O Rio de Janeiro chora as suas mortes, e a Nação inteira acompanha o drama, tomada por comoção e solidariedade. O número de vítimas da chuva superava ontem os 400 mortos, no que é considerada a maior catástrofe natural do país nos últimos 40 anos, pelo menos, e a quarta enchente mais fatal do mundo registrada nos últimos 12 meses, segundo informou o Centro de Pesquisas de Epidemiologia dos Desastres, em levantamento feito a pedido da BBC Brasil. Existe aí o componente incontornável e imponderável, a força da natureza, de fenômenos como terremotos ou furacões, que não podem ser evitados. Mas as consequências podem, sim, ser atenuadas, se houver mais investimento em prevenção, planejamento e controle por parte das autoridades públicas de todos os níveis de administração, municipal, estadual e federal.
Não se trata aqui de responsabilizar uma ou outra gestão em específico, porque o problema é crônico. E o Rio, apesar da dimensão desta tragédia, certamente não é o único Estado a sofrer com o descaso. Historicamente, o Brasil tem demonstrado dificuldade de atuar com base em planejamento, em diversos campos, da ocupação do solo à execução orçamentária. A tônica geral é o improviso, o remendo, o jeitinho. É parte de nossa história, mas não precisa ser sempre assim. É possível mudar esse rumo e adotar medidas preventivas que evitem perdas maiores em casos de desastres naturais.
O Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio informava na quarta-feira que já vinha regularmente fazendo alertas às prefeituras de Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, as mais afetadas pelas enchentes. "As prefeituras são despreparadas do ponto de vista técnico, e permitem tanto a ocupação de encostas pelos menos favorecidos como construções de grandes condomínios de luxo em nome do turismo", disse o presidente do Crea do Rio, Agostinho Guerreiro, apontando a ausência de planejamento urbanístico.
A presidente Dilma Rousseff demonstrou ontem agilidade e sensibilidade. Ela sobrevoou as áreas atingidas e anunciou a liberação de R$ 780 milhões para socorrer as vítimas da chuva no país, incluindo as do Rio e São Paulo. Mas a própria cifra revela como o Brasil tem dificuldade de planejar. Dados da ONG Contas Abertas, com base em informações oficiais, indicam que o Ministério da Integração Nacional investiu no ano passado apenas R$ 167 milhões no chamado Programa de Prevenção e Preparação para Desastres, ou quatro vezes menos do que acaba de ser anunciado para o socorro às vítimas. Esperamos que o país possa aprender algo com a triste ocorrência, e que passe a atuar preventivamente para evitar tragédias dessa dimensão.
Editorial de A Gazeta.
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