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domingo, 6 de outubro de 2013

U MA FARSA ATRÁS DA OUTRA

O Estado de S.Paulo
Parecia uma cena copiada de Bananas, a clássica comédia de Woody Allen, filmada em 1971, sobre golpes e revoluções na América Latina, em que o autor interpreta um impagável Fidel Castro. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, surge em rede nacional de TV para anunciar, em meio a um patriótico discurso comemorativo de uma batalha travada há 200 anos no norte do país, a expulsão de três diplomatas americanos. Ele os acusa de "fazerem ações (sic) para sabotar o sistema de eletricidade" nacional. E apela para o velho mote: "Yankees, go home!".
Na Venezuela chavista, diferentemente da máxima de Marx de que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa, a história oficial é uma sequência interminável de farsas. Em março, pouco antes de comunicar a morte do caudilho a quem havia sucedido ainda em vida, Maduro mandou expulsar dois adidos militares dos Estados Unidos, sob a acusação de urdir "planos desestabilizadores". Na semana passada, deixou de participar da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, alegando riscos à sua "integridade física".
O trio inclui a principal enviada de Washington a Caracas, a encarregada de negócios Kelly Keiderling. Desde 2010, as respectivas representações estão sem embaixadores, embora os EUA sejam o maior comprador do petróleo venezuelano. Antes de se ir, a diplomata tomou a incomum iniciativa de convocar uma entrevista para responder à delirante versão de que ela e seus dois colegas haviam instigado atos de sabotagem contra o sistema elétrico venezuelano, além de repassar fundos à oposição, tendo em vista as eleições municipais de 7 de dezembro próximo no país.
O governo americano reagiu conforme o protocolo. Repeliu a invencionice contra os seus representantes e expulsou igual número de diplomatas venezuelanos. Com isso, esfumam-se as irrealistas expectativas de que a morte de Chávez pudesse levar a uma distensão das relações bilaterais, depois de 14 anos de ataques do bolivariano ao "maldito império del dólar", com o qual nunca deixou de fazer negócios.
Mas, como sempre, tudo vale na tentativa de jogar areia nos olhos do povo e impedir que o partido do regime se saia mal no pleito que se aproxima - e que Maduro considera um referendo sobre a sua gestão. Ela tem sido um completo desastre. Nada, rigorosamente nada, melhorou para os venezuelanos desde a eleição encharcada de fraudes do antigo vice de Chávez, em abril último. A rigor, quase tudo piorou. Segundo o Banco Central da Venezuela, o desabastecimento subiu para 20%, puxado pelos bens de consumo cotidiano - do leite ao papel higiênico. A inflação é da ordem de 40%, a mais alta da América Latina.
No paralelo, o dólar vale 42 bolívares, ante 6,3 no oficial. O volume das reservas em moeda forte desceu ao menor nível em nove anos, amputando a capacidade do país de importar gêneros de primeira necessidade, pagando em dólar. A criminalidade, a corrupção e os apagões seguem o seu curso habitual. Assim também as farsas. Maduro fala em adotar "medidas especiais" contra os meios de comunicação que estimulariam a corrida aos supermercados ao abordar a crise de escassez no país.
Seria um caso típico da proverbial profecia que se cumpre por si mesma, não fosse por um detalhe que desmancha a teoria conspiratória da "guerra psicológica contra a segurança alimentar do povo", no dizer de Maduro. Vários periódicos, sobretudo no interior, tiveram a circulação suspensa ou simplesmente fecharam por falta de tinta e papel de impressão. "O governo acusa os empresários privados de provocar desabastecimento", protestou o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP, o uruguaio Claudio Paolillo. "Mas omite a falta de insumos para a publicação de jornais, sendo o único responsável por permitir sua importação." Maduro quer evitar a todo custo que o desabastecimento se torne tema da campanha eleitoral, constata o sociólogo venezuelano Luis Vicente León. "Por isso, ameaça a imprensa com a censura ou a autocensura."

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

ALIADOS ERRADOS

Os mais antigos diziam, na busca pela sobrevivência, na conquista do emprego: "Trabalhar para patrão pobre é pedir esmola pra dois". A história do desenvolvimento econômico nacional começou na década de 40, exatamente no dia 28 de janeiro de 1942, há 70 anos, quando veio ao Brasil o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, para assinar um tratado econômico, dando ao Brasil uma usina siderúrgica, a CSN. Ela que foi instalada em Volta Redonda, por decisão de Getúlio, para agradar seu genro, Amaral Peixoto, governador do Estado do Rio, para que o Brasil entrasse na guerra contra os chamados países do Eixo – Alemanha, Itália e Japão.

Imaginava-se que, com aquela siderúrgica, todos os sonhos de desenvolvimento do país estariam realizados, mas, com o término da guerra, a queda de Getúlio, as sucessões desastrosas no campo da política, até o retorno de Getúlio Vargas ao poder, através de eleições diretas, vindo a suicidar-se, com um tiro no peito, em 24 de agosto de 1954, tudo isso veio para mudar o comportamento da classe política contra os EUA. Com Jango no poder, quase levou o Brasil a implantar o socialismo, através de um mecanismo inconsequente, chamado de "República Sindicalista".

De lá para cá, nossos governantes passaram a marginalizar os EUA, embora o povo, a sociedade brasileira, até hoje, continue adorando a América do Norte para morar.

O que temos (nossas autoridades) feito com objetivo de hostilizar os americanos, nos dedicando abertamente às relações "fraternas" com Hugo Chávez, Evo Morales, Cristina Kirchner, Rafael Correa e, estranho, os inconsequentes irmãos Castro, de Cuba, chega a ser ridículo, proposital, de uma tolice repugnante, como se, em detrimento da grandeza do Brasil, nos aliássemos aos que têm tudo para ser nossos maiores inimigos.

Promover o desenvolvimento econômico de Cuba, com dinheiro do BNDES, em detrimento de Estados brasileiros que vivem em grave estado de penúria, como faz dona Dilma Rousseff agora, visitando aquela ilha, simplesmente nos parece uma missão inconsequente.

Fonte: A Gazeta

domingo, 23 de janeiro de 2011

A CHINA E A CONQUISTA DAS AMÉRICAS.

"Os que encontro no meu país não são os mesmos que conheci nos EUA. Isolam-se socialmente. Vivem pretensiosamente. São barulhentos e ostentam demais." A citação é do livro Americano Feio, de William Lederer, escrito em 1958.


Semana passada, quando o primeiro ministro chinês, Hu Jintao, chegou a Washington, seus marqueteiros jogaram pesado. A ofensiva publicitária tomou conta das ruas, das manchetes e dos lares americanos, com dezenas de spots comerciais e um documentário de 30 minutos sobre a China moderna veiculado pelo canal CNN.

Celebridades globais, como o craque da liga de basquete Yao Ming, o pianista Lang Lang e o cineasta John Woo cantaram as virtudes do Império do Meio. A rasgação de seda ficará em cartaz nos painéis luminosos da Times Square, por onde passam 1,7 milhões de pessoas por dia, até meados de fevereiro.

Parece charme, mas é um golpe preventivo. Há tempos, a China virou alvo predileto dos americanos, convencidos de que o monstro dos países emergentes é o exterminador do seu futuro. Nenhuma sessão no Congresso e nenhum bate-papo em programas de rádio seria completo sem uma investida contra o dragão asiático, que, pelo que se ouve, está empenhado em roubar empregos, travar uma guerra suja cambial e afogar o mercado com máquinas, roupas e bugigangas baratas.

Ainda é cedo para se saber se a campanha de Pequim surtirá efeito. A portentosa China tem também um problema de imagem de seu tamanho. Mas bem que a missão simpatia poderia se esticar um pouco para o sul do continente. Muita bobagem já saiu do disco rígido de Julian Assange, mas graças ao WikiLeaks temos hoje um retrato razoável das atitudes e preocupações da diplomacia americana e de seus interlocutores. Visto há anos na África e na Ásia como um país predador, a China tampouco está bem na fita no Novo Mundo.

Empresários brasileiros e argentinos acusam as indústrias chinesas de dumping de manufaturados baratos e clamam por novas salvaguardas contra importações. Legisladores erguem barreiras à compra de terra por estrangeiros para conter o furor aquisitivo chinês.

Os países das Américas se orgulham de receber os imigrantes de braços abertos. Mas e se as economias começarem a perder o fôlego? Os novos forasteiros que chegam com capital, ambição e planos - já são 100 mil chineses na Argentina - também serão saudados como hermanos?

Segundo um comunicado de 2009, divulgado pelo WikiLeaks, as empresas chinesas já são tachadas de "gafanhotos", de acordo com Christopher Beede, do Consulado Americano em Xangai, ao relatar uma conversa com estudiosos chineses. Os depoimentos aparentemente refletem um sentimento popular. Em diversos países, sindicalistas reagem à contratação de mão de obra chinesa, funcionários "importados" que não comem com os nativos, dormem em bairros exclusivos e não fazem questão de falar espanhol ou português.

Um exemplo preocupante é San Juan de Monarca, no Peru. Desde os anos 90, operários peruanos na cidade travam uma longa batalha com a siderúrgica Shougang, que sustenta uma elite de funcionários chineses com privilégios, restaurantes próprios e moradia separada. A empresa já foi multada por não cumprir um projeto de investir na infraestrutura municipal.

Mesmo quando a China é louvada, a apreciação vem tingida de frustração. Aos diplomatas americanos, o cônsul argentino em Xangai, Eduardo Ablin, se disse grato à empresa americana Kentucky Fried Chicken por ter "viciado" os chineses em comer asas de frango frito (de aves fornecidas de granjas argentinas). Ao mesmo tempo, ele se queixou do ritmo lento de investimentos chineses. "Há muito mais conversa do que ação", disse Ablin aos americanos.

Nenhuma surpresa nisso. O ressentimento é o reverso da dependência. E a da América Latina com relação à China só cresce. Quase nula na região há 20 anos, Pequim hoje toma um espaço imperial. De 2000 a 2009, as importações chinesas da região cresceram oito vezes, de $5 bilhões a $44 bilhões.

No mesmo período, as vendas chinesas para as Américas disparam, de $4,5 bilhões para $42 bilhões. A China hoje é o parceiro comercial mais importante do Brasil e do Chile e, logo mais, segundo previsões, será do Peru. Até 2015, a China deve ultrapassar a União Europeia em suas trocas com as Américas Central e do Sul.

Não faz muito tempo que a ascensão de um novo poder na região alegraria qualquer nacionalista latino-americano mordido com o poder ostensivo e a arrogância dos gringos - os tais americanos feios que mandavam e desmandavam. Agora, os gringos falam mandarim.


Fonte: O Estadão. http://bit.ly/hIYmAG