloqueadas, equipes de buscas têm dificuldade para remover corpos ou tentar resgatar moradores presos sob escombros. A pedido do governador Sérgio Cabral, a Marinha colocou à disposição dois helicópteros para transportar homens e equipamentos do Corpo de Bombeiros para a região serrana. Partes das três cidades ficaram sem água, telefone e energia elétrica.


Fonte: O Estadão - http://bit.ly/hRBOFs